A LÍNGUA
Parlo, tagarela, um poço
de palavras, atos e omissões.
Missas sem messes,
bares beirando bombas,
sem barômetros
ou bicicletas:
o verbo é sem medida,
sem metros
(ou bem mais):
a língua é louca:
criando seres, saberes,
ou lambendo a boca.
Recife, 24 de agosto de 2010
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CONSERVADORES
Para Vinícius
Onde há quesitos,
propostas e dúvidas
fazem certeza na ciência
com a pressa do prego
e seu desejo parado:
fixo, fechar-se a tudo,
ser até o enferrujar
a certeza da sua madeira.
O verbo se faz verso
e a vulva seca,
mata o desejo:
bio-obviedade
nua e insensata:
a conta não encontra o conto,
a molécula amolece na metáfora.
Recife, 24 de agosto de 2010
DESCORTINAR
Para Professoras Stela, Medianeira,Siane, Renata e Maria Cristina
Não há relva verde
a velar o saber:
há sibilas que nos incitam,
excitam a dor e o delírio
do descortinar véus
velados às vozes do vulgo:
aceso,
velo ao lado dos loucos
a lucidez humana:
viver para saber,
saber para viver.
Não há começo,
nem fim:
há o caminho.
Vivo tal dilema,
pleno em pulmões,
pulsares
e neurônios
em espiritar para sempre.
Recife, 15 de julho de 2010
ESCOLHA
Para Telma
Eis-me pleno sabre,
segredo de duelos,
de ardores:
desafia-me com tuas luvas
loucas
e serei esgrima
noite a dentro.
Não contarei passos:
lançarei sobre ti
golpes de afagos,
arfares de gozos:
nossos corpos distarão
apenas pelos e suores.
Serei flores,
serei florete:
serei à fonte
o beber beijos,
o comer desejos.
Ou abraçarei toda tua noite
delicadamente
para sussurrar ao teu ouvir
o quanto te amo.
Recife, 13 de julho de 2010
CONVITE
Para Telma
Toma-me:
devora-me!
Teu espírito vúlvico
desperta-me cravos
inquietos:
abre tua vida ao meu desejo,
foge de ti ao meu encontro,
encanta-me,
entonta-me:
dá-me a certeza de teu corpo
e a dúvida deste teu irascível
espírito de tempo presente.
Dá-me teu futuro
e te darei meus sonhos.
Sumiremos a olhares cegos
e seremos aos que amam:
habitaremos outro planeta,
outras curvas serão caminhos,
outras flores darão espinhos,
cores
e tantos aromas.
Mas seremos,
além da cor,
aquém da carne,
eternos em nosso amor.
Recife, 10 de julho de 2010
INTOLERÂNCIA
De onde vem as cores
dessas luas loucas
das pessoas possuídas
de limite
e tolas intolerâncias?
Da matéria? Da alma?
Ou da simples forma
onde são acondicionadas
para produzir formas
e forcas?
Dependuram-se
a exaurir suas vidas
em coisas menores
num relevo sem relevações.
Revelações, rigores, regras,
tudo inspira conspiração,
tudo encaminha o expirar
sem amor ou beleza.
De onde vêm esses loucos
e suas religiosas insanidades?
Recife, 20 de junho de 2010
ENVELHECER
Que se faça o velho
que há em mim
e em todos:
ser que nos persegue,
cruz que nos fixa,
sereia serena
que nos encanta.
Não temo os rochedos:
sou filho da solidez
e da eternidade.
Meu querer me quer
além do limitar,
do imitar as mangas
sendo sempre amarelas
e no sabor marcadas:
sou de todas as cores
de todos os odores
em meus passos
de figura esquisita
e determinada:
tenho todo o tempo
neste exato instante.
Amanhã é ilusão
que não me detém:
minha voz é eterna.
Eu sou minha própria voz.
Recife, 13 de junho de 2010
RABUGICE
Queria ser mar
para a confissão dos rios,
flor balançante
para a paixão dos colibris
mas a vida me fez fora do forno:
cru, sob árvores
e aviões,
nu como ladrão de tempo,
sem castidade ou querência
na escuridão alheia
de não ser na vida
o passar das gentes,
mas o passar das horas,
rumo aos podres vermes.
