O bom de contar histórias é que não precisamos falar apenas das coisas do mundo real. De vez em quando, soltamos a imaginação e nos ocupamos daquilo que não existe, mas que fazemos de conta que existe.

Assim, inventamos um mundo paralelo, fruto da nossa imaginação. O chamado mundo do faz de conta, onde nos permitimos criar coisas, pessoas, lugares e o que mais vier à mente.

Podemos imaginar, por exemplo, um país de faz de conta, onde aquilo que é, fazemos de conta que não é; e aquilo que não é, fazemos de conta que é.

Esse país de faz de conta teria governantes que fazem de conta que governam para toda a população, mas, na verdade, cuidam apenas dos seus próprios interesses.

Ao realizar obras ditas públicas, o governo faz de conta que pretende trazer algum benefício ao público, mas os principais interesses são privados. Empresas fazem de conta que concorrem pela execução dessas obras, fazendo de conta que oferecem os melhores preços e condições, mas já está tudo combinado: quem será a empresa vencedora, qual o preço dos serviços e até o percentual da propina que irá abastecer contas bancárias e campanhas eleitorais.

Sim! Campanhas eleitorais! Porque, nesse país de faz de conta, as campanhas eleitorais são caríssimas. Afinal, nelas, os candidatos fazem de conta que defendem ideias e ideais, mas não têm qualquer compromisso com o que afirmam e prometem. Querem apenas poder, cargos e recursos públicos. Existe até uma figura ilustre chamada marqueteiro, que ganha muito dinheiro, cuja função é treinar o político para fazer de conta que diz o que pensa, quando, na verdade, tenta apenas dizer o que os eleitores parecem querer ouvir. Um jogo de faz de conta, no qual um faz de conta que diz a verdade, e o outro faz de conta que acredita.

Nesse país, podemos fazer de conta que o parlamento é formado por representantes do povo, mas qualquer cidadão sabe que, em sua grande maioria, os congressistas são representantes apenas de si mesmos. Além dos interesses daqueles que patrocinaram suas campanhas eleitorais, é claro.

Isso talvez jamais pudesse acontecer em um país de verdade. Mas, em um país de faz de conta, grande parte do eleitorado faz de conta que participa do processo político, enquanto troca seu voto por pequenos benefícios pessoais ou quantias irrisórias.

Em um país de faz de conta, como esse que imaginamos, podem-se criar leis diariamente, a pretexto de resolver os mais variados problemas, mas elas nunca resolvem nada. E, eventualmente, criam problemas novos. Até porque sempre haverá muita gente fazendo de conta que cumpre essas leis, mas dando um jeito – um jeitinho – de escapar delas.

Sim, o Poder Judiciário deveria zelar pela efetiva aplicação dessas leis! Mas, há aí pelo menos dois problemas.

O primeiro é que, nesse país de faz de conta, os juízes são muito hábeis em julgar conforme suas convicções pessoais, apenas fazendo de conta que aplicam as leis. Para justificar suas decisões, há sempre um direito fundamental ou um princípio constitucional do qual podem lançar mão.

Isso não chega a ter maiores consequências, por causa do segundo problema: o sistema processual desse país de faz de conta é tão complexo que os julgamentos praticamente não terminam nunca. Há sempre um recurso a mais a postergar o resultado final da causa. Então, cada sentença é um mero faz de conta, já que não resolve nada.

Esse é um país tão de faz de conta que, nele, muita gente vai parar na cadeia, mas apenas faz de conta que está presa, porque, de dentro dos presídios, continua praticando seus crimes. Outros nem precisam sair de casa para fazerem de conta que estão presos. É a chamada prisão domiciliar.

Nesse país de faz de conta, faz-se de conta que existe escola pública em todos os níveis. Mas é uma escola de faz de conta, mal construída, mal aparelhada e com professores mal treinados e mal pagos. O resultado é que muitos professores fazem de conta que ensinam, e muitos mais alunos que fazem de conta que aprendem. Além daqueles que fazem de conta que vão à escola, mas sequer aparecem lá.

Segurança pública? Faz-se de conta que tem, apesar dos milhares de homicídios, assaltos e tantos outros crimes que se cometem impunemente. Saúde pública? Um verdadeiro faz de conta. No papel, um sistema quase perfeito; na prática, gente morrendo nos corredores dos hospitais, sem atendimento. Transporte público? Não é lá dos melhores, mas todo mundo se aperta um pouco e faz de conta que é bom.

A imprensa faz de conta que noticia essas coisas, mas ninguém leva as notícias muito a sério, porque os fatos são frequentemente manipulados, conforme a linha ideológica do jornal ou da revista.

