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HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 15

SE TU QUISER

Compus essa música em 2002 e ela fez parte do meu FORROBOXOTE 2 na voz de Cléo Dantas, contando com a participação especialíssima do menestrel Maciel Melo. De lá pra cá, por uma dessa coisas que não se encontra explicação, ela foi gravada por 106 vozes diferentes (apenas o que tenho registro documentado em discos e DVDs) em vários ritmos: arrasta-pé, xote, canção, rock e até brega. Gravaram-na, dentre outros, Elba Ramalho, Frank Aguiar, Maciel Melo, Santanna, Alcymar Monteiro, Irah Caldeira, Geraldinho Lins e Nádia Maia. Recentemente teve uma versão em inglês – If You Want. A versão que se escutará consta do CD Pérolas Nordestinas, de Cristina Amaral.

SE TU QUISER
de Xico Bizerra

se tu quiser
eu invento um vento pra ventar o amor
uma chuva bem chovida pra chover pé de fulô
pra tu ficar cheirosa e vir dançar mais eu
se tu quiser
eu poemo um poema bem cheio de rima
acendo a estrela mais bonita lá de cima
faço tudo que puder prá tu ficar mais eu

se tu quiser
eu crio um sentimento prá gente se amar
descubro um jeito novo de te abraçar
te beijo com um beijo que ninguém nunca beijou
se tu quiser
basta me dizer que eu irei correndo
é só me avisar que tu ‘tá me querendo
e o mundo vai saber o que é um grande amor

 


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CRONIQUETAS, CONTÍCULOS OU NOVELINHAS?

ESCRITOS QUE NINGUÉM LÊ

Seu ofício era escrever. Tinha compromisso com os editores dos jornais e blogs que lhe cobravam uma crônica semanal. Quando inspirado, ele escrevia 4, 5, 6 crônicas atemporais de uma só vez e as guardava, distribuindo-as, semanalmente, entre as editorias a que servia. E assim foi durante anos até que se exauriram suas idéias. Nada mais lhe surgia à mente para escrever. Recorreu, algumas vezes, a simplesmente transcrever textos de outros autores, mas dando-lhes o devido crédito e nunca deixando de esclarecer que aquilo se devia à falta de imaginação sua, à falta de idéias. Até que resolveu parar de escrever, comunicando o fato aos jornais e blogs. Depois de um tempo percebeu que sua ausência em nada afetou o mundo, o estado, a cidade, seu bairro e que ninguém sequer percebeu que ele deixara de escrever. Voltou a fazê-lo, para alegria dos Editores e indiferença dos leitores. Poderia, ao invés disso, ter-se internado numa clínica para loucos ou exilar-se, ir embora pra Compostela. Poderia, ainda, colocar um anel no dedo, usar um cajado e roupas de mago. Sair pelo meio do mundo inventando anjos, fazendo chover, tirando coelhos da cartola e iludindo o mundo. Mas não. Preferiu voltar a escrever suas crônicas que ninguém lê.

* * *

A CASA E A BOLA

Na esquina, a casa e, fronteiriça com ela, separada apenas por uma cerca de arame farpado, o improvisado campinho de pelada. Inevitável que, vez por outra, a bola caísse naquele terreno, às vezes quebrando o vidro da janela, às vezes batendo em alguém, às vezes nada acontecendo, mas sempre irritando o pai de Teté. Quando ele estava em casa, nessas situações a bola ficava retida e só era devolvida uma semana depois. Considerava o castigo justo para quem não atendia aos seus pedidos de cuidado. Pior era na casa da outra fronteira: seu Armindo furava a bola, na hora. Em ambos os casos o jogo terminava antes dos 45 do segundo tempo. Quando seu pai não estava, o pequeno Teté devolvia a bola e continuava assistindo ao jogo, sentado à beira do ‘gramado’, do lado de cá da cerca. Ainda hoje, 50 anos depois, Teté gosta de futebol e de vez em quando sonha ter sido jogador de futebol. Ainda hoje devolveria as bolas se por acaso elas caíssem no terreno de sua casa.
 


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HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 14

FINO CORTEJO

Em 2004, fizemos, eu e Adalberto Cavalcanti (ou Beto do Bandolim, como prefiram) uma valsa para inclusão em um espetáculo encenado no Teatro Santa Izabel, aqui em Recife. Foi interpretada por Geraldo Maia. Recentemente fui consultado sobre a possibilidade de ela vir a constar do trabalho que está sendo desenvolvido por Gonzaga Leal, grande cantor e referência cultural, num disco de músicas pernambucanas. O arranjo da versão que se escutará é de autoria de Adalberto Cavalcanti.

FINO CORTEJO
de Xico Bizerra e Adalberto Cavalcanti (Beto do Bandolim)
Interpretação: Kelly Rosa

 

os astros e a lua em fino cortejo
louvam o beijo que hei de te dar
a noite que se achega me deixa feliz
um corpo que se ameiga
e tua boca doce que sorri e diz: meu amor

a flutuar no céu brilhos de emoção
meu coração igual ao teu, sorrindo ao bater
no espaço-esplendor, desabrochar de flor
e eu a confessar ao mundo o meu amor

tu és, raio de luz numa noite escura
tu és, porção-milagre, bálsamo que cura
estrela mais que fulgente num céu carregado
és meu pedaço de paz sonhado
és tu, que quando perto, beleza ‘in natura’ 
és tu, que mesmo longe, anjo de candura
hei de ter-te sempre aqui, meu amor, bem juntinho a mim
pois és o meu eterno sim

 

 


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NUM ESPAÇO DE PAZ ENTRE A LUA E O CHÃO

 RIR E CHORAR

E ali estava ele. Rindo. Um riso tímido, contido, calado, mas um riso, como que a zombar da vida, do povo que passava, da tarde que começava a se aproximar da noite. Como explicar aquele riso? O que é um riso? No caso dele, era apenas a boca se alongando um pouco além em suas extremidades. Teria ele motivos para rir? Seus projetos de vida estavam satisfeitos? Era feliz? Seu time ganhara o campeonato? Seria um sinal de felicidade ou um disfarce por não poder chorar? Quem explica o rir? Perguntar-lhe, não adiantaria, pois, por motivo algum, ele interromperia aquele riso para responder. A família, os filhos, amigos e vizinhos queriam entender o porquê daquele riso, muito embora pouco interessasse, naquele momento, sua razão, pouco importasse seu riso. Entre choros e velas somente ele ria. Apenas ria. Ria da vida que passara.

* * *

 TEMPO, TEMPO MEU

“o tempo não para e, no entanto, ele nunca envelhece’- Caetano Veloso, em ‘Força Estranha’

Às vezes quero sair por portas que não existem, portas por mim mesmo inventadas. Quero pular muros que só eu enxergo.

- Calma, Xico, o tempo é o senhor da razão -  diz-me a alma, candidamente.

- Eu sei – respondo de mim para mim, mas o tempo corre e talvez não dê tempo.