Recife, 3 de junho de 2010
CAROLINA DORME
Minha criança dorme,
conforme forma
fome de sono,
sono sem fome:
abasteço-te o sonho
de ninhada solitária
no afago de meus olhos,
crio molhos de futuros,
assoalhos de desejos,
trelas em estrelas traquinas,
trancas, travas, tramelas,
abro-as todas.
Paulista, 30 de maio de 2010
O ANTI-NADA
Para Jesier Quirino
Sou do mundo e do imundo,
profundo, afundo,
prenúncio, pronúncio:
sou primata imprevisto,
impresso e revisto,
fugido da prisão de poucos lados,
redescoberto sem lados,
de pierredoisados ocupado,
do centro a todos os restos,
destes restos aos arrestos
dos sustos nas reses:
sou boi sem boiada,
sem capim querido,
farto de beiras de caminhos,
de mugidos férteis às lactantes
do mundo,
imundo, profundo
prenúncio que seja.
Recife, 3 de abril de 2010
VIDA LÍNGUA
Lambo da língua o sabor
além da letra:
louvo a fé nas sílabas
mas do som provém a vida.
Do precipício ao destino,
do intestino à farta mesa:
tudo é fumo
tudo é lírio,
delírio já morto.
O silêncio é sem língua:
à ideia segue o verbo
e o verbo se desfaz na carne
quando preso ao que mata.
Só o espírito humano fala:
só a fala vai à sala,
na sala somos plenamente
humanos.
Recife, 22 de março de 2010
VIROSES
Virulência violenta,
varais virais,
verbos, vulvas, valas.
Vede vermelhos vírus,
sangues, suores, sulcos.
Sábio, sobras, soberbas,
submundo, subimundo,
cérebro célere sumido:
o vírus viola o verbo.
Silêncio.
Recife, 20 de março de 2010
ORAÇÃO DA TRISTEZA
A quem serve a verdade
senão à mais deslavada das mentiras:
o dia passa interminável e insuportável:
servir é ser de ir
nunca vir:
haverá uma noite para os olhos fechados,
bem sei,
mas por que a demora em chegar?
por que o longe fica tão longe
se é nesta tarde em que há dor?
Ah, por que tanta resposta se esconde,
por que este vento não viola o ar-condicionado
e me condiciona à geladeira dos inativos?
Ser feliz é saber que o triste vem,
que haverá dor.
Mas que será tão forte
como o clamor de cerras os olhos.
Agora e para sempre.
Amém.
Recife, 15 de março de 2010
LABUTA FÊMEA
A varar coloridos nos varais
ou a inventar a vida
em lançar de tetas ao mundo
tão criança, tão carente.
A dar aos cheiros achados
o ventar nas ruas em aromas
de cozinhas e de humanos,
tão famintos, tão pequenos.
A se debater em tanques
nas guerras das roupas,
restos de risos e rangeres
nas batalha de outras glórias.
De beijo em riste,
à espreita na cama inquieta
para o ataque ao triste,
no embate que em si insiste.
Ela própria, sendo semente sua,
brotando flor, espinho e espiga,
outro milho, pessoa sempre nova,
rompendo a regra, sangrando o seu suor
nas fornalhas de seus próprios pães.
A que se decide e decide:
craseada ao seu desejo
cria a cria e quem já cria, viu:
a noite se foi e, no dia justo,
são todas tantas, tão tanto,
que nossos dias são delas,
são elas.
Recife, 8 de março de 2010

NASCE UMA CELEBRIDADE
A última reunião sobre o projeto Celebridade Plantada tinha sido muito detalhada e havia um sem números de providências a tomar. E o prazo era curto demais! Eu bem que havia levantado a questão de tempo para tanta coisa, que deveríamos rever o cronograma, mas fui voto vencido.
E para mim é que restava a parte mais dura de tudo, coisa muito inerente a estagiário. Teria que alistar entre os freqüentadores da faculdade (incluindo os raros que vão lá para estudar mesmo) os que iniciariam o tumulto, quem filmaria tudo, o percurso de fuga para dar tempo e juntar muita gente, o treinamento da modelo para as reações esperadas, tudo teria que estar bem ajustado. Nada poderia sair do controle.
