Estava chovendo muito naquela noite. Nem sei dizer se estava na época de ver os dias passarem lá fora, apenas a molhar as ruas, janelas e quem se arriscava a caminhar por ali.

O sol aparecia tímido, brilhavam alguns raios, mais reluzentes que quentes. E durante aquele dia foi assim, e à noite a chuva não nos deu trégua. Não me atentei às horas, só fiquei a observar o movimento pelos vidros da janela. Pessoas iam e vinham, faziam me sentir ainda mais solitária, presa ali naquele quarto já há alguns longos dias.

Meu reflexo no vidro me fez lembrar há quantos dias estava sem pentear os cabelos. Arrumei-os com as mãos, em vão. Enchi o copo, que agora tinham apenas cubos de gelo. Uísque barato, é desses que gosto, faz esquecer o amargor da vida. Voltei à cadeira e iniciei mais um capítulo.

Não sei dizer se era do livro ou da minha própria vida. Como era fácil eu fazer esta confusão. Me via nas linhas em diversas páginas e em outras era como se fosse uma pessoa totalmente diferente, nem como autora imaginava serem minhas aquelas palavras. Acho que isso acontece muito porque sou uma tremenda farsa, não há como limitar onde começa nem onde termina minha vida, acho que sou mais mentira do que verdade.

Falo muito de amor, constância, felicidade… em minha cama isso parece tão fugaz. Tão distante! Momento melhor para mais um gole desta versão barata de Johnnie Walker não há, ainda mais quando as conclusões não são nada favoráveis para mim. Logo vejo que terei que reabastecer o copo.

Sem pestanejar levanto e deixo a continuação do livro a aguardar mais um pouco. Não tenho mais nada a fazer, exclusivamente estas palavras me consomem o dia, deixei-me consumir-me um pouco pelo silêncio alcoólico.

Ainda vendo a chuva lá fora, imagino como seria sair um pouco. Mesmo molhada, mesmo sendo tarde, por que não o fiz ainda? O que me segura aqui? Desperto destes meus questionamentos fadados a serem retóricos quando noto a folha saindo da máquina de escrever, o ventilador insistente a tirou do lugar. Correndo, temendo desordenar as folhas, assim como faço com meus dias, e vida, e lembranças; pego tudo e tento arrumar sob a mesa, esta sim, em ordem.

O cheiro final do último cigarro já no cinzeiro me lembrou que este era o último, e prometi que o seria. Mas, como não acompanhar o copo com um cigarro? Mentolado por favor, não somos todos perfeitos. O torpor de sentidos que eles me trazem, distraem-me desta solidão permanente.

Não, não posso ser ingrata. As palavras sempre me acompanharam também. Ainda que elas permanecessem apenas em minha confusa cabeça, ali estavam. Sabe que elas é que me seguram em uma pequena sanidade? Mais literária que física mesmo.

Já com o copo cheio novamente, desejando um Lucky Strike, volto a escrever a continuação do capítulo. As ideias fluem, as letras minuciosamente datilografadas. Nestes momentos de escrita é que sinto… Sinto tudo, o que escrevo chega até mim como um turbilhão se emoções que mal sei nomear. É bom, é ótimo. Sem querer que acabe, percebo o fim da lauda. Ainda que a noite esteja fresquinha, com a chuva a cair teimosamente lá fora, transpiro nervosamente. É pelo fim, por este fim. Não do copo, não da fumaça, mas deste torpor. De tudo. E chega o ponto, final.

4 Comentários

    • Maurício, seu comentário fez-me entender que realmente leu minhas palavras e sensações. Obrigada por isso, por me dizer e por me ‘empurrar’.

      Aguardo-lhe aqui mais vezes.

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