E as horas, que passavam horas pra passar, agora passam em segundos, velozes, num raio de luz. Por que a pressa? Estará a vida em nosso encalço, feito polícia, ávida por nos prender? Por que a correria? O rio em que banhamos nossos pés se desencherá, se não nos apressarmos? A lua deixará de estar lá em cima, prateando nosso chão se, ao invés de ficarmos parados, contemplando, corrermos? O canto dos passarinhos será tão breve que não conseguiremos ouvi-lo? Nosso amanhã se desmanchará se formos pacientes e sonhadores? Não, não quero a pressa. Quero a paz da calma, o sossego da preguiça, o esperar chegar. Quero a vida, o sonho, o amor. Quero a paz, pra mim, pra nós. Quero o tempo passando preguiçosamente, no compasso certo do tempo. Quero o meu tempo chegando no tempo certo. Não me avexo. Não se avexe. Dêem-me uma rede pra balançar o tempo e fazê-lo dormir, enrolado num lençol de cambraia bem  branquinho e ainda cheirando a algodão.


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HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 13

APRONTAMENTO

Um sambinha composto em parceria com um dos mais brilhantes músicos do Recife, Adalberto Cavalcanti, conhecido por Beto do Bandolim. Foi inscrito no Festival de Garanhuns de 2007 e, dentre quase 2.000 músicas, ficou em 6° lugar, com a brilhante interpretação de Geraldo Maia. A versão que se escuta a seguir é a que consta no CD dos premiados do Festival. Nunca foi gravada mas penso em fazê-lo em futuro próximo, por gostar muito da melodia e da letra também, modéstia à parte.

 
APRONTAMENTO
de Xico Bizerra


 

vesti meu paletó, linho alinhado
sorri o meu sorriso adomingado pra ela me olhar
nos pés brilhava um brilho que só vendo, quase espelho,
vermelho era o cravo na lapela pra lhe dar
quando cheguei, nem sequer fui percebido
entristecido, por pouco não fiquei a chorar
bastou olhar pr’um cantinho do salão
tava lá um coração esperando o meu chegar

graças a deus, valeu meu aprontamento
nesse momento, do inferno fui no céu parar
ainda bem que a moça nem me notou
encontrei um novo amor, que um cravo vai ganhar

pensando nela vou tomar banho de cheiro
vou ser meeiro em seu canteiro para me encantar
e aquela moça que não quis saber de mim
vai ver como é ruim um grande amor desprezar

 


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UNHA ENCRAVADA DE UM PÉ DE PAREDE

MUROS E MANGAS

manga3

Mais gostoso que as mangas roubadas era o prazer de roubá-las, de pular o muro, do perigo que se corria se flagrado fôssemos. As mangas cumpriam apenas um papel secundário ao serem chupadas. Sabíamos que, se descobertos, nossos pais tomariam conhecimento do ‘crime’ e as penalidades iam de estudar a tarde inteira a não poder jogar bola depois das quatro. Mas valia a pena correr o risco e enfrentar as ameaças. Era o prazer do perigo, da aventura. Hoje, não pulo muros nem chupo mangas. As pernas já não permitem o atrevimento frente a muros altos; o corre-corre da vida não me dá tempo de sentir o sabor da meninice, tão distante. Além do mais, não gosto das mangas amargas dos supermercados, sem qualquer gosto de saudade, sem qualquer sabor de perigo …

*

Depois que publiquei essa ‘croniqueta’ em alguns Blogs para os quais escrevo, fiquei surpreso com a confissão de alguns leitores de que também foram ‘ladrões’ em suas infâncias, de araçás, seriguelas, cajus e também de mangas. E eu que pensava ser o único ‘ladrão’ de frutas dos quintais alheios. Tantos companheiros na arte de ‘roubar’ me aliviam a consciência e me deixam feliz. Fico a desejar que meus netos (que ainda estão por vir) provem do gosto saboroso das frutas roubadas, em suas peraltices de criança. Espero que os muros ainda existam e que continue sendo proibido pulá-los para que o doce das frutas se mostre tão açucarado quanto era nos meus tempos de menino.

* * *

 PEDRINHO E AS PEDRINHAS

Pedrinho, à margem esquerda do rio, joga pedrinhas na água límpida, vendo os peixes amarelos e livres, nadando, ora a favor, ora contra a correnteza, brincando de tudo-pode com a mãe natura. No aquário do pai, um peixe amarelo a se digladiar, esbarrando no vidro quando se aventura num nado maior. Liberdade e clausura dos peixes. Pobre menino que atira pedrinhas no rio e chora pelo não-poder atirar de volta ao rio aquele peixinho amarelo. Pobre peixe amarelo que nada quase nada e esbarra, sem opção de escolher entre o vidro e o rio, entre o vidro e o mar, entre o vidro e a vida. Um gato o observa de longe, esperando um trincar de vidro, um peixe no chão. Do alto de sua gaiola, solidário, o passarinho torce pelo peixe. 

 


 


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HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 12

MATUTO

Música totalmente composta em uma noite de lua na cidade de Monteiro, na Paraíba. Felizardo, irmãos dos meninos dos Vates e Violas, comentando sobre alguém que se esforçava para parecer matuto, sem sê-lo, comentou: ‘o cabra não sabe sequer ajeitar o chapéu e quer ser matuto’. Foi o mote que inspirou o feitio da música, inicialmente gravada por FUÁ DE MARAVILHA, da cidade do Bodocó (ex-membros da Sinfonéia Desvairada) no meu disco em homenagem ao Baião, e posteriormente por GLÁUCIO COSTA. Mais recentemente foi também gravada por EZEQUIAS SILVA, jovem valor da Zona da Mata Norte.

MATUTO
de Xico Bizerra

matuto eu conheço pelo ajeitado do chapéu
matuto eu conheço pelo carregar do matulão
matuto eu conheço pelo olho que olha pro céu
matuto eu conheço pela pisada do pé no chão

pela fé que ele tem em nosso senhor
pela paz bem guardada no seu coração
pela crença incontida que tem no amor
pelo jeito tão sincero de apertar a mão

todo dinheiro vale menos que o fio do seu bigode
ele fala ‘pro mode’ mas sabe mais do que qualquer doutor
no terreiro do seu peito tem fartura de felicidade
plantação de amizade, colheitas de  amor

matuto eu conheço pelo caminho que estradou
matuto eu conheço quando escuta um baião
matuto eu conheço quando canta o fogo-pagou
matuto eu conheço pelo amor que tem pelo sertão

pelo ombro largo sempre a amparar
pela mesa que sempre cabe mais um
pela coragem grande que tem pra lutar
pelo braço forte sem medo nenhum

 


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EM CIMA DA TERRA, DEBAIXO DO SOL

ESCUTANDO O MAR

Ela foi, não havia como deixar de ir. Não queria, mas findou por ir, junto com os pais. O pretexto de conhecer o mar não lhe parecia convincente, mas incontestável se mostrava. Como ficar, sem pai, sem mãe, apenas com ele, seu amor, à espreita, aguardando uma chance? O mar? E ela queria lá saber de mar! Muito mais lhe aprazia os carinhos recebidos e testemunhados pela lua, só por ela. Mas estava lá o mar à sua frente, sem graça, totalmente imenso e insosso, uma coisa grande, mas sem sal. De nada teria valido aquela paisagem não fossem as conchinhas recolhidas na areia para ofertá-las, como presente, quando voltasse. Ao recebê-las, ele levou aos ouvidos o regalo e, da conchinha mais bonita, ouviu o mar, distante. Beijou-as, a concha e quem a trouxe de tão longe. Ela adorou ter visto o mar. Ele adorou ter escutado o mar.

