FELICIDADE A R$ 11 MIL

Pesquisa feita pela Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, apurou que renda acima de R$ 11 mil reais não influi sobre a taxa de felicidade pessoal.

A matéria está na Folha de São Paulo, de hoje, página A 13. Acentua que “não ser pobre faz diferença no grau de bem estar, mas dinheiro perde efeito após certo valor”.

O estudo é sério, coordenado pelo prof. Daniel Kahneman, vencedor do prêmio Nobel de economia, em 2002. Para ser feliz, o importante não é ser rico, mas não ser pobre. A base do trabalho é ampla: mais de 450 americanos foram entrevistados.

Segundo o estudo, gente solitária se sente infeliz em relação a quem tem companheiro. Por outro lado, vai tornando-se mais feliz quem está envelhecendo. Aparentemente porque aprende a lidar melhor com as dificuldades.

O fator religioso é importante para o bem estar, de acordo com a pesquisa. Quem vai à igreja faz amigos, tenta compreender questões difíceis que afetam as pessoas. É o primeiro fator no ranking de uma lista de sete itens.

Aí vão eles:

Fatores que trazem felicidade        Fatores que trazem infelicidade

1. Ser religioso                                Sentir solidão
2. Ganhar mais de 6 mil/mês          Ter dor de cabeça
3. Não ser jovem                             Ter problema de saúde
4. Ser casado                                    Ser fumante
5. Ter plano de saúde                       Sustentar alguém da família
6. Ter filhos (e digo eu, netos)        Ser obeso
7. Ter curso superior                          Ser divorciado

Tenho certeza de que a nação fubana ocupa majoritariamente a coluna da esquerda. Boa tarde.

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ALÉM DO AZUL

São nove horas da noite. A janela fechada encerra no ambiente o minueto de Borodin. Abro a janela desta minha 12ª laje. O rumor urbano bate no meu rosto como um tapa. Continuo dando minha cara. Porque preciso do ar da maresia. E necessito enxergar melhor o escuro véu da noite.

Não consigo distinguir, na linha do horizonte, o que é mar, o que não é. Sinto que sou olhado por ele, o mar, no seu rosnado perpétuo. Vejo apenas duas pequeninas luzes, longe. Piscando, pescando. E uma antiga armação de ferro, chamada navio, ancorada no destino, iluminada e triste.

Pego, ao acaso, na estante, uma edição da Divina Comédia, de 1978, de Dante, o florentino. Traz uma apresentação preciosa de Oto Maria Carpeaux. Começo a ler sem deixar de escutar, agora, o adágio. Diz ele que todo ano relê a obra. Que ela faz parte de sua experiência de vida. Acompanhando o poeta na viagem pelos três reinos do outro mundo: Inferno, Purgatório e Paraíso.

Segundo Carpeaux, que sabia tudo, Dante foi o único leigo, não canonizado, ao qual se dedicou uma encíclica papal, em 1921, no seiscentésimo aniversário d e sua morte. Um crítico italiano disse: “Ler Dante é um dever; relê-lo é uma necessidade”. O Inferno de Dante é real.

Seu Paraíso é ficção científica da Idade Média. Com uma diferença: hoje, ficção científica é tecnologia. Em Dante, ela era “luz intelectual, cheia de amor”. Seu realismo carrega o humorismo. Pois sem humor ninguém agüenta a realidade. Tanto que ele nomeia os diabos com nomes engraçados: Alichino, Barbaricia, Rubicante, Farfarello.
Um administrador lúcido mandou colocar, em ruas de Florença, azulejos de mármore com dizeres sobre a história da cidade. Os dizeres são versos de A Divina Comédia.

À falta de outro mais próximo, recorro ao paraíso Dantino para reinaugurar esta noite que irá além do azul:

“O poeta e Beatriz se alçam ao céu atravessando a esfera de fogo. Vencem o próprio peso e sobem. Atraídos pelo invencível amor. A terra está no centro do Universo e, em redor dela, em órbitas concêntricas, os céus da Lua, de Mercúrio, de Vênus, do Sol, de Marte, de Júpiter, de Saturno, a oitava esfera, que é a das estrelas fixas. Aparecem os espíritos bem aventurados que, quando vivos, possuíram a virtude própria do respectivo planeta”.

Boa noite. 

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AMOR E SEXO

Tive a sorte de assistir o nascimento da bossa nova em 1960. No berço das areias de Copacabana. Estendido, até as madrugadas, no Beco das Garrafas (atualmente, lá, encontra-se a Livraria da Bossa Nova).

Foi uma mudança de tom e de ritmo: saiu a dor de cotovelo e entrou barquinho, saudade e mar. Saiu a voz tenorizada e entrou o intimismo de João. Modernizava-se o país, industrialização, alegria da Copa de 58, otimismo JK. Pra completar, um som moderno.

Penso que esta será uma das diferenças entre o ar brincalhão do brasileiro e o sentimento nostálgico do argentino: a música. É que eles não conseguiram sair do tango. Exceção à arte do bandoneon de Piazzola. Ainda assim inovadoramente tristonha.

Pois bem: depois da onda de Jobim, Vinicius, Bôscoli, Nara, Tamba Trio, Newton Mendonça, Zimbo Trio, vieram Chico Buarque, Caetano e Gil. Eles iniciaram a década dos 70 com intensa criatividade. E produziram uma revolução de conceitos, transformando letra em poesia e música em hino. Em favor da beleza, da diversidade cultural e da democracia no país.

Então, com os anos 80, chegou a roqueira, Rita Lee. Uma parceria perfeita com seu companheiro Roberto de Carvalho. As arquibancadas de ginásios, por todo Brasil, balançavam ao som do rock brasileiro.

Por que me lembrei dela, logo agora, nesses idos de 2010 ?

Simples: a dupla tem uma canção chamada Amor e Sexo. Está num CD que encontrei, por acaso, vasculhando estantes de disco numa dessas tardes recifenses. Conhecia muita coisa da roqueira. Mas, não, Amor e Sexo. Escutei. Um espanto, a atualidade da letra. Uma notável lição para jovens de hoje. Que banalizam o amor e tornam vulgar o sexo.

Vejam só:

Amor é sorte, sexo é esporte.
Amor é novela, sexo é cinema.
Amor é prosa, sexo é imaginação.
Amor é cristão, sexo é pagão.
Amor é atitude, sexo é invasão.
Amor é divino, sexo é animal.
Amor é pra sempre, sexo também.
Amor é do bem, sexo é do bom.
Amor sem sexo é amizade, sexo sem amor é vontade.

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QUEM SALVA DILMA

O PMBD até Ulysses Guimarães era republicano. O PMDB pós Ulysses tornou-se uma federação de oligarcas. Estende um manto de clientelismo de São Paulo, com Temer, ao Pará, com Jader Barbalho, passando pelo Maranhão, de Sarney, e pelas Alagoas, de Renan. 

Sua especialidade é drenar verbas e sugar cargos no organograma federal. Para abastecer de votos suas bancadas na Câmara e no Senado. E, por essa via, pressionar o governo e torná-lo refém da política do atraso. 

Esse é o lado inexpugnável da política brasileira que Lula não teve disposição para enfrentar. Faltou-lhe talvez experiência, talvez coragem. Mas, chance teve. Porque somou dois mandatos.

O que fará Dilma com o PMDB ? Ela não tem a experiência política de Lula. E, por isso, parece ser mais ousada do que ele. Menos paciente. Dizem que deu bronca até em colega ministro. 

O Estadão, de ontem, informa que o PMDB vai exigir, entre outras, assento na reunião das nove, ministérios de porteira fechada e representação em empresas estatais. Vai cobrar governo dividido, diz o jornal.

Muito bem. O que fará Dilma ?

Olhando essa paisagem por outra perspectiva, é possível lembrar que PT e PSDB nasceram, nos anos 70 e 80, com igual DNA político. Ambos social democratas. O PT acentuando as bases operárias e o sindicalismo. O PSDB ressaltando políticas de mercado e agências reguladoras. Mas, ambos, com vocação para políticas sociais. Tanto que o Bolsa Família de Lula se originou do bolsa escola de FHC. Lula fez, muito bem, o que politicamente FHC não soube realizar.

O natural era que PT e PSDB, à esquerda do espectro partidário, se tornassem aliados. Distantes ou próximos, mas juntos numa coalizão de governo. E, à direita, se situassem DEM, PTB, PR, e os demais Partidos que defendem (ao menos na retórica) o liberalismo.  Por que não é assim ?

Porque, paulistas na origem, PT e PSDB se tornaram adversários em São Paulo. As disputas paulistas entre Lula, Suplicy, Mercadante, de um lado, e Covas, FHC, Serra, de outro lado, afastaram nacionalmente os dois Partidos.

Agora, o PMDB quer, na gestão Dilma, renovar a cláusula de refém que impôs aos governos FHC e Lula. O que fará Dilma ? Ela não é paulista, nem tem a paciente tolerância de Lula. Quem pode salvar Dilma das garras clientelistas do PMDB ? O PSDB. Recuperando um cenário mais coerente de estatuto político. E tornando o PMDB relativamente menos importante. Política é a arte do possível.

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A CHUVA QUE VEM

Acordo com os sons de um sábado sem nenhuma solenidade. A não ser o vôo de gaivotas imaginárias que chegam pertinho à minha décima segunda laje.

Talvez venham me trazer notícias d’África. Talvez não. Possivelmente tragam aviso de chuva próxima. Levanto a vista e olho a barra do horizonte. Sim, escura como a cortina que encerra o primeiro ato da manhã. O vento sopra, crescente, contra o vidro. E seu assovio, que cresce e diminui, nasce por improvável fresta.

Tomo o primeiro gole de um café forte que aprendi a fazer a meu gosto. Junto, uma porção de pasta de queijo sem gordura. Vejo a manchete do jornal sobre a mesa. Não, não quero a realidade das ruas, idas e vindas de um coletivo que sofre e pede, que ama e se engana, esgana o cotidiano em perdões silenciosos.

Quero esta manhã singular, esta presença ausente de uma pele clara e quente. Quero esta solidão amiga feita de objetos conhecidos: a tela de Scliar (companheira de trinta anos), o CD de Rachmaninov, o computador (novo antigo colega de trabalho), o livro de Paulo Mendes Campos.

Abro, ao acaso, seu Poemas, na página 137, que tem marcas do tempo:

“Há muito, arquiteturas corrompidas,
Frustrados amarelos e o carmim
De altas flores à noite se inclinaram
Sobre o peixe cego de um jardim”.

Sim, isto eu quero, a palavra exata, o observatório da esfera interior que apreende o sentir. Sem nada mais, com exceção da visão rara, escolha minha, faço minha liberdade.

Volto a olhar a paisagem. O vento amainou, a chuva passou, posso agora enxergar o mar íntegro, compacto, aberto às afirmações de um quase velho do Restelo. A evolução do piano, no primeiro movimento do concerto quarto, acompanha a calma do tempo.

O navio de quatro mastros, visto ontem, ancorado em si próprio, continua no mesmo lugar. O mesmo destino ? Marinheiros são pessoas diferenciadas, têm mãos calosas, coragem de lobos marinhos, saudades adormecidas. E não riem nunca. Só para mulheres fincadas nos portos como bandeiras brancas querendo paz. Após a santa batalha.

