Especialista em generalidades, extremista de centro, peruador sem compromisso, dono de um currículo sem qualquer
saliência digna de nota, autor de uma obra perfeitamente dispensável, azeitador do eixo do sol, ensacador de
fumaça, fiscal de feiras, carnavalesco e cachacista, Papa da Igreja Católica Apostólica Sertaneja
A difusora – pau do fuxico – já se preparava pra espalhar o boato meteorológico da semana: “Tempo de muito pasto e pouco rasto. Domingo, dia 20, chuvinha esfarofada na região… Segunda, 21 de fevereiro, cerração-chuvosa e chuva virada na mulésta, acompanhada de relâmpago, ventania de entronxar prego, pipoco de trovão e o diabo a quatro em forma de tempestade…” O presidente da Câmara protestou:
– Logo segunda-feira que é a convenção do partido! Vou falar com o prefeito pra mandar botar sol nessa porcaria de previsão.
A matutada assuntava e palestrava em roda de calçada: “Tem chovido uns caroço d`água pros lado de Cumpade Jerome e sube que caiu uma liblina pra cumpade Dedé. Aqui, se preparou, escureceu, peidou, peidou, peidou, no final puffft!”
“Ehh… Mas eu sube que pescaram umas curimatã, ovadas dos dois lados da barriga; pegaram uma feme de tatu com quatro tatuzinho; eu vi uns aruá da serra se trepando em mato alto; e hoje, bem cedo, vi um bode espirrando, uma acauã cantando e o gado dando os quarto pro nascente. Hoje, com certeza vai ter uma chuvona de inverneira.”
Segunda 21, Itabaiana amanheceu de espinhela caída, enfadada que só conversa de crente novo, e os ambulantes cozinhando seus milhos aleijados filho do chuvisco. O rio, apesar da água, mais parecia um bocejo entre dois cochilos.
De meio-dia pra tarde, meu cumpade!… O tempo foi ficando amuado feito um esquerdista no palanque e mais estranho do que o silêncio repentino das mulheres: Uma galinha comeu uma raposa, uma lebre matou um caçador, o prefeito teve um surto de honestidade, e, no umbigo da tarde, começou uma reviravolta de tempo meio esquisita. O vento parou, as folhas viraram pedras. Tome nuvem de chuva que mais parecia um cardume de poeira de carvão. Estas bichonas vieram pro lado da Rainha do Vale com um jeitão assombroso. A parte de cima era alva feito vela de igreja. No meio, era roxa feito vela de enfeite e a parte de baixo era pretona feito vela de macumba. Como se não bastasse, vinha acelerada feito galinha choca atrás de gato novo e soltando relâmpago fazedor de clarão causando sobrosso em mulher, menino, gato e cachorro. A molestada do tamanho duma fofoca grande parou sobre Itabaiana e soltou um toró de trás pra frente, feito mijada de bicho macho.
Foi girafa pedindo socorro, cururu pedindo boia, foi esgoto engoiando lixo… A placa da prefeitura passou zunindo com destino à capital, que parecia papel celofane. Era chuva de pingo grosso feito cabo de formão e temperada com vento, trovão e relâmpago, dando chapoletada no espinhaço da cidade. As árvores, coitadas, balançavam mais do que cardan de mulher dama. Um trovão aparentado a um coice de dinossauro bateu no cucuruto do Banco do Brasil que foi funcionário escorregando na frouxura dum jeito, que passou dez dias emprestando dinheiro a xexeiro do PMDB.
Um matuto me disse: “Eu juro pelos bruguelo que nunca tive, que nunca vi uma chuva amolestada como essa aqui em Itabaiana”. Foi água trazendo festa, pro resto da semana, e os políticos derrotados com o fim da seca em véspera de eleição, articulavam derrotar São Pedro, prometendo chuva de bacorim e toicim barato para cinco anos. Tomara!
Tão inventando uma lei
Que ao pobre parlamentar não é permitido mais:
Botar a família pra viajar num teco-teco por conta da muda
Não pode dar uma banguela numa obra
Não pode arrumar uma boquinha dentro dum esquema
Num pode construir um castelo
Não pode comer bola
Não pode flanar na Europa com o cartãozão do governo
Não pode receber por fora mode gastar nas campanhas
Não pode pular de galho em proveito partidário
Não pode se dar bem num negócio mutucado
Não pode mentir pro povo
Empregar mulher, não pode
Empregar filho, não pode
Não pode empregar amante…
Tá com a molesta!!!
Acabou milho, acabou pipoca!
Quer que o cabra faça o quê?
Que vá trabalhar pro povo?
Que trabalhe por louvor?
Mas eu já vi o doutor
Desdizendo em contraponto:
– Nesse negócio de lei…
O cabra tem que ser macho.
Porque lei é feito cerca:
Foi fraca, passa por cima
Foi forte, passa por baixo
Viver de oco estufado feito pulmão de Popeye
Cheio de fumaça-doida e maneirar tranquilão.
Respirar feito tilápia na piscina das mulheres
Ser importante e vital, mas nunca radiografado
Permanecendo amoitado nos pordentro do sujeito
Protegido pelos ossos, feito carne de siri
E viver discretamente feito pâncreas por ali.