* * *

RAMIRO, O BELO

 

Ramiro era muito feio e todos os bonitões da cidade riam de sua feiúra. Descaradamente. Até os que também eram feios riam de sua feiúra, tão exagerada que era. Ele não se importava e seguia a vida, carregando bagagens na estação de trem, trabalhando como chapeado: era assim que se chamavam aqueles que transportavam malas, identificados por um número na chapa de bronze colada ao quepe: O dele era o 341. Um dia Ramiro ganhou de um viajante um espelho encantado que refletia a alma das pessoas que nele se olhassem. Ramiro olhou, viu-se e passou a rir da feiúra de todos os bonitões da cidade. Discretamente, sem que ninguém percebesse o seu riso. Como era feio aquele povo! Como era belo o Ramiro!

* * *

PRA QUE PROVOCOU?

Quando o presidente da Câmara dos Deputados Ranieri Mazzili deu a palavra ao Deputado Carlos Lacerda, representante do Distrito Federal – Rio de Janeiro, à época, o deputado Bocaiúva Cunha, rápido e grosseiramente, gritou ao microfone, sob os risos do plenário:

- Lá vem o purgante!

Lacerda, num piscar de olhos, respondeu:

- Os senhores acabaram de ouvir o efeito! A Câmara quase vai abaixo, tanta a risadagem.

Sem entrar no mérito das virtudes (ou desvios) morais dos envolvidos, há de se reconhecer a presença de espírito e a malícia do Deputado Lacerda.



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HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 11

LUA BRASIL

Toda e qualquer homenagem que se preste a Gonzaga é e será sempre muito pequena diante do tamanho e da importância de sua obra para a MPB. Modestamente, fiz LUA BRASIL, uma das minhas canções que mais gosto, talvez pela homenagem que nela se contém ao Mestre ‘Lua’. Grandes intérpretes a gravaram, como Irah Caldeira, Dominguinhos e Quinteto Violado. Segue a versão do grande Mestre de Garanhuns, ‘seu’ Domingos, confesso discípulo do homem de Exu. 

 

LUA BRASIL
de Xico Bizerra

na serra, da terra ouviu-se um cantar, astro-mor
um raio, um brilho, uma luz, fez-se um canto maior
ecoou mundo afora a partir desse sol do exu
e cantou, encantou, asa branca, acauã, transbordou pajeú

solo araripe, alma sertã, sons do brasil
canto de fé, acalanto de amor, pranto viril
caiçara, quem dera, fizesse o tempo voltar
e de novo esse canto a gente pudesse escutar

saudade tua, eterno lua,

lua de amor, lua de paz, lua feliz
lua sertão, lua canção,

lua brasis, lua baião, lua luiz


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DA BABÁ DE JOÃO AO CARTEIRO SORTUDO

LIA

João era um menino muito impossível, como dizia minha avó. Suas babás demoravam muito pouco no emprego. Lia, não. Magrinha, crente e míope Lia pesava pouco, orava muito e enxergava quase nada, mas tinha o maior respeito de João que nunca lhe escondia os óculos. Lia só não podia levá-lo à praia, de manhã cedo, pois a mãe de João não confiava o atravessar da Bernardo Vieira daquela criatura com 23 graus em um olho, 21 no outro e com um João danado nos braços. João, hoje, vai à praia todo fim-de-semana, trabalha com vendas e estuda marketing em uma faculdade do Grande Recife. Lia, soubemos há pouco, casou, teve dois filhos, fez cirurgia ocular e continua crente. Não mais usa óculos nem tem tanto tempo para orar. Às vezes, leva seus filhos à praia.

* * *

CARTAS AO VENTO

Não pensara em se apaixonar, mas no coração ninguém manda. Apaixonou-se logo por aquela moreninha que morava tão longe, podendo ter-se apaixonado por outra moça de sua cidade. Mas aconteceu e assim foi. Danou-se a escrever cartas e até poeta virou. De tantas cartas e poemas o caminho da agência dos correios até sua casa quase afunda. A moça nunca respondia suas cartas e isso o deixava intrigado. Depois de um ano voltou à cidade para revê-la, para propor-lhe namoro, coisa séria, como antigamente. Tarde demais: a moça apaixonara-se pelo carteiro, tantas as vezes que ele a visitara para entregar-lhe aquelas cartas, nunca abertas, nunca lidas.

 

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HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 10

PROCÊ NÃO CHORAR

Pequena homenagem que presto ao chorinho brasileiro, citando, na letra choros famosos, como Odeon, Noites Cariocas, Brejeiro, Ingênuo, Pedacinho do Céu, Um a Zero, dentre outros. Mais uma interpretação impecável de Irah Caldeira (como se isso fosse novidade!)

 

PR’OCÊ NÃO CHORAR
de Adalberto Cavalcanti e Xico Bizerra

sou esse bandolim, amigo-irmão do cavaquinho
desde sempre me alinho ao camarada violão
proseio com o pandeiro, grande companheiro
e vou colhendo as harmonias bem dentro do coração
bemóis e sustenidos lá no fundo do meu peito
provam que o amor-perfeito faz a gente se alegrar
por isso é que faço acordes com tanto carinho
e vou tocando esse chorinho pr’ocê não chorar

sou esse bandolim recém-casado com a flauta
que em toda serenata se enamora do luar
tem um surdo que é sisudo mas não fica mudo
compassa alegrias juntas com meu tremular
me chamam mandolina mas não é esse meu nome
só sei que a tristeza some se ficas a me escutar
por isso é que vou estar sempre em teu caminho
e vou tocando esse chorinho pr’ocê não chorar

de nazaré a lacerda, pelas noites cariocas, toco brejeiro em odeons
sapato novo que o andré, ingênuo, descalçou
naquele jogo que tava um a zero e empatou
te ofereço, meu amor, do céu um pedacinho delicado ninho a te abrigar
e nesse canto de lamento que é tão brasileirinho
carinhoso é meu chorinho pr’ocê não chorar



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CONTÍCULOS DE UMA MANHÃ SEM SOL

A BAILARINA E OS INSANOS 

Nize dançava e dançava. De todas as formas, de todos os jeitos. Dançava todos os passos e era uma alegria só. Cada compasso lhe trazia um alargar de sorriso como que a desafiar todos aqueles que a julgavam insana. Nize, calada, apenas dançava. E ria. A paz estava em seus pés, a alegria em seus passos, em seu sorriso, em sua alma. Seu dançar, contradizendo a lógica, era como um chamamento a um duelo, a uma derradeira e fatal disputa, entre ela, a que dançava, e todos aqueles que não escutavam a música. Enquanto isso, Nize dançava e dançava. E ria sem se importar.