Vou-m embora, na estrada que preparei com grãos finíssimos de paciente amar. Não sem antes enrolar-me nos versos do Paulo:

“Que força de destino tem a carne
Feita de estrelas turvas e de nada !
Sou restos de um menino que passou”. 

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VALENTINA

Hoje é quinta feira, 12 de agosto de 2010. Dia de Valentina almoçar conosco. Acontece que Tiago vai levar Rafaela ao plantão às sete da manhã e, pronto, na volta, para pra tomar café conosco. E quem vem com ele ? Quem aparece na porta, de pijama e chupeta, segurando travesseiro na mão ?

Um raio de sol pernambucano, olhos espertos, no rosto claríssimo, e um jeito tímido de quem (não) sabe se entra ou sai, se vai ou fica. Você, Valentina. O pai entra, o avô espera, Ana (na sala) lhe chama. Você entra devagar, passa por mim. O pai diz:

- Olhe, vovô.

Você, nada. Fica parada entre pai e avô. Você é parada. Tomo a iniciativa de lhe tomar nos braços. Levo vc. até Ana:

- Bom dia, Ana, que bom que vc. já chegou. Agora, vamos dar bom dia a vovó Maria, que dorme.

Vc., querida, no seu dialeto afetivo, coloca o prefixo mi ao nome de todos de quem vc. gosta: mimamãe. Mipapai, mivovó, mivovô, miAna. Mas só dos próximos. Não lhe ouvi falar miXuxa. Nem mipatati. Ainda bem.

Hoje, resolvi dedicar a tarde a vc. Cancelei agenda, dentista e, depois do almoço, fomos de carro pro shopping. Mais precisamente, pro pula pula. Vc. entra e fica fascinada com tantos brinquedos. Mas, desta vez, por alguma razão, não quis brincar no pula pula.

Outra novidade: de manhã cedo, na cama de seus pais, vc. não se cansa de cantar. A plenos pulmões. De tal modo que, entrando na cozinha, já escutamos sua voz. Na verdade, um pout pourri de canções que vc. ouve nos CDs infantis. E soube que repetiu a audição na sala de espera da pediatra. Não sei se há, aí, uma vocação de soprano.

E quando eu tomava meu chá das três, vc. veio, lhe botei no colo, molhei torradas no chá e vc. terminou dividindo comigo a xícara. Melhor assim do que café. Antes, sua vó Maria lhe deu um tijolinho de chocolate. Soube que vc. adorou. Eu também adoro.

Deixamos vc. em sua casa. E tive a certeza de subscrever o poema de Paulo Mendes Campos:

 “Meu sonho, breve emoção, a tarde deitada no limoeiro,

Paralelas de aço se agarrando no longe.

Há muito tempo que fui infeliz

E desconhecia meu corpo embrulhado nas vestes”.

Seu avô, LO.

OFERTA

Neste sábado inconcluso, vejo a noite descer sua cortina sobre minha laje. A décima segunda laje, de onde espio o horizonte, aberto como teus olhos. E enxergo pescadores navegarem a ventura do mar.

Aprendi a usar o sábado em meu favor. Convidaram-me pra dar aula. Recusei. Quiseram que participasse de reuniões de colegiado. Neguei. A esta altura do jogo, amadurecido no território de um outono afortunado, faço o que gosto. De corpo e alma.

Enxergo o sábado como uma dádiva. Que recebo como paga de muito trabalho. Devendo, portanto, ser bem apropriado. Não se vive um sábado como quem não tem nada a perder.

Sábados tanto são decorativos como utilitários. São decorativos na paisagem que inunda de luz minha janela. Gaivotas imaginárias voam baixo e me dão bom dia. Botos invisíveis avisam que o mar lhes continua receptivo. Mesmo com a parede serrana, cinza, que as chuvas recentes colocaram no ar, sábados são coloridos.

E são utilitários. Posso tomar o carro e dirigir “sem a pressa que aniquila o verso”. Ouvindo meus pianos favoritos. Posso descer do carro, pedir água de coco só pra ver as moças passarem. Apressadas umas, distraídas outras, equilibradas todas. Da cabeça aos pés. Posso passar na casa de minha neta, Valentina, e ver o futuro sob a forma de um tesouro, cabelos fartos, encaracolados, presos no alto deixando iluminado o rostinho claríssimo.

Posso também ler, ao acaso, trechos de um poema de Paulo Mendes Campos:

“flores amarelas levadas pelo vento Maria
(…)
Pelas fímbrias de teu húmus / pelos reclames dos sumos / sobre as umbelas pequenas / de tuas tensas verbenas / fui me plantando”.
(…)
Pelas atonalidades das perpétuas / das saudades / pelos goivos de meu peito / pela luz do amor perfeito / vou te buscando”.

De uma forma ou de outra, colho flores neste sábado como quem cuida de um jardim íntimo, pessoal. Para oferecê-las a ti, Maria, junto com quarenta anos de rendada convivência. 

 

COMO SUBIR A ESCARPA

Após vinte e poucos dias de férias, volto ao meu posto de observação. Quase inteiramente azul. Estou defronte do mar na vigia desta sexta feira. Jangadas recolhidas, a espuma das ondas avisa que amanhã é outro dia pra navegar.

Na minha caixa de entrada, recebo carta escrita aos amigos por Gabriel Garcia Marquez. O escritor luta contra um câncer. O sofrimento torna as pessoas mais próximas da dor. E do pensar. Ele se diz um marionete de trapos que talvez não tenha aproveitado o tempo como poderia ter aproveitado. Com mais intensidade, mais emoção.

Ele acentua que podemos apreciar as coisas não pelo que elas valem. Mas podemos apreciá-las pelo que elas significam. Pra quem dá e pra quem recebe. Diz também que, se Deus lhe desse mais um pedaço de vida, sonharia mais e dormiria menos.

Sentencia: não se deixa de enamorar porque se envelhece, mas envelhece-se quando deixa-se de enamorar. E conclui: a verdadeira vida está na forma de subir a escarpa.

A carta do grande escritor me lembra um hábito que temos. Dizemos sempre que precisamos tirar férias, olhar a vida, botar arte e cultura na agenda. Por que não fazemos isso naturalmente, no cotidiano ? Por que não botamos açúcar, ou mangaba, ou um tinto, no dia a dia ? Por que não amenizar a dureza do diário com a leveza do gesto e da paisagem ?

Daí, percebi que, sem querer, quase diariamente fico olhando o mar, na amizade de seu imenso silêncio. E recolho dele lições de paciente ficar. E percebi também que, querendo muito, diariamente, visito minha neta, Valentina. E com ela, no aconchego do sol que cobre nossas manhãs companheiras, renovo as cores de meu outono.

Boa tarde, respondo á brisa que saúda minha volta a esta 12ª laje. 


 

SÉRIE COPA 2010: PORQUE O BRASIL VOLTOU PRA CASA (FINAL)

A seleção brasileira voltou pra casa porque o técnico Dunga comandou os jogadores na base do temor. O temor é irmão gêmeo do descontrole. Foi o que aconteceu quando o Brasil se viu em desvantagem no placar de 2 a 1. Descontrolou-se.

O técnico estabeleceu um regime disciplinar em que dominava a autoridade e não a cooperação. Em que imperava a força física e não o talento. Ele tentou substituir o tempero brasileiro, alegre, solto, por uma mistura pré histórica e anti cultural.

A falta de controle emocional de Felipe Melo, chutando um adversário caído, e de Robinho, irritadiço e exaltado, são a contra prova do estilo desatualizado do técnico.

As opções de Dunga foram sempre desatualizadas. Tanto do ponto de vista do clima psicológico, que o técnico não soube criar como espaço propício à participação construtiva. Ele optou pela hierarquia fria e anti brasileira.

Desatualizada também do ponto de vista tático, que o técnico não quis adequar ao legítimo talento criativo do jogador brasileiro. Ele escolheu a força física e pobre dos que, ao invés de jogarem, pisam os adversários.

O jogador brasileiro não teve chance na seleção de Dunga. Ronaldinho Gaúcho não foi convocado, Ganso ficou na lista de suplentes e Nilmar só entrou na agonia. A oportunidade da seleção de Dunga foi para uma natureza futebolística que não é a nossa.

A seleção de Dunga era a negação do Brasil. Porque o Brasil é descontraído, comunicativo, inventivo e imaginoso. Ele não admitia nada disso. Ele queria a ordem, a disciplina, o silêncio e a força física.

A maneira como Dunga agrediu jornalistas e como se isolava nas palavras mostrou que ele não tinha segurança na forma como conduzia o grupo. Porque o líder seguro é confiante. Não agride, dialoga, não ataca, tenta compreender para agir.

O descontrole é irmão gêmeo do medo. Foi o que viu-se na seleção. Restaure-se o espírito de Brasil, recupere-se o talento e a alegria. Seleção é cultura, não é ditadura. 


SÉRIE COPA 2010: SOU MAIS MARADONA (16)

Estilos de ser são produto da cultura. O brasileiro é alegre, aberto e mediador por causa da mescla entre índio, português e negro. O argentino é passional porque sua origem está na mistura de sangue espanhol e mouro.

Na música, por exemplo, confirmando a tese, a marca brasileira está no samba. Antes dos anos 60, o tema do samba canção era a dor de cotovelo, a traição amorosa. Após a bossa nova, a temática mudou para a leveza falando em mar, amor e vida.

Já o que distingue a música argentina é o tango. Tipo de música mais lento e caracterizado pela melancolia. Embora renovado por Astor Piazzola, o tango moderno não perdeu o ar de quem arranca das entranhas gritos de dor. Com a beleza melódica que só Piazzola sabia produzir.

Na literatura, a continentalidade brasileira faz com que possamos apresentar o sabor urbano de Clarice Lispector, a cor regional de Rachel de Queiroz e a precisão mineral de João Cabral. Os argentinos exibem a universalidade severa de Jorge Luis Borges.

Os brasileiros se reúnem ao sol, nas praias do Nordeste e do Rio, bebendo cerveja e contando a ultima piada sobre o governo. Os argentinos se concentram nos restaurantes em torno de suas magníficas picanhas, lamentando o último desacerto do governo.

E no futebol ? No futebol da Copa de 2010 ? Eu escrevi, em crônica anterior, que sou cidadão sul americano. Antes de classificarmos todas as seleções do continente para as oitavas de final. Sou Argentina contra qualquer seleção européia. E sou Brasil contra a Argentina.

Pois bem: esta Copa está mostrando um superstar. Não é Beckham, nem Drogba, nem E’too, nem Messi. Chama-se Diego Maradona. Com a soberba cheia de inteligência e uma alegria perfeitamente brasileira. Faz caras e bocas para as câmeras e beija seus jogadores. Ouve seus pupilos e toma as decisões que quer.

E mais: autorizou as famílias dos jogadores a viajar e hospedar-se perto da concentração argentina. Permitindo visitas de mulheres e filhos aos jogadores entre sete e nove da noite.

Tenho a impressão de que Maradona, após ver tanto os brasileiros, aprendeu conosco. Incorporou nosso bom humor, assimilou nossa capacidade de interagir com as pessoas. Enquanto isso, Dunga, de tanto olhar os argentinos, passou a imitá-los. Com exagero de palavrões. Sou mais Maradona.