Marrapaz! Bobó, quando tá tocando gaita, é mais descansado do que caranguejo almoçando. Passou uns dias aqui, no sertão, só dormindo, bebendo e tocando aquela gaita cheia de pitoco. Bem cedo, cinco e meia; eu cheguei e disse: “Bobó, tu não tinha uma viagem pra São Paulo, pro programa de Boldrin?” Ele disse: “É no dia 22”. Eu disse: “Vinte e dois é hoje, home de Deus!!!”…Cuida que já é mei dia em ponto!!!!
Aí ele saiu que nem uma vaca acuada de cachorro… E correu pra Campina Grande…
***
Zefinha foi pra rodoviária… Ele tava lá, tranquilo que só jumento em sombra de igreja; bem dizer com uma muda de roupa, a gaita. Aí Zefinha disse: “Bobó, tu não vai pra São Paulo, pro programa de Boldrin; tu não tem um figurino de vergonha, home de Deus? Vai-te embora comprar uma roupa apresentave!!!”
Aí ele saiu pulando feito periquito em areia quente… Alvoroçado que só bode em chiqueiro de cabrita…
***
Voltou faceiro que só mosca em tampa de xarope… Devagar que só enterro de viúva rica.
Sabendo que jabuti não pega ema, Zefinha perguntou: “Ô Bobó, que hora é o teu voo?” Ele disse: “Dezenove e quarenta”… Aí ela disse de boca toda: “JÁ SÃO SEIS HORA EM PONTO, BOBÓ!!!” Corre que o avião tá num pé e noutro!!!
Aí ele saiu pro riba de tudo feito cachoeira de Paulo Afonso… Ligeiro que só coceira de cachorro e entrou no avião dizendo: “Vamo que eu sou um homem ligeiramente!!!!”
***
Na outra semana, o povo no sertão tava que era uma boca só:
“Bobó passou a manhã todinha em Rolando Boldrin”.
Aí eu disse: “Eu sabia tanto! Uma coisa que ele sabe é enrolar”…
Da altura de um bocal
De atarraxar lua cheia
Era a paixão que eu sentia
Por Hermegilda Candeia.
Uma das tais Hermegildas
Que fez meu peito emergir…
Patativinha de igreja
Dessas que a voz estreleja
As noites do Cariri.
Tinha o cabelo comprido
Feito o vestido de Eva
Tinha a pele cor de unha
Antes de o esmalte iludir
Pra mode ser uma princesa
Stephanie ou Diana
Só lhe faltava a alfândega
Carimbar que era dali.
Eu, franciscano em dinheiro
Gravetozinho na vida
Já me sentindo garapa
Não me afoitava dizer-lhe
De fala, tantinho assim…
Criei braveza e audácia
Desembainhei toda a alma
Fechei os olhos e os pulsos
E disse pre`la me ouvir:
– Gildinha, canta pra mim !!!???
Ela disse:
– NÃO!! Pra não te pôr mau-olhado
E nem cair em pecado!
Quadrangular decisivo
Na Baixada da Graminha!
Aripuá de Besouros
E Atlético Cebolinha
Jogam nesta terça feira
Com Fodões da Gameleira
E Sport Carreirinha.
Atlético Gancho do Galo
E Esportivo do Feijão
Empataram em doze a doze
Na baixa do Miguelão
Esporte Severinim
Desempatou no finzim
Sai invicto e campeão.
Aviso pro Romeirão
De Capoeira do Milho:
Linguinha não vem jogar
Pois a mulher teve filho
Patativa e Polegada
Vão bater uma pelada
Na baixada dos Novilho.
Lista dos classificados
Pra jogar na capital:
Papangu da Barra Mansa
Criciúma do Mingau
Pelotas do Sítio Novo
Esportivo Varapau
Operários do Pau Grosso
Esporte Clube Caroço
Traíras e Capiau.
Tuna-Luso dos Doquinhas
Vence Esporte Mulungu
O Nacional de Barrancos
Perde para o Pajeú
Esporte Clube Cansaço
Levou catorze golaço
Do Açudense do Sul
Calouros de Pau-a-Pique
Enfrenta Riacho Fundo
Arrochados do Lajeiro
Decide com Vagabundos
Caceteiros do Baixil
E Puteiros que Pariu
Vão desputar o segundo.
O escrete Alegrense
Lá de Lagoa do Choro
Enfrenta Sete Riachos
E Atlético Fura Couro
Pra decidir a rodada
Da Taça Vaca Malhada
No gramado Bebedouro.
Tampas de Capela Nova
E Bastiões do Trapiá
Disputam no Galegão
A Taça Mané Preá
Juiz é Chico Bandido
Bandeirinhas Zé Caído
E Mizinha do Tauá.
Escalação do Pelotas
Do Terreiro de Santinha
Ximbica, Kadú e Tula
Dê-Jango, Sapo e Xalá
Enxuga-Rato e Patola
Haja-Cu e Maricá
Zé Papelão contundido
Zé Bola tá dividido
Entre Cheiroso e Gambá.
Vou repetir uma história
Que muito se tem contado
Comparando o Bicho Homem
Conquistador traquejado
Com coisas do dia a dia
Só pra ver a valentia
Dos Pelés aposentados.
