Ana Maria de Jesus Ribeiro nasceu em 30/8/1821, em Laguna, SC. Heroína por sua participação na Revolução Farroupilha (1835-45) e na Itália, na guerra pela unificação italiana. Ficou conhecida como a “Heroína dos dois Mundos” por sua participação em guerras nos dois continentes junto com o marido Giuseppe Garibaldi. De origem modesta, casou-se aos 14 anos por insistência da mãe. Pouco depois, o marido alistou-se no Exército Imperial e deixou a esposa. Aos 18 anos conheceu Garibaldi, um guerrilheiro italiano de 32 anos, fugido de uma sentença de morte, devido ao seu envolvimento com o movimento de unificação italiana.

O Sul do Brasil estava em guera contra o governo imperial. Em julho de 1839 sob o comando de David Canabarro, Garibaldi preparava-se para tomar a cidade de Laguna a bordo de uma embarcação tomada das forças inimigas, afim de formar a República Juliana. Munido com uma luneta, passou a observar a cidade e deparou com um grupo de moças passeando pela praia. Prestou atenção numa delas e ficou encantado. Pegou um barco foi até o local, mas não a encontrou. Dias depois, foi convidado por um habitante para um café em sua casa. Lá encontrou casualmente moça que o impressionou. O encontro causou-lhe uma emoção, relatada em suas memórias:

“Entramos, e a primeira pessoa que se aproximou era aquela cujo aspecto me tinha feito desembarcar. Era Anita! A mãe de meus filhos! A companhia de minha vida, na boa e na má fortuna. A mulher cuja coragem desejei tantas vezes. Ficamos ambos estáticos e silenciosos, olhando-se reciprocamente, como duas pessoas que não se vissem pela primeira vez e que buscam na aproximação alguma coisa como uma reminiscência. A saudei finalmente e lhe disse: ‘Tu deves ser minha!’. Eu falava pouco o português, e articulei as provocantes palavras em italiano. Contudo fui magnético na minha insolência. Havia atado um nó, decretado uma sentença que somente a morte poderia desfazer. Eu tinha encontrado um tesouro proibido, mas um tesouro de grande valor”.

Em outubro de 1839, Anita decidiu seguir com Garibaldi em seus combates em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Montevideo e Itália. Seu batismo de fogo se deu logo em seguida, em Imbituba, quando seu navio for atacado pela marinha imperial do Brasil. No mês seguinte deu-se a famosa batalha naval de Laguna contra Frederico Mariath, onde Anita desmonstrou sua coragem municiando os combatentes no meio de intenso tiroteio. Em janeiro de 1840, participou da Batalha de Curitibanos, onde sua tropa foi derrotada e ela aprisionada. O comandante do exército imperial, achando que Garibaldi havia sido abatido, deixou-a livre para procurar o cadáver do marido. Num instante de distração dos guardas, ela tomou um cavalo e fugiu. Atravessou a nado com o cavalo o rio Canoas, chegou ao Rio Grande do Sul e reencontrou-se com Garibalde em Vacaria oito dias depois.

Em setembro do mesmo ano nasceu o primeiro filho do casal, na vila e atual cidade de Mostardas, que recebeu o nome de Menotti Garibaldi. 12 dias depois, o exército imperial, comandado por Francisco Pedro de Abreu, foi prender o casal. Garibaldi não se encontrava e Anita fugiu a cavalo com o recém-nascido. Ficou escondida por quatro dias nos arredores da cidade até o reencontro com o marido. No ano seguinte a situação militar da pretensa República Rio-Grandense tornou-se insustentável e Garibaldi obteve do General Bento Gonçalves da Silva permissão para deixar o exército republicano. Como recompensa recebeu um rebanho de 900 cabeças de gado. Inciaram uma marcha de 600 km. até Montevidéu, onde chegaram com apenas 300 cabeças de gado. Este era o patrimônio da familia que foi se estabelecer no Uruguai.