 

SÉRIE COPA 2010: PORTUGAL, MEU AVÔ (15)

O estilo de jogar do brasileiro não é um fato solto, isolado. Está no contexto da cultura brasileira. Da mistura étnica que vem de índio, mais tempero português, mais alegria negra.
 
Somos flexíveis e mediadores. Na empresa, nos escritórios, nas artes. Coloridos na pintura, assimétricos na escultura. Somos plásticos na capacidade de negociar o estresse da competição empresarial. E no talento de driblar nos gramados internacionais.

Futebol mulato, como disse Gilberto Freyre. Que é surpresa, manha, astúcia, ligeireza, espontaneidade. Como quem respira e faz o que sabe. E sabe o que faz.

“Futebol flamboyant” que desliza suave e silencioso entre dois adversários, ou nas costas do zagueiro, ou ainda no passe longo que coloca o artilheiro frente a frente com o gol.

Futebol brasileiro é assim porque está numa matriz antropológica onde também se encontram o sambista e o frevista. Os bailarinos da bola estão próximos dos bailarinos sambistas que trocam os pés como Robinho pedala. Os bailarinos da bola estão perto dos bailarinos de frevo que saltam e aterrisam com a mesma imaginação de Pelé.

Se os europeus são angulares, sejamos redondos como a bola. Se eles são simétricos, sejamos alegóricos como as torcidas. Se eles produziram o WM, vamos de mulatismo criativo. Se fizermos como os europeus fazem, estaremos negando o Brasil.

Continuemos a ser o que sempre fomos, imaginosos e dribladores. Colocando a criatividade na ponta dos pés. E o jogo alegre e solto na cabeça. Sejamos brasileiros. Na mente, na jinga e na ofensividade.

O jogo contra Portugal foi a negação do Brasil. Foi um não ao Brasil semeador e inventivo soprado nas vuvuzelas de Dunga. O modelo Dunguiano, europeu, rígido, hierático, está bichado. No segundo tempo, os jogadores brasileiros pareciam múmias enfaixadas no medo de errar. Medo do capataz.

A patética troca de passes laterais foi o testemunho opaco de um time sem vida e sem voz. Jogando de cabeça baixa e visão estrábica com temor do carão do zangado. A seleção brasileira sofre de um mal da alma: está medrosa. Não teme os adversários. Teme o descontrolado treinador.
 
Volta, Brasil, a ser o que sempre fostes, o que és. 

 

SÉRIE COPA 2010: DESCONTROLE (14)

O desempenho da função de liderança em qualquer organização requer algumas qualidades. Uma delas é o auto controle de quem comanda. Por que ?

Porque o líder, sendo referência, como é, será sempre destino do olhar dos demais. O líder deve dar exemplo de atitudes e iniciativas. E o líder, nesse contexto, deve mostrar a segurança do ser e o domínio do fazer que inspiram a confiança dos liderados.

O maior exemplo de liderança no século 20 talvez tenha sido dada por Winston Churchill, primeiro ministro inglês na II Guerra Mundial (1939/1945). A Inglaterra encontrava-se debaixo de tremenda pressão dos nazistas. Os Estados Unidos não haviam decidido ainda entrar na guerra (1940). Pairava no ar certa incerteza quanto ao futuro dos aliados, principalmente da França (ocupada pelos alemães) e dos ingleses.

Para demonstrar ao mundo que estava determinado a lutar, Churchill chegou a bombardear três navios franceses, em portos africanos. Com mais de mil mortes de combatentes de sua aliada, a França. Com esse episódio e mais o célebre discurso em que prometia “sangue, suor e lágrimas”, Churchill atestou sua obstinada vontade de luta.

Mas todo esse vigor estava vestido por absoluto auto controle. Exibido nas falas ao Parlamento inglês. Escancarado nas conversas com seus generais. Aberto aos olhos famintos de confiança de seus compatriotas.

No futebol, o papel exercido pelos técnicos não será só o de orientar os jogadores. Mas será também o de mostrar a eles como se conduzir dentro e fora do campo. Dois exemplos podem ser lembrados: um, brasileiro, Carlos Alberto Parreira. Outro, alemão, Franz Beckenbauer. Para serem vencedores, como são, eles não precisaram xingar, nem agredir verbalmente jornalistas, nem ser pornográficos em público.

O técnico Dunga, com seu destempero e sua falta de educação, demonstra não estar habilitado ao exercício da liderança para que foi designado. A CBF poderia rapidamente proporcionar a ele dois cursos: um, de boas maneiras. Outro, de português. Para ele conseguir se expressar mais apropriada e corretamente.

Da maneira inconveniente como se comporta, Dunga está distorcendo um bem valioso que é patrimônio do povo brasileiro: a simpatia descontraída como ficamos conhecidos e que encanta a quem trata conosco.

 

SÉRIE COPA 2010: A QUEDA DA BASTILHA (13)

Meus amigos, como sabemos, a queda da prisão parisiense, Bastilha, tornou-se, no século 18, símbolo de liberdade. Foi o momento de agonia do Antigo Regime. E o grito de aclamação da Revolução Francesa.

Uma geração de políticos e agentes da realeza desapareceu tragada por novos tempos. Absorvida por novos conceitos. Substituída inexoravelmente por nova geração de defensores da República. Numa sucessão de movimentos políticos que ainda passaria por Napoleão III.

Assim seguiram-se os Luíses 14, 15, 16, os Napoleões, os Robespierre, os Danton, os Marat. Até a estabilidade de uma governança republicana só garantida na liderança de De Gaulle, no século 20.

O futebol atual da seleção francesa de Domenech lembra-me a história. Nos anos 60, os franceses tiveram um time forte que deixou marcas notáveis nos gramados: a era de Fontaine e de Kopa. Nos anos 80, a França contou com as inteligentes manobras de Michel Platini. No final dos 90 e começo do século 21, a seleção francesa teve a visão de campo e o domínio de jogo de Zidane.

Pois bem: findou uma geração de jogadores na França. Além de Zidane, estão se despedindo Thiery Henry e companhia. E quem os substitui ? A França tem menos da metade da população brasileira. Demograficamente a produção de craques lá será muito menos numerosa do que aqui. É o que começa a ficar evidente nos gramados da África do Sul. Os franceses empataram com o Uruguai, sem gols, e perderam para o México.

Outra equipe de tradição nas Copas, a Inglaterra, ainda busca um ponto de equilíbrio no seu futebol. Empatou em um gol com os Estados Unidos e ficou no zero a zero com a Argélia. Muito pouco para M. Rooney.

Dois times mostram bom esquema tático e preparo físico neste início de Copa: a Argentina, que ganhou duas vezes (1 a 0 contra a Nigéria e 4 a 1 contra a Coréia do Sul). E Holanda, que venceu duas vezes (2 a 0 contra a Dinamarca e 1 a 0 contra o Japão).

Mas, o fato mais claro nesta Copa é o nivelamento de preparação técnica entre as seleções. As distâncias táticas e físicas entre os competidores continuam a diminuir. A disputa tende a aumentar na média. Então, o diferencial vai ficar no talento individual.

Quem tiver Messi, Robinho e Higuaín que os proteja. 

 

SÉRIE COPA 2010: FUTEBOL CONGELADO (12)

O placar de 2 a 1 contra a noviça e inexperiente Coréia do Norte deixa a seleção brasileira buscando adjetivos. Capazes de justificar uma cesta de frutas de baixo paladar.

Senão vejamos:

1. Os chutes a gol de Luis Fabiano e Robinho foram todos às alturas.
 
2. Kaká não é a sombra do jogador talentoso que existia no verão passado e não cumpre a função que lhe é atribuída.

3. O meio de campo brasileiro, com Felipe Melo e companhia, olha a criatividade à distância. Não constrói nada além da pobreza previsível.

4. A armação tática de Dunga é rígida. Não observa as características do adversário. Para ele, jogar contra a Coréia (na retranca) vale escalar o mesmo time no jogo contra Portugal (mais aberto).

5. Jogar contra a Coréia significaria usar mais um atacante como meio de furar o bloqueio vermelho.

6. Todos os jogadores, ouvidos após o jogo, mal disfarçando decepção que cobre o país inteiro, utilizaram a próxima partida como fuga para o presente vexaminoso.

7. A auto suficiente teimosia de Dunga, na coletiva pós partida, não abre a menor brecha para uma mínima retificação de curso.

O treinador da Canarinha congelou o time. Ele armou um pelotão que obedece ordens. Não admite imaginação. O ar carrancudo é a máscara favorita dos que pensam que humor faz mal à saúde.

As organizações modernas, sejam elas comerciais ou educacionais, científicas ou futebolísticas, se orientam atualmente por três princípios: criatividade/inovação, cooperação/horizontalidade e transparência.

Criatividade e inovação constituem diferenciais para superar a concorrência. Cooperação e horizontalidade se opõem à visão hierárquica que esteriliza a participação. Transparência é a forma mais inteligente de sabermos onde erramos e acertamos.

Mistério está associado a medo. E nada é mais brasileiro do que o sol, a luz, a capacidade de rir e o prazer de criar.    
 

SÉRIE COPA 2010: ABRE-SE A CORTINA (11)

São cinco e meia da manhã. Levanto da cama e alcanço o computador. Olha pela janela e vejo a gema de ovo, redonda, rasgando nuvens, apontar no horizonte. O mar mostra um verde calmo e conhecido. Que finda na espuma, branquinha, molhando os pés dos primeiros navegantes.

A inauguração de cada dia, de tão promissora, deveria ser anunciada por música. Num volume de som que não acordasse os que ainda dormem. E confraternizasse com os que já estão postos à lida. Podia ser uma peça armorial dos Madureira. Ou uma valsa de Nelson Ferreira. Ou Carinhoso de Pixinguinha. Ou o chorinho Papo de Anjo. Pregando a bandeira imaginária de Pernambuco no céu azul que nos protege.

- Bom dia, meus irmãos. Vós que saís para apanhar o peixe do dia. Vós que voltais pra casa depois de vigiar a noite. Vós que trazeis o pão quentinho da padaria. Vós, que na inocência do primeiro ano de vida, chamais pela mãe. Vós que torceis por futebol nesta Copa do Mundo africana.

Hoje é sábado, dia da segunda rodada da Copa. Entram em campo dois dos melhores times da competição, representando duas escolas do futebol mundial: a Argentina, da escola sul americana, joga contra a Nigéria, e a Inglaterra, da escola européia, enfrenta os Estados Unidos. Começa o teste de forças das equipes. Desenrola-se a trama planejada em meses de preparação, condicionamento físico, armação d táticas, comparação de dados em tabelas estatísticas.

O que mais encanta o torcedor de futebol ? O jogo coletivo que exige sentido de equipe ? Que requer a transição de meio campo entre ataque e defesa ? Ou será o talento individual que consagrou o futebol arte ? O drible que desnorteia o adversário e o faz temer o lençol desmoralizante ?

Segundo Flavio Carneiro, autor de livro sobre o futebol, o que o torna fascinante é a imprevisibilidade. O resultado imprevisível é o fator que atrai as pessoas. Se bem que apenas sete países foram campeões mundiais: Brasil, Itália, Argentina, Alemanha, Inglaterra, França e Uruguai. De qualquer modo, a surpresa de resultado, ainda que entre estes, já é motivo pra muita discussão e igual quantidade de cerveja.