Olhando bem direitinho
Pela porta da traseira
O homem tem tudo haver
Com o jogador e a chuteira:
No começo é só ataque
Já no fim é queda e baque
Esperando na banheira.
Lá dos quinze até os vinte
A chuteira é afiada
O jogador vive pronto
Não resiste a uma pelada
Com dureza e valentia
Joga de noite e de dia
Joga até de madrugada.
E mesmo estando sozinho
Ensaia qualquer jogada
Escala muro e telhado
Pra assistir uma pelada
Joga nos fundos, na frente
Joga feliz e contente
Sua vida é uma parada.
Dribla Gilmar e Mazola
Garrincha, Pelé e Zito
Passa por Zico e Bebeto
Só pára mode o apito…
…Um burro foi pro gramado
Tacou-lhe um coice danado
Mas driblou o supradito.
Joselito Nunes ou simplesmente Zelito é um cabôco formado em conhecenças sertanejas e trata as esquinas garranchentas do mato com o mesmo zelo que Garricha tratava uma bola.
Sempre que posso, boto o seu Nunes na minha fala, e, foi não foi, aparece um cumpade ou um sobrinho dele na beira do palco ou no camarim. Isto, do Oiapoque à Caixa Prego; em sala, saleta e salão e com autoridade de pequeno e grande calado.
Estou, agora, trabalhando em palco, uma música que me traumatizou muito na infância, pelo desfecho infeliz, e que, até hoje, eu nunca perdoei o autor. É uma música antiga de 1946, gravada por Izaurinha Garcia, e que mamãe cantava muito:
“Quando o carteiro chegou, e meu nome gritou, com uma carta na mão…”
Pois bem, trata-se de um amor em desalinho e a moça recebe uma carta. No final da história, e da música, ela diz:
“…E assim pensando rasguei, sua carta e queimei, para não sofrer mais.”
EU NUNCA ENTENDI PORQUE ELA NÃO ABRIU ESSA CARTA.
Digo isto como argumento e introdução do poema que fiz baseado nesse tema, e que chama-se Uma Carta de Peraí.
Pois vocês sabem quem é o autor dessa música? É um tal Cícero Nunes em parceria com um Aldo Cabral. Eu não duvido nadinha que esse Nunes seja parente de Zelito; pois o cabra é nascido no Rio de Janeiro mas morou na Paraíba. Pode anotar aí: o cabra é primo do meu Padim Padre Ciço e, dou meu Kwait a dedada, se não for sobrinho de Zelito.
Esio Rafel sabe das coisas; de Sertão vencido a Sertão de indagorinha e Zelito sabe zelar essas miudezas.
TUBARÃO NÃO COME GENTE COM O NOME JACQUES COUSTEAU
Cacique roendo unha:
Dieta de canibal
A crocodila faminta
Faz “S” na caminhada e nada.
Nada, nada o que comer.
Adequando-se à catástrofe
Nasceram crocodilinhos
Com os dentes serrilhados
Cobra de bote anulado
Girafa despescoçada
Comendo o rente do chão
E o magnífico leão
Sem a juba, sem rugido
Sem instinto caçador.
Pesquisador, de frente com o tubarão…
Foi peitado, observado
Mas, em nome da ciência,
Foi poupado e escapou.
Tubarão não come gente
Com o nome Jacques Cousteau.
Venho por essas malchupadas linhas
Remedar um poema de Drummond:
Tinha uma pitombeira no meio do caminho.
Tinha cachos de pitomba
Na pitombeira do caminho.
Vi com a pitomba dos olhos
As pitombas suculentas do caminho
Mas, no meio do caminho, não tinha uma única pedra.
Uma única e bendita pedra, no meio do caminho.
O que adianta?
Uma pitombeira botando
E não ter nenhuma pedra pra derrubar um cachinho?!
Pra saciar meu desejo
Fui chupar o poema de Drummond.
Zefinha nasceu no mato
Lá no Alto da Farinha
Nem parece ser do mato
Nem parece ser Zefinha.
Usa brinco que balança
Atende no celular
É fã de Paralabamba
Pata-pata e coisa e tá
Mas segundo o pessuá
Nunca teve namorado
Nunca dançou colado
Nunca foi de passear.
Quando chega a conversar
Só fala coisa educada
Amostra as unhas pintada…
Só vendo o seu gestuá.
Negócio pra Ipanema
Uma coisa de cinema
Quase um audiovisuá.
Quando me encontro com ela
Formo um casal bem-grudado
Ensopado de luxúria
Feito um paiol de pecado.
De coração pintalgado
De efeito luminoso
Me sinto retemperado
Corado, forte e garboso:
Nesse banquete de agrado
Nos beijos sou almoçado
Na fala sou fastioso.
Eu quero trocar meu nome
Prum nome mais verdadeiro
Pois Nuca de Zebedeu
Não tem sustança nem cheiro.
Quero um nome de Doutor
Graúdo, respeitador:
Astragildo de Medeiro.
Astragildo de Medeiro
Ô nomezim arretado
Com ele bem adubado
Eu era um filosofeiro
E dizia em toda altura:
– O Raso não tem Fundura
No Planeta Brasileiro!