* * *

ANDAR É BOM

Andar, acordar cedo, olhar pela janela e ver um céu ainda escuro clareado por uma luzinha solitária. Um avião que passa, um pára-raios que não passa ou um vagalume a pirilampear na madrugada? Ou seria um pirilampo vagalumeando a manhã que está chegando? Virar de lado, não andar, fechar os olhos, re-dormir. Deixar de perder alguns quilos, ganhar o conforte de um lençol quentinho numa madrugada escura e esfriada pela preguiça do sol. Amanhã, a mesma manhã, a mesma janela, o mesmo céu, o mesmo não-andar. Ao final do dia, gramas e felicidades a mais. E o sol, tão preguiçoso quanto eu. .

* * *
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HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 9

TANGO PRA ELA

Sempre me emocionou o namoro, o chamego, o amor entre o Sanfoneiro e seu Instrumento. Parece coisa de xodó o juntar a Sanfona ao peito, pertinho do coração, como que a abraçar a mulher amada. Certa vez conversando com Roberto Cruz, disse isso e desenvolvemos uma melodia para que pudesse retratar esse envolvimento tão terno e bonito. Saiu um xote, ritmo que achei não retrataria bem a situação. Preferia algo mais envolvente. Surgiu a idéia do Tango e é como se fosse uma declaração de amor do Sanfoneiro para sua Sanfona. A música está no nosso Forroboxote 5, ALMA SANFÔNICA. Na versão original, a interpretação de Gennaro, Sanfoneiro dos melhores.

TANGO PRA ELA
de Xico Bizerra

vou te levar em meus braços
em todos os passos que um dia eu fizer,
te carregar com carinho
por cada caminho que a vida me der,
vou desnudar meu poema,
te cantar o tema de minha paixão,
gozar de tua beleza,
tanger a tristeza do meu coração,

em teus acordes me deito,
feliz me deleito, cultivando sons,
és minha amiga primeira,
fiel companheira de todos os tons,
vou te manter bem juntinho,
fazer nosso ninho nas pautas do amor,
vamos ser o pão e o vinho,
a linha e o linho,
a pétala e a flor

 

JANELAS E SONHOS, BICICLETAS E DINHEIROS

A JANELA DA CASA DA FRENTE – do outro lado da rua

mulhernajanela1991

Estava tão perto, bastava atravessar a rua onde morava meu avô. Do outro lado, ela e seu sorriso, à mesma distância. A vontade de ir até àquela janela do outro lado só era menor que a timidez que impedia seu atravessar. Coisa de adolescente. Sempre, à mesma hora, o ritual repetido: debruçar-se à janela, aprumar a vista para a casa de frente, sonhar. Sabia que ela tinha o mesmo desejo e a mesma timidez, talvez o mesmo sonho, por isso, o mesmo ritual. Era a melhor parte das férias. Numa tarde de um junho beirando julho passaram pela rua que os separava quase 30 fuscas, duas freiras e uma carroça carregando móveis usados, puxada por um cavalo castanho. Meu irmão menor viu e contou. Eu mesmo nada percebera além do debruçamento da menina à minha frente. Apenas para ela tinha olhos. No fim do ano, a casa da janela enfeitada foi alugada. Foi a pior parte das férias. Numa tarde, contei 41 fuscas passando pela rua, a maioria deles branco. Duas freiras voltaram a passar, ambas de óculos. À tardinha, bem lentamente, passou uma carroça de saudades puxada por um cavalo azul.

* * *

MARISOL DOS SONHOS JUVENIS – a loura e o mar

Eu sabia que não era verdade, que era apenas pabulagem. Ele mentia para me fazer inveja, só porque morava na capital e eu era um menino besta do interior. Chatice de menino chato. Tinha certeza que ele não vira, mesmo morando na capital, o último filme de Marisol, em que ela volta de Madri pra sua aldeia natal. Curioso, perguntei-lhe como ela fizera a viagem, se de avião ou de ônibus. Ele baixou os olhos e num tom de voz quase inaudível, próprio dos inimigos da verdade, respondeu-me que fora de avião. Desconversou, mudou de assunto e fomos jogar bola. Quando o filme passou no Crato, encantei-me com a volta de Marisol pra sua cidade. Embelezando o já naturalmente belo, suas madeixas amarelas e um vestidinho da mesma cor. O mar estava lindo, combinando com Marisol. Ela não enjoou na viagem e cantava como nunca.

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HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 8

 FARELIM DE NADA

Sentados à mesa, eu, Dulce, Maria Dapaz e Jô, numa tardinha de sexta-feira. Após o cuscus, o café, o pão, os bolinhos, Dulce insistia para que Dapaz comesse mais um pouco, ainda que fosse um farelim  de nada, para atestar a qualidade daquele queijo chegado do Crato. O pedido não surtiu efeito, mas o termo ‘ farelim de nada’ chamou-me a atenção, saiu dali direto pro computador e, mais tarde, inspirou o xote que foi gravado originalmente por Maciel Melo e, depois, por Aracílio Araújo, Irah Caldeira, Antônio Paulino (CD e DVD), Osmando Silva (de Monteiro) e Kelly Rosa.

 

 
FARELIM DE NADA
de Xico Bizerra

eu gosto tanto de tu e tu de mim um farelim de nada,
eu quero tanto bem a tu e tu não pisa na minha calçada,
o que é que eu vou fazer? quero um pedaço de felicidade,
mais um tiquinho de tua amizade,
é só o que me resta pra eu ser feliz

se adoro xote, tua alpercata só dança bolero,
se o meu lero-lero, cheio de ô-xente não te encanta mais,
se uso chita e tu prefere paletó de linho,
se pelo meu caminho tu arrodeia e passa por trás,
se quando eu canto pras tuas ‘oiça’ eu sou um cabra mudo,
pra mim tu és um farelim de tudo, é só o que me falta pra eu ser feliz

na tua orquestra eu não consigo ler a partitura,
tua pedra é dura e minha água mole não tem jeito de furar,
tu és o grito e eu sou cabrito desses que não berra,
tu és um pé de guerra, eu sou um lenço branco pra te acenar,
és onça braba, sou bicho manso, passarim miúdo,
pra mim tu és um farelim de tudo, é só o que me falta pra eu ser feliz

se dou um cheiro, tu me devolve zero de afeto,
meu caminho é reto, nas tuas curvas não posso passar,
sois do azul e eu sou do partido encarnado,
tu fecha o cadeado, sou porta escancarada a te esperar,
tu não me quer, mas mesmo assim de ti eu não desgrudo,
pra mim tu és um farelim de tudo, é só o que me falta pra eu ser feliz

eu gosto tanto de tu …

 

DAS FEIRAS, DOS SERTÕES, DOS POEMAS DE AMOR

ERA UMA VEZ UMA FEIRA – beatas e frutas

feirinha_1765

Na rua da Igreja, beatas e feira. Feira de primeira. Toda segunda-feira. De verdura, cereais, mas principalmente, a colorida feira das frutas. Das jaboticabas roxinhas, limões verdes, pitangas vermelhas. Tamarindos marrons e azedos se juntavam a doces siriguelas amarelinhas para enfeitarem a banca de Mané Gordão e a boca gulosa da meninada.  Às vezes eram vistas acerolas cor de acerola e, quase nunca, carambolas, estas de uma cor sei-lá-que-cor. Os olhos brilhavam diante da aquarela de sabores, das goiabas e maçãs, das mangas e cajus… Onde estão as feiras? Onde se escondem as frutas? Onde brilham as cores? Hoje, aquela rua só tem as beatas. A feira mudou-se para o ar condicionado: lá, as frutas têm sabor acre e as cores se desbotam, se esvaem, lembrando do burburinho e com saudades da mão gorda de Mané a afagá-las. Na hora de pagar o dinheiro é de plástico. Na fila do caixa, sem a zoada da feira, uma criança chupa chiclete.

