A campanha de 2018 revelou para Ciro Gomes que a pior forma de solidão é a companhia de Lula. Ao saber que o PT bloqueou o ingresso do PSB na canoa do seu ex-ministro e “amigo”, um dos operadores do PDT reagiu assim: “Já sabíamos que o PT não iria ajudar. Mas não imaginávamos que o Lula se empenharia tanto para prejudicar o Ciro. Isso não é política. É doença.”

Na prática, a candidatura de Ciro começou com a prisão de Lula. Beneficiado com a migração de parte do eleitorado do petista, o presidenciável do PDT empatou com Geraldo Alckmin nas pesquisas, ficando numericamente à frente do tucano. Com uma vitrine eletrônica mixuruca, Ciro ganhou musculatura para encostar o estômago no balcão onde a ”hegemonia moral” é trocada por alguns segundos de propaganda.

Súbito, começaram a surgir as digitais de Lula. O PCdoB condicionou eventuais acertos com Ciro a uma ilusória união da esquerda, com o PT incluído. Dono do PR, o ex-presidiário do mensalão Valdemar Costa Neto passou a percorrer as articulações como um drone guiado por controle remoto desde a cela especial de Curitiba.

Quando Ciro estava na bica de fechar um acordo que lhe renderia o tempo de TV do DEM, do Solidariedade e do PP, Valdemar afastou o PR do balaio de Jair Bolsonaro. Torceu o nariz para a proposta de fechar negócio com o PT. Mas achegou-se aos parceiros do centrão, convencendo-os a aderir em bloco ao projeto de Alckmin.

Emboscado pelo PT, refugado pelo PCdoB e abandonado pelo centrão, restou a Ciro apostar suas fichas no PSB. Ofereceu o posto de vice ao ex-prefeito socialista de Belo Horizonte, Marcio Lacerda. A coisa parecia caminhar bem. Súbito, o candidato a poste Fernando Haddad, outro suposto amigo de Ciro no PT, visitou Lula na cela especial de Curitiba. Saiu de lá, na tarde de terça-feira, com as orientações finais para o aleitamento da negociação do PT com o PSB.

Com o aval de Lula, foi para os ares a candidatura petista de Marina Arraes ao governo de Pernambuco. Ela está empatada nas pesquisas com o governador Paulo Câmara, do PSB. Com os estilhaços do projeto de Marina, o PT pavimentará o caminho que pode levar Paulo Câmara à reeleição.

Em troca, o PSB comprometeu-se a ficar neutro na disputa presidencial, retirando-se das negociações com Ciro. O PSB também rifou a candidatura de Marcio Lacerda ao governo de Minas Gerais, eliminando uma das pedras que se acumulam no caminho do governador petista Fernando Pimentel, que pleiteia a reeleição em Minas.

Ao isolar Ciro, Lula potencializa suas chances de levar ao segundo turno o poste que lançará depois do provável veto da Justiça Eleitoral à sua candidatura cenográfica. De acordo com os planos traçados na cela de Curitiba, uma vez inviabilizada a candidatura de Lula, o segundo turno dos sonhos do PT seria a reedição do velho Fla-Flu entre tucanos e petistas. De um lado, Alckmin. Do outro, o poste.

Na hipótese mais pessimista, imaginam Lula e seus operadores, o PT mediria forças no segundo round com Jair Bolsonaro. E todos, do tucanato a Ciro Gomes, cairiam no colo do ”poste” por gravidade, sob o argumento de que seria necessário ”evitar o pior.” Numa eleição tão imprevisível, tudo pode acontecer. Inclusive nada do que foi planejado por Lula. Por ora, a única certeza disponível é a de que Ciro Gomes, alcançado pelo tiro do presidiário petista, levará a faca aos lábios.

De resto, o maior inconveniente desse tipo planejamento que trata a formação de alianças como mais uma modalidade de conluio é a suposição de que a plateia é 100% feita de idiotas. O crescimento da fatia do eleitorado que declara não ter candidato indica que o percentual de bobos cai na proporção direta da reiteração das espertezas.

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