O Raso não tem fundura
Ia pro Repórter Esso
Ia ser grande sucesso
A minha filosofura
Os doutor naquela altura
Espalhava o boateiro
E dizia: “Meu cumpade,
O dono dessa verdade
É Astragildo de Medeiro”.
Já um nome apeiticado
Já um nomezim reimoso
Já não é considerado
Já não pode ser famoso:
…O Raso não tem Fundura
Com bravura digo eu.
Os doutor logo adverte:
Pelo que se assucedeu
A má-palavra se herda
Pois quem falou essa merda
Foi Nuca de Zebedeu.
Em matéria de mei doido
Eu me sinto mais ou menos
Dei com as palavras no palco
Feito um Biu de paletó
Severino pra platéia.
Usei palavras plebeias
Que nunca puderam entrar
Em discurso ou poesia.
Palavras soltas, baldias
Daquelas só disponíveis
Nas últimas nuvens do céu.
Conversei com flamboaiãs
No puro flamboaianês.
Despejei cachos de lágrimas
Pros versos de Assaré.
Beijos de rapadura
Pro vozeirão de Luiz
Sofri adivinhaduras
No sertão do pensamento.
Senti, naquele momento
Que isso era um fazimento
Democrático feito jeans.
Sem rodeio e sem pantins
Sem nhenhenhém, sem besteira
Fiz de velhas cuscuzeiras
Um gordo baú de flandre
Forjado em Campina Grande
Com três tons de serventia:
Deixar minha poesia
Meu verso e meu converseiro
Com textura cor e cheiro
Do cuscuz do dia-a-dia.
Ah, se minh`aula retornasse
Pro giz da minha infância
Pro meu caderno encapado
E o meu nome escancarado:
EU, Primeiro Ano A.
Ah, Primeiro ano A!
A professora: “Bom-dia!!!”
A bolsa, a banca, a folia
A turma do dia-a-dia
A lei da Diretoria
A sineta, a correria
A hora de merendar…
Ah, se minh`aula retornasse
Pro meu recreio de infância:
Pro ritual da lancheira
Da merenda corriqueira:
O copo – irmão da garrafa
O bolo, o ponche, a toalha,
Goiaba, biscoito, pão…
Não há no mundo dos cheiros
Na mais antiga distância
Cheiro melhor que a fragrância
Dessa lancheira de infância.
Não há no reino das cores
Nos arco-íris, bandeiras
Nos frutos das romãzeiras
Amora, amor que avermelha,
Um rubro mais colorido
Que o tom da minha lancheira.
Enganam-se os poetas
Trovadores, seresteiros
Que celebram Chão de Estrelas
Versejando sem razão
Ao dizer, de vão em vão
Que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão.
É não!!!
A mais doce ventura desta vida
É a lancheira, os recreios e a lição.
No estilo de poesia galope à beira-mar, muitas vezes se descreve a cena litorânea na visão da terra pro mar. Vamos ver como seria uma voz de lá pra cá.
Não passo de um pobre e minúsculo Atlântico
Diante da moça que vem se banhar
Princesa dos raios de brilho solar
Que mostra pra gente que o ouro é ralé
Uma espuma finíssima me veste a maré
Qual nata de leite depois de amornar
E a Deusa se achega, de bem comparar
Descida das nuvens que rimam com sonho
E eu pobre Oceano, não tenho tamanho
De ser seu parceiro de beira de mar.
E a moça abeirando meus véus de espuma
Olhar de cupido a me recear
Aqui… bem aqui! O cabelo a voar
De cor, cor-de-cuia de louro brejeiro
Seus pés, de mansinho, me tocam primeiro
E a boca em suspiro aspira o meu ar
Recolhe os bracinhos a se arrupiar
E se carrapixam os poros e pelos
Os outros primores, eu nem pude vê-los
Morri de Atlântico na beira do mar.
De lenda e sereia a moça se agacha
E põe-se ditosa a me baldear
Um fogo de afago me faz fervilhar
Borbulhas de flauta perfume reseda
Uma pele macia – qual capa de seda
Dos amendoins no afã de torrar
No raso das águas se faz cobrejar
Em colcha de espuma de puro chenill
E o “A” de paixão se afoga no til
Na onda de Atlântico da beira do mar.
Cantador-repentista é quixabeira
Dando fruto num chão esturricado
Espaneja o sertão empoeirado
Canta o sulco da terra preciosa
Canta o branco do leite da Mimosa
Canta a água embaçada dos barreiros
Canta a forte cantiga dos cardeiros
Dez mil vezes mais forte que as rosas.
Vai-se embora cumpade cantador
Pega o espiche delgado dos gravetos
E faz dele um frondoso juazeiro.
Pega o vento que escasseia no terreiro
E faz dele um ventinho assanha-franja.
Canta os olhos cegantes de Maria
Canta o sol por detrás da morraria
Nodoando o infinito de laranja.
Não esqueça o versejo aperreado
Do matuto esbarrado por fadiga
Milharal entre a cruz e a espiga
Nem a mão suarenta na enxada.
Caveirame de rês encarniçada
Enlutando a couraça dos vaqueiros
Planta os versos nas fendas dos lajeiros
Que poemas campeiros vão florar.