* * *

GENTE E OBJETO – cadê o sono?

Desde cedo, tempos de escola, se mostrava capacho e treinava para o futuro denunciando colegas ao bedel. Agora, sua vocação se mostrava de forma mais nítida, mais acentuada. Uns na vida são gente, outros, objeto e outros até menos que isso. Ria dos colegas, com um riso frágil como sua alma, sua postura, seu viver. Índole servil, não levantava a cabeça quando se tentava olhá-lo nos olhos. Ia às Assembléias dos trabalhadores onde todos arriscavam a pele. Ele não: ficava quieto, ausente, mudo, sem coragem de votar contra mas já certo de furar a greve que se aproximava. Sabia a quem bajular, não se importava com a omissão e traía quem não fosse pelego, como ele. À noite, na sombra da covardia, abraçado ao travesseiro da consciência pesada, se perguntava: em que dia dormirei?

* * *

UM PARAÍSO CHAMADO SERTÃO – Bem ali, perto do céu

 

 Pajeuzado de emoção e caririzado de saudades lembro desse sertão arrodeado de lua por todos os lados. Do terreiro onde se escuta a voz do vento moxotizado vindo de não sei onde para refrescar a tarde teimosa e araripense que não quer virar noite. E quando esta chega, ah, aí  dá pra   sentir que o paraíso foi inventado ali por perto, que o Criador se inspirou naquele lugar prá se motivar a criar o céu . Tivesse ele ficado por ali mais um tempinho, teria colocado Adão e Eva naquele terreiro sem maçãs e sem serpentes, com luz, sol e um vento que canta quando o sol, vencido pelo cansaço, veste o pijama e vai dormir. Deixem-me balançar nesse terreiro, deixem passar as galinhas por sob a rede, não impeçam  que o cachorro lata quando passar alguém na estrada, deixem o sol ser preguiçoso, como sou. Deixem tudo. No céu pode tudo.

* * *

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HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 7

AVE-MARIA DA NATUREZA – religião e ecologia de uma só vez

Agosto de 2006: Irah Caldeira estava ensaiando o Auto de Natal a ser realizado em João Pessoa e Bebé de Natércio, grande músico e amigo, passava para ela as melodias a serem cantadas. Bebé me pediu que colocasse letra numa música que seria a saudação à Nossa Senhora, na encenação paraibana (terminamos parceiros em todo Auto, eu como letrista). Foi aí que fiz a AVE-MARIA DA NATUREZA, que veio a ser gravada por IRAH CALDEIRA no disco do evento e, posteriormente, por MACIEL MELO, em disco intitulado NATAL SANFONADO, editado pela Sociedade dos Forrozeiros Pé-de-Serra e Ai! A mesma música está atualmente sendo gravada por FLÁVIO JOSÉ, em ritmo de Baião, para compor uma coletânea em homenagem à Maria. A versão a seguir é a de IRAH CALDEIRA. Dispensável dizer o quanto gosto dessa interpretação, por redundante ser gostar das coisas que Irah faz:

AVE MARIA DA NATUREZA

Bebé de Natercio e Xico Bizerra

Ave Maria, rogai
pelas marés,  pelas flores
pelas florestas,  pelos amores
pelo fim dos arsenais
Ave Maria, rogai
por todos nós, pecadores
por nossos risos, por nossas dores
e por um mundo de paz

bicho dos ares, bicho dos mares
bichos de pelos, escamas e penas
bicho dos matos , bicho dos rios
e outros bichos que somos nós
rogai por nós , rogai por nós
rogai por nós,  santa mãe de Jesus

Ave Maria dos céus
venho aos teus pés pedir
por nossas vidas,  nosso ir e vir
por homens racionais
Ave Maria dos céus
rogo teu doce olhar
por nossos sonhos, luas no mar
por todos os animais

bichos que voam, correm e nadam
bichos que brigam, bichos que matam
bichos urbanos, bichos de ruas
por esse bichos que somos nos
rogai por nós, rogai por nós
rogai por nós,  santa mãe de Jesus

 

CRONIQUETAS, CONTÍCULOS E NOVELINHAS

1 - RIO DE TODOS OS JANEIROS (de fevereiro a dezembro)

Conhecia, de fotos e de ouvir falar, a beleza do Rio de Janeiro. Cidade Maravilhosa. Luzes, Morros, Praias. Agora, estava lá, de verdade. Sua aldeia amada não tinha pães-de-açúcar nem corcovados. Seu Cristo Redentor era uma pequena imagem de Frei Damião, pouco mais de metro e meio, na praça principal, em frente à Prefeitura. Sua Copacabana era o Açude, com menos água que o mar, mas tão belo quanto. Era o que amava, ali nascera. Mas não havia dúvidas quanto à beleza do Rio. Principalmente quando visto do alto, da janelinha do avião, na viagem de volta. Seu lugarejo era seu chão, seu céu, seu rio, de janeiro a dezembro. E a bala, quando necessária, sempre achava o endereço certo, não se perdia

* * *

2 - FORMIGAS E FORMIGUEIROS – gramas e lamas

Não pisou na grama. Nunca, por questão de princípios, pisava na grama. Fazê-lo seria uma atitude agressiva e desrespeitosa para com a natureza. Foi assim que aprendeu com seus pais e, depois, na escola. Pisando, a grama morre. Além do mais, escondidas sob a grama poderiam estar formigas, a trabalho ou a passeio. Muitas formigas. Do mesmo jeito que nas calçadas estão pessoas, a trabalho ou a passeio. Muitas pessoas. Um formigueiro humano. Naquele dia nublado, chegou cedo ao trabalho e pendurou seu guarda-chuva no cabide para esse fim destinado. Percebeu que o sapato do chefe estava sujo de lama: podiam-se ver pedacinhos de grama no solado, quando ele cruzou as pernas. 

* * *

3 – MEU TIO ALMIR – uma vez flamengo …

Meu tio Almir nunca acreditou em Deus e só fazia uma exigência, metódico que era: quando morresse, que seu cortejo fúnebre desviasse pela rua de trás, evitando passar em frente à Igreja de Nossa Senhora da Penha. Fez até um mapa detalhando o roteiro a ser cumprido. Estava tudo preparado para esse dia, por ele mesmo, desde a bandeira do Flamengo a ser colocada sobre o caixão até o discurso de despedida, por ele próprio redigido e que seria lido por Altamiro, seu amigo, aposentado do BB e também flamenguista. Proibido estava que se fizesse qualquer oração, sequer um Pai-Nosso. Altamiro foi-se antes, coração atropelado por um enfarte desgovernado e sem freios. Seu Almir morreu num domingo, na hora da missa das sete e seu sepultamento foi às quatro da tarde, quando se iniciava a novena em louvor à Virgem Maria. A rua estava lotada de fiéis e seus amigos o acompanharam da Pedro II até o cemitério pela rua que fica por trás da Igreja. Se houve reza, foi baixinho e ninguém ouviu. Mais tarde, o Flamengo ganhou do Vasco por 1×0. Da arquibancada do céu ouviu-se um grito de gol.