Faltando dois dias para o evento inicial da pesquisa, ainda restava uma avaliação de riscos para a modelo. Mas Professor Marcos Araújo tinha uma equipe de trogloditas da própria faculdade contratada para qualquer eventualidade. O difícil seria controlar os trogloditas para não intervirem sem serem chamados e estragarem todo o projeto.
É chegado o dia! Estamos todos muito tensos e na passagem do roteiro do happening todos estávamos receosos sobre o sucesso do projeto. E se o evento inicial furasse? E se a menina fraquejasse na hora? E se os agitadores contratados não conseguissem convencer a turba?
A cada “E se…?” o Professor Antunes Farias, coordenador e autor da pesquisa, conclamava o responsável pela dúvida a dar esclarecimentos e apresentar possibilidades de risco e as devidas mitigações planejadas. E, dirimidas as dúvidas, voltamos à confiança no projeto.
Ela chega à faculdade e começamos o aquecimento emocional, seguindo a teoria do Teatro do Oprimido de Augusto Boal. Em pequenos grupos começamos a comentar sobre o vestido, o decote, as pernas, a ousadia etc. Num instante o fogo pega no rastilho da pólvora dos idiotas da faculdade.
Bem que o professor Freire nos advertiu: a faculdade pegou fogo!
Era gente incitando às tapas, outros a que desnudássemos a vagabunda! Havia até os que queriam que a currássemos, pois se estava tão oferecida, ela queria mesmo era rola! Foi quando Sandra, minha namorada e também no projeto, entrou em ação e começou a falar com firmeza sobre a certeza de cadeia e que se fosse para estuprar a modelo ela estaria junto lutando até o fim, que a polícia seria implacável com eles, essas coisas que se falam nessas horas. A turba ensandecida não desistia da perseguição e acompanhava o cortejo, tais primitivos primatas em manifestações obtusas de barbarismo explícito, gritavam palavras “de ordem” (ou sem ordem?) a todo instante.
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ATUALIZANDO O DISCURSO COM FATOS
Quem tem medo dos tolinhos executivos que quebraram a GM, o Morgan e a AGF? Ninguém. Todos nós ficamos sabendo que eles agiam buscando maximizar os lucros, os das empresas a que serviam e os seus próprios, sob a forma de bônus sobre lucratividade.
A moda agora é encontrar justificativa sistêmica para o furo conceitual do liberalismo econômico. A ganância humana precisa ser limitada senão uns exploram o outro e lhes tiram a liberdade fundamental: a de viver com dignidade. O que era tido como liberdade individual para o sucesso pessoal e financeiro atingiu o ponto óbvio: a competição exacerbada apenas permite que poucos atinjam o nível básico do que é sucesso. Sem contar os aspectos de destruição do planeta pela idéia obtusa de que os recursos naturais se renovam ou o sistema descobre outra alternativa para o abastecimento dos recursos necessário aos negócios.
O sistema de capitalismo darwiniano leva a uma exacerbação da concentração de renda e a extinção de valores humanos fundamentais para a vida de todos em nosso planeta, como a vida em comum, a solidariedade, o respeito à cultura do outro etc.
Partindo dos princípios fica mais fácil compreender as conseqüências danosas do capitalismo no mundo.
O liberalismo econômico surge com a revolução industrial. Por essa época a exploração do homem é levada ao extremo: 18 horas diárias de trabalho, recebendo migalhas, incluindo mulheres e crianças na lida de risco das manufaturas fabris e quando havia a exaustão por excesso de esforço eram descartados, demitidos. Não havia qualquer garantia ao trabalhador das fábricas, ficando o dono do capital, praticamente, como um novo senhor de escravos.
Ao estado caberia, pelas teorias vigentes, nada mais que o serviço de exército para manter o espaço geográfico das operações, a educação básica (stricto sensu: básica mesmo!), segundo as orientações de pedagogos e sociólogos que viam na escola para o proletariado (que tinha a prole imensa) uma preparação para a vida do trabalho (daí a farda, as sinetas, a ordem na entrada, nos lugares em sala etc.) e tudo o que fosse necessário à manutenção da ordem pública, desde que não mexessem em um tiquinho que fosse nas relações do trabalho (escravo) com o capital (senhor).