Vai cantador dos carcarás
Vai cantador da jericada
Canta o mato, o monturo e a garranchada
Pois o mato taí pra se cantar
Dá-lhe cantador dos trapiás
Dos barreiros nas mãos das lavadeiras
Dá-lhe cantador das carpideiras
É o chicote do verso a lapear.
Tão inventando uma lei
Que ao pobre parlamentar não é permitido mais:
Botar a família pra viajar num teco-teco por conta da muda
Não pode dar uma banguela numa obra
Não pode arrumar uma boquinha dentro dum esquema
Num pode construir um castelo
Não pode comer bola
Não pode flanar na Europa com o cartãozão do governo
Não pode receber por fora mode gastar nas campanhas
Não pode pular de galho em proveito partidário
Não pode se dar bem num negócio mutucado
Não pode mentir pro povo
Empregar mulher, não pode
Empregar filho, não pode
Não pode empregar amante…
Tá com a molesta!!!
Acabou milho, acabou pipoca!
Quer que o cabra faça o quê?
Que vá trabalhar pro povo?
Que trabalhe por louvor?
Mas eu já vi o doutor
Desdizendo em contraponto:
– Nesse negócio de lei…
O cabra tem que ser macho.
Porque lei é feito cerca:
Foi fraca, passa por cima
Foi forte, passa por baixo
É O XERÉM TRITURADO DA SAUDADE NO ANGU REQUENTADO DA ILUSÃO
Dez Altemares Dutras não me bastam
Num luar de cebola em serenata
Choro resmas de lágrimas nesta data
De algarismos do nunca-mais-voltar
Fico léguas, parado a ruminar
As palavras “se achegue” se achegando
A palavra “lindeza” se enfeitando
E a palavra “aliança” em sua mão
Lembro dela em tão doce comunhão
Que o açúcar é doado em caridade
É o xerém triturado da saudade
No angu requentado da ilusão.
Num pensar de silêncio acabrunhante
No azedume de um riso amarelado
Imagino nós dois amadrinhados
Qual ponteiros no vão do meio-dia
Duas valsas dançando poesia
Cinderelo abrandando a Cinderela
Um desfecho choroso de novela
Sem o “livrai-nos do mal” da extrema-unção
E um papel despautado de colchão
Com nós dois em sinal de igualdade
É o xerém triturado da saudade
No angu requentado da ilusão.
Historinha de um pleito eleitoral – BÊ-Á-BÁ
para as crianças sem partido.
Era uma vez um malandro
Que fugiu da detenção
Em tempos longes, mofados
De roubo e depravação
De malandragem finória
Daria até outra história
Não fosse a convocatória
Duma bendita eleição:
É que o malandro Moleza
Como era conhecido
Se escondeu num caminhão
Pra mode não ser detido.
E deu-se então uma fuga
De grande sabedoria
Pois tinha sido traçada
Com toda geometria:
Fugia ali de carona
Por debaixo duma lona
Por sobre a carroceria.
E já no fim da viagem
Quando o caminhão parava
Moleza foi espiar
Mais ou meno onde é que tava.
Ficou então espantado
Sem muita compreensão
Pois o caminhão parava
No meio duma multidão.
Creio na teia da lei
Que prende as moscas faltosas
E se rompe melindrosa
Com o besouro roubador.
Assim pensava o doutor
Em ser intrancafiável
Como qualquer senador.
Trancou-se na coerência
Fez um discurso e morreu.
Politicamente morreu
Desceu, bem fundo aos infernos,
Ressuscitou ao terceiro dia
Subiu aos céus
Tentou falar com Deus Pai todo-poderoso
E vive pra lá e pra cá
Roubando os vivos e os mortos.
MARILYN MONROE AGARRADA COM O VESTIDO E O VESTIDO DANADO A SE ENFUNAR
Deu um vento na Serra do Araripe
Que entronxou uma igreja no Japão
E, por falta de padre e de beato,
Vei de lá com a molesta feito o cão:
Derrubou as muralhas lá da China
Levantou um poeirão em Bagdá
Se enfiou num esgoto no Catar
Foi sair no quintal da longitude
Estourou um bueiro em Roliúde
Que até hoje tá dando o que falar:
Foi uma moça querendo se esquivar
De mostrar a caçola e os possuído:
Marilyn Monroe agarrada com o vestido
E o vestido danado a se enfunar.
Sabe aquelas roscas-sem-fim de quá-quá-quá que de vez em quando dá na gente? Pois um dia desses, num restaurante, almoçava um casal, a um sopro de vela de mim. Desses casais de conversa puxada na manteiga. Falava baixinho sobre alguma coisa ou sobre alguém e de olho no olho feito galo de briga – sem briga. De repente, no arremate dum detalhe, o rapaz, em sinal de reserva reservadíssima, requisitou o ouvido esquerdo da moça, se reclinou por sobre a mesa e cochichou alguma coisinha… um fiapozinho de cochicho refogado em risadagem. Pronto: foi o puxão do quá-quá-quá do almoço. Aí a mulher começou:
– Quá-quá-quá-quá-quá!
E o rapaz:
– Quáhhhh-quáhhhhhh-quáhhhhhh-quáhhhhh-quáhhhhhh!