 

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HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 6

CARNAVAIS E SÃO JOÕES

Alguns direitos básicos  não são concedidos aos indivíduos: Por exemplo: a escolha do nome ou da cidade onde nascer. Quanto ao nome, temos de carregá-lo pela vida afora, gostemos ou não dele. No que diz respeito à cidade onde nascer, resta-lhe escolher a cidade para se amar. No meu caso, escolhi o Recife. Há mais de 30 anos morando por aqui, constituí família, fiz minha vida profissional, casei, tive meus filhos. E escolhi o Recife para amar assim como também o fizeram pessoas como Ariano Suassuna, Miguel Arrais, Dom Hélder Câmara e tantos outros que a adotaram como terra de seus amores. Baseado nisso compus o frevo de bloco CARNAVAIS E SÃO JOÕES que conta exatamente o amor de alguém pela cidade. O protagonista, morador do sertão, à época do carnaval deixa tudo e vem brincar na Veneza das Américas. A música está no Forroboxote 4, interpretada por Cléo Dantas e foi posteriormente, gravada por Rogério Rangel. Está também incluída no álbum 25 ANOS DE MEMÓRIA DE NOSSA GENTE, de Renato Phaelante.

CARNAVAIS E SÃO JOÕES

De Xico Bizerra
Com Rogério Rangel

Tô com saudade das pontes, Capibaribe,
E se tu não me proíbes que nem Capiba vou recifar,
Eu volto logo, te prometo, não demoro,
Venho que nem meteoro pro sertão te namorar,
Mas quero ver esse Recife, essa paisagem,
Quero ver Boa Viagem a cidade aguar,
Rever Olinda, lá do alto, imponente,
Feito Ascenço, feito gente, o Recife cortejar,

Vou te levar de presente, na quarta-feira,
Um poema de Bandeira, que é prova de querer bem,
E vou cantar um frevo bem compassado,
Ou um xote apaixonado do jeito que nos convém,
No fim da festa eu inda passo por Olinda

E te levo, ó minha linda, um passo de Pitombeira,

E vou frevando, vou Nelson ferreiriando,
Frevo e xote misturando num sobe/desce ladeira
Vou xoteando, vou luizgonzagueando,
Xote e frevo misturando num sobe/desce ladeira,

Eu nesse meio, tranceteio de boneco,
Quatro cantos, cada beco, seus encantos, emoções,
Mandacarus, rios, veredas, avenidas,
Pontes em nossas vidas, carnavais e são joões

 

MAIS CRONIQUETAS

LOUCOS E SÃOS (quem somos nós?)

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Dentro, o verde, o ar puro e um hospital de loucos. Fora, o vai-e-vem de carros, o ar de fumaça e a liberdade dos sãos. No boteco da esquina políticos, empresários e lobistas tomam porres de ganância com tira-gosto de hipocrisia. Beberes e comeres à loçé. Dentro, um shoping terá paredes pintadas de verde, um museu de remorsos e consciências onde se contemplará Deus e o Dinheiro; fora, os bêbados e os pedintes incomodados com as bicicletas circulando pelas calçadas. Entre elas e a rua, padres, jornalistas e povo trafegam: loucos ou sãos, ainda? Curiós e Sabiás, alheios a tudo, cantam para os sãos de dentro e os loucos de fora. Todos, sem distinção, escutam. Os de dentro, choram. Os de fora, se foram.

* * *
 
ASSASSINOS DA ESPERANÇA (a primeira que matam ou a última que morre?)
 

Dona Ética bateu mas ninguém abriu-lhe à porta. Insistiu, e nada. Ouviu – atentos ouvidos tem a Dona Ética, passos de dentro da sala. Certamente, alguém veio ao olho mágico observar quem era a visita. Identificada como incômoda, a porta não foi aberta. Dona Ética pensou insistir mais uma vez mas, já tinham lhe dito, não adiantaria: ali ninguém lhe daria ouvidos. Seria perda de tempo. Desistiu. Saiu prometendo a si mesma não mais querer conversa com aqueles homens de paletó, pastas e meias fartas. Dali, já atrasada, foi ao sepultamento da amiga Esperança.

 

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HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 5

PASSARIM JOÃO

No FORROBOXOTE 3, MULHERES CANTADEIRAS DE UMA NAÇÃO CHAMADA NORDESTE,  fiz a música PASSARIM JOÃO para homenagear o caçula, João Paulo, nascido em 84. Usei como tema a passarinhada, de canto alegre e que tantas alegrias traz a quem por perto dela está. De comparações com vários passarinhos surgiu a música, confiada a Bia Marinho a interpretação, no que, devo confessar, fui muito competente. Bia é uma das vozes mais bonitas dessas bandas do Brasil. A partir daí, João não poderia mais reclamar que apenas Mariana tivesse uma música em sua homenagem. A música está nos CDs FORROBOXOTE 3 e A CONVITE, de Bia Marinho.

PASSARIM JOÃO

Xico Bizerra

‘passarim’ joão,
meu menino, companheiro
‘garradim’ no travesseiro dorme solto, ‘tá feliz
quais os sonhos de joão?
doce anjo, néo-rapaz
que sejam sonhos de paz dos que sempre tê-los quis

do moleque sinto o cheiro,
meu menino, rouxinol
és meu doce arrebol, me encanta o teu sorrir
é um amor tão verdadeiro nessa alma inda pequena
que a vida lhe seja plena, joão menino, bem-te-vi

dorme, nenen, o teu sono de esperança
eu volto a ser criança quando pego em tua mão
dorme, nenen, joão-de-barro pequenino
‘tô feliz, joão menino,
‘tá em paz meu coração

CRONIQUETAS QUE SÓ NÃO SÃO PIORES POR SEREM PEQUENINAS

 BOA NOITE (e sonhem com os anjos)

Dormir é bom. Pelo menos, eu gosto. Pense num cabra ‘gostadozim’ de dormir! À noite, depois do almoço, a qualquer hora, desde que o sono chegue. No meu caso, ele chega, sempre. E entre o tibungar na cama e o ajeitamento da cabeça no travesseiro, já se foram pelo menos dois roncos. Sou dos que fazem inveja àqueles que sofrem da tal da insônia. Dizem, também, que Poeta não precisa dormir para sonhar. Eu prefiro meus sonhos dormidos – acordados estamos mais suscetíveis aos pesadelos. Numa noite dessas, parece piada de mau agouro, sonhei com o extermínio de todos os Xororós da face da terra. Não sobrava um Xitãozinho pra contar a história. Mas Deus preferiu levar Pena Branca pra junto de Xavantinho. E Deus não é besta: refez a dupla para cantar pra ele, num cantinho do céu. Fazer o quê? Dormir, sonhar.