Tenho pensado no seguinte: um time é uma organização. A teoria das organizações, nos últimos trinta anos, tem evoluído no sentido de acentuar a importância das relações pessoais na produtividade; do funcionamento horizontal reduzindo a hierarquia e ampliando a colaboração; da inovação como elemento diferencial no mercado. Todo um conjunto de técnicas voltado para tornar as pessoas mais cooperativas e criativas.

Se um time é uma organização, com características gerenciais, psicológicas, como as empresas que atuam no mercado, será que Dunga está aplicando a receita correta?


SÉRIE COPA 2010: ALTURA E LARGURA (10)

A primeira entidade oficial para organizar o futebol foi a English Football Association. Criada em 1863. Com 17 regras. O primeiro jogo internacional deu-se entre Inglaterra e Escócia.

Placar ? 0 x 0. Só podia ser. Por sua vez, o Brasil recebeu o futebol em 1894, trazido por um súdito da rainha, Charles Miller. Filho de inglês com brasileira. Trouxe duas bolas, dois jogos de uniforme e dois livros de regra.

Inicialmente, o futebol, por aqui, era esporte para brancos e ricos. Uma chatice. Por isso, foi democratizado. E morenizado. O Vasco da Gama foi o primeiro clube brasileiro a contratar um negro. Na década dos 20. A partir daí, a miscigenação tornou-se responsável pelo êxito no nosso futebol.

Pois bem. Passando da história para a força física, fica visível a preferência de Dunga por jogadores de bom porte físico. Lúcio, Maicon, Felipe Melo, Luis Fabiano, Júlio Batista, Grafite. A única surpresa entre os convocados tem 1,89 m. de altura. Atende pelo nome de Grafite.

Desses, citados, temo pela evidente insegurança de Felipe Melo. Que ele traduz por uma violência desnecessária. Substituído por Ramirez, este fez dois gols. E ajudou a transição no meio de campo. Ajudando a fluência entre defesa e ataque. Outro que mostra fome e cara de titular é Daniel Alves. É poli funcional, corre, combate. E chuta bem a bola parada. Pé na jabulani.

Ora, meus amigos, o dia da abertura da Copa tá chegando. Sexta feira. Já mandei checar os circuitos eletrônicos da TV. E garantir o uisquinho. Tenho cá minhas opiniões. Pra mim, são favoritos: Brasil, Argentina, Inglaterra e Holanda. Dois representantes sul americanos e dois, europeus. As escolhas não visaram essa simetria. A forma simétrica foi mero acaso.

Dessas quatro seleções, três tem tradição. E uma, chegou perto do título duas vezes. Inovando sempre. Além de tradição, o Brasil tem um time que está crescendo. E pode alcançar seu melhor ritmo no desenrolar da competição. Defesa mais bem estruturada do que o ataque.

A Argentina tem garra e o melhor jogador do mundo atualmente: Messi. Tem também um driblador chamado Carlito Tevez. E, no meio campo, duas estrelas: Mascherano e Veron.

A Inglaterra, além da tradição, possui um artilheiro, Rooney. E um chutador preciso, Walcott. O treinador, um italiano, Fabio Capello, deu força ao time e controlou as brigas internas.

Por fim, a Holanda. Assisti seus jogos mais recentes. Sua característica mais admirável é a troca rápida de passes sem dar tempo ao adversário para marcar os deslocamentos. Jogo bonito e eficiente. Exibe dois craques: Sneijder e Robben. E dois experientes homens de meio campo: Van Bommel e Van der Vaart.

Se eu tivesse que dar um apelido ao time holandês seria: a arte eficaz.

 

SÉRIE COPA 2010: E A RAZÃO SUL AMERICANA? (9)

Não será difícil explicar as diferenças culturais entre brasileiros e argentinos. Os brasileiros são portugueses com açúcar. Nossa etnia é adoçada pela alegria dos negros, a generosa indolência dos índios e o acanhamento provincial dos lusitanos.

Os argentinos são poderosamente apaixonados. Trazem no sangue a vibração vermelha dos espanhóis. Que, por sua vez, carregam a têmpera secular dos mouros. Tudo isso junto, abre uma porta larga à emoção vibrante que caracteriza os argentinos.

Pois bem. Apesar dessas diferenças, um conjunto importante de convergências une brasileiros e argentinos. O primeiro fator de união é estratégico. Estamos situados no mesmo continente, somos vizinhos, partilhamos igual posição geográfica para haveres e deveres no Atlântico Sul.

O segundo fator é comercial. Somos parceiros no Mercosul, fronteira com fronteira facilitando as trocas comerciais. As complementaridades produtivas ajudam essa relação. E o portunhol é um idioma comum a uns e outros apoiando a linguagem dos negócios.

O terceiro fator é a solidariedade social que nasce de afinidades históricas. O Brasil e a Argentina apresentam caminhadas paralelas na sua evolução como nações. Paralelas que só se encontram para convergir. Não conheço episódio grave em que tenha havido encontro no contexto de conflito entre os dois países.

Fazendo justiça, o ex presidente Sarney (que mancha sua biografia com nepotismo declarado e caciquismo superado), na presidência, ajustou com o presidente argentino à época, a inteira abertura de instalações nucleares brasileiras aos argentinos. E vice versa. Como forma de inspirar confiança entre os militares de ambos os lados quanto à questão nuclear.

Por essas razões, não compreendo muito bem a insistente manifestação de locutores esportivos, apresentadores de televisão, comentaristas de futebol, de incentivar a rivalidade entre as duas seleções. É evidente que a rivalidade existe. São duas das maiores escolas de futebol do planeta. Mas, a maneira como são colocadas frases e exortações no contexto, terminam exaltando posturas descabidas no campo e fora dele.

Aproveito pra dizer duas coisas: gosto da cultura argentina. Admiro Borges, Esquivel e Maradona. Gostei quando a rege Globo, hoje, no Bom Dia, Brasil, repetiu frase do escritor uruguaio, Eduardo Galeano, sobre célebre gol de Maradona em que ele dribla uma defesa inteira e faz o gol: “Este gol mostra que a fantasia pode ser eficaz”.

Segunda coisa: na Copa 2010, como na vida, sou Brasil contra Argentina e sou Argentina com qualquer time europeu. Sou cidadão sul americano.

 

SÉRIE COPA 2010: BRASIL EM ZIMBÁBUE (8)

A seleção brasileira fez, hoje, seu primeiro treino (serão dois) contra uma equipe estrangeira antes da Copa. O adversário foi o time de Zimbábue.

Aquele país (capital Harare) tem fronteira com a África do Sul. Conta 11 milhões de habitantes. A mortalidade infantil é altíssima: 69 mortes por mil nascidos vivos.

O regime presidencialista é exercido, há trinta anos, por Roberto Mugabe. Um ditador com todas as tintas usadas por esse tipo de tirano.

A nação enfrenta grave crise há mais de uma década. Convive com pobreza, desemprego, falta de alimentos. A hiper inflação (superior a 80% ao dia) corrói a economia zimbabuana. O PIB apresenta crescimento negativo desde 2002.

Nem por isso a torcida do Zimbábue deixou de mostrar imensa alegria com o jogo. O campo estava lotado. As pessoas riam e comemoravam a disputa com os tetra campeões. Futebol é uma porção mágica. Contagia e transforma as pessoas.

Aliás, em matéria de futebol, os africanos são mais civilizados do que os brancos desenvolvidos (e do que os mulatos também). Lá, eles não costumam agredir e até matar torcedores de times rivais.

Mas, o fato é que a seleção brasileira venceu o jogo por 3 a 0. O primeiro gol foi do estreante Michel Bastos. Cobrando uma falta de 23 metros de distância do gol. Ele imprimiu uma velocidade de 139 quilômetros por hora na jabulani. No ângulo. Sem chance de defesa.

O segundo gol foi de Robinho. Aproveitando uma bola alongada na área adversária. Ele correu com o zagueiro, deixou que a bola apenas tocasse o chão e bateu por cima do goleiro. Oportunismo de artilheiro. Preciso. Com régua e compasso.

O terceiro gol foi uma quadrilha de São João. Toque a toque, a bola foi sendo enfiada no campo adversário. Júlio Batista entrega de calcanhar. Daniel Alves recebe e vê Elano na boquinha do gol. Tá feito. Uma tessitura.

E assim a canarinha vai ensaiando para escalar a montanha.

 

SÉRIE COPA 2010: TÁTICAS DE JOGO (7)

Em 1968, foi lançada uma obra única na literatura esportiva: Na Boca do Túnel. Apresentando depoimentos por parte de trinta e três técnicos mais em evidência no futebol brasileiro na época. A apresentação do livro foi do comentarista esportivo João Saldanha. Como se sabe, em 1969, meses depois do lançamento deste livro, João Saldanha assumiu a direção técnica da seleção brasileira. Era a arrancada para o tricampeonato mundial de 70.

Na mencionada Apresentação, Saldanha escreveu o seguinte:

“Um jogador para ser eficiente tem que saber jogar em várias posições. Tem que saber defender e atacar, e qualquer sistema moderno que pretenda ser eficiente tem de compreender que não pode ser rígido. Antes, quando um jogador invadia a posição de outro companheiro, levava logo uma bronca: “Cai fora, aqui você atrapalha. Vá para sua posição”. E o treinador apoiava esta réplica. Um jogador que disser isto hoje não merece entrar no campo. O futebol, comparativamente, esta caminhando para os rumos do basquete: todos jogam de tudo, menos o goleiro. Em sua evolução vertiginosa, apoiado pela ciência, está agora desafiando diàriamente os técnicos. Aquele que estagnar ficará superado.”

Essa argumentação foi defendida há quarenta e dois anos. Mantém perfeita atualidade. Saldanha era uma mente brilhante. E via longe. Assim avança o jogador de futebol no século 21. Poli funcional. Multi posicionado.

E os esquemas táticos ? Como evoluíram ?

Na década de 20, prevaleceu a pirâmide. Goleiro, dois defensores, três meio campistas, cinco atacantes.

Entre as décadas de 20 e 50, vigorou o WM. Goleiro, três zagueiros, dois meias recuados, dois meias ofensivos, três atacantes. Desenhando um w e um M no campo.

Nos anos 50 e 60, produziu-se o 4-2-4. Esquema ofensivo. Criou-se a figura do quarto zagueiro, o avanço de um meia jogando fixo no ataque. Assim o Brasil foi campeão mundial em 58 e bi campeão em 62.

Atualmente, os técnicos adotam uma variação que vai do 3-5-2 ao 4-4-2.

O 3-5-2 restaura a tradição de três defensores, reforça o meio campo com o quinto jogador para neutralizar os contra ataques.

O 4-4-2 assume quatro defensores, com quatro meio campistas e dois atacantes.

Claramente, o futebol mundial evoluiu para esquemas táticos mais defensivos. Trazendo jogadores melhor preparados física e psicologicamente. O diferencial é aproveitar a capacidade de improvisar, driblar, criar do jogador brasileiro. Pois ele não é cartesiano. Nem simétrico. Antes, será inventor.   


