No dia 28 de julho desse ano completaram 80 anos da morte do cangaceiro Lampião. Um personagem controvertido. Passados tantos anos da atuação deste bandoleiro pelo Sertão Nordestino, ainda persiste o debate se Virgolino foi um proto-revolucionário que combatia a exploração dos humildes pelos oligarcas, ou se foi apenas um criminoso, ladrão, assassino, sequestrador.

Nada melhor para ajudar a entender essa questão do que as palavras do próprio Cangaceiro, registradas numa entrevista concedida no ano de 1926, ao médico Otacílio Macedo, quando Lampião esteve em Juazeiro do Norte – CE. Perguntado pelo entrevistador se não pensava em abandonar aquela vida criminosa, respondeu da seguinte forma: “Se o senhor estiver em um negócio, e for se dando bem com ele, pensará porventura em abandoná-lo? Pois é exatamente o meu caso. Porque vou me dando bem com este negócio, ainda não pensei em abandoná-lo” Lampião declara que o cangaço era um negócio lucrativo. Apesar do próprio cangaceiro confessar que tocava um negócio, ainda existe quem considere que era uma espécie de Robin Hood nordestino.

Virgolino Ferreira da Silva merece o título de Rei dos Cangaceiros, pois foi muito além de todos os outros bandoleiros que percorreram o Nordeste, até a metade do Século XX. Foi superior sob o ponto de vista de permanência na vida criminosa (em torno de 20 anos), como área de atuação, como na complexidade da sua organização para pratica de seus “negócios”. Esse aspecto (da organização) deve ser melhor avaliado para contribuir no entendimento de quais eram os reais objetivos de Lampião.

Essa complexa organização incluía informantes, protetores e fornecedores. Recorrendo a mesma entrevista de 1926, vejamos o que diz Virgolino sobre os protetores: “Não tenho tido propriamente protetores. A família Pereira, de Pajeú, é que tem me protegido, mais ou menos… De todos meus protetores, só um traiu-me miseravelmente. Foi o coronel José Pereira Lima, chefe político de Princesa. É um homem perverso, falso e desonesto, a quem durante anos servi, prestando os mais vantajosos favores de nossa profissão” Nesta declaração fica evidente que havia combinação entre o suposto protetor do homem pobre (Virgolino) com os considerados oligarcas exploradores, o que compromete a imagem de revolucionário atuando contra a exploração dos humildes.

Existe por parte da família do Coronel José Pereira Lima uma grande insatisfação com essa afirmação de que Lampião teve algum tipo de relação com o líder político de Princesa Izabel – PB. Porém, o Cangaceiro usava com frequência a fazenda do cunhado de Zé Pereira como abrigo, o que de alguma forma confirma que o Coronel tinha, pelo menos, conhecimento da presença de Lampião na região de sua influência.

Na medida em que sua organização criminosa crescia e se sofisticava Lampião terceirizou o roubo, criando bandos autônomos liderados por seus “subordinados” e passou a faturar fornecendo armas e munição para esses subgrupos. De onde vinha esse armamento? Talvez esse seja o grande segredo não devidamente desvendado dessa interessante história. Parte poderia vir da própria polícia, como acontece até hoje. Parte seria fornecida pelos coronéis, líderes políticos que por terem acesso a armas e munição para suas milícias, serviam como fornecedores do Cangaceiro. Esse passou a ser o grande poder do Rei dos Cangaceiros, era ele quem sabia abastecer o paiol que mantinha a rede de quadrilhas que atuavam na área que controlava.

Virgolino precisava também dos pequenos coiteiros, homens humildes que conheciam em detalhes o sertão, seus pontos de fuga e de esconderijo. Eram eles que faziam pequenas compras, davam os sinais de onde andavam as patrulhas (tropas conhecidas como volantes) e funcionavam como mensageiros. Lampião soube durante todo o tempo que esteve no cangaço, segundo suas palavras desde 1917 até 1938, usar os camponeses, a polícia e os coronéis para liderar essa organização criminosa e mesmo depois de sua morte ainda contar com a interpretação errônea (meu ponto de vista) de parte da sociedade que o considera um herói.
Temos carência de heróis nacionais, mas transformar criminosos em salvadores da pátria parece ser um mal hábito do brasileiro. Lampião foi um precursor do crime organizado, exploração da pobreza e da ignorância.

Um gênio do mal.

Os trechos da entrevista concedida em 1926 foram extraídos do site “Lampião” mantido por Vera Ferreira, neta do cangaceiro.

3 Comentários

  1. Os ídolos do brasileiro tendem a ser personagens em que o mito e a lenda superam a verdade, ou mártires que fracassaram e tiveram uma morte heróica. O que menos temos são heróis vencedores.

    Impossível não lembrar a frase de Tom Jobim: No Brasil, o sucesso alheio é tomado como ofensa pessoal.

  2. Os cangaceiros modernos usam a urna eletrônica para acessarem os cofres públicos. Usam de menos violência mas os danos causados à sociedade são infinitamente maiores. E são muito organizados, têm protetores encastelados nos três (podres) poderes desta infeliz república.

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