* * *

SÓIS QUENTES (no norte e no sul o sol é igual)

Juntou os bregueços, botou o pé na estrada e tome léguas… Para trás, um sol escaldante, um roçado infértil, uma mulher fértil e cinco filhos pequenos. Todo ano vinha aquela vontade, mas agora era pra valer. O Sudeste maravilha o esperava, a sorte estava lançada. Seus planos, sua vida, tudo mal cabia em sua cabeça, num sentimento só misturado com a saudade. Seus santos o protegeriam na terra distante e desconhecida. Tinha fé. O futuro? A Deus pertence, desde cedo aprendera. E tome léguas… Em São Paulo, sem roçado, sem mulher, sem filhos, apenas com a saudade preenchendo a alma, fazia um sol danado de quente.

 

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22 fevereiro 2010XICO COM X, BIZERRA COM I

HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 4

QUERO MEU SERTÃO DE VOLTA

Compartilhando de sentimento idêntico ao meu, o amigo Anselmo Alves publicou artigo na imprensa, nos Orkuts e nos emails da vida tecendo comentários sobre o forró de plástico, sobre o estelionato poético que se contém nas chamadas Bandas de ‘Forró’.

Ao tempo em que a pornô-music ganha espaços nos órgãos governamentais – leia-se Prefeituras do Interior, a nossa autêntica cultura regional vive a mendigar cachês junto a gabinetes estatais.

Com essa história na cabeça, juntei-me com Bráulio Medeiros e fizemos a QUERO O MEU SERTÃO DE VOLTA, que retrata exatamente a situação atual de nossos sertões com a invasão da porcaria travestida de música. Ela está contida no CD PARCEIROS DO FORRÓ, de ILANA VENTURA, lançado em 2009.

QUERO MEU SERTÃO DE VOLTA

Xico Bizerra e Bráulio Medeiros

não tem mais tropeiro, nem um sanfoneiro em dia de feira
não tem chão batido, um assar de milho, brasa de fogueira
foi-se a poesia, cadê cantoria, ‘quêde’ o sabiá?
‘tá faltando abraço, da noite um pedaço pra se namorar

procurei, em vão, um balanço bom, saudade da rede
água bem friinha, vinda da quartinha matar minha sede
e o florar do mato, destroçado, insiste em não frutificar
oh! meu padim ciço, tanto rebuliço, não dá pra esperar

quero é brincar no terreiro,
da chuva sentir o cheiro, quero abrir a porta
pr’um  sorriso verdadeiro,
não quero dinheiro, quero meu sertão de volta

onde está a flor, onde está o amor, onde está? não sei
o asfalto esconde as pegadas das veredas onde andei
até a lua branca de tanta vergonha  foi se esconder
se o progresso é isso, disso eu não preciso, eu quero é viver

cadê a natureza, não tem mais pureza nesse meu sertão
só se ouve verso no caminho inverso da minha canção
e o vaqueiro forte, procurando a sorte, se pega a rezar
purgando o castigo de um povo tangido a se humilhar

quero é brincar no terreiro,
da chuva sentir o cheiro, quero abrir a porta
pr’um  sorriso verdadeiro,
não quero dinheiro, quero meu sertão de volta

 


15 fevereiro 2010XICO COM X, BIZERRA COM I

CACHORRINHO VELHO, SAFADO E SABIDO

Ser velho, além da experiência adquirida ao longo do tempo, traz outras ‘vantagens’. Só que ninguém quer sê-lo. Minha primeira experiência como ‘ancião’ aconteceu semana passada, em um órgão público, quando, por sugestão do atendente – que funcionário público arretado! - ‘furei’ a fila por conta da minha idade avançada. E eu que nem fiz 60 anos ainda.

Mas, embora encabulado, fui beneficiado e ganhei precioso tempo de minha vida sendo atendido na frente daqueles jovens que ali estavam. Pensei em não aceitar mas, pelo descaramento de quem me atendeu, preferi não. Vou testar se estou com a aparência tão derrubada assim nos estacionamentos destinados aos de ‘melhor idade’ e nas entradas de cinema que permitem abatimento de 50% para os mais velhos. O fato me fez lembrar uma fábula antiga que conta o seguinte: 

Um velho vira-lata acompanhou sua dona em caçada na África. Certo dia, vagando na floresta, o velho cão, de repente, deu-se conta de que estava perdido. Procurando o caminho de volta, percebe que um jovem leopardo o avistara e em sua direção se encaminhava, na intenção de conseguir um bom almoço…

O cachorro velho pensa:

- Dessa vez eu me lasquei!

Olhou à volta e viu ossos espalhados no chão por perto. Em vez de apavorar-se mais ainda, o velho cão ajeita-se junto ao osso mais próximo, e começa a roê-lo, dando as costas ao predador. Quando o leopardo estava a ponto de tanto dar o bote como de ouvi-lo falar, o velho cachorro exclama bem alto:

- Cara, este leopardo estava delicioso! Será que há outros por aí?

Ouvindo isso, o felino, com um arrepio de terror, suspende seu ataque, já quase iniciado e se esgueira na direção das árvores.

- Caramba! pensa o leopardo, essa foi por pouco! O velho vira-lata quase me pega!

 

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8 fevereiro 2010XICO COM X, BIZERRA COM I

HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS - 3

CHICO DAS ÁGUAS

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Sempre tive a maior dificuldade de me posicionar a respeito da transposição do São Francisco. Como é um tema profundamente técnico, toda e qualquer explicação, a favor ou contra, só contribui para aumentar minha dúvida sobre os benefícios – ou não, que a medida traria.

Mas, convencidamente incapacitado de fazer uma avaliação técnica sobre o assunto, me reservei o direito de posicionar-me favoravelmente pelo simples fato de que a transposição levará água para quem não a tem. Ou seja, num raciocínio simplista mas que me convenceu: ainda que seja apenas uma gota d’água que vá saciar a sede de algum sertanejo sedento, valerá a pena.

Baseado nisso e por solicitação do saudoso Toinho, do Quinteto Violado  fiz a letra da música, que hoje está gravada por Cristina Amaral – CD e DVD e pelo próprio Quinteto Violado. 

 

CHICO DAS ÁGUAS

Toinho Alves e Xico Bizerra

velho chico, no fuxico de tuas águas
as minhas mágoas se afogaram em teu correr
na canoa em que eu faço a viagem
no silêncio da paisagem vejo tudo florescer
eu te pergunto: quantas lágrimas matutas
se derramaram pra que fosses lindo assim?
desde a canastra até a última morada
em que te entregas ao mar num amor sem fim

junto ao teu leito, ora largo, ora estreito
as tuas águas pintam de verde o sertão
dando festa na vida do sertanejo
olho para ti e vejo: tens alma e coração
ó velho chico, quantas sedes saciadas
por tantas bocas que viveram a te beber
chico das águas, chico amigo, são francisco
vem de alegria a minha vida abastecer

vem dar água de beber, matar a sede da gente
vem transformar a semente em fruto bom de se comer

 

1 fevereiro 2010XICO COM X, BIZERRA COM I

PROCURANDO PREENCHER TRIPAS COM RECHEIO OU TENTANDO ENCHER LINGUIÇA

CAIR E BATER COM A CABEÇA

Dona Zilda Arns, brava médica brasileira

Ela caiu e bateu com a cabeça. E o mundo a girar, indiferente a tudo. O índice Bovespa subiu 0,48%, o BBB continuou com seu processo de imbecilização de mais alguns milhares de brasileiros e as rádios tocaram os frevos de 30, 40 anos atrás. Nas ruas, os carros, comprados em módicos 80 meses, arengavam por espaço, entre um lavador de parabrisa e um pedinte com criança faminta nos braços. Os jornais anunciavam chuva no sertão. Enquanto tudo isso acontecia, um terremoto destruiu um pequeno país do Caribe, matando muitas pessoas, dentre elas Dona Zilda Arns, brava médica brasileira dedicada às causas sociais. E, por aqui, ela caiu, bateu com a cabeça e apenas ralou a testa. Nada que um mercúrio cromo (ainda existe?) não resolva.”