Em contraposição a isso surgem ouras teorias, como as do Socialismo, com tudo o que não é conhecido tão criticado nos dias de hoje. Se déssemos uma lida nas teses lá apontadas, certamente, teríamos alguns caminhos a seguir. O socialismo errou sim nas predições sobre o fim da história, sobre a tomada de poder pela força por parte dos oprimidos e o resultado é que nunca conseguiu ser implantado. Pelo mesmo motivo que o capitalismo não funciona da forma como está.
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CONFISSÕES

Para Agostinho de Tagaste
Confesso-me impiedoso,
imponderável,
impossível:
pondero à palavra
a criação do saber,
preservo à língua
a construção do conhecer.
Como as letras, nutro-me de semânticas:
santifico-me à verve dos sábios,
uns humanos, outros nem tantos
e tantos bem mais:
divinos seres de tantos saberes.
No curso do discurso
a plena manifestação do belo:
“Acaso não foi caminhando
da infância até aqui que cheguei à puerícia?”.
Recife, 11 de janeiro de 2010
MEU LIVRO
Para Ana Salvagni
Meu livro é sobre os sobres
sobrando-se sobre as sobras
das sombras
das letras,
leves névoas na crueza do dias.
Meu livro é letra sobre leis longas
e leves.
Meu livro é verso,
incerto e imperito.
Meu livro é livre, leve.
Recife, 26 de março de 2009
FOSSILIDADES
Absurdam surtos de soberba
na fé
no que fede
e fode à vida
toda a esperança:
esperam de pelo eriçado
os guizos do gozo
sem graça.
Dão-se, sem conta,
que a conta é paga:
passa-se ao passeio
da turba o torpe
o comer e o viver
fraternos.
Absurdo surto de sabedoria
na fome
do que come
e consome o esperado:
esperavam de ouças ávidas
o tilintar único
em suas caixas.
Dão-se conta
que a conta é paga.
Recife, 16 de dezembro de 2009
ABUNDÂNCIA
Bundas, bundas!
Abundai vosso balanço inocente,
eternamente,
à beira branca da praia.
Descuidai de vossos bulires,
assim como quem nunca me queira,
que de cá cuido de cuias geladas
e de fervoroso olhar.
Bunda, negra bunda,
vossas formas tão informais,
de outras áfricas
deram-se ao misturar
de nossos trópicos
outra essência aos desejos:
aqui vós sois deusas!
Deusas desejadas em meu andor:
dói-me notares tão sinuosas
(insinuosas)
a fugirem, justas,
de minhas malhas.
Bundas, bundas:
abrutai os dias de ausência,
precipitai vossa distância,
biquinosamente exposta,
por sobre os que se servem, loucos.
Dai-lhes a dor de não saber
da maciez de tanta curva,
do mexer-se nas alcovas.
Recife, 09 de dezembro de 2009

ELES, OS CORRUPTOS
Quando corrupção se instala, ficamos, todos, atônitos. Especialmente quando tal se dá, escandalosamente, nos veículos de comunicação. São páginas de jornal com textos e fotos, telejornais com imagens faladoras, sites com deitação de lenha explícita.
A partir disso, nossa indignação explode: xingamos políticos em mesas de bar, repassamos mensagens com números e nomes sobre os fatos, tecemos comentários esculhambatórios em blogues diversos, olhamos com desprezo para funcionários públicos, independente de haver contra eles qualquer acusação.
Tomamos, então, plena ciência de que a esculhambação é uma epidemia entre os políticos e nenhum deles está livre dessa excrescência. Mas, são eles os corruptos, eles que merecem repúdio!
Passado o momento da exposição midiática, voltamos a nossa boa e velha rotina: furamos filas sob qualquer pretexto para nos darmos bem; estacionamos na vaga reservada para idosos em plena juventude; avançamos o sinal vermelho e tentamos argumentar com uma cervejinha para que o guarda não nos multe; achamos absurdo quando recebemos reclamação sobre atitudes condenáveis de nossos filhos porque não passam de pequenas travessuras.
Enfim, voltamos à normal falta de respeito ao que seja considerado o mínimo de civilidade, aguardando que, novamente, cheguem às páginas dos jornais o próximo escândalo para nossa tão cara indignação.
