Especialista em generalidades, extremista de centro, peruador sem compromisso, dono de um currículo sem qualquer
saliência digna de nota, autor de uma obra perfeitamente dispensável, azeitador do eixo do sol, ensacador de
fumaça, fiscal de feiras, carnavalesco e cachacista, Papa da Igreja Católica Apostólica Sertaneja
Em 1959, mesmo ano do seu falecimento, a carioca Dolores Duran gravou um Lp dedicado aos ritmos nordestinos… Anos antes ela havia feito sucesso com o baião “A Fia de Chico Brito” de Chico Anysio.
O disco chama-se “Este Norte é Minha sorte” e foi recentemente relançado no box “Os Anos Dourados de Dolores Duran”, que reúne seus sete discos gravados e mais um álbum duplo com seus principais sucessos nas vozes de Gonçalves, Isaurinha Garcia, Carlinhos Lyra, Trio Irakitan, Lúcio Alves, Sylvia Telles, Elizeth Cardoso, Dick Farney, Nana Caymmi, Clara Nunes, entre outros.
O disco em questão inicia-se com “Te Cuida, Zeca”, um baião de Miguel Gustavo, que conta a história de um nordestino que foi pro Rio de Janeiro comprar o “enchová” e recebe conselhos da noiva pra não ir à boate, andar de lambreta nem falar mal de Juscelino.
A segunda faixa é “Saudade Ingrata”, uma toada romântica de Ted Moreno e Claudionor Nascimento e prossegue com o baião “Prece de Vitalina”, uma parceria de Dolores com Chico Anysio… Oração de uma vitalina pra São José pra arranjar casamento:
“São José, por seu favor
Sem lhe fazer meu criado
Diga aí pra Santo Antônio
Que eu continuo de lado…”
Em seguida outra toada, dessa vez uma parceria de Dolores com Edson França (do Trio Irakitan): “Minha Toada” e outro baião de Chico Anysio, dessa vez em parceria com Haydée de Paula: “Tá Nascendo Fio”.
O espanhol Carlos Núñes, considerado o maior intérprete de gaita de foles do mundo, lançou recentemente um Cd dedicado à musica brasileira, intitulado “Alborada do Brasil”… As “alboradas” são, na Galícia, as melodias com que se celebra o amanhecer, tocadas com gaitas de fole, com elas se chamam as pessoas para participarem das festas. É um gênero musical muito antigo, baseado em ciclos de subidas e descidas semi improvisadas, próprias dos prelúdios, que ainda hoje se escuta na música de sanfona do Nordeste brasileiro (segundo consta no encarte do Cd).
O disco abre com “Alborada de Rosália” da poetisa Rosália de Castro, com melodia tradicional e participação vocal da mineira Fernanda Takai e prossegue com o choro “Vou Vivendo” de Pixinguinha e Benedito Lacerda… a terceira faixa é o samba “Alvorada” de Cartola e Hermínio Bello de Carvalho, cantado pelo mestre Wilson das Neves.
A quarta faixa é um pout-porri intitulado “Nau Bretoa”… A Nau Bretoa foi o nome do primeiro barco a transportar escravos negros para o Brasil. Esse pout-porri é composto pelas músicas “Feira de Caruaru” (Onildo Almeida), “Geremuado” (Pedro Sertanejo), “Mourão” (Guerra Peixe/Clóvis Pereira), “Dança do Caboclo” (Hekel Tavares/Olegário Mariano), “Nas Águas Verdes do Mar” (do repertório do Maracatu Porto Rico), “Caicó” (Teca Calazans/Heitor Villa-Lobos), “Morte e Ressurreição do Boi” (Mestre Gasosa), “Forró de Dois Amigos” (Edmilson do Pífano/Ratinho dos Oito Baixos)… Quem participa dessa faixa é Lenine, cantando a ciranda “Nas Águas Verdes do Mar”, a bateria da Escola de Samba Beija Flor e o rabequeiro Carlos Herz.
A quinta faixa, intitulada “Gaita” é uma composição dos anos 30 de Radamés Gnattali, com letra de Augusto Meyer… com participação vocal de Adriana Calcanhotto e o pianista André Mehmari.
A sexta faixa e outro pout-porri, intitulado de “Xotes Universitários”, reunindo as canções “O Xote das Meninas” (Zé Dantas/Luiz Gonzaga) e “Numa Sala de Reboco” (José Marcolino/Luiz Gonzaga), com participação especial da sanfona do mestre Dominguinhos.
Do forró pernambucano, Carlos Núñez passa para a cantiga mineira de Celso Adolfo, na singela “Coração Brasileiro”, com participação vocal de Luiza Maita e do próprio Celso Adolfo no violão… E continuando nas Minas Gerais vem “Ponta de Areia” de Milton Nascimento/Fernando Brant.
Em seguida vem outro pout-porrit, dessa vez intitulado “Y-Brazil”, reunindo “A Mulher do Meu Patrão” (Vicente Duarte) e “O Vovô do Baião” (João Silva/Severino Ramos), com participação especial de Jaques Morelenbaum.
A única faixa inédita do disco é “Padaria Elétrica da Barra”, uma parceria de Carlos Núñez com Carlinhos Brown e Alê Siqueira, que participam da faixa.
E de volta pro forró temos as faixas “Feira de Mangaio” (Sivuca/Glorinha Gadelha) e fechando o disco com chave de ouro vem o pout-porrit em homenagem a Luiz Gonzaga com “Assum Preto” e “Asa Branca”, com as participações de Yamandu Costa e Dominguinhos e a arrepiante gaita de fole de Carlos Núñez… Segundo Núñez, a nossa “Asa Branca” foi a canção mais “gaitística” que ele encontrou no Brasil.
“Varre, varre, varre Vassourinhas
Varreu um dia as ruas da Bahia
Frevo, chuva de frevo e sombrinhas
Metais em brasa, brasa que ardia
(…)
Abriu alas e caminhos
Pra depois passar
O Trio de Armandinho, Dodô & Osmar
(…)
E o frevo que é pernambucano
Sofreu ao chegar na Bahia
Um toque, um sotaque baiano
Pintou uma nova energia
Desde o tempo da velha Fubica
Parado é que ninguém fica…”
(Moraes Moreira)
No final dos anos 40 houve uma apresentação em Salvador/BA do Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas do Recife, a pedido do Governador Otávio Mangabeiras. Uma multidão seguiu o som do frevo pelas ruas de Salvador… Entre os foliões estavam os amigos Dodô e Osmar, que no domingo de Carnaval de 1950 saíram às ruas num Ford 1929 tocando frevos eletrificados.
Porém, entre os anos de 1941 e 1943, o paraibano Genival Macedo (autor de clássicos como “Micróbio do Frevo” e “A Mulher do Aníbal”), seu irmão Gilvan Macedo e o técnico de som Nilton Monteiro desfilaram pelas ruas de João Pessoa em cima de um Chevrolet 1939, intitulado “Palácio do Frevo”… Essa engenhoca mecânica e automotiva seria o avô do trio elétrico baiano, pois Dodô & Osmar só iriam criar o famoso trio elétrico em 1950.
A diferença é que os músicos paraibanos não tocavam ao vivo no “Palácio do Frevo”, apenas reproduziam músicas pré-gravadas.
Nesse próximo Carnaval, o Trio Elétrico de Dodô & Osmar completa 60 anos de existência… Hoje os criadores já estão mortos, e o trio é comandado por Armandinho Macedo (filho de Osmar).
Em 1975, em comemoração aos 25 anos de existência, o grupo lançou seu primeiro LP: “Jubileu de Prata”. Nesse disco, além dos temas instrumentais, aparecem dois frevos cantados por Moraes Moreira, que se torna o primeiro vocalista de trio elétrico do mundo, pois até então predominava o som instrumental. Ele tinha acabado de sair do grupo “Novos Baianos”… Entre as músicas há também uma regravação para “Asa Branca” de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.
No ano seguinte, lançam um novo LP, intitulado “É A Massa”, novamente com participação de Moraes Moreira… que compôs para esse trabalho o frevo, “Viva Nelson Ferreira”, numa homenagem ao compositor pernambucano, que tem a música “Esqueta Muié” regravada nesse disco… Quem também compôs um frevo especialmente para esse disco foi o baiano Gilberto Gil, intitulada “Satisfação”, em homenagem aos Rolling Stones.
Em dezembro de 1979, exatos 30 anos, o caruaruense Carlos Fernando, lançava pela CBS (hoje Sony Music) o primeiro Lp da série “Asas da América”… Série essa que oxigenou o frevo e mostrou para o Brasil inteiro que o frevo não é para ser tocado somente no período carnavalesco.
Carlos convidou os grandes nomes da MPB para participarem do seu disco; Chico Buarque gravou “Salve a torcida”, Caetano Veloso gravou “Bom é Batuta”, Gilberto Gil & Jackson do Pandeiro cantaram juntos em “Sou eu o teu amor”… Além dos seus amigos/parceiros Alceu Valença, que registrou “O Homem da Meia Noite” e “Pitomba Pitombeira”; Geraldo Azevedo em “Lenha no fogo” e “Asas da América”; Elba Ramalho em “Olha o trem” e “A Mulher do Dia” e dois artistas que despontavam na cena pernambucana da época: Flaviola, que gravou “Aquela rosa” (primeira música composta por Carlos Fernando) e o poeta e jornalista Marco Polo que gravou “Ator folião”… Além de As Sereias que regravaram a clássica “Valores do Passado” de Edgar Moraes.
E os instrumentistas que gravaram eram também todos feras… Robertinho de Recife (guitarra), Paulo Rafael (guitarra), Geraldo Azevedo (violão), Novelli (baixo), Robertinho Silva (bateria), Jackson do Pandeiro (pandeiro), Rafael Rabello (violão de 7 cordas), Joel Nascimento (bandolim), Zé Américo (sanfona)… e o maestro Juarez Araújo (clarinete e sax).
O sucesso desse LP foi tão grande, que no ano seguinte, Carlos voltou a gravar um novo “Asas da América”, desta vez convidou Amelinha, que gravou “Siri na Lata”, Fagner homenageou a “Portela”, Terezinha de Jesus gravou “Cravo Vermelho”, Zé Ramalho registrou “O rapaz do táxi” e As Frenéticas cantaram um antigo frevo de Nélson Ferreira: “Bye, Bye Baby”… E novamente os amigos Alceu Valença (com “A misteriosa”), Elba Ramalho (”Anjo avesso”) e Geraldo Azevedo (”Tempo Folião”).
No Carnaval de 1982, já pela Ariola, uma nova gravadora que se instalava no Brasil, Carlos registrou o terceiro volume da série, dessa vez com as presenças do MPB4 com “Batalha”, Robertinho de Recife (”O pulo do passo”), Zé da Flauta (”Bianos no frevo”) e os eternos companheiros: Alceu Valença (com “Massa Real Madri”), Elba Ramalho (”Século XXI”) e Geraldo Azevedo (”Menina pernambucana” e a regravação de “Cala a boca menino” de Capiba).
No ano seguinte, também na Ariola, o Brasil inteiro frevou com Elba Ramalho e o “Banho de cheiro” de Carlos Fernando. Além desse sucesso, a regravação de “Voltei Recife” (de Luiz Bandeira) por Alceu Valença, também conquistou as paradas de sucesso. Os outros intérpretes que participaram do Lp foram: Lenine & Lula Queiroga (”Grande Fla Flu”), Teca Calazans (”Bloco dos bichos” e “Meu rebento”), Severo (”Alvoroço”), entre outros.
Desde os anos 80 que Geraldo Maia vem nos presenteando com belos discos, o primeiro foi “Cena de Ciúme”, um LP que dividiu com Henrique Macedo, com composições de Lula Queiroga/João Wash, Marco Polo, Erickson Luna, entre outros… Nos anos 90 foi tentar a sorte em Portugal e voltou de lá com as bases do seu primeiro Cd: “Verd’Água”, onde interpretava clássicos de Pixinguinha, Cartola, Villa Lobos juntamente com compositores pernambucanos como Zeh Rocha, João Wash, Carlos Mascarenhas e poesias de Carlos Penna Filho e Manuel Bandeira.
