Por sua formação política, herdando a altivez dos primeiros donatários, Duarte Coelho e seus sucessores; pela constituição de suas elites, originárias dos sucessores de Jerônimo de muitos gentis homens, fidalgos e bons colonos Albuquerque e dos muitos que aqui aportaram a partir de 1535; pela sua proximidade com portos da Europa e ligações com a África; pela sua contribuição na colonização e na conquista de todo o Norte do Brasil, ainda nos difíceis anos do século XVI; pelo espírito aguerrido do seu povo, responsável pela suserania da coroa portuguesa nas capitanias do Norte, antes integrantes do Brasil Holandês (1630-1654), a contribuição da gente de Pernambuco às letras e às artes nos dois primeiros séculos da colonização ainda está por ser estudada.

Formados para a guerra, desde os primeiros anos da colonização, habituados a serem chamados de “filhos de Mavorte”, na imagem do soneto do padre João Batista da Fonseca (Escavações p. 117) ou, como na imagem poética do seu hino, “nova Roma de bravos guerreiros”, os nascidos e/ou estabelecidos em Pernambuco sempre souberam se notabilizar nas letras, nas artes plásticas, na música, nas ciências e em outros ramos do saber.

Ao escrever Desagravos do Brasil e Glórias de Pernambuco, cujos originais foram concluídos em 26 de março de 1757, Dom Domingos do Loreto Couto, nas pp. 357-412 (Rio, 1904 e Recife, 1981), traz uma significativa relação de vultos que se notabilizaram numa produção artística e literária que bem revela a importância de uma elite intelectual nesses dois primeiros séculos da história pernambucana.

Com a fundação do Colégio dos Jesuítas em Olinda (1551), surge em Pernambuco um centro educacional que viria formar as gerações, não somente na iniciação a alfabetização e ao catecismo da doutrina cristã, bem como nos rudimentos da matemática, mas também no latim, na filosofia e na moral, matérias estas cujas aulas tiveram início em julho de 1568 pelo padre João Pereira. Em 1800 o prédio do antigo Colégio dos Jesuítas vem a ser ocupado pelo Seminário Episcopal de Nossa Senhora da Graça, cujos estatutos foram elaborados pelo bispo D. José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho (Lisboa: Tipografia da Acad. R. das Ciências, 1798), com a finalidade de instruir “a mocidade em todos os seus principais ramos da literatura, própria não só de um eclesiástico, mas também de um cidadão que se propõe a servir ao Estado”. O seminário, chamado pelo cônego Barata de “escola de heróis”, veio a ser o principal propagador do ideário ilusionista dos filósofos franceses nas capitanias do Norte do Brasil.

Também na segunda metade do século XVI atuaram em Pernambuco dois mestres-escolas leigos, ambos cristãos-novos: Branca Dias, que mantinha uma escola para moças, e Bento Teixeira, um erudito que atuou como mestre-escola em Olinda, Igaraçu e Cabo.

Em Pernambuco residiu por muitos anos o também cristão-novo Ambrósio Fernandes Brandão, proprietário de terras em São Lourenço da Mata (Denunciações e Confissões de Pernambuco p. 231 e 260), que em 1618 veio escrever o livro Diálogos das Grandezas do Brasil (Recife: Imprensa Universitária, 1962), um dos mais importantes relatos sobre a flora, fauna, paisagem e vida econômica do país naquele primeiro século de sua colonização, obra hoje de consulta obrigatória pelos estudiosos dos mais diversos misteres.

O AUTOR DA PROSOPOPÉIA

Bento Teixeira é o autor da primeira obra poética produzida no Brasil que veio alcançar as honras do prelo, Prosopopéia, escrita em Pernambuco, entre 1585-94, e publicada em Lisboa (1601) com a dedicatória a “Jorge de Albuquerque Coelho, Capitão e Governador de Pernambuco”, numa produção da oficina de Antônio Álvares.

Que eu canto um Albuquerque soberano
Da fé, da cara pátria firme muro,
Cujo valor é ser que o céu lhe inspira,
Pode estancar a lácia e grega lira.

Diogo Barbosa Machado (1682-1772), em sua Biblioteca Lusitana (Lisboa 1741), declara ser Bento Teixeira, a quem ele acresceu o sobrenome “Pinto” natural de Pernambuco dando causa a repetição de um erro que se arrasta ao longo de dois séculos. Somente em 1960, quando da publicação do seu livro Estudos Pernambucanos (Recife: Imprensa Universitária; 2ª ed. Recife: Fundarpe, 1986) é que o Prof. José Antônio Gonsalves de Mello vem esclarecer a real naturalidade do poeta Bento Teixeira. Ao compulsar o processo n.5206 da Inquisição de Lisboa (ANTT), em que aparece como réu um Bento Teixeira originário de Pernambuco.