INCONTIDO
Para Telma
De teu graciar glacial
a agitar volumes à minha volta
advêm meu tanto desejo:
muto-me em ânsias ofegantes
e rigidez incontida,
agito-me em jogos
e imaginação,
entrego-me, antes do combate,
vítima de tuas umidades.
Sou em ti o que em mim é falta:
vitimo-me, presa perdida,
ao sabor de teus beijos.
Sinto tua linguagem
a construir poema sempre novo,
tal verbo encantado a guiar
meus abraços, minha boca
e minha fúria amante.
E eu te amo, servo de teu desejo,
feito alimento e sentido
para minha existência plena.
Sou em ti o que em mim é amor.
Recife, 02 de dezembro de 2009
CONVERSA DE BOTEQUIM
À noite,
no alvoroço pardo de tantos gatos
a coisa se sobressai,
meio etílica, meio lúdica:
bêbados solitários se confundem entre as mesas
e com elas:
que a vida que há de vir de tão longe?
onde estão os dias de labor intenso?
quem promoverá a luta por dias melhores?
E a revolução segue seu caminho de nada:
esbarra na barra da saia matreira,
especulando sobre anjos e seus coitos,
enquanto a vida passa, de verdade,
nos lombos suados passando sobre o tempo:
será que os olhos se abrirão?
será que o faro aguçado dos notívagos
abrandarão a fome e a sede de instantes
e glórias,
cultuadas entre garrafas
ou o tempo se fará antes
e nos economizará idiotas?
Recife, 27 de novembro de 2009
EVOCAÇÃO
Aos de fé,
peço a pressa da prece
na certeza do para sempre.
Aos de agora,
peço a profissão da palavra
na incerteza do partir.
Eis que à palavra pouco
ou nada mesmo
há de ser dado:
meu verbo soará além da dor:
estarei no revisitar a nossa vida,
através de seus azuis de tanta dor.
Meu velho está em partida
e meu jogo caminha para ausência:
A dor azul só se abranda
por tantos abraços, tantos saberes
e tanto amor fecundantes em mim,
advindos do estar contido,
desde ontem.
Se vais agora e eu amanhã,
não importa:
estaremos juntos, ainda,
em muitas manhãs.
Recife, 24 de novembro de 2009
GRATIDÃO
Para João Bosco
Grato,
grafo gravidez à grua generosa:
grávido,
gero jorros de jóias.
Solene,
sonoro-me obrigado, livre:
(re)paro o aprendido:
humanidade e generosidade,
raro amor tão profundo,
aqui todo abundância:
não é à matéria das coisas,
mas ao manto luminoso descortinado
o destino de rios de reverência.
Recife, 21 de novembro de 2009
O AVENTUREIRO
Para Luiz Felipe de Souza Leão
(Vovô Luiz)
A ventura de descender
de tuas venturas
ascende-me ao panteão
de tantas glórias:
tua aventura em mim
faz-se ânimo na alma,
anima das minhas ágoras:
gloso os impossíveis prazeres
onde os ímprobos provam prantos,
escalo cânticos incabíveis,
escolho cantos nunca idos:
instalo-me além,
muito além da lucidez:
só os loucos sabem da felicidade,
só os tolos a perdem
contando horas, mundos e metais.
Recife, 8 de novembro de 2009

A ANTI-SEREIA
Encanta-me, soberbamente, a capacidade da arte de se reinventar pelas mãos de artistas diversos e descobrir um novo belo onde já se supunha finda toda a beleza.
Tenho por costume (ou seria necessidade básica?) ouvir música. E o faço com freqüência diária e por várias horas. Em casa ponho Carmem, de Bisset, Cantos Dali com Bia Marinho (e Greg, e Antônio e Miguel), Sagrama, Heleno Ramalho, O Trenzinho do Caipira, com a Sinfônica de Londres, a Divina Maria Callas, com o Concerto de 1959 em Varsóvia, Rivotrill, Maciel Melo, entre tanta coisa boa que a humanidade produz em matéria de música, impotente de tudo ouvir sempre e a um só tempo, sigo elegendo e ouvindo um pouco do tanto.
Gosto de me deixar ficar andando lentamente, parando aqui ou acolá mais demorada e admiradamente, pelo pátio da Galeria de Arte Ranulpho, aqui peto, na rua do Bom Jesus. Por vezes me perco admirando os detalhes de uma bela obra de arte.