SÉRIE COPA 2010: JABULANI (6)

Nos anos 60, Nelson Rodrigues ia ao Maracanã (Estádio Mario Filho) com seu amigo Marcelo Moura. Encontrava, por lá, os personagens que povoavam suas crônicas. Uma dessas personagens era a grã fina. Está em À Sombra das Chuteiras Imortais (Companhia das Letras, 1993, pg. 141).

“Subimos no mesmo elevador. Os presentes, inclusive eu, não tiravam os olhos da grã fina. Mas, coisa curiosa: todos olhavam sem saber porque olhavam. Vocês entendem ? Ninguém sabia explicar a própria curiosidade. Para mim, eram, e só podiam ser, as narinas de cadáver. Saltamos no sexta andar do estádio. Foi aí que, sempre ereta como as sonâmbulas, vira-se para o marido:

- Fulano .

Usou um diminutivo qualquer, que não me lembro, e fez a pergunta:

- Quem é a bola ?”.

A bola, o balão de couro, a gorduchinha, a redonda, a pelota. A que desejamos mudar o curso com a força de nossa torcida. A que virava folha seca nos pés divinos de Didi. A que é perfeito complemento de um rei chamado Pelé. A que é capaz de receber os mais requintados afagos nos pés de craques que a tratam com distinção. A que é capaz de sofrer arranhões, cortes e contusões nos chutes arrevesados dos que não a sabem controlar. A que é profundamente admirada quando se aninha nas redes do time adversário. A que é vista com displicente distância quando entra no gol de nosso time. A que é disputada como o mais brilhante troféu no campo de luta. A que jamais é esquecida. Pelo menos enquanto durar o tempo regulamentar de noventa minutos.

O que é a bola ?

Em 2010, a bola chama-se jabulani. A bola da Copa. Significa celebrar uma nação unida. Mais um reforço esportivo à superação do apartheid africano. É o marketing psicológico arredondando a nação. É a bola psicossocial rolando no gramado étnico.

Pois bem. Jabulani, da Adidas, tem onze cores representando onze línguas sul africanas. Pesa 0,60 kg, tem trinta e dois gomos e é costurada a máquina. Segundo o fabricante, revela vôo estável e aderência perfeita.

Se alguém encontrar a grã fina de Nelson por aí, pode informar a ela que a bola existe e chama-se jabulani.

 

SÉRIE COPA 2010: DELICADOS OU BRUTOS? (5)

Futebol é jogo pra homem. É ? Bem, já foi. Hoje, as mulheres dão seu showzinho. E Marta é premiada como a melhor jogadora de futebol do mundo.

Ainda hoje, li que, no Leblon, jovens mães se reúnem, fim de semana, para jogarem uma pelada nas areias da praia. Sob torcida dos filhos e aplausos de maridos. E assim caminha (ou joga) a humanidade.

Futebol é jogo viril. O preparo físico tornou os jogadores verdadeiros atletas que são capazes de causar danos irreparáveis a adversários. A regulamentação sobre faltas tem evoluído quase tanto quanto a violência no gramado.

Nelson Rodrigues escreveu que “o maior defeito do futebol brasileiro é a delicadeza. De fato, não há na Terra um craque que tenha a polidez do nosso. O brasileiro é um tímido, um contido, um cerimonioso” (À Sombra das Chuteiras Imortais, Companhia das Letras, 1993).

Será ? Sei não. Nilton Santos era leal, mas sabia combater. Dunga sempre jogou duro. E Emerson foi contemplado com vários cartões. No atual time brasileiro, Lúcio não pode ser chamado propriamente de um cavalheiro.

Voltemos a Nelson. Diz ele: “Em 1966, o jogo Escócia e Inglaterra foi um pau só, do primeiro ao último minuto. Súbito, um sururu. Vinte e dois jogadores brigando, juiz, bandeirinhas, torcidas. A polícia montada invadiu o campo. No Brasil, o sururu é tão antigo, tão obsoleto quanto um quepe da guerra do Paraguai. Quando um de nós dá um tapa, as manchetes tremem e há uma comoção nacional”.

Nelson publicou essa crônica no dia 30 de maio de 1966, há exatos quarenta e quatro anos. Terá mudado o Brasil ou o futebol ? Ou os dois ?

Naquela época, num jogo entre Brasil e Alemanha, um choque entre Pelé e um jogador da seleção alemã terminou com a perna quebrada do adversário alemão. Era o clássico do cinema western: matar ou morrer. O brasileiro, esperto, sobreviveu.

Então, os jogadores brasileiros parecem que não são assim tão tímidos. A próxima Copa, na África do Sul, vai mostrar como nos comportamos. E de que modo seremos tratados pelos adversários.

Como aperitivo, relembro o que Nelson escreveu sobre Amarildo, substituto de Pelé, com distensão, na Copa de 62:

“Como o pescador de O Velho e o Mar, Amarildo sonhava com leões. Mas o adversário é a Espanha. Então, Amarildo sonha com chifres e sangue. Ele próprio, como no soneto célebre, é um negro touro saudoso de feridas”.


SÉRIE COPA 2010: DEFEITOS NECESSÁRIOS (4)

Na época de preparação para a Copa de 70, a CBF convidou e o comentarista João Saldanha aceitou dirigir a seleção brasileira.

Saldanha era uma figura polêmica. Muito inteligente, ótimo analista de futebol, pertencia ao Pecezão. E não levava desaforo pra casa.

Numa das crônicas que assinou sobre aquela Copa, reunidas em À Sombras das Chuteiras Imortais (Companhia das Letras, 1993), Nelson Rodrigues escreveu ao tomar conhecimento da escolha de Saldanha:

- É o técnico ideal !

Perguntaram-lhe:

- Ele tem as qualidades necessárias ?

Respondeu:

- Não sei se tem as qualidades. Mas afirmo que tem os defeitos necessários.

Para Nelson, o escolhido Saldanha tinha defeitos luminosíssimos.

Escreveu: “Um defeito de Saldanha: a dionisíaca e, ao mesmo tempo, santa molecagem carioca”.

Alguém vislumbra, sequer de longe, alguma coisa parecida com uma pitada de molecagem nacional em Dunga ? Um leve traço, uma jinga de palavras, uma abertura, uma invenção ? Improbabilíssimo.

Seus dizeres não são dizeres, são sentenças transitadas em julgado. Suas afirmações não são afirmações, são ordens do dia. Seus substantivos favoritos são disciplina, patriotismo e rigor.

Sem perder a autoridade inerente à função que ocupa, ele poderia substituir disciplina por criatividade, patriotismo por amor. E rigor por diálogo.

Talvez porque Dunga não seja tão culturalmente brasileiro, outro brasileiro, profundamente ligado aos nossos hábitos culturais, o presidente Lula, cometeu um ato falho. Em evento relacionado com o comitê para os jogos olímpicos de 2016, Lula chamou Dunga de Tuma. Tuma, o secretário nacional de Justiça, investigado pela Polícia Federal por supostas ligações com a máfia chinesa.

Não sei se por querer um Dunga mais aberto e flexível. Ou se por desejar um Tuma mais reto e firme.

 

SÉRIE COPA 2010: COMPLEXO DE VIRA-LATAS (3)

A seleção brasileira de futebol tem participado de todas as Copas. Desde sua criação antes da II Guerra Mundial (l939/45). Em 1950, a Copa foi realizada no Rio de Janeiro. A expectativa é que o Brasil, pela primeira vez, terminasse campeão.

A equipe chegou à final. Contra o Uruguai. E perdeu por 2 x 1. Em pleno Maracanã. A massa mais silenciosa de que se tem notícia no sítio carioca. Em 54, também não tivemos êxito. E, aí, começou a se criar no brasileiro o que Nelson Rodrigues chamou de complexo de vira-latas.

O que ele entendia por complexo de vira-latas ?

Era a inferioridade em que o brasileiro se colocava, voluntariamente, em face do resto do mundo. Em todos os setores, inclusive no futebol. Não nos reconhecíamos como aptos a liderar nada, a produzir nenhuma façanha, a obter o mais raso desempenho. É o que Nelson escreve numa crônica inserida em À Sombra das Chuteiras Imortais (Companhia das Letras, 1993, pg. 51).

Pois bem. Isto mudou a partir de 58 quando, na Suécia, vencendo o dono da casa, na final por 5 x 2, levamos o Caneco. Foi a chance de mostramos uma seleção de craques como Pelé, Nilton Santos, Garrincha, Zito, Nilton Santos. De começarmos a acreditar em nós mesmos. De reconhecer que tínhamos talento para sermos primeiro em alguma coisa. E de nos despedirmos do complexo de vira-latas. Vocação confirmada com a conquista, no Chile, do bi campeonato mundial em 1962. Um time de Napoleões.

No jogo decisivo, o Brasil derrotou a Tcheco-Eslováquia por 4 x 1. Uma figura dostoievskiana (usando a expressão de Nelson) se destacou: Amarildo. Artilheiro no Botafogo e goleador na seleção. Brasil, bi campeão mundial.

Na comemoração da vitória brasileira, “o Brasil foi a terra da ternura humana. Todo mundo beijava todo mundo. Os bêbados caíam abraçados à sarjeta querendo beijar o meio fio. Os brasileiros viviam o acontecimento na carne e na alma, tinham uma relação física com a vitória” (pg. 95). Os brasileiros distribuíam “beijos imaculados”.

No dia 17 de junho de 1962, o brasileiro deixou de ser “o fauno de tapete, que usava sapato para esconder os pés de cabra. Foi, por um momento, um São Francisco, um Mané, cheio de graça”.  


 

SÉRIE COPA 2010: GRAFITE E ADRIANO (2)

Em À Sombra das Chuteiras Imortais (Ed. Companhia das Letras, 1993), Nelson Rodrigues escreveu numa das crônicas:

“A virtude pode ser muito bonita, mas exala um tédio homicida, causa úlceras imortais. Não acredito em honestidade sem acidez, sem dieta e sem úlcera” (pg. 15).

Acredito na honestidade de Dunga. Não sei se ele tem úlcera. Mas ele tem uma acidez de enfrentar alkaseltzer. Um mau humor que vou te contar. E contagiando o assistente técnico, Jorginho, que se exaltou na entrevista coletiva, assumindo resposta em pergunta sobre Pelé.

Como disse o comediante de Casseta e Planeta, o sujeito que dirige a seleção brasileira, faz os comerciais que Dunga faz e distribui mau humor, convenhamos que é muita pobreza. De espírito.

Noutra crônica, Nelson menciona a ovação que invade o Mario Filho (Maracanã, batizado com o nome do irmão de Nelson) no Fla x Flu. E escreve: “É um espasmo coletivo, digno de ópera, de Rigoletto”. É o que ocorreu hoje. Os meios de comunicação foram cobertos pelas informações sobre seleção, jogadores, quem entrou, quem saiu. Um espasmo digno de O Guarani, de Carlos Gomes.

Afinal, a partir de agora, somos ou não somos a pátria de chuteiras ?

Dunga pode não ter senso de humor. Não se exige de um técnico de seleção que o tenha. Mas é de se argüir dele a presença de jogadores que sejam inventivos, que a seleção inspire imaginação, que o esquema tático estimule a criatividade.

Porque futebol não é escritório. Onde o burocrático é resultado normal da organização do trabalho. Mesmo assim, nas empresas mais modernas, prevalece a norma da inovação. Quem não inovar, está fora do mercado, morre.