E, assim, cada um segue seu destino nesse país de faz de conta. Às vezes tem umas festas grandes, com muita música e dança, o que mostra ao menos que o povo é feliz. Ou faz de conta que o é.

Só mesmo em um país de faz de conta, nascido na cabeça de um contador de histórias, as coisas poderiam ser assim. Porque, em um país de faz de conta, as pessoas reclamam um pouco, maldizem a própria sorte, trocam ofensas nas redes sociais, mas apenas fazem de conta que estão indignadas.

Afinal, tem muita gente nesse país que faz de conta que gostaria de ter um país de verdade, mas já se acostumou a viver em um país de faz de conta.

5 Comentários

  1. Pois é.

    A safadeza é tamanha que nas pequenas cidades – aglomerados de zumbis “vivendo” de bolsa família, aposentadorias rurais e sinecuras nas prefeituras, estados e governo federal – as únicas obras que os prefeitos realizam são aquelas que recebem verbas carimbadas (emendas parlamentares) mas não agregam praticamente nada à comunidade. Pórticos (no mínimo dois), novas praças, novas quadras ou ginásios enquanto outros caem aos pedaços, etc. Ganha o deputado, o prefeito e a construtora. E o povo? Que se exploda!

    E para não morrer de tristeza, a nós, que um dia tivemos esperança de mudança, só nos resta fazer de conta que esse país não é o nosso.

  2. Prezado Marcos Mairton,
    Mais uma vez o nobre colega conseguiu descrever com perfeição a nossa realidade.
    Uma obra prima, digna de constar na antologia das grandes crônicas de nosso tempo.
    Definitivo!
    Parabéns!

  3. Nossa! O contador de histórias acordou maus hoje. Felizmente, o País do Faz de Conta só existe na imaginação!
    Entretanto, a ironia? sátira? metáfora? o que for, tem o poder de despertar, ou acentuar, a atenção para graves problemas atuais – mas eu juro que são setoriais e, por isso, coloco-me em guarda para a possível generalização que poderíamos ser levados a fazer quanto aos problemas objetivamente abordados e outros que não chegaram a ser mencionados.
    É que, meu caro Mairton, felizmente não é tanto assim!
    Há governantes interessados no bem comum e tentando praticar as políticas adequadas.
    Nem todas as obras nascem viciadas, nem todas as empresas entram em conluios (eu chegaria a dizer, quanto a este particular, que nos grandes empreendimentos chegaria, sim, a ser uma exceção à regra alguma ocorrência de regularidade ou honestidade).
    Nem vou acreditar que a maioria dos congressistas do Brasil (um possível país imaginado como do faz de conta) cuidam apenas dos seus próprios interesses, pensar assim seria algo muito deprê.
    E, os pontos onde meu protesto se torna mais contundente são os da produção das leis e da atuação do judiciário, pois sou um crente de que leis temos das boas e o judiciário só não é melhor por falta de agilidade causada pela escassez de todos os recursos, humanos, materiais, tecnológicos (talvez contaminado, em alguns pontos, por algo que mancha um pouquinho muitos setores do serviço público, que é a pequena corrupção, tipo uma gorjetinha para o processo sair de baixo da pilha, um cinquentinha para livrar a multa, coisinhas assim).
    E, ainda, como acredito nos jornais! Não só no da Besta Fubana! Acredito no Globo! Na Veja! na Folha! No Estadão! em tudo, ou quase tudo – desde que pondo para funcionar um certo senso crítico.
    Só que – aí a coisa pega – chegamos na educação e na segurança pública. Putz, aí não é faz de conta, é a realidade mesma!
    Enfim, tive de parar para pensar e pensar para debater quase sem pensar, mas é o que acho, ou faço de conta que acho.

  4. Pequena corrupção, cenzinho par sair debaixo da pilha , cinquentinha para não ser multado , vintinho para isto ,dezinho para aquilo, as vezes em milhões de reais. O modus operandi é o mesmo a tempos. Quem usa o acha perfeitamente legal.

    • Não é perfeitamente normal.
      Não é perfeitamente normal comprar recibo de dentista.
      Não é perfeitamente normal pagar sem recibo a médico para descontar o Imposto de Renda.
      Não é perfeitamente normal pular a roleta.
      Não é perfeitamente normal vender o voto.
      Não é perfeitamente normal comprar produtos piratas.
      Não é perfeitamente normal fazer gato na energia elétrica e na tv a cabo.
      Não é perfeitamente normal jogar dejetos na rua.
      Quem acha que é perfeitamente normal não é normal.

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