Mas recentemente, quando fui morar no Janga, em Paulista, tomei por costume vir de lá até o Recife Antigo, onde temos escritório, ouvindo um disco. Essa “ouvida” dura de uma até várias semanas. Às vezes passa pelo limite da repetição imposto pela companheira, claro, cheia de razões.
Nas últimas semanas tenho me concentrado em alguns discos mas especificamente: Nelson Freire interpretando sonatas de Beethoven (14, 21, 26 e 31), Elisabeth Schwarzkopf com algumas arias de Mozart (Le Nozze di Figaro, Don Giovani etc.) e As Grama com o mavioso disco Engenho (com a maravilhosa faixa Aspectos de uma Feira e uma das mais belas interpretações do ofrevo de bloco Flabel das Ilusões de Heleno Ramalho).
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(IN)JUSTA VINGANÇA
A fundo, aprofundo-me:
afundo
o fundo
do poço moço
no tempo atrás da têmpera:
que aço faz o compasso?
que passo do justo ajusta o giro?
girar, girar
e ajeitar do jeito jóia
(falsa bijuteria?),
numa justiça injusta,
visão apurada,
balança abalada:
de abalo em abalo
a bala bole no bule
e o que era café,
espora nas partes,
evapora-se:
vigora, à selva,
a selvageria:
heróis e vítimas
num circo sem pão
ou vinho.
Recife, 1 de outubro de 2009
TALHE OBSCURO
Este teu eterno olho de talho
avança sobre mim
(escuridão e distância)
com a chave única de abrir passado.
E tens nas mãos o molhe de abrir futuros…
O tempo de ser feliz se faz agora:
o amanhã nunca é.
Tomas de mim o afeto
e o beijo:
dá-me a constância da culpa,
a inquisição cega do bom.
Sou corpo culpas,
mas muito além disso:
sou carinho, dedicação,
sou amor.
Nada te escondo,
nesses escombros criados
por tuas marretas,
mas, ainda, suplico
traga a névoa do bem,
trava a navalha no presente
e vem ser feliz
com meus beijos.
Recife, 22 de setembro de 2009
A SEMPRE-VINDA
Para Nilson Borba
Viagem de certeza inexorável,
indesejado partir,
antiparir-se,
leva este corpo, se o queres,
mas deixa para mim, ao menos,
esta inundação de amor no peio,
inundação da alma
e o derramar voluntário e incontido
destas tantas lágrimas.
Liberta-me, se assim desejares,
deste afago azul, infinito,
na sabedoria de olhar além,
sendo, como eu,
um mero peregrino neste tempo.
Vai, toma para ti o abraço tão meu,
consome todo o riso incabível,
leva - a natureza assim o é -,
mas deixa comigo a dor tanta
do beijo frio e final
no findar do pulsar no peito.
Nada mais escurecerá meu caminho:
viverei para amar eternamente,
em saudade, seu saber,
a sua missão tão cumprida.
Vai, leva para ti o que era meu
e me deixa esse rolar de gotas,
a tanta saudades,
o todo amar.
Recife, 24 de agosto de 2009
AMIZADE FUGAZ
Já há o falso na desculpa à toa,
em minha face há tristeza e rubor
por não perceber naquela loa
palavras ocas a mim, puro ardor.
Embebido no bom e etílico hálito
perdi o senso simples do demais,
não via senão afeto em tosco hábito,
olhava filhos juntos no futuro de pais.
Diante das eclusas lá meu corpo havia:
a chuva veio, água, barro, correnteza,
somente o tolo aqui dentro não sabia.
Agora vejo tanta letra, tanta canção,
tenho bem forte em mim a tal certeza:
abraços, afagos, beijo de amor não são.
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ELA PASSA. DE NOVO.
A carne é flanco
e balanço:
calçada calcada
a inocentes pedras
recalcadas:
- Quem dera fôssemos só olhos, nariz e beijos…
Bamboleiam tantas bolas
ensacadas,
tantos cravos cravejam roupas,
tanta rigidez se esconde
de denúncias,
desejos manifestos,
palavras, rigidezes.
Assalto. Assombro. Assunto. Assumo.
Barbas e bigodes babados:
todos são olhos,
palavras,
piadas de frango novo:
só minha boca, beijos:
só minhas mãos, carícias:
só minhas unhas, cravos.