Pois bem. A característica principal do jogador brasileiro é a invenção, o drible improvisado. Evidente que não se pede a costura improdutiva de Ronaldinho Gaúcho. Mas o toque criativo que desconcerta a armação cartesiana dos europeus.

Portanto, senti falta de alegria na convocação. Não sei porque vinha sempre à cabeça a imagem de Kaká e sua fé. Uma suposta perfeição. Imperfeita prática.

Agora, gostei da não convocação de Adriano. Porque representante de um país, que veste a camisa nacional, tem que assumir valores éticos e sociais. E gostei da convocação de Grafite, que é atacante de resultados.     

Só lembrando que os dois maiores artilheiros do campeonato espanhol, atualmente, são argentinos. Começando por Messi.

 

NEYMAR E GANSO

Véspera de Copa do Mundo é hora de reler Nelson Rodrigues. À Sombra das Chuteiras Imortais, Companhia das Letras, 1993. São quase cem crônicas compondo o livro. Vou escolhendo ao acaso algumas delas.

A primeira, Realeza de Pelé, de 08/03/1958. Registra o deslumbramento do cronista com a arte do rei. Destaca os quatro gols que Pelé fez no América carioca do grande goleiro Pompéia. Inclusive um, driblando o último defensor. E dá a sentença: “Pelé é imprescindível a qualquer seleção”. O negão tinha dezessete anos.

A segunda crônica, Didi sem Guiomar, de 26/04/1958. Didi foi um dos maiores meias que o futebol brasileiro já viu jogar. Um estilista. Jogava no meio do campo com uma elegância de passarela. Foi o inventor da folha seca. Um chute com efeito que fazia a bola produzir uma trajetória improvável. Batendo qualquer goleiro. A crônica de Nelson se referia à proibição da CBD (antiga CBF) de jogador levar mulher para a competição.

A terceira crônica, Descoberta de Garrincha, de 21/06/1958, comentando o jogo Brasil 2 x União Soviética 0. Garrincha, o de pernas tortas, o ponta que assombrou o mundo com a invenção do drible. Escreveu Nelson: “Como marcar o imarcável ? Como apalpar o impalpável ? (…) Foi para o público internacional uma experiência inédita”. E conclui: “Depois de cada drible de Garrincha no adversário, ouvia-se, no Brasil, a gargalhada cósmica do torcedor sueco, rindo de suas jogadas”.

A quarta crônica, Momentos de Eternidade, de 03/06/1970, sobre o jogo Brasil 4 x Tchecoeslováquia 1. Começa Nelson: “Amigos, nenhum outro escrete no mundo podia oferecer o futebol que os nossos jogadores ofereceram, ontem.” (…). “O que nós vimos ? Um desenho, uma pintura, um tapete bordado”. Fizemos jogadas que foram momentos de eternidade, anotou ele. E sobre Gerson: “Quanta gente o negou ? Quanta gente disse:
 
- Não tem sangue, não tem coragem.

O vampiro de Dusseldorf, que era especialista em sangue, se provasse o sangue de Gerson, havia de piscar o olho:

-Sangue do puro, legítimo, escocês”.

Escrevo esta nota na noite que antecede o anúncio dos convocados à Seleção de 2010. Torço pela renovação. Aposto em Neymar e Ganso.

 

ÂNGELO, DE CLARINHA E FRED, DE ELITA E ARNALDO

Então, seu Berto, o senhor dos Arcos, o palmarense mais recifense que conheço, o artista da Bagaço, Arnaldo, é avô do claríssimo Ângelo ? O que nasce bem comemorado ?

Ora, pois, que toquem os sinos, que façam as notificações de estilo, que saúdem os ascendentes, que beba-se e coma-se à sua vinda. E que ele, Ângelo, tenha ventura nesta vida.

Ângelo, de Clarinha e Fred, de Elita e Arnaldo, tem origem e destino. Vem de barrancos socados na Zona da Mata, molhados de correntes fluviais e muito suor. Está assinalado no nome em anúncio do anjo à Senhora. E avisado do toque que impregna a reza das Ave Marias.

E vai, pra onde couber seu sonho, pra onde der sua passada, que a lindeza de trajetória dos seus abre caminho admirado.

Eis, portanto, sua bagagem, declarada na nominata e no DNA. Ainda tão pequeno e já tão carregado.

Mas, esta é a caminhada de todos nós, não é, seu Berto ? Você, pai-avô, sabe do que falo. Eu, avô-pai, também sei. Embora minhas titularidades sejam curtas. Porque, como pai, fui ausente. Dedicado a ofícios menos transcendentes. E, como avô, tenha só ano e meio de experiência.

Bem aplicados. É todo dia. Cedinho, vou mostrar passarinhos e pombos a Valentina. Seus olhos de amêndoa não param de enxergar o que passe. Quando seus cabelos, caracóis em ouro, cobrem sua face, ela os afasta com a mãozinha perfeitamente determinada.

Agora mesmo, vim da praia. Onde estava Valentina com os pais. Foi ela chegando na areia e correndo pro mar. Onde queria permanecer a manhã inteira, apoiada na bóia, segura pelo pai. Enfrentava com não pressentido destemor as ondas que vinham ao seu encontro.

Conseguimos sair atraindo-a com um picolé de banana. Ao findar, ela saiu aos saltos, em direção à sua liberdade, feliz por dispor de tanto espaço.

Pois é, Berto. Esta mensagem é para Ângelo, para seus pais e para Elita e Arnaldo. Sendo o nascer uma obra única, merece sempre a nota do poeta. Aí vai com a assinatura de T.S..Eliot:

“Aqui se atualiza a impossível
  União de esferas da existência,
  Aqui passado e futuro estão
  Conquistados e reconciliados,
  Onde qualquer ação ainda fosse,
  De outro modo, movimento
  Do que apenas é movido
  Sem possuir matriz de movimento”.

PORQUE HOJE É SABADO

Hoje é 24 de abril de 2010. Um sábado daqueles. Sol forte, céu azul, calor na alma.

Você esteve aqui, em casa, cedo, com seu pai. Cabelinhos presos, como eu gosto, realçando sua beleza claríssima. Destacando seus olhos vivíssimos. Vocês vêm pra cá para que sua mãe descanse mais dos plantões. Nos beneficiamos todos.

Ao encontrar pessoas na calçada, em nossos passeios matinais, você não faz por menos: é um tchau muito simpático, com breve acenar de mão.

Ao ver pombos descerem e alçarem vôo, você produz uma expressão de atenta curiosidade, acompanhada de um: ahn. Ao qual se segue um discurso firme e incompreensível sobre a importância dos voadores.

Mas, o sinal mais gostoso de sua maturidade aconteceu esta semana. Nas despedidas em sua casa, quando eu saio e vou trabalhar. Antes, você se recusava a deixar meu colo. E reclamava de minha saída. Esta semana você ficou, por duas vezes, na calçada, nos braços de Ana. Eu me afastando, na direção do carro e lhe dando adeus, e você, embora séria, permaneceu comportada.

Sem falar que você compreende perfeitamente a fala das pessoas que pedem pra você mostrar o pé, os olhos, o cabelo. Inclusive o pedido de seu pai de tirar catota. Isso já é passado. Aliás, qualquer hora dessas você vai dizer:

- Não enche o saco, gente !

Bem, o velho mar continua jogando suas ondas, na praia, feitas de branca espuma. E eu, senhor do farol, nesta 12ª laje, prossigo apontando impossíveis sereias e contando andorinhas imaginárias.

E, como hoje é sábado, entrego a você, nesta escritura moderna, um verso de Paulo Mendes Campos:

“Era na tarde redundante
Longe vestígio em meigo pergaminho
Um refluir azul de mar distante.
Era uma tarde estática de Deus.
Mas a boca da noite de mansinho …
E a tarde anil rendeu a alma. Adeus”.

Seu avô, LO.

 

ENTRE O ANTIGO E O MODERNO

O Brasil venceu a batalha da democracia. Fez a redemocratização em 1985, com Tancredo Neves. E venceu a batalha da economia. Implantou o plano Real, em 1994, com Fernando Henrique Cardoso. Ou seja, o Brasil encerrou o século 20 com bases estabelecidas na política e na produção.

Um terceiro desafio está sendo enfrentado pelo governo Lula. O desafio da desigualdade social. Para superá-lo, o governo vem praticando aumentos reais do salário mínimo, possibilitando a ampliação do emprego com a estabilização econômica, elevando a oferta de crédito e praticando política compensatória com o Bolsa Família para os sem renda.

Mas, há uma dificuldade que impede o país de continuar avançando. É a ausente vontade política do presidente Lula de prosseguir no processo de modernização das instituições nacionais.

Na realidade, a luta séria que se trava, hoje, no Brasil, se dá entre o antigo e o moderno, entre práticas antigas e costumes modernos. Em três setores: no do corporativismo sindical, no da corrupção política e no do aparelhamento ideologizado do Estado.

Vamos por partes. Corporativismo sindical. Lula fez refém as centrais sindicais com manutenção de cobrança de taxa aos sindicalizados. Mas excluiu as centrais da fiscalização do Tribunal de Contas da União – TCU. E se tornou refém das centrais porque não as enfrentou para limpá-las do peleguismo corporativo.

 

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AMOR DE DOMINGO

Do alto desta 12ª laje, ouço o mar. Como Valéry, no Cemitério Marinho:

“Sim ! grande mar de delírios dotado,
Pele de pantera, manto rasgado (…)”.

Jangadeiros chegam da jornada diária. Sargaços escurecem a brancura da espuma das ondas. A preguiça das horas não se arrepende do ritmo desse dia. O senhor de inexistente farol continua atento a imaginários navegantes. E o piano de Rachmaninov continua soltando notas da melancolia russa.

Amor de domingo ? Ou domingo de amor ?

Amor de domingo é preguiçoso como as horas. Silencioso e quase quieto. Feito de nuvens que abafam ais milenares. Amor de domingo não é vermelho, nem azul. É amor pastel.

Domingo de amor é invenção dos que não se conformam com o cinza da neutralidade. Dos que decidem que é preciso fazer alguma coisa em favor da perfeição. Domingo de amor é destinado a poetas.

Comecei a procurar e encontrei três poetas que falam sobre amor.

Paulo Mendes Campos:

“A pele encontra a pele e se arrepia
Oprime o peito o peito que estremece
O rosto o outro rosto desafia.
A carne entrando a carne se consome
Suspira o corpo todo e desfalece
A triste volta a si com sede e fome”.

Vinicius de Moraes:

“E de te amar assim, muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude”.

Manuel Bandeira:

“A todo momento o vejo
Teu corpo, a única ilha
No oceano de meu desejo.
Teu corpo é tudo que brilha
Teu corpo é tudo que cheira
Rosa, flor de laranjeira”.

Bom domingo de amor a todos. Ou de amor de domingo. 


PAPOS DE ANJO

Acordo neste sábado de abril. Rapidamente afasto a cortina para olhar o mar. Ver, desta minha 12ª laje, se o mundo está no lugar. Mergulhar nos azuis pernambucanos, admirar as moças que passam ciosas de suas inflexões. Surpreender-me com as coisas da vida, as perfumadas e as não exatamente assimiláveis.