E a moça:
– Quá-quá-quá-quá-quá!
E o rapaz:
– Quáhhhh-quáhhhhhh-quáhhhhhh-quáhhhhh-quáhhhhhh!
E a moça:
– Quáhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh-quá-quá-quá-quá!
Eu tou dizendo só três porções de quá-quá-quás, mas é pra não gastar papel.
Aí, num respirar profundo, o cabra botou ri-ri na boca e deu um sério militar no assunto. A moça, sem freio e sem embreagem, fez do sério um tobogã e desceu de quá-quá-quá:
– Quá-quá-quá-quá-quá!
Numa fala puxativa de freio-de-mão, o rapaz disse:
– Isso é qué ser besta!
E a moça:
– Quá-quá-quá – e outras expressões quá-quá-quativas”.
No moído do ataque e querendo se desculpar. Ele virou-se pra mim e disse:
– Isso é qué ser besta, nenão???
E eu de voz de peixe… Calado.
Daqui a pouco, a mulher começou a dizer “AI!!!”. Mas não era “AI” de dor, não. Era AI de cansaço; cansaço mesmo: estômago-gargalhativo com espasmos de quá-quá-quá. Deu de garra dum guardanapo, e fez dele pano-de-face, secando o córrego lacrimogêneo.
Não tendo mais quá-quá-quá para quá-quá-quar, pediram a conta e saíram quá-quá-quando aos solavancos… Felizes feito um cego brindado à visão perpétua.
Não-sei-o-que-é-que-eu-tenho
Pra gostar tanto de leite
Minto!
Eu sei:
É a cor; é o cheiro; é o sabor.
Minha mãe já me dizia:
“– Sente aí um bocadinho,
Que eu vou esfriar o leite…”
Tudo com leite é deleite.
Desde quando vinha vindo
Da madrugada pro dia
Com seu anúncio leitoso
Na voz do entregador:
Óh o leite!!!!
E o branco-branco em cascata
Derramava-se em natura
Do pescoção da botija
Pro caneco medidor.
Do caneco pra panela
E por fim pra caçarola
Decantando a fazendola
No fino pano do leite.
Bem que a gente deveria
Postar em boa moldura
O algodãozinho asseado
Desse pano coador
E preservar nessa tela
Os ciscos da vacaria
Digitais do dia-a-dia
Marquinhas de interior.
A casa era tão pequena
Que nem sequer tinha lá dentro
Tudo vinha do lá fora.
As portas eram caducas
Paus cansados e rachados.
Na janela, um galo esperto
Um emoldurado cantante
Avisando ao viajante:
“– Nessa casa aqui tem gente!”
Vinha gente dos lá fora
Cantarolando, bradando
Sem nenhum palavrear
Uns versos longos sentidos
Sonorizando vogais:
Ôhhh! Ôhhh! Ôhhh!
Êhhh! Êhhh! Êhh! Êaaah!
Depois um solene “boi!”
Êh, boi! Êhhhhh, boi!
No fim assinando:
Ahhhhhhhhh!!!
Meu cumpade, o que eu escuto
Derna de pequininim
É que o Brasil brasileiro
Pra sair dos atoleiro
Tá faltando tanto assim.
Tá faltando tanto assim
E nós tudo se afogando
Os doutor de vez em quando
Corruto, dos bigodão
Corre pra televisão
Beija os pobre, dá risada
E anuncia a chegada
Da Taba da Sarvação.
E grita os povo na rua:
– Foi o fim dos militar!
Já podemo festejar
O fim da submissão!!!
É bandeira dos partido
Correndo de mão em mão:
– Bem que aquele home disse
Que a gente se assubisse
Na Taba da Sarvação!
Com pouco mais tá de novo
O povo desmiolado
Satisfeito isprivitado
Folgado nas alegria:
– Foi um tá de Anistia
Que sortou-se da prisão!
Vi dizer que o home é quente
E agora chegou pra gente
A Taba da Sarvação!!!
Mas nem demora de novo
Os povo torna a gritar
Um tá de “Direta Já”
E “Agora o Brasil Mudou”
“Já temo os Doutor
Nos destino da nação!
Vamo acabar com as greve
Que agora é Tancredo Neve
A Taba da Sarvação!”
O amor, quando é maduro e bem- gostado, é feito bambu de lagoa: pode envergar, mas não tomba.
Ouvi dizer que paixão
É um salto duplo e mortal
De um amor aventurado
Pulando em riba um do outro
Às cegas e embriagado.
Paixão blu-blu-amoreco
Paixão pom-pom vermelhado
Paixão bolinho-com-Fanta
Paixão xaxim-aguado
Paixão arranca-porteira
Paixão do quengo-virado
Paixão ninho-de-vexame
Paixão demônia, vulcânica
De brasa, de gamação
Contramãozinha-em-paixão
Paixão de baú guardado.
A nossa era pura e alva
Feito delírio de lírio
De fuloreio nevado:
Um letreirão luminoso
De branco sebo-lavado
Com graça, luz e perfume
Sem voragem de ciúme
Sem desfavor, sem pecado.
Mas num regaço de um dia
O marimbondo da cisma
Trouxe um ferrão venenado:
Brigamos de teimosia
E ouvi daquela Maria
Este toró macriado:
“Paixão é feito fumaça
Embaça o zói e sufoca
Quando da fé, ela passa!”