Recife, 18 de agosto de 2009
CALDEIRÍSSIMA!
Para Irah Caldeira
A caldeira mineira
caudalosa inquieta-se:
Irah, irada, irá
gerar jereré
no jeremiar
gerado no giro gasto,
de gosto acre,
do balanço besta
a bailar burburinho
alienígena
na gênese mágica
da gente da gente.
Voz,
veludo e víscera:
berço Sudeste,
alma Nordeste.
Dado os dados,
divinizaste o jogo:
do canto do mundo
ao encanto de todo
mundo.
Vínculo vígil,
de vagar
devagar
e vaga vigorosa:
sucede-se
em canto e balanço,
acalanto e encanto,
sendo sempre
sinuoso saber
cantar e amar
o povo tanto
da minha gente.
Recife, 25 de março de 2006
PARTINDO
Para Meu Pai
Lamento o alimento agora
em sondas,
sem dentes, sem paladares.
Sem limites,
é real o rolar de lágrimas às faces
em face da fumaça do fim:
não sonhei este instante,
embora sempre soubesse que haveria de ser
e ter sua hora.
Penso na eternidade de seu verbo
sempre dentro de mim
tal guia tácita a tomar meus rumos
e domar meus pulsos.
Penso na falta de seu riso puro
dentro da rede no quintal
de mangas, sapotis, pinhas e pitangas.
Penso…
Meu Deus,
quando minha hora chegar,
dê-me a serenidade azul de seu olhar,
a certeza do dever cumprido
e um filho, ao menos, para acalantar meu sono
e me amar tanto e por inteiro,
fazendo de minha vida sua graça plena.
Recife, 10 de agosto de 2009
CONJUGAÇÃO CORRUPTA
Eu sonho,
tu crês,
ele reluta,
nós votamos,
vós labutais,
eles roubam.
Ninguém é preso:
Todos lamentam.
Recife, 7 de agosto de 2009
FIM SEM AMOR
Olhos de socorro,
corrosão para ausência:
teu azul de paternidade sagrada
é todo grito em meu espírito.
Ver-te vertendo a vida
na solidão de amor
é rima de toda dor,
é remo sem rumo,
Rômulo sem Remo,
Roma perdida,
loba roendo o rei.
Onde se escondem
os sentidos?
De onde vem
o amor que não chega agora?
Recife, 4 de agosto de 2009
POETIZARES
Para Luiselza Pinto
Conhecer da língua a linguagem,
cavalgar às palavras,
fogir delas
e produzir o inverso sentido.
Âncora fora das metas:
metáforas,
ânforas de azeite virgem
entre palavras,
assombros sustam-se à margem,
dispostos ao encantamento.
É poesia, é o belo, é poético.
Recife, 27 de julho de 2009
LINGUAJAR
Para o Hellen Quirino
A língua que narra
esbarra
na sina lógica:
claro é a espera,
áspera, delicada
ou sincera.
A língua que poeta
desgarra
na senda pródiga:
segredo é a senha,
sonho, cerca
ou quimera.
A língua que gosta
agarra
na boca louca:
lamber é o dever,
áspero, químico
ou quimérico.
Um língua prende,
outra, se solta:
a terceira tece o caminho
das coisas inquietas.
Recife, 22 de julho de 2009
RETÓRICAÇÃO DO GOLPE
Mistura-se alhos
com bugalhos,
esbugalha-se um galho
e põe-se a galha
ao fogo:
retorcer o fato,
furando a foto,
o feto alí parido,
forma ferina do falso
fazer falsa a verdade
então tão óbvia.
É fazer da história histérica
injusta justificativa
da jumentice humana.
Recife, 20 de julho de 2009
ESPÍRITO QUÂNTICO
Para Rosa Cândida
Em princípio, a incerteza:
o que é o futuro?
quando é o passado?
quem é real?
Nada de meu sonhar
sugere a realidade,
na medida me escapa a verdade.
Tudo é falso.
Tudo é fósforo, incêndio.
O nada me ilude:
se não o posso medir ou prever
como sei que não é?
Abstrações, abstrações…
Quando serei a verdade?
Como serei de verdade?
Paulista, 16 de julho de 2009