Desde ontem que penso em papos de anjo. Como vocês sabem, há dois tipos principais de papos de anjo. O primeiro, é gastronômico, premia o paladar. Tem a doçura de flocos divinos. Sugere a leveza do orvalho. Exibem o amarelo dos trigais de Van Gogh. Eis sua receita:

Ingredientes

2 copos de água; 400 gramas de açúcar; 1 colher de sopa de rum; 10 gemas; 2 claras; 2 colheres de café de farinha de trigo.

Modo de preparo:

Faça uma calda rala com água, açúcar e rum. Reserve.

Passe as gemas na peneira e bata durante 30 minutos. Junte as claras em neve e a farinha de trigo.

Coloque em forminhas untadas com manteiga e leve ao forno para assar por 20 minutos.

Depois de assar, retire das forminhas e jogue na calda em fogo baixo. Retire com escumadeira e coloque em compoteira. Cubra com a calda (História dos sabores pernambucanos, Maria Letícia Cavalcanti).

Pronto. Este é o primeiro tipo de papo de anjo. Hoje, sábado, é um dia bom para sua degustação. Sem pressa. Degustando. Sentindo a transformação dos fazeres do tempo. No corpo e na alma. Que papo de anjo é da terra e é do céu.

 

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BRASÍLIA, LUZ E SOMBRAS

Um olhar sobre Brasília, nestes tempos erráticos, colhe estranho contraste. De um lado, surge uma cidade moderna, desenhada por mestre Oscar Niemeyer, que mereceu de Andre Malraux o título de cidade da esperança. Sede da Capital da República, deveria ter desenvolvido projeto de primazia de idéias e fazeres.

No entanto, mostra, de outro lado, face de tom provinciano, com representação política que exala mau cheiro. Dois ex-senadores tiveram que renunciar a seus mandatos, um apontado em vários processos de improbidade e outro, por falta de decoro parlamentar. Agora, pela primeira vez na história republicana, seu governador, no exercício do mandato, recebe ordem de prisão determinada pelo Superior Tribunal de Justiça, segunda Casa na hierarquia de tribunais superiores. O que se passa em Brasília ?

Urbe que deveria ser modelo de gestão, espaço do governo federal, tornou-se local de propina. Centro que apresenta a mais elevada renda per capita no Brasil, R$ 34 mil, de nível escandinavo, vê-se cercada por cidades satélites que são guetos de pobreza. O distrito federal exibe geografia medieval, burgo bem equipado encontra-se cercado de grotões. Reduto de nepotismo que garante salários diferenciados a grupos de privilegiados, vive pressionado por mão de obra informal que ocupa calçadas de shoping centers.

Destino de tantas inteligências, edificou, há cinquenta anos, modelar UNB, Universidade Nacional de Brasília. Segunda menor taxa nacional de analfabetismo, transformou-se num murmúrio rouco, sem eco e sem criatividade. Segundo maior PIB per capita do país, R$ 40.696,00, é pólo de agências públicas, onde poderia ter nascido um projeto exemplar, por exemplo, de educação. Recalcou-se a posições intermediárias no ranking nacional de produção científica.

 

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MACACO SIMÃO

São sete da matina desta sexta santa. Acordo, olho o marzão que brilha à minha frente. Estou na 12ª laje e sou inteiramente dominado por esta parte do Atlântico Sul.

Um silêncio absoluto reina no feriado. Acho que somente eu estou acordado. Volto a olhar pra fora. Raros pontos humanos mexem-se na avenida. É, a solidão foi embora.

Pego o suplemento de fim de semana do Valor Econômico. Ele tem um espaço semanal dedicado a almoço ou jantar com um convidado do jornal. Desta vez, o escolhido foi o Macaco Simão.

 Entrevistador, Paulo Totti. Título da matéria: Humor que Esculhamba, mas não incita rancor.

O jantar estava marcado prum restaurante. Mas o Macaco Simão pede pra ser em sua casa.

- Porque eu fumo, justifica.

Simão não tem relógio e não usa telefone. Comunica-se por internet. E por sua coluna. Consegue manter um olho na telinha e outro no telão liquido 42 polegadas pendurado na sala.

Passa o dia acompanhando o noticiário. À tarde, vê Datena. À noite, prefere algo mais inteligente. Simão mora num duplex de 12 andares. De 280 metros quadrados. As paredes cobertas de telas de pintores modernos. E de pôsteres.

O mais destacado é o de alguém com cabeça e parte do rosto encobertos por capuz. De fora, só intensos olhos verdes. Autor da foto: o neto de Danuza e Wainer, João, fotógrafo premiado. Os olhos são de Chico Buarque.

Simão escreve para 21 diários no país. Dialoga com Boechat na rádio Band News. No UOL, faz o diabo no “Monkey News”.

Há anos não é visto na redação da Folha de SP. Este ano vai ter que ir porque está incluído no grupo que vai à Copa do Mundo.

Paulo Totti pergunta:

- Você se repete ?

- Digo sempre: não é repetição, é vinheta (hahahaha).

- E a corrupção federal ?

- Se corrupção desse caroço o Brasil seria uma jaca.

- Sua imaginação funciona na Datapadaria ?

- Picolé pra chuchu (Alkimin) e Ruchefe (sacola de Lula) nasceram lá.

- Em quem você vota ?

- Não voto. Anulo o voto.

- Serra ou Dilma ?

- Nenhum deles têm o menor carisma. Ganha o mais feio.

Então, tá. Boa santa pra todos do JBF.


A FLOR ENCANTADA

Ontem (hoje), só fui dormir depois que vi a sentença. Deitei-me, fechei os olhos, tentei, mas não consegui. A mente no tribunal. O coração nas mãos. O pensamento na sala do júri.

Ao ouvir as palavras do juiz, serenamente indignadas, precisas, cortantes, desliguei a TV. Acordei, tomei café e olhei velho amigo, o mar. Lá estava ele em seu lugar. Liguei pra meu filho. Minha neta em seu lugar. A ordem das coisas funcionando.

Pensei: agora, Carolina Oliveira, a mãe, pode reconciliar-se com a vida. Ontem (hoje) ela enterrou a filha. Está parte presa ao passado, parte solta pro futuro. Deus a ajude a caminhar os caminhos ásperos da ausência. A conviver com o rumor de vozes silenciadas. A equilibrar-se no recomeço de cada dia, cada noite.

Criou-se uma aliança veraz e ágil entre sociedade e Justiça. O povo, acompanhando cada notícia sobre o andamento do processo, aguardava. A Justiça, peritos, legistas, trabalhando. Para, afinal, desatar-se o nó que travava a garganta. Foram menos de dois anos entre a morte de Isabela e a condenação dos réus.

Uma sociedade tem a cara que as pessoas são capazes de construir. São décadas de construção, passos incertos que vão se seguindo uns aos outros, aperfeiçoando as instituições. Para vencer as pressões dos poderosos, evitar a navalha dos oportunistas. Esse julgamento pode constituir um marco. Porque criou referências.

Gosto de ouvir os poetas. Porque eles se encontram entre o céu e a terra. Eles sentem a dureza do ter. E a leveza do ser. Eles são capazes de enxergar o que nós, outros, cegos, não vemos. Aquelas cordas finíssimas que o ar sustenta em sonhos de areia, azuis. No fundo, busco os poetas em momentos, como este, para me confortar.

Aí vai:

“ Há muito, arquiteturas corrompidas,
   Frustrados amarelos e o carmim
  De altas flores à noite se inclinaram
  Sobre o peixe cego de um jardim”.

O poeta é Paulo Mendes Campos. O poema é Infância.


 

CORAÇÕES, VALENTINA

Está inaugurado o sábado. São seis horas de manhã de 20 de março de 2010. Abro a cortina do escritório e um sol quentinho aquece meu corpo. Olho o mar, companheiro de tantas viagens. Os primeiros jangadeiros movimentam-se na direção do pescado de cada dia.

Sou um brasileiro com um de meus corações (tenho muitos) no outro lado do Atlântico. Acesso a internet. Minha filha Gabi fez anos. Reuniu amigos em seu Ap. Organizou cuidadosamente, como é seu costume, a mesa com bebidas (vi o champanhe, seu preferido), comidinhas e velas acesas fechando garrafas.

Ela é uma amante da vida. Fascinada pelo mundo, conhece Ceca e Meca. Provou comidas várias, degustou poetas românticos e modernos. Hoje, derrama seu talento sobre os Bric’s. Engraçado, ela vai da ciência exata ao lirismo mais aberto com a facilidade de quem dispõe de todas as molas da mente.

Filho (e filha) é coisa pra se guardar no lado direito do peito. Mas também é pra vê-los voar, alto, enxergando-os cá de baixo. Admirados. Lá se vão, carregando pedaços de neve nas mãos. E experiente viver na alma. A nós, aqui, resta o orgulho de seus fazeres. E uma saudade estreita, que não pode crescer. Pra não atrapalhar o trânsito.

Um meu outro coração está com Valentina, neta. Já combinei com a mãe. Daqui a pouco, visto o calção, saio no carro e vou tomar banho de mar com ela. Valentina está completando um ano e três meses. Tem discurso afinado e não compreendido por ninguém. Entoa seu falar por segundo seguidos com uma seriedade de quem defende dissertação. Não admite riso.

Todo dia de manhã vou vê-la. Quando eu chego em sua casa, boto ela no colo e calço as sandálias nos seus pezinhos. Ao escorregar pro assoalho, ela já vai me dando a mão e caminhando pro elevador. É uma ordem implícita:

- Vamos, vô, hora de passear na calçada (pensa ela).

Neste calor, retornando ao apartamento, chego com a camisa molhada de suor. Ana começa a rir (Hiii, vão matar o velho).

- Quer uma aguinha, seu Luiz ?

Pois é. O sábado é uma promessa vaga e firme. Um hiato saboroso que é uma ponte. Entre afetos. Sábado serve pra isso. Pra amar e ser amado. Lembrar dos nossos, vê-los, escrever-lhes. Porque para tal fomos criados.

Bem, agora que minha irmã Rosa deu-me uma cafeteira muito especial, vou fazer um café bem quentinho. Pra batizar este dia abençoado. E esquentar meu estômago. Com a mesma temperatura de meus vários corações.

 

RUÍDO E SILÊNCIO

A partir do século 20, vivemos a era das imagens. As mídias e a tecnologia, TV, internet, cinema, se encarregaram de fazer esse batismo.

Mas, onde fica o som nesse contexto ? Após a revolução industrial, nos anos 1900, instalou-se a civilização de ruídos urbanos, murmúrio contínuo das cidades, superposição de sons nas mega cidades inchadas de população.

Na antropologia da escuta, ouvimos cada vez mais e escutamos cada vez menos. Num mundo de signos, o silêncio tornou-se espaço perturbador. No concerto industrial, em que os ruídos são dissonâncias musicais, o silêncio é uma perda diária.

Então, aí, o silêncio passou a integrar a linguagem musical.

Vamos olhar em torno: automóveis, britadeiras, motocicletas, aviões, sirenes. Proliferação de ruídos, barulho. O campo é mais hi-fi que a cidade. A noite é mais hi-fi que o dia. O passado é mais hi-fi que o presente (Schafer).

Ora, o silêncio essencial é a morte. Para calar o silêncio (mas não a morte) o homem ocidental se cerca de sons. Pergunto-me se o som infernal das discotecas de jovens não será um grito em busca de remota imortalidade.