Nos seus diversos depoimentos, ele afirma ser natural da cidade do Porto (Portugal), de onde saiu com a idade de cinco para seis anos para o Brasil em companhia dos seus pais. Fixando-se inicialmente no Espírito Santo (c 1567), matriculou-se na escola dos padres jesuítas com os quais veio a continuar os seus estudos na Bahia. Em 1579, já tendo concluído os seus estudos com os jesuítas, transferiu-se para a capitania dos Ilhéus onde casou-se com Filipa Raposa. Anos mais tarde (1584) fixou-se na vila de Olinda, onde abriu uma escola para meninos na rua Nova (a principal da vila). Por dificuldades financeiras transfere-se para a vila de Igaraçu (1588), onde além de mestre-escola exerceu as funções de advogado, cobrador de dízimos e contratador de pau-brasil. Pelos frequentes adultérios de sua mulher, Filipa, viu-se obrigado a transferir-se para o Cabo de Santo Agostinho onde, em dezembro de 1594, vem a cometer o uxoricídio. Fugindo da justiça, vem refugiar-se no Mosteiro de São Bento (Olinda). Por essa época chega a Pernambuco o visitador do Santo Ofício Heitor Furtado de Mendoça, sendo o cristão-novo Bento Teixeira denunciado por práticas judaizantes. Preso em 19 de agosto de 1595 é embarcado, juntamente com outros réus, para os cárceres do Santo Ofício em Lisboa, onde por mais de quatro anos passa por sofrimentos e privações. Solto em 30 de outubro de 1599, aos 40 anos de idade, padecendo de uma tuberculose, por motivos ignorados volta à cadeia de Lisboa, conforme atesta o médico João Álvares Pinheiro, a 9 de abril do ano seguinte. Do seu processo nada mais consta, a não ser esta anotação na capa: “É falecido Bento Teixeira e faleceu andando com a penitência em o fim de julho de 600”:

Bento Teixeira, erudito dos mais brilhantes do seu tempo, conhecedor dos clássicos, do latim e de outras línguas, dado a fazer trovas e sonetos, foi o autor do poema épico, Prosopopéia, editado nas oficinas do impressor Antônio Álvares, “o primeiro escrito no Brasil a merecer as honras do prelo”, infelizmente publicado no ano seguinte ao da sua morte: 1601.

A MISSÃO DE NASSAU

Quando da dominação holandesa, particularmente durante os sete anos do governo do Conde João Maurício de Nassau (1637-1644), Pernambuco recebeu a mais importante missão artística e científica que visitou o Novo Mundo no século XVII. Para aqui vieram o latinista e poeta Franciscus Plante, o médico e naturalista Willem Piso, o astrônomo, cartógrafo e naturalista George Marcgrave, os pintores Frans Post e Albert Eckhout, o médico Willem van Milaenen, o humanista Elias Herckmans, o cartógrafo Cornelis Sebastianzoon Golijath, o arquiteto e urbanista Pieter Post, além dos artistas amadores Zacarias Wagner e Gaspar Schmalkalden que já se encontravam no Brasil quando da chegada do conde.

Sob o mecenato de Nassau foram pintadas as primeiras paisagens brasileiras, bem como uma farta documentação iconográfica dos naturais da terra, dos portugueses e mazombos aqui residentes, da flora e da fauna, obras hoje admiradas nas mais diferentes coleções do mundo. Sob os seus auspícios publicados livros, verdadeiras obras de arte gráfica, de autoria de Willem Piso, De Medicina Brasiliensi; de George Marcgrave, Historia Rerum Naturalium Brasiliae; ambos integrantes da monumental obra Historia Naturalis Brasiliae, publicada em 1648 em Amsterdam. No mesmo período foi publicada a interessante obra do latinista Caspar van Barle, conhecido no Brasil por Gaspar Barlaeus, com ilustrações de Frans Post, mapas de George Marcgrave e Golijath, com o título latino Rerum per octenium in Brasilia etc., impressa em Amsterdam em 1647, da qual existe uma reedição em português publicada pelo autor destas notas em 1980 dentro da Coleção Recife v. IV. Vale lembrar o poema do reverendo Franciscus Plante, Mauritiados, dedicado ao Conde João Maurício de Nassau, com ilustrações de rara beleza, também publicado em Amsterdam em 1647.

É do período holandês o primeiro texto da literatura hebraica escrito nas Américas. Trata-se do poema escrito pelo erudito rabino Isaac Aboab da Fonseca (1605-1693), que dirigiu no Recife a primeira sinagoga do Novo Mundo e aqui produziu em 1646 o texto, em forma de prece, quando do cerco das tropas luso-brasileiras. O poema, em que relata os sofrimentos do seu povo sitiado no Recife, começa com a frase: “Erigi um memorial aos milagres de Deus…”.

A guerra holandesa despertou a atenção dos naturais da terra para a preservação da memória dos fatos do dia-a-dia dos combates e escaramuças, assim sendo são conhecidos os trabalhos produzidos no calor dos fatos pelos cronistas Duarte de Albuquerque Coelho (Memórias Diárias da Guerra do Brasil), Diogo Lopes Santiago (História da Guerra de Pernambuco), Frei Manoel Calado do Salvador (Valeroso Lucideno), além de outros inéditos cujos manuscritos encontram-se na secção de reservados da Biblioteca Nacional de Lisboa.