Ao ver suas nádegas gêmeas
Por capricho se afastar
Meu picadeiro da insônia
Tornou-se sala-de-estar.
Eu era casca de alpiste
Fora do cocho, assoprada
Imprestável pra semente
Pra bico da passarada
E ela, uma margarida
Dessas de plástico sem vida
De folha dura aramada.
De corpo manco, incompleto
Inflei meu orgulho reto
Pra disfarçar meu saci
Me aboletei na boleia
Duma marinete véia
Que transporta o Cariri.
Mas, no agá do vambora,
Sem nem saber pr`onde ir
Chegou em riba da hora
Com mil nasceres de aurora
Uma carta de peraí.
Do jeito que a vida vem eu me agrado. E me agrado mais ainda com as lembranças confeitadas do passado. Uma delas é aquele cheirinho da lancheira do meu tempo de criança.
Ah, se minh`aula retornasse
Pro giz da minha infância
Pro meu caderno encapado
E o meu nome escancarado:
EU, Primeiro Ano A.
Ah, Primeiro ano A!
A professora: “Bom-dia!!!”
A bolsa, a banca, a folia
A turma do dia-a-dia
A lei da Diretoria
A sineta, a correria
A hora de merendar…
Ah, se minh`aula retornasse
Pro meu recreio de infância:
Pro ritual da lancheira
Da merenda corriqueira:
O copo – irmão da garrafa
O bolo, o ponche, a toalha,
Goiaba, biscoito, pão…
Não há no mundo dos cheiros
Na mais antiga distância
Cheiro melhor que a fragrância
Dessa lancheira de infância.
Não há no reino das cores
Nos arco-íris, bandeiras
Nos frutos das romãzeiras
Amora, amor que avermelha,
Um rubro mais colorido
Que o tom da minha lancheira.
Enganam-se os poetas
Trovadores, seresteiros
Que celebram Chão de Estrelas
Versejando sem razão
Ao dizer, de vão em vão
“Que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão”.
É não!!!
A mais doce ventura desta vida
É a lancheira, os recreios e a lição.
“…no sería hora, de que
iniciáramos una amplia
campaña internacional por
los izquierdos humanos?”
Mario Benedetti
Poeta e escritor uruguaio
O cabôco pode ter todo defeito do mundo:
Ser assoprador de velas antes do parabéns
Aborteiro do amor
Cacundeiro de político
Pode ser desmancha-samba
Dizedor de palavrão.
Pode ter vício, desvio:
Ser tomador de cachaça
Putanheiro, maconheiro
Vivaldino, fanfarrão.
Ter tido uma desventura: Ser corno dum mulherão.
E também ser diferente: um domador de serpente
Mais pra lá do que pra cá, peneirinha, chibateiro.
Apoucado de tamanho:
Metade de Nelson Ned
Ou mesmo um caga-baixinho.
Mulher pode ser:
Megera, concordante, oferecida
Moita-crespa ao deus-dará
Ser tabaco-militar, das que só pega soldado.
O cabôco ser machista, moralista, de direita…
Não interessa:
Têm todo o esquerdo do mundo
De ser tratado dentro do vão dos direitos.
Pois o lado direito de quem olha
É o lado perfeito e benfazejo
Do esquerdo e sensível coração.
No interior, o carro de mudança de móveis é chamado de andorinha. Lá vai a andorinha!
O poema Caminhão de Mudança é o retrato puro e versejado de uma mudança partindo de seu torrão.
Vai pela estrada um caminhão repleto de mudança
Levando a herança de herdeiros de poucos herdados:
Os engradados de uma cama finalmente em pé
Arca e Noé prisioneiros desse estaqueado
Encaixotados os tecidos, mimos e quebráveis
E os incontáveis cacarecos soltos remexidos
Dois falecidos num retrato olham pra paisagem
Guardando imagens e lembranças dos seus tempos idos.
Um velho espelho já trincado mostra o azul do céu
E o mundaréu ensolarado se faz de carona
Uma meia-lona sobreposta com o melhor arrojo
Se faz de estojo pra relíquia da velha sanfona
Uma poltrona escancarada de pernas pra cima
Fazendo esgrima com cadeiras, bancas e tramelas
De sentinela dois pilões de bojo carcomido
E um retorcido pé de bucha de flor amarela.
Em dois colchões almofadados dorme a bicicleta
E duas setas de uma caixa mostram dois achados:
Um emoldurado de retrato com um Jesus sereno
E o último aceno de saudade de um cortinado.
Desbandeirado segue o carro rumo a seu destino
Um peregrino pitombado de grande esperança
Vai, na boleia, um passageiro carregando sonhos
Vai, na traseira, dez carradas de velhas lembranças.
Poema desenvolvido a partir duma visão poética repassada pelo cumpade David Sento-Sé.
De morreres de amores tu fingiste
Meu juízo pacífico alopraste
Meu castelo de sonhos tu ruíste
Meu chuvisco sereno trovoaste
Meus colchetes do peito tu abriste
E os passeios venosos, pressionaste
Se os meus doze por oito tu subiste
Minhas fibras cardíacas enfartaste.
