Entre tantos dias, 25 foi o do Escritor. Reverências à data, então. Para Sartre, “O mundo pode passar muito bem sem a literatura. Mas, sem o homem, pode passar ainda melhor”. Segundo Joaquim Nabuco, “A profissão de escritor deve merecer toda a piedade”. Balzac: “Os doidos e os escritores são os homens que vêm um abismo e se lançam nele”. Mais razão tinha o livreiro Antônio Carlos Vilaça, “Literatura é um testemunho para que a vida e a morte não sejam em vão. Encaro a literatura como uma vitória sobre o tempo e sobre a morte”.

Só que, ao lado da literatura das academias, há uma outra relevante. A do indeterminado cidadão comum do povo. Manuel Bandeira até falava nisso, ao lembrar “A língua errada do povo/ Língua certa do povo”. Silvio Romero, fundador da Academia Brasileira de Letras, comparou a poesia clássica de seu tempo à dos cantadores. Para ele, “esses versinhos que por aí andam podem ser água, mas de chafariz, banho morno em bacia com sabonete inglês e esponja”. Enquanto, a dos cantadores, é “água farta, rio que corre, mar que estronda”. E tinha razões, para isso. Todas as razões.

Tome-se, como exemplo, o tema da SAUDADE. Basta comparar o estilo dos versos para ver beleza nos dois. São diferentes, mas são belos. Adelmar Tavares, presidente da ABL em 1948, escreveu: “Para matar as saudades,/ Fui verte em ânsias, correndo…/ E eu que fui matar saudades/ Vim de saudades morrendo”. Enquanto o cantador Antônio Pereira (O poeta da Saudade, de Itapetim): “Saudade é um parafuso/ Que na rosca quando cai/ Só entra se for torcendo,/ Porque batendo não vai/ E enferrujando dentro/ Nem distorcendo não sai”.

Mais exemplos. Abgar Renault, presidente da ABL em 1993: “Já não sinto saudade de mais nada,/ A não ser do começo da escalada,/ Quando o azul era azul de azul sem fim/ E Deus criava o mundo em mim”. E Antônio Pereira: “Quem quiser plantar saudade/ Primeiro escalde a semente/ Plante num lugar bem seco/ Onde o sol bata mais quente/ Que se plantar no molhado/ Quando nascer mata a gente”.

Casimiro de Abreu, morto em 1860 (por isso não entrou na ABL, fundada só em 1897), nos mais conhecidos versos brasileiros sobre o tema, escreveu: “Oh! que saudades eu tenho/ Da aurora da minha vida,/ Da minha infância querida/ Que os anos não trazem mais!/ Que amor, que sonhos, que flores,/ Naquelas tardes fagueiras/ À sombra das bananeiras,/ Debaixo dos laranjais!” E, de outro lado, o cantador Severino Pinto (de Monteiro): “Essa palavra saudade/ Conheço desde criança/ Saudade de amor ausente/ Não é saudade, é lembrança/ Saudade só é saudade/ Quando morre a esperança”.

Nenhum personagem representa melhor o Nordeste. O cantador é seu rosto e sua voz. A resistência, a cultura (levemente inculta), a astúcia – que, segundo mestre Ariano, é a “coragem dos pobres”. Câmara Cascudo até dizia: “O cantador é a voz da multidão silenciosa, a presença do passado, o vestígio das emoções anteriores, a história sonora e humilde dos que não têm história”. Por tudo pois, neste dia, devemos prestar homenagem também à sabedoria, à erudição, à simplicidade, à língua certa do povo, futuro prometido, miséria e opulência, realidade e ilusão, o pecado e o paraíso da voz iluminada dos cantadores nordestinos.

P.S. Paro agora de escrever, por algum tempo. Abraço a todos os leitores. E até breve.

8 Comentários

  1. Dr.º José Paulo Cavalcanti Filho:

    Vamos sentir a sua ausência até a sua volta. Sua presença aqui nesse espeço do JBF, com seus artigos inteligentes nos enchem de sabedorias, humildades e honestidades!

    Meu saudoso pai sempre dizia a gente: “O bom mesmo é ter você aqui todos os dias, mas como você tem seu rumo próprio na vida, eu não posso proibi-lo, apenas torcer para que você volte logo!”

  2. Nada me constrange mais que ser chamado de Poeta. Disse isso já várias vezes. Fazer Poesia, como eu faco, num ambiente refrigerado, cadeira fofíssima, um Aurélio do lado e um Houaiss do outro, ambos ladeando meu dicionário de rimas, é tarefa para qualquer um, muito mais transpiracao que inspiracao, como se diz. Quero ver fazer como os grandes trovadores matutos, os repentistas que, dado-lhes o mote, ali mesmo, na bucha e na hora feito caldo de cana, tudo se transforma em verso, metrificado, com ritmo, rima e lógica. Esses, sim, sáo os Poetas.
    E viva Pinto, Louro, Joao, Rogaciano e tantos outros espalhados nos sertóes, alguns já no céu.
    – Em tempo 1: igualmente me constrange ver alguém ser tratado por Mestre – quase sempre nem professor sendo ou por Professor, estes treinadores de futebol que de professores nada tëm;
    – Em tempo 2: lamentei náo estar no Recife dia 25 para ouvir Doutor Zé Paulo falando sobre Poesia e Verso. Minha sobrinha achou de se casar exatamente neste dia, no distante, mas nem por isso menos belo, Crato.

  3. Prezados amigos,
    Eu me sinto um privilegiado por poder compartilhar das mensagens de gente como Zé Paulo, Cícero, Xico Bezerra e tantos outros.
    Vinícius de Morais acertou na mosca quando disse que essas almas gêmeas, esses irmãos por opção, terminam sendo mais importante até que certos amores. Mesmos os distantes e aqueles que só conhecemos ciberneticamente.
    Um grande abraço a todos. Não desapareçam, pelamordeDeus!!!

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