A produção do período vem a se desenvolver em outros centros, com a publicação de memórias, mapas, livros científicos e uma infinidade de pinturas, desenhos e gravuras diretamente ligadas ao Brasil holandês.

Intelectuais judeus, nascidos em Pernambuco durante a ocupação holandesa, despontam com os seus trabalhos. É o caso de Isaac de Andrade Velosino, chamado por Barbosa Machado, in Biblioteca Lusitana, de Jacob de Andrade Velosino, que se declara judeu nascido no Recife em 1639, segundo Sacramento Blake. “Doutor em Talmud e Doutor em Filosofia”, foi ele o orador oficial quando da inauguração da sinagoga portuguesa de Amsterdam (1675). Autor de várias obras, dentre as quais Epítome de la verdad de la ley de Moyses, escrita em espanhol, O Theologo Religioso, O Messias Restaurado, além de outros trabalhos sobre medicina e história do Brasil, vindo a falecer em Haia no ano de 1712.

A PRIMEIRA ESCRITORA

Pernambuco deu ao Brasil a primeira escritora, Rita Joana de Souza, segundo consagra Barbosa Machado, na sua já citada Biblioteca Lusitana, no que é repetido por Pereira da Costa, in Dicionário Biográfico de Pernambucanos Célebres, e Sacramento Blake, in Dicionário Bibliográfico Brasileiro. Nascida em Olinda, a 12 de março de 1696 e falecida em abril de 1718, aos 22 anos, pôde a jovem ter sua produção literária admirada pelos mais diferentes estudiosos do seu tempo, F. Diniz, Damião F. Perim, J. Noberto, D. Domingos do Loreto Couto, dentre outros para os quais a jovem pernambucana possuía uma vasta erudição, cultivando, além da pintura e o desenho, a história, a filosofia e a geografia. Os seus manuscritos não foram publicados, sabendo-se notícias através das mesmas fontes dos originais de Memórias históricas e Tratado de Filosofia Natural.

Como se depreende de uma consulta a obra de Loreto Couto, Desagravos do Brasil e Glórias de Pernambuco, é formidável a relação de pessoas naqueles dois primeiros séculos da história pernambucana dedicadas a uma produção intelectual e artística. Os estudos genealógicos, a poesia, a história, a filosofia, a moral, a teologia, o direito, a medicina, a música, dentre outras, são objeto de estudos dos mais diversos, em grande parte desaparecidos pela proibição da coroa portuguesa que impedia a instalação de tipografias no Brasil de então.

É desta época o surgimento dos estudos históricos, de forma sistemática, em Pernambuco, com a obra de três grandes pioneiros: Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão (1695-1779), D. Domingos do Loreto Couto (c 1696 – c 1762) e Antônio José Vitoriano Borges da Fonseca (1718-1786). O primeiro, na opinião de José Antônio Gonsalves de Mello, quando da elaboração do seu Orbe Novo Seráfico Brasílico, editado parcialmente em 1761, utiliza-se dos arquivos da Província Franciscana a que pertencia, bem como da Província de São Bento, além de ampla bibliografia, revelando-se dos três o mais erudito. O segundo, menos indagador, é autor, como já fizemos ver anteriormente, de Desagravos do Brasil e Glórias de Pernambuco, manuscrito somente editado em 1904 e hoje integrante da Coleção Recife (v. XI, Recife: Fundação de Cultura, 1981), onde se revela informes da história oral, obtidos de pessoas mais idosas, elementos sobre a vida social da antiga capitania naquela primeira metade do século XVIII, além de manuscritos diversos e de uma bibliografia de livros portugueses da época. O terceiro, autor de Nobiliarquia Pernambucana, impressa parcialmente na Revista do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano (1883-1908) e, finalmente, pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (1935), vem revelar-se um genealogista e não um historiador. Por mais de trinta anos foi um cuidadoso pesquisador de informações sobre o nosso passado, indo diretamente às fontes manuscritas, recolhidas na documentação notarial e paroquial então existente, tendo conseguido reunir os primeiros textos genealógicos redigidos após a Restauração Pernambucana.

Muito poderia se inscrever sobre os poetas, pregadores, músicos e artistas plásticos de Pernambuco, dos séculos XVI e XVII, mas isso seria assunto para outro artigo ou talvez, quem sabe, para um ensaio especial sobre tão palpitante tema.

Mas estas notas já bem demonstram a grandeza da gente de Pernambuco, presente na história não somente pela força da espada, mas também no ministério da palavra, nos textos produzidos por penas de inteligências devotadas, na beleza das cores ordenadas por pincéis, ou nos entalhes produzidos por goivas e cinzéis, como a mostrar no seu conjunto a força de uma civilização que soube cultivar os seus valores culturais.

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