A cultura do ocidente rejeita o silêncio ? Silenciar é excluir-se. Falar é prata, calar é ouro. Será ? Mas o silêncio é matéria prima da música. O silêncio pontua o fraseado da música. Sua função é acentuar clareza na estrutura musical. Na Renascença, o silêncio nos madrigais vira sussurro. Mahler, na oitava sinfonia, usou o sussurro do coro final para desfechar a grande cadência da orquestra no fechamento da peça.

Lembre-se que, aos sete meses, o feto responde a estímulos que superam o ambiente sonoro intra uterino. E a voz, na prática, é mais do que palavras; é o corpo todo que fala, produzindo energia.

O silêncio, ameaçado de extinção, deu a volta por cima. E, ao lado dele, nesses tempos de esquecimento, não olvidemos o sotaque. Porque sotaque é cultura.

Em torno de Os Cantos da Voz, de Heloísa Valente (Annablume Editora, 1999, São Paulo).


 

 

MEMÓRIAS CARIOCAS

Não sei vocês, mas, eu, tenho no Rio minha segunda cidadania. Estudei lá, na GV, em Botafogo. Ia todo dia pra aula no meu fusca. Na volta, parava na curva de acesso a Ipanema. Ficava tomando um chope, num bar, olhando o sol esconder-se atrás do morrote do Leblon. Uma sinfonia da natureza. Fugaz e bela. Imperdível.

Pois bem. Estive lá semana passada. Aproveitei pra ir à Lapa ver o programa de recuperação histórica da área. Terminei no Benedito. Um boteco no melhor estilo carioca, com dois andares. No térreo, bebe-se e comem-se ótimos pastéis. No primeiro andar, mesas de sinuca. No segundo andar, palco e cadeiras para apresentação de samba de raiz e chorinho. Coisa de profissionais.

Dia seguinte, fui ao novo shopping do Leblon. Visitei a livraria da Travessa, uma baita de uma livraria, com grande diversidade de títulos, espaço para café e loja de CDs. No almoço, sentei olhando para a lagoa Rodrigo de Freitas. A picanha perde, de longe, em qualidade para as casas de carne do meu Recife.

No caminho para ir embora, vi uma loja de criança, Green (tem aqui também). Na vitrine, um vestidinho de círculos coloridos, lindinho. Quando bati os olhos nele, lembrei de Valentina, minha neta de ano e dois meses. Entrei. Saí com ele dentro da sacola.

No outro dia, reservei o jantar para um restaurante italiano (Pomodorino) na Epitácio Pessoa (atenção, gente, boa relação custo/benefício). Longa lista de vinhos europeus e californianos. Pedi um gnocchi com espinafre. Não me arrependi.

Ao chegar no hotel, fui à varanda do AP. e debrucei-me sobre o colar de Copacabana. Fiquei admirando o grande concerto urbano do Rio. O movimento das pessoas que procuram outras pessoas para livrar-se da solidão. Puxei duas cadeiras pra junto da janela, botei uma dose de uísque no copo, ouvi o mar. Pensei ter sentido minha amiga sentar-se docemente ao meu lado. Vestia apenas um roupão cor de rosa, deixando ver suas coxas metrificadas em colunas dóricas.

Lembrei-me de poeta mineiro, feito carioca, Paulo Mendes Campos:

“Pelas fímbrias de teu húmus
  Pelos reclamos dos sumos
  Sobre as umbelas pequenas
  De tuas tensas verbenas
  Fui me plantando”.

 

VIVA O PARQUE DA TAMARINEIRA !

As cidades têm a cara de seus habitantes. As cidades têm o caráter de seus habitantes. As cidades têm o ânimo de seus habitantes.

Qual é a cara do Recife ?

Não vou falar sobre a sujeira nas ruas. Nem vou mencionar a poluição visual das tabuletas. Também não vou cobrar a depredação das calçadas, atentado aos cadeirantes. Não.

Quero me referir a uma cidade que vive de um parque só. O da Jaqueira. Com densidade de verde e infra estrutura aos seus usuários, só ele. Aos demais, resta a magreza ambiental a uns, a falta de zelo a outros. D. Lindu não é parque, é uma massa de cimento.

Pois bem. A produção dos insensatos, urdida às escuras, alcançou a luz. A trama dos imponderados, tecida às ocultas da cidadania, atingiu o dia. A Tamarineira foi comercializada. Pelas mãos de alguém que deixou a bomba de retardo. Uma explosão de atraso. Ou de revide. Quem sabe ?

Depois, o silêncio. Onde estão as instituições que devem zelar pelo patrimônio coletivo ? Não se ouve a indignação representativa. Não se vê mobilização social. Por onde andas espírito de insubmissão pernambucana ?

O Recife é uma cidade que tem um corpo magro e uma alma generosa. Onde estás alma recifense ? Queremos escutar teu grito de alerta contra os atos praticados nas sombras. Inaugura o sol da reação, Recife !

Nossa cidade, de um parque só, merece o parque da Tamarineira. Não se trata apenas do valor intrínseco de um espaço que acentue a qualidade de vida urbana. Mas trata-se de respeitar decreto que considera de preservação a área patrimonial ali existente.

Trata-se igualmente de evitar a descabida intensificação de tráfego em vias que mal suportam o fluxo atual. O lucro, em si, não é um mal. Mas, quando interfere na organização social para distorcê-la, deve ser prontamente combatido.

É hora de o Poder Público, nas suas esferas de competência, se unirem em favor do Recife. Para restabelecer a ordem das coisas, revigorar o senso comum e sobrepor o interesse público ao propósito privado.

Viva o parque da Tamarineira ! 

 

RIQUEZA DE ESPERANÇA

A campanha da fraternidade da CNBB, este ano, intitula-se Economia e Vida. Trata da pobreza, das disparidades sociais e dos usos do dinheiro.

Em artigo na FSP, de hoje, José de Souza Martins, da USP, lembra que é possível olhar o dinheiro de duas maneiras. Uma, é vê-lo como o contrário do que Deus faz. Como o avesso do divino. Reflete a doutrina católica portuguesa que colonizou o Brasil, nos séculos 16, 17 e 18. Longe de Max Weber, que escreveu A ética protestante e o espírito do capitalismo.

A outra, apoiada no pensamento de Dennis Robertson, de Cambridge, recorda Alice no país das maravilhas. Ao atravessar o espelho, Alice ingressa em mundo em que prevalece a lógica do dinheiro, ou seja, quanto mais Alice caminha, mais longe fica aonde quer ela chegar.

A campanha da fraternidade adota, como mote, Mateus (6:24): “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro”. Servir a deus e ao dinheiro compõe a realidade dos duplos, da unidade de contrários, que caracteriza a vida contemporânea. O dizer uma coisa e fazer outra. A ação diferente do discurso.

Karl Marx, em seus Manuscritos Econômicos e Filosóficos, afirmou que a alienação das pessoas é um dos traços da modernidade. Ela se insere no contexto de contradições da ordem dominada pelo desejo de lucro que coisifica o homem.

Daí, compreende-se a pobreza não só como pobreza econômica, de falta de meios para sobreviver. Mas também e principalmente como pobreza de esperança. E, sendo assim, de fé. Pode parecer uma evidência de ingenuidade em relação a idéias que aparentemente não têm força.

Mas a ingenuidade é poderoso ingrediente do mudo dos avessos. E quando menos a gente se dá conta, ele surge e atua. Foi assim na Revolução Francesa. Quando os moradores de Paris tiveram fome, se revoltaram contra o aumento do preço do pão e a Bastilha terminou derrubada. No fundo, foi a ingênua reação dos pobres que desencadeou mudança inesperada e espetacular.

A economia moral se volta para o meio social. E se destina à consciência. Dos que têm dinheiro e dos que não o têm. É hora de todos pensarmos sobre fraternidade, pobreza e esperança.

 

REFLEXÕES SOBRE A VIDA

Extraído de texto composto por Thiago Monteiro

Admire a beleza da juventude.
Você não é tão gorda quanto parece
Não se preocupe demasiado com o futuro
Ou se preocupe.
Talvez numa terça feira pelas quatro da tarde.
De vez em quando faça uma coisa assustadora
Respeite sentimentos alheios
E não perca tempo com a inveja.
Lembre-se que ganhar e perder
São parte do jogo da vida.
Esqueça os insultos
E não se orgulhe demais.
Envie cartas de amor
De preferência à sua neta.
Tome cálcio e cuide dos joelhos
Você precisa muito deles.
Dance, e dance, e dance,
Mesmo sozinho em seu quarto.
Amigos, guarde-os,
Porque quanto mais você envelhece
Mais você precisa deles.
Viaje e olhe o exterior
Veja que, em qualquer parte,
Há pobres de espírito.
Não se perca em conselhos
Porque eles refletem nostalgia.

 

CARNAVAL, CARNAVAIS

A quem, como eu, já pendurou fugaz fantasia, cabe uma chance. A de, além de assistir filme de conteúdo humano e notável desempenho da atriz principal, Preciosa, espiar, de vez em quando, o Carnaval. Na televisão.

É o que fiz esses dois últimos dias. Não sem deixar de cumprir os ritos do fim de semana. Ir buscar minha mãe, na altura de seus 93 (ela diz que não sabe a idade que tem), para almoçar conosco, de ler o Estadão e a Folha, de falar com minha filha no skype, de visitar minha neta (rito que não cumpri porque ela se encontra em Fortaleza visitando a bivó e tios).

Aliás, sua mãe ligou pra dizer que, naquele momento, estavam, junto com o pai, comendo caranguejo na praia. Benditos sejam !

Pois bem. Como eu ia dizendo, cumprindo os ritos, espio a TV pra ver como se desenrola a festa. Me gusta, como dizem os espanhóis, a forte e bela cultura pernambucana percebida por trás de sons, cores e gestual que se vê nas ruas.

Porque, sob a variedade de ritmos e melodias ouvidas no Recife, em Olinda, em Bezerros e em todo Pernambuco, sente-se a sedimentação cultural que mostra nosso perfil. São fazeres transmitidos a novas gerações ao longo do tempo, canções que se renovam em arranjos e se perpetuam, tradições que se afirmam respeitadas como cartilha certificada de dança e canto de um povo.

Não se trata de modismos introduzidos a cada ano em tentativa improvisada para festejar. Não se cuida de inglesismos transviados em cacarejos que nada dizem do ser do povo. Não. Longe disso. Trata-se de música que tem origem na história que nos faz do jeito que somos. Cuida-se de ritmos e percussões que têm a ver com as etnias que formam o que podemos realizar. É a natureza do pernambucano amadurecida no trato de mãos e pés, no massapé da Zona da Mata, no papangu, no brilho do caboclo de lança, no estilo e temperamento natos, adquiridos e elaborados nos nossos modos de ser.

Não se imagina um pernambucano usando expressões estrangeiras para declamar as canções que falam sobre sua saudade, seus amores e sua dor de cotovelo. Já imaginou um grupo de foliões no Bloco da Saudade ou de percussionistas de Naná rebolar em inglês ?

Pois é. Já pulei e brinquei noutros tempos. E ainda mostrarei à minha neta (com os cuidados devidos) como se dança frevo. Coisa legítima, como os azuis desta terra.

 


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa