27 julho 2018A TRAIÇÃO



Jonas, há quinze anos casado com Josefa, e com três filhos adolescentes, era um marido fiel e ótimo chefe de família. Entretanto, a rotina, maior rival dos relacionamentos amorosos, já tinha mandado para o espaço a paixão que uniu o casal.

Josefa respeitava muito o marido e sempre dizia:

– Enquanto você me for fiel, eu também serei. Mas não caia na besteira de me trair, pois você será corno para o resto da vida. E não existe “ex -corno.”

Com essa ameaça na cabeça, Jonas foi sempre sonso. Comportava-se como um marido fiel, mas nunca deixou de pular a cerca. Sabia fingir muito bem que era apaixonado pela esposa. Só pulava a cerca durante o dia, e em dias úteis.

Ocupando um posto elevado dentro de uma instituição financeira em Fortaleza, Jonas recebeu para trabalhar em sua sala uma moça muito bonita, chamada Zênia, com curso de computação, para ser sua secretária.

De tanto conviver com Zênia no ambiente de trabalho, Jonas por ela se apaixonou, sendo correspondido. Foi uma paixão violenta, que fez o homem “bem casado” virar a cabeça completamente. Seguiram-se inúmeras saídas para motéis depois do expediente, e telefonemas de Jonas para Josefa, avisando que estava em “reunião”.

O romance tomou vulto e a moça passou a pressionar Jonas para que se separasse da esposa. Chegou a dar-lhe um ultimato: Se fosse para ele continuar com a esposa, a amante colocaria um ponto final naquele romance. Afinal, ela era jovem e bonita, e desejava ter um lar, marido e filhos.

Por sorte, Jonas foi transferido para um novo escritório da empresa, instalado em Teresina (PI). A Secretária o acompanharia.

Muito satisfeito com a transferência, Jonas recebeu a notícia como uma oportunidade de poder se separar de Josefa. Como não tinha coragem de pedir a separação cara a cara,e dizer que, para ele, ela era apenas a mãe de seus filhos, e muito menos dizer que estava apaixonado por outra mulher, Jonas resolveu lhe enviar uma carta pelo correio, confessando tudo.

Providenciou um apartamento em Teresina (PI), para iniciar, aos 40 anos, uma nova vida a dois. Tinha certeza de que Zênia era o grande amor de sua vida.

Não tinha intenção de voltar para sua família. Entretanto, desde já, continuaria dando total assistência financeira aos filhos e à esposa.

Jonas escreveu à Josefa uma longa carta, onde, entre frases de elogio e gratidão, dizia:

“Josefa:

Sempre lhe fui fiel e jamais tive intenção de me separar de você, uma mulher maravilhosa, que me deu três filhos lindos e que sempre me respeitou. Mas a carne é fraca e de repente me apaixonei perdidamente por outra mulher. Como não quero me sentir um traidor, preferi lhe escrever para dizer que já contratei um advogado para fazer a nossa separação. Estou deixando a nossa casa definitivamente. Estou me mudando para Teresina (PI), para trabalhar no novo escritório da Financeira

Nada faltará a você nem aos nossos filhos. Determinei à empresa uma pensão no valor de 40% do meu salário, que será paga a você todos os meses.”

Jonas pôs essa carta no Correio, poucos minutos antes da viagem.

Os dois amantes pegaram a estrada para Teresina (PI) e algumas horas depois sofreram um acidente fatal, ao tentar ultrapassar um caminhão.

Josefa estava certa de que o marido tinha viajado a negócios e que logo estaria de volta.

Inconsolável, no velório do marido, Josefa esqueceu que tinha filhos e a toda hora pedia a Deus que também a levasse, pois queria morrer junto com o amor da sua vida.

Depois do sepultamento, a viúva e os filhos voltaram para casa. À tarde, um dos rapazes abriu a caixa de correspondência e encontrou a carta endereçada à mãe. Não imaginava que fosse do pai, que acabara de ser enterrado. Josefa abriu a carta e leu a confissão do marido de que estava indo embora de casa para sempre e que estava apaixonado por outra mulher. Josefa sentiu o mundo desabar novamente sobre ela. O marido, que ela considerava um santo, revelava-se agora um grande canalha.

O sangue de Josefa ferveu nas veias e ela desejou estrangular o marido. Ainda bem que ele já estava morto e enterrado!!! E que ficasse por lá mesmo!!!. Nem luto ela usaria, nem mandaria celebrar missa de 7º dia, e muito menos de 30º dia!!!

6 Comentários

  1. D. Violante,
    estou sempre a ler e apreciar, anonimamente, suas crônicas.
    Mas, nesta, a senhora ”foi na mosca”: “” E não existe “ex -corno.” “” !
    Existe corno-caseiro,
    aquele que a mulher vai para os Alpes dar Zunhadas e Lanhadas,
    e o coitadim fica cuidando das crianças.

    • Obrigada pelo gratificante comentário, prezado A. Luís! A traição não precisa ser contínua. Basta uma única vez, para que o homem traído pela esposa seja rotulado de “corno”, para o resto da vida.
      “Corno-caseiro” é semelhante ao “corno-cuscuz”, o que fica abafado, chora em silêncio, mas finge que não sabe de nada…rsrs

      Um abraço, e bom fim de semana!

  2. Violante,

    A sua crônica sobre a traição tem qualidade literária excelente. Demonstra toda a insatisfação da mulher que descobre a traição após a morte do marido. O homem trai mais do que a mulher. Isso é uma verdade, entretanto toda regra tem exceção, como diz o dito popular.
    Conheci uma senhora casada que traía seu esposo com um homem mais velho do que ela – o gastoso – e tinha um amante jovem, motorista de táxi – o gastoso. Era uma versão moderna de Dona Flor e seus três maridos. Parabéns por escrever um texto primoroso e digno de Nelson Rodrigues. E por falar nesse grande romancista, jornalista, teatrólogo e cronista de costumes lembrei-me de uma brilhante frase dele: ““Amar é ser fiel a quem nos trai” .

    Saudações fraternas,

    Aristeu

    • Obrigada pelo generoso comentário, prezado Aristeu Bezerra! A sociedade em que vivemos é extremamente machista e o homem que trai é visto como um “garanhão”, e um super-herói. Ele é sempre perdoado. Mas nem toda mulher perdoa a traição, principalmente quando ela cumpre “as obrigações do matrimônio”. sendo fiel e dedicada ao marido.
      Esse caso dos três “maridos” é hilário! Coitado do “corno-mor”. A cabeça dele devia pesar muito!!!kkkkk
      A sábia frase de Nelson Rodrigues é posta em prática pelos cornos que, mesmo sabendo da realidade, ainda são fieis às esposas. São “cornudos”, mas são felizes. Realmente, “Amar é ser fiel a quem nos trai”.

      Um grande abraço!

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