Em 1842 o casal legalizou a união, pois a certidão de casamento era uma exigencia legal para quem aspirava cargos públicos. Assim, Garibaldi foi designado comandante de uma frota uruguaia para enfrentar a esquadra naval argentina no combate ao ditador Juan Manuel Rosas. Chegou ao posto de Coronel da Marinha e ficou famoso no Uruguai, particularmente após o “Decreto de Graça e Honra”, concedido pelo Governo de Montevidéu aos legionários italianos. Em seguida o casal teve mais três filhos: Rosa (1843), Teresa (1845) e Ricciotti (1847). Devido ao seu envolvimento na guerra contra Argentina, tentou enviar Anita e as crianças para ficarem com seus familaires em Nice (França), em 1846, mas não obteve permissão do Rei da Sardenha, Carlos Alberto. No ano seguinte Anita e os três filhos foram para a Itália e encontrou-se com a mãe de Garibaldi. Em seguida viajaram para Nice, onde ficou morando por pouco tempo. Meses depois, Garibaldi reuniu-se a eles e voltaram para a Itália. Os filhos ficaram aos cuidados da avó.

Na Itália, lutaram pela unificação italiana, tentando expulsar os austríacos da região da Lombardia. Em fevereiro de 1849, o casal presenciou proclamação da Republica de Roma, com ele na condição de Deputado. Mas a invasão franco-austríaca obrigou-os a abandonar a cidade. Com 3900 soldados, Garibaldi e Anita deixaram Roma. Em sua perseguição saíram três exércitos (franceses, espanhóis e napolitanos) com 40 mil soldados. Ao norte lhes esperava o exército austríaco, com 15 mil soldados. Tentaram a todo custo salvar o território italiano. Mesmo grávida do quinto filho, ela participou de algumas batalhas. Com a saúde comprometida, alcançaram a Republica de San Marino, onde o embaixador norte-americano ofereceu-lhe um salvo-conduto, que foi recusado. Doente e perseguida, foi levada para a fazenda Guiccioli, próximo a Ravena, onde veio a falecer junto com a criança ,em 4/8/1949.

Garibaldi ordenou que seu corpo fosse sepultado na terra de sua família, em Nice. Em 1932, foi transferido para um monumento construido em sua homenagem, no Janículo em Roma. As homenagens alcançaram o Brasil e veio a denominar duas cidades em Santa Catarina: Anita Garibaldi e Anitópolis e diversos logradouros e escolas em todo o país. Em abril de 2012, a Lei 12.615 determinou que seu nome fosse inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Liberdade e da Democracia, em Brasília. Diversas biografias foram publicadas no Brasil e na Itália, entre as quais cabe destacar a realizada por Paulo Markun, Anita Garibaldi: uma heroína brasileira, publicada em 1999 pela Editora SENAC. A casa onde viveu em Laguna é hoje um museu, aberto ao público em 1978, contando a história da ilustre moradora.

9 Comentários

  1. O Jornal da Besta Fubana, deveria constar como leitura obrigatória aos estudantes do ENEM, é só história da melhor qualidade. Parabéns a todos, em especial, ao Editor!

  2. Prezados,
    Esta não poderei deixar passar batida. Aqui no Sul há três versões para o fato dos ‘catarinas’, como os chamamos, também são conhecidos como ‘barrigas verdes’. Uma diz que refere-se a faixa verde usada na barriga dos uniformes dos soldados catarinenses, outra diz porque os gaúchos têm limo nas costas e a terceira diz que alcunha deve-se ao fato de darem o furico, exaustivamente, com a barriga na grama. Fico com a terceira hipótese, a mais difundida entre os gaúchos. Mas temos que admitir que Santa Catarina é terra de macho, especialmente a cidade de Laguna, berço do maior macho nascido em solo Catarinense: Anita Garibaldi.

  3. Caro Brito: Belíssimo retrato biográfico de uma heroína ímpar!

    Anita Garibaldi nasceu para Giuseppe Garibaldi. No amor e na aventura um nasceu para completar o outro.

    Suas contribuições para a história é uma aventura fenomenal. Pena o Brasil não tenha produzido um filme sério ainda contando a história desses dois aventureiros unidos no amor e na luta!

    Parabéns pelo excelente retado em cores dessa heroína e seu príncipe!

  4. Pois é Cicero, eu também não me canso de lamentar e reclamar dos cineastas brasileiros que só sabem filmar a seca ( e lampião) do Nordeste e as favelas do Rio de Janeiro.
    Quanta história temos para contar e a indústria cinematográfica só vê oportunidades na miséria e na putaria, que é farta neste pais. Esquecem que o pais também é farta de histórias edificantes como a de Anita, Eufrásia, Frei Caneca, Rondon, e tantos outros como o General Abreu e Lima, herói da Revolução Pernambucana de 1817 e da América Grande de Bolivar, que viu seu pai Padre Roma ser fuzilado pela coroa portuguesa em 1817.

    Um abraço e grato pelo seu estimulo

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