Depois foi a vez de “Astrolábio”, onde apresentava um lado mais pop/contemporâneo, com canções assinadas por Lenine, Lula Queiroga, Alex Mono, juntamente com clássicos de Antônio Maria/Luiz Bonfá… a maturidade chegou com “Samba do Mar Quebrado”, onde mostrava que os pernambucanos também compunham sambas, com belas canções assinadas por Zeh Rocha, Maciel Melo, Luiz Gonzaga, Marco Polo… continuando vem “Samba de São João”, onde novamente os pernambucanos são destacados, dessa vez os mestres da primeira metade do século passado: Capiba, Nélson Ferreira, João Pernambuco, Luperce Miranda, Irmãos Valença, Manezinho Araújo…
No ano passado Geraldo resolveu nos provar que além de ser a mais bela voz do Recife, é também um grande compositor, e ao lado de parceiros como Lula Queiroga, João Falcão, Sérgio Cassiano… compôs todas as músicas do Cd “Peso Leve”.
E esse ano, continua mostrando seu lado compositor no recente “Lundum”, que será lançado com show no próximo dia 10 de setembro no Teatro de Santa Isabel.
O samba volta a dominar quase todo o repertório no novo Cd, onde Geraldo Maia é acompanhado do grupo “O Fio da Meada”, formada pelos jovens músicos Rodrigo Samico, Públius, Hugo Lins e Amarelo… As composições são assinadas por Geraldo em parcerias com Marco Polo (”Helioiticicando”), Juliano Holanda (”Navenida” e “Chamada”), Nilton Júnior (”Santa Luzia”) e Paulo Marcondes (”Pega o Peixe” e “Samba”), juntamentes com regravações para “Só Sei Que Vivendo Morro” de Maciel Melo & Dimas Batista, “Amor Paregórico” de Maurício Cavalcanti & Marcelo Varela e a bossa nova “Voltei” de Renato Phaelante.
Eu já conhecia a bela voz de Flávia Bittencourt da coletânea “Samba Novo”, onde essa cantora/compositora e pesquisadora maranhense participava com “Parangolé”, mas foi uma bela surpresa escutar seu novo CD, o “Todo Domingos” dedicado ao mestre Dominguinhos… E ela cascavilhou bem a carreira do nosso sanfoneiro, e não limitou-se apenas a mostrar seus clássicos como “Lamento sertanejo”, “Eu só quero um xodó” e “Abri a porta”; ela foi atrás de canções obscuras da longa dicografia de Dominguinhos, como por exemplo o samba “O Babulina” e a romântica “Diz amiga”.
O belo disco inicia-se com “Lamento sertanejo”, parceria de Dominguinhos com Gilberto Gil… com arranjo da própria Flávia, com destaque para a flauta de Dudu Oliveira e a rabeca do francês Nicolas Krassik… E continua com “Só quero um xodó”, parceria de Dominguinhos com Anastácia; nessa faixa Nicolas Krassik troca a rabeca pelo violino em duelo com a percussão do mestre Don Chacal.
A terceira faixa é a dolente ‘Contrato de separação”, outra parceria com Anastácia… quase uma valsa, ponteada pela sanfona de Gabriel Geszti.
“Olha, essa saudade
Que maltrata o meu peito
É ilusão
E por ser ilusão é mais difícil de apagar…”
Com arranjo dançante do mestre Silvério Pontes, vem “Sete meninas”, parceria de Dominguinhos com Toinho Alves (do Quinteto Violado) uma fusão de forró com funk e maracatu… A quinta faixa é a pouco conhecida “Diz amiga”, parceria de Dominguinhos com Guadalupe, que conta com a participação do homenageado com sanfona e voz… aliás, essa faixa é só sanfona & voz… Bela.