Para Matilde Urbach
Era aguardenteiro em Pau Grande, daquele tipo de homem que só reserva paixão e amor pelo precioso líquido da cana. Dono de pasto vasqueiro, talqualmente o pai, o avô e o bisavô, desde o gosto do primeiro leite tomou paixão pela profissão cachacista, mesmo tendo uns cascos de gado que engrandecia sua terra de cana e cachaça.
Era homem ciumento, mas guardava ciúmes apenas para o precioso líquido que escorrupichava de suas turbinas de cobre areadas que chegavam a cegar no polimento dos metais. Devocioneiro de Santa Bárbara, São José e São Jorge carregava sempre um patoá encangalhado no pescoço e um oratório com água benta e as imagens dos santos de sua devocionice. Seu maior medo era morrer em caminho ermo, vítima de emboscada, ou mesmo no dente de jararaca, era morrer desbenificiado dos favores da religião e de seu povo de batina.
Apreciava fazer auditoria, sem hora marcada na usina de sua propriedade, aproveitava para gambá o asseio dos funcionários, o ritmo suíço de seu fabrico de cachaça, obtemperando com o mestre de alambique os melhores jeitos de se retirar da cana o doce mais de nababo para se fazer a melhor aguardente.
Reclamativo, como todo dono, queria isso, queria aquilo, mandava isso, mandava aquilo, dando reprimenda em João Fundo de Garrafa, que sugava um alambique mais que morcego e mamava uma cachaça mais que menino novo em peito de mãe de primeiro leite. Emboramente fosse reclamão, alma mais simples e inocente estava ali.
Até que veio a grande peste de trinta e quatro. Era um morrer de gado, um latir de cachorro, um assobiar de lobisomem. São Bartolomeu, nas noites ventosas estumava aquela matilha de empestiado a fuçar porteira, a arranhar janela e a correr pelos campos. No casarão de Cicarino, depois das Aves – Maria, a nenhum ser vivo era franqueado a gozar sua mulata no depois da meia noite, ou mesmo a fazer vadiagem em pés de casuarinas, ou moita de gravatá. A mão ossuda da morte estava por todo lugar.
E o gadinho ralo de Cicarino começou a morrer, como se a ceifadora tivesse contrato de firma assentada em cartório para levar para terra do além a fonte de leite de seus meninos. Somente o canavial e os alambiques continuavam produzindo, mas via-se o medo encalistrado nos olhos e almas dos seus empregados.
Prontamente apareceu nas terras vasqueiras de Cicarino um crioulo com grande fama de benzedor, desses que com uma reza braba, um fumegador de matar caninana no barato de duas braças, prontamente a debelar qualquer compromisso da peste com suas posses. Mas, sua fama de catimbó era meio esquisita. Para a reza dar certo e o rezador espantar a peste, este deveria ficar sozinho no quarto com a mulher do aguardenteiro, nus, com as janelas fechadas.
A coisa ficava pior, porque, segundo alguns maledicentes, o benzedor teria que passar a verruma dele no corpo todo da mulher do fazendeiro contratante, a mode a mazela ser debelada e o gado ir sendo salvo à medida que o crioulo rezava em partes específicas do corpo da dita senhora. Cicarino meio que desconfiou, mas como a certeza do prejuízo e os dissabores de ter que começar tudo do zero o espantava, concordou com esse método esquisito.
Dia aprazado para a benzedura, foi o rezador com suas trapizongas para o quarto, chamou a mulher do aguardenteiro, enquanto este estava gambando o polimento de seus mimos de fabricar cachaça. Ao saber do ocorrido, Cicarino deixou os seus afazeres mais rápido que um calangro quando vê perigo. Chegou em casa botando os bofes pra fora, e antes que o benzedor começasse a sua reza, gritou: olha, seu benzedor, a vaca preta e o boi zebu pode deixar morrer, viu…..