O sofrer de minh`alma tu poliste
Contra teu próprio sangue guerreaste
Baionetas e adagas preferiste
Meu cachimbo da paz tu apagaste.
Nossos trilhos dormentes dividiste
Nossas camas sedosas encrespaste
Nossos vinhos e jantas consumiste
Teus caninos rangentes palitaste
Quietude e sossego sacudiste
No motim que tu mesma deflagraste
Uma estátua de ódio esculpiste
Na avenida, que, sem pudor, barraste.
A bandeira nordestina
É uma planta iluminada
É qualquer raiz plantada
Mostrando o caule maduro
E quando o sol varre o escuro
Com luz e sombra no chão
É quando germina o grão
É quando esbarra o machado
É quando o tronco hasteado
É sombra pra o polegar
É sombra pro fura-bolo
É sombra pro seu-vizinho
É sombra para o mindinho
É sombra prum passarinho
É sombra prum meninote
É sombra prum rapazote
É sombra prum cidadão
É sombra para um terreiro
É sombra pro povo inteiro
Do litoral ao sertão.
Essa bandeira que eu falo
Tem cores de poesia
Tem verde-folha-voada
Amarelo jaca-aberta…
Em tudo que é vegetal
Tem bandeira desfraldada
No duro da baraúna
No forte da aroeira
No panejar buliçoso
Das frondosas das bananeiras
Nas bandeirolas dos coentros
E na marca sertaneja:
O rijo e forte umbuzeiro.
Trupizupe oia tu num me assusta
Com a fama da tua valentia
Porque esta macheza é freguesia
E até nem me parece tão robusta
Uma boa palmada não me custa
Pois no fundo eu te acho delicado
Se tu és um valente escolado
Eu quebrei no cacete a tua escola
O teu mestre saiu de padiola
E teu supervisor invertebrado.
No jardim da infância eu fui valente
E o nome da escola era bufete
No primário estudei no canivete
No ginásio no bote de serpente
Como eu era um aluno inteligente
Logo cedo já tinha me formado
Lampião tinha sido reprovado
Por froxura e por falta de frieza
Hoje, pós-graduado em malvadeza,
Vendo pena de morte no mercado.
Eu sou topada de unha encravada
Sou gilete no mei do tobogã
Sou o flagra da foda no divã
Sou feiúra dum talho de inchada
Sou um choque no furo da tomada
Sou ferrugem na agulha de injeção
Sou judeu se vingando de alemão
Cata-vento voando num comício
Sou a falta de droga num hospício
Queimadura de larva de vulcão.
Sou rolo compressor desgovernado
Libanês dirigindo um carro-bomba
Sou uns 300 quilos de maromba
Despencando do braço levantado
Sou carrasco esperando um condenado
Sou a queda fatal da guilhotina
Metralhada cruel de uma chacina
Marretada no dedo polegar
Eu sou o fósforo acesso pra fumar
Que explodiu o tambor de gasolina.
A bandeira nordestina
É uma planta iluminada
É qualquer raiz plantada
Mostrando o caule maduro
E quando o sol varre o escuro
Com luz e sombra no chão
É quando germina o grão
É quando esbarra o machado
É quando o tronco hasteado
É sombra pro polegar
É sombra pro fura-bolo
É sobra pro seu vizinho
É sombra para o mindinho
É sombra prum passarinho
É sombra prum meninote
É sombra prum rapazote
É sombra prum cidadão
É sombra para um terreiro
É sombra pro povo inteiro
Do litoral ao sertão
Essa bandeira que eu falo
Tem cores de poesia
Tem verde-folha-avoada
Amarelo-jaca-aberta
Em tudo que é vegetal
Tem bandeira desfraldada
No duro da baraúna
No forte da aroeira
No bandejar buliçoso
Das folhas das bananeiras
Das bandeirolas dos coentros
E na marca sertaneja:
Oh morena, oh moreninha
Deixa de morenação
Larga dessas invenção
De nós dois sozim ficar
Mode evitar confusão
Larga dessas invenção
Pense da zabumbação
E se teu pai desconfiar?
E vai que tu pega enxaqueca
E vai que eu sou bom de curar
E vai que tu arrisca um verbo
E vai que eu saiba verbiar
Vai que eu vire flecha doida
E vai que tu quer se flechar
Vai que tu seja espoleta
E vai que eu seja um malagueta
Feito goela de dragão
E vai que tu vem toda bela
De laço e fita amarela
Vai que tu se passarela
Vai que eu seja o rés do chão
Vai que tu arriba a saia
Vai que eu veja o essenciá
Vai que tu pede embreagem
Vai que eu saiba debrear
Vai que tu venta pro norte
Vai que sou todim jangada
Vai que eu seja um taboleiro
E vai que eu seja cocada
Vai que tu se enrouxinó-las
Vai que eu seja passarinho
Vai que eu saia da gaiola
Vai que amostre o ninho
E vai que tu sois moça anja
Vai que eu seja um pecador
Vai que tu sois gozo eterno
Vai que eu sou rojão do amor
Vai que teu ?ui ui, meu bem?
Acorde o véi roncador
Vai que esse véi grite brabo
Com o revolver no meu rabo: