22 julho 2018A LOTERIA DA VIDA



Só por um momento, imaginei que sou Deus e decidi criar um planeta cheio de vida. Um jardim maravilhoso, lindo em todos os aspectos e perfeito para aquilo que tenho em mente.

Pois bem! Primeiramente, comecei com uma imensa nuvem de gás a meia distância da borda de uma galáxia com 100.000 anos-luz de raio. Teria de ser uma nuvem de partículas remanescentes da explosão de alguma estrela gigante da 1ª geração do universo. Isto porque, ao entrar nos estágios finais de sua vida, transformando-se em Supernova e explodindo, esta estrela produziria todos os demais elementos da tabela periódica e não seria composta apenas por hidrogênio e hélio, os elementos mais simples e básicos do universo.

Se não fosse assim, não poderia contar com estes elementos para o lindo projeto que tenho em mente: A vida!

Com o passar de milhões e milhões de anos (não tenho pressa nenhuma pois sou eterno), esta imensa nuvem de gás, atraída pelas forças gravitacionais nela atuantes, iria tomando a forma de um disco.

Este mesmo disco giraria velozmente em torno de um eixo central e, paulatinamente, tal qual um “angu de caroço”, iria juntando suas partículas de maneira a formar pequenos globos, sendo o maior deles o que se acharia no centro deste imenso vórtice. Minha receita estaria começando a dar certo.

Na etapa seguinte, o globo situado no centro não poderia ser nem muito grande, nem muito pequeno. Teria que ser aquilo que os astrônomos chamam de “Estrela de quinta grandeza”, já que seu tamanho, mesmo sendo imenso, não é lá essas coisas quando comparado com algumas de suas irmãs gigantes. Por outro lado, não poderia fazer parte de um sistema binário, ou até mesmo com mais estrelas, já que isto lhe provocaria muita instabilidade. Não poderia ser também uma estrela submetida a muitas explosões e variações de brilho, tal qual ocorre com outras de suas irmãs. Teria que ser uma estrela solitária e razoavelmente constante em seu brilho, de modo a não comprometer todo o projeto que preparei meticulosamente. Toda esta conjectura foi criada por Kant e Laplace, ao mesmo tempo.

Ao atingir um tamanho suficientemente grande, esta esfera central acenderia um imenso reator nuclear em seu interior e começaria a emitir luz e radiação. Em paralelo, inúmeros planetas estariam sendo formados, sempre girando todos ao seu redor e no mesmo sentido. Alguns, imensas esferas de gás; outros, imensos globos rochosos. Aquele que escolhi para a sede do meu projeto deveria ter algumas características altamente específicas, se não o meu lindo projeto desandaria totalmente.

Primeiramente, no conjunto de planetas que se formou junto com ele, deveria existir um que fosse imensamente grande, e que estivesse situado entre este meu planeta jardim e o espaço exterior. Serviria de escudo contra impactos com objetos errantes que entrassem em nosso sistema planetário. Estes objetos seriam atraídos por sua tremenda força de gravidade e nele cairiam, deixando assim de constituir ameaça a meu planeta predileto. Só a título de exemplo, vejam a explosão provocada pela queda em Júpiter de um objeto com algumas dezenas de metros de diâmetro. A explosão provocada tem quase o tamanho da Terra. Dá para imaginar o que um objeto desses provocaria caindo aqui, como aquele que provocou a extinção dos dinossauros.

O ponto seguinte da minha receita é que o planeta escolhido deveria se situar a uma distância do sol tal que possibilitasse a existência de água em seus três estados físicos: Sólido, líquido e gasoso. Para isto, a temperatura da sua superfície não poderia situar muito perto dos 100 graus centígrados, nem muito abaixo de zero grau. Como maneira de assegurar que sua temperatura seria suficientemente tépida, mas nunca quente demais, adotei uma órbita na forma de uma elíptica alongada, segundo as Leis de Kepler.

Só que, para assegurar esta estabilidade térmica, apenas a distância conveniente do sol não seria suficiente, já que a forma elíptica de sua órbita provocaria períodos de calor intenso, seguidos de períodos de frio extremo. Assim, outros mecanismos de regulação térmica far-se-iam necessários.

Minha grande sacada foi bombardear este meu planeta com cometas compostos de água congelada. De novo, ao longo de mais alguns milhões de anos, aquela bola de fogo foi esfriando sua superfície, e criando uma fina crosta sólida, através desse bombardeio continuado. Ao final desse período, meu jardim era um planeta líquido, coberto por um oceano com profundidade média de 5 Km. Não dava para criar muitas formas de vida nestas condições, especialmente porque o planetinha bamboleava seu eixo central de forma totalmente caótica, já que não tinha nada próximo que o estabilizasse. Foi aí que me veio uma sacada genial, modéstia à parte: Decidi dar-lhe uma bolada com outro planeta quase de igual tamanho, de modo a deixar este meu predileto exatamente nas condições ideais para a vida. Foi uma tacada de sinuca simplesmente perfeita!

