10 agosto 2018A MADAME



Malvino, 65 anos, morava perto de um botequim, que era um verdadeiro canavial. Lá, a cana corria solta e os caneiros enchiam a cara no final da tarde, entrando pela noite. Uns iam curtir a bebedeira em casa e outros ficavam no botequim até de madrugada.

Malvino fazia parte do grupo que ia curtir a cana em casa. Valdete, sua segunda esposa, uma mulher braba e irreverente, não permitia que ele cometesse excessos com a bebida. Ia buscá-lo no botequim todas as noites e ele a obedecia mansamente.

Muito querido pela turma da boemia, Malvino, contador aposentado, era considerado um intelectual.

Era bom de copo e de prosa. Lia os principais jornais da cidade, diariamente, e assistia aos telejornais.

Sempre que anoitecia, ele avisava aos companheiros de copo:

– Daqui a pouco, a chata da minha patroa vem me buscar para jantar. Não aguento mais essa jararaca. Parece uma bruxa. Só falta uma vassoura, para que saia daqui voando.

As gargalhadas dos boêmios que ali se encontravam eram uníssonas.

Na verdade, a esposa de Malvino parecia um sargento de cavalaria reformado. Mandona e prepotente, não hesitava em agredi-lo fisicamente, se o encontrasse embriagado. Certa vez, nesse botequim, ela tirou o sapato e deu-lhe na cara, por encontrá-lo bêbado. Se ele discordasse de uma opinião sua, a mulher partia logo para o bufete.

Malvino sentia-se injustiçado, perante a sociedade. Sonhava com a Lei “Malvino”, para concorrer com a Lei “Maria da Penha”.

Num final de tarde, quando o papo estava animado, e Malvino tinha enchido a cara, Valdete chegou para buscá-lo. Ao vê-lo embriagado, ficou possessa e gritou:

– Ah, bandido! Eu pedi para você não beber hoje, pois nós vamos ao aniversário do meu irmão! Ande logo, seu irresponsável!!!

Envergonhado perante os amigos, o homem respondeu:

-Tenha calma, querida! Quase não bebi…

De nada adiantaram suas palavras. Parecendo endemoniada, a mulher arrastou o marido pelo braço e deu-lhe um empurrão, que o desequilibrou na calçada.

Os companheiros de copo baixaram a cabeça, fazendo de conta que não estavam vendo nada.

Entretanto, um velho “cachacista”, que estava na calçada e a tudo assistira, ao ver Malvino levar um empurrão da mulher, não se conteve e gritou:

– Mulher dos seiscentos diabos, respeite seu marido!!! Volte para o lugar de onde saiu!!!

Na realidade, há dez anos, Malvino havia se apaixonado por Valdete, num cabaré. De quenga, ela passou a

“Madame”. Vinte e cinco anos mais nova do que ele, nunca conseguiu ser “bonita, recatada e do lar.” Era somente “boazuda”. Parecia que tinha escrito no rosto: “Eu sou p….”

E o velho “cachacista”, ainda indignado, continuou falando:

– Essa mulher, Malvino tirou da Zona. Mas ela nunca deixará de ser quenga!!!

10 Comentários

  1. Violante,

    Sua crônica aborda de forma bem-humorada o alcoolismo. Quem sabe beber com moderação não terá problemas com a família nem com a saúde. Quando o indivíduo torna-se dependente do álcool, sua vida irá se tornar um quebra-cabeça de difícil solução. Aproveito a oportunidade para compartilhar uma décima de um repentista paraibano (desconheço a autoria) rematada com o mote “Não é defeito beber” :

    “Para quem bebe aguardente,
    Se mete num grande porre,
    Dá, apanha, mata ou morre
    O beber não é decente…
    Porém dando pra contente
    Ou mesmo pra entristecer,
    Podendo a cana fazer
    Tornar-se franco um sovino,
    Direi sempre que combino:
    Não é defeito o beber!”

    Saudações fraternas,

    Aristeu

    • Obrigada pela gentileza do comentário, prezado Aristeu Bezerra! O alcoolismo é responsável por muitas desavenças domésticas. doenças, mortes, e também por muitas situações hilárias. Se o marido for alcoólatra e a mulher for abstêmia, geralmente “o circo pega fogo”. Os aborrecimentos são inevitáveis. Por isso, vale a recomendação: “BEBA COM MODERAÇÃO!” rsrsrs
      Gostei demais dos versos inteligentes do repentista paraibano. Realmente, “não é defeito beber.” Viva a sabedoria popular!

      Um grande abraço.

      Violante Pimentel

  2. Mui QUERIDA cronista e poeta Violante Pimental. Já postei neste JBF, mas vou repetir por ser pertinente à sua “gostosa” estória. Lá pelos anos 1950, com pouco mais de 20 anos , tinha um companheiro nas noitadas “cachaceiras” que conhecía como LAMPARINA (um descendente de paraguaio , cujo nome verdadeiro nunca fiquei sabendo ), depois de estar bem calibrado recitava:= “Caña blanca caña dulce te miro porque me gusta, te tomo non sei por que”. Um abração de Campo Grande-MS. YN

    • Obrigada pelo generoso comentário, prezado Yoshiro Nagase! Adorei os versos de Lamparina, recitados quando estava “no ponto.” Um verdadeiro poeta!!!rsrs

      Um grande abraço, amigo!

  3. Tinha também um que assim falava antes de emborcar o copo:
    ” Cachaça é feita da cana
    Cana da casca amarela
    Cana passa apertada no engenho
    E desce folgada na goela “.

  4. Adorei os versos, prezado colunista Peninha! A poesia e a boemia caminham juntas. É em mesa de bar que mais aflora a inspiração dos poetas.
    Um abraço.

    • Obrigada, querida Diana! Bem feito mesmo…
      O idiota se acostumou a ser desmoralizado pela mulher. rsrs
      Bom fim de semana pra você também!

      Beijos.

  5. Eu acho é pouco… Malvino devia desde logo ter colocado Valdete no verdadeiro lugar e está , por sua vez, poderia ter desfeito o casamento sabido que não aceitava o vício do marido. Acho que se mereciam ou se merecem. O conto extraordinário, como os densidade. Aquele abraço,

  6. Obrigada pelo comentário, amiga Palitot! Também acho que os dois se mereciam! Malvino era muito mole . Desmoralizado pela mulher, perante os amigos!!! Valdete era mesmo uma “mulher dos seiscentos diabos”…kkkkkk …..Mas tem quem goste….

    Aquele abraço.

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