Com esta colisão, o eixo central da terra ficou inclinado de 23 graus, grande parte da água de sua superfície foi expelida para o espaço exterior e se formou um satélite da Terra cujas características de peso e tamanho, assim como a distância e a velocidade com que orbita, foram EXATAMENTE os elementos que faltavam para tornar o nosso planeta o lugar ideal para a eclosão da vida. Com a inclinação do eixo da Terra, deu-se origem às estações, maravilhosa solução para a implantação dos ciclos da vida. A presença da Lua, por sua vez, estabilizou nosso planeta com seu eixo nesta posição e tornou os dias muito mais lentos. Se antes duravam apenas 4 horas, depois do choque passaram a durar as atuais 24 horas. Quanto à agua que permaneceu em sua superfície, este fato merece maiores detalhamentos. Primeiramente, a água tornou-se o grande estabilizador da temperatura superficial do planeta. Por seu grande Calor Latente, tanto de fusão como de evaporação, absorve e libera continuamente quantidades imensas do calor do sol. Semelhantemente, as nuvens aumentam o albedo, quer dizer, o tanto de luz do sol que é refletida. Assim, quando os oceanos ameaçam esquentar demais, as nuvens produzidas tratam de esfriá-lo. Por outro lado, a água é a única substância que aumenta de volume ao congelar. Assim, quando o gelo que se forma nos polos se desprende, sai boiando e refletindo muito mais a luz do sol que a água que o circunda, ajudando desta forma ao equilíbrio térmico também. Se afundassem, nosso planeta estaria condenado a um eterno inverno.

O núcleo desse nosso planeta teria de ser formado por metais magnéticos, especialmente o ferro, de forma a criar um imenso campo magnético a sua volta. Este campo magnético seria o responsável por desviar todas as radiações emitidas pelo sol e que poderiam ser prejudiciais ao meu projeto de vida.

Já para as reações químicas necessárias a prover os seres vivos com energia, decidi pelas reações de oxidação, já que são eminentemente exotérmicas, ou seja: liberam energia. Só que, para isto, necessitaríamos de uma atmosfera gasosa composta por este elemento e isenta de outros gases tóxicos. Providencie inicialmente uma forma de bactéria que se alimentasse desses gases tóxicos e expelisse o Oxigênio. Depois de alguns milhões de anos, chegamos aos atuais 22% de oxigênio, sendo o resto composto por um gás inerte e que não faz mal a ninguém: O Nitrogênio. Tivéssemos uma taxa maior de oxigênio, a vida seria impossível pois entraríamos em combustão a qualquer momento. Tivéssemos um pouco menos, seria insuficiente para manter a vida. Para segurar esta atmosfera, o nosso planeta tem de ter um tamanho mínimo. Não pode também ser muito grande porque a força da gravidade esmagaria os seres que nele vivessem. O tamanho decorrente da grande colisão é exatamente o ideal.

Para completar, o Oxigênio da atmosfera, quando submetido à radiação ultravioleta que vem do sol, e que provocaria mutações teratogênicas nos seres vivos, se transforma em uma forma alotrópica: O Ozônio. Esta camada criada na alta atmosfera é o que nos protege dos raios cósmicos abundantes no espaço sideral. Mais uma das inúmeras “coincidências” que fui forçado a provocar para dar um lar a estas bactérias arrogantes conhecidas como humanos. UFA! CANSEI!

5 Comentários

  1. Excelente texto Dr. Adonis, somente um engenheiro químico(?), poderia nos explicar de uma forma didática, como funciona e porque chegamos a este estágio de vida. Este “seu” planeta será a próxima terra! Mas será que não é possível um pequeno buraco (do tamanho do cú da Marcia Tribufú) na camada de ozonio exatamente em cima do Congresso em Brasília?

  2. Paty Not Set do Alferes, 22/07/2018

    Prof. Adônis, agora que é Deus, você está pensando em fundar um igreja? Esse negócio tem dado bons resultados.
    Nós sempre soubemos que Deus é brasileiro, agora está confirmado.

  3. Pois é, Adônis, a gente está aqui, parece a coisa mais normal do mundo, mas tu destes uma amostra de como é complexa, do quanto precisaste, neste teu momento de Deus, arranjar as coisas minuciosamente, nos mínimos detalhes, para chegares ao ponto de deixar pronto esse belo Planeta que criaste em tua imaginação e em seguida construíste à imagem e semelhança dos Teus sonhos.
    Formidável! Genial!

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