* * *

VINGANÇA ELETRÔNICA

riscando

“Esse fila da mão desse Xico… deixe eu riscar logo o nome dele da minha lista”

Aborrece-me o lixo eletrônico que entulha minha caixa de mensagem, todo santo dia. Os PPS com mensagens religiosas e de auto-ajuda, propagandas do Viagra (ninguém faz propaganda de Aspirina), comércio de tudo que se possa imaginar. Não os abro, eles vão direto pro aterro sanitário virtual, pro lixo eletrônico. Mas um dia desses abri uma mensagem que achei interessante e que a maioria dos leitores já deve ter recebido. Reproduzo-o, abaixo, para aqueles que ainda não tomaram conhecimento, com a recomendação de que usem a mesma técnica na primeira ligação que receberem, seja da Visa, seja do Itaú ou Abril ‘Cultural’, seja de que empresa for tentando enfiar goela abaixo sua mercadoria. Eu fiz isso com a American Express, mas acho que a atendente já conhecia a defesa. Fez exatamente como eu sempre faço com eles: desligou na minha cara. Que moça mais impaciente!

Toca o telefone da casa…

- Alô.

- Alô, poderia falar com o Sr. Xico Bizerra?

- Pois não, sou eu.

- Sr. Xico, aqui é da American Express. Estamos ligando para oferecer um cartão a que o Senhor tem direito …

-  Desculpe interromper, mas quem está falando?

- Aqui é Norberta Jussara, e estamos ligando….

- Norberta, me desculpe, mas para nossa segurança, gostaria de conferir alguns dados antes de continuar a conversa. De que telefone você fala? Meu bina não identificou.

- 10331.

- Você trabalha em que área, na American?

 

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25 janeiro 2010XICO COM X, BIZERRA COM I

HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 2

PRAQUELE QUE VEM

Setembro de 1981. No laboratório, o resultado do exame confirmava o ‘embuchamento’ de Dulce. Mariana, minha filha primeira, estava por vir. Quem um dia foi pai sabe da alegria e emoção de que se reveste esse momento. No trajeto do Laboratório pra casa saiu a letra dessa música. A melodia foi concebida em conjunto com meu parceiro Luciano Nunes. Quando da elaboração do repertório do meu CD FORROBOXOTE 2 – em 2001, 20 anos depois, ela lá estava, nas vozes de Cléo Dantas e Irah Caldeira. Desde seu fazimento, sempre achei que ela deveria ser interpretada por uma voz masculina e outra feminina e assim o fiz. De lá pra cá, foi regravada por Jorge Neto/Cristina Amaral, Lurdinha Oliveira/Petrúcio Amorim, Eduardo Fonseca e Perkata de Couro/Irah Caldeira. No disco seguinte, FORROBOXOTE 3, homenageei o caçula, João Paulo, com Passarim João. Mas essa é outra história.

mariana

O Pai Xico, a Mãe Dulce, O filho João e a filha Mariana, homenageada em “Praquele que Vem”

 

PR’AQUELE QUE VEM
de Luciano Nunes e Xico Bizerra
com Cléo Dantas e Irah Caldeira

sede bemvindo, água na hora da sede,
no meu peito armei a rede que é prá nós se balançar,
sede bem lindo, vinde com saúde e paz,
seja moça ou rapaz, ‘tô esperando ‘ocê chegar

que coisa boa que ‘ocê resolveu vir
prá aumentar o meu sorrir, fazer crescer meu alegrar,
que coisa boa, agora nós vamos ser três,
eu sou um mas sou vocês,
‘tô esperando ‘ocê chegar

vem, meu amor, que a gente ‘tá te esperando,
vem na hora, não carece se avexar,
o tempo de chegar é o seu tempo,
vem, meu amor, que a gente ‘tá te esperando,
linda flor de sentimento, vem, nossa vida completar

18 janeiro 2010XICO COM X, BIZERRA COM I

DA VISÃO PRIVAR-ME-EI SE COM A VERDADE ESTIVER FALTANDO ou EU CEGUE SE FOR MENTIRA!

 BANQUEIRO CHEIO DE BANCA

banqueiro-ou-agiota

Mesmo no mais brabo dos interiores existia – e acho que ainda existe, a figura do ‘banqueiro’ informal, mais conhecido nas hostes policiais como agiota. Também nas Capitais esse tipo de gente continua a existir, concorrendo com os agiotas oficiais e com as Igrejas do Queijo do Reino. Não sei se por conta do tempo de serviço dedicado ao Banco Central e em decorrência das funções de Inspetor ali desempenhadas, criei declarado ódio a esses ‘profissionais’ do mercado financeiro, tanto quanto a todos os que exploram o ser humano sob as mais diversas formas. Mas as histórias são tantas que a gente é obrigado a contá-las e com elas se divertir. No Cariri cearense havia um tal de Mané da Costa de seu Severo que,  miserável como era, conseguiu amealhar dinheiro ao longo do tempo e emprestava  as sobras a ‘módicos’ 10% ao mês. Era meio antipático, cheio de banca, utilizando sua antipatia até como argumento para afastar os inconvenientes. Certo dia Joaquim de Danda, agricultor, filhos doentes e uma  mulher prostrada, mais sofredor que joelho de freira na semana santa, procurou Mané com o intuito de obter um empréstimo. Joaquim, além de sacrificado, tinha a fama de desligado, de não ligar para quando a promissória vencia. Aliás, nem quando empatava ou perdia, pois, como ele mesmo dizia, não torcia por promissória nenhuma, era Vasco até debaixo d’água.

Mané, precavido como era, desculpou-se dizendo que, naquele dia não dispunha do Capital solicitado, mas que o procurasse dali a 3 dias que o empréstimo seria concedido. Por umas e outras, apenas 15 depois o solicitante voltou a falar do empréstimo com Mané que, mais uma vez, negou-lhe deferimento sob o seguinte argumento:

- Infelizmente não vou poder atendê-lo, Joaquim. Se para vir buscar o dinheiro, vosmicê atrasou 15 dias, imagina quando for pra pagar.

* * *

SEU LUNGA É ‘DE VERA’

Seu Lunga no balcão de sua loja

Duvido que algum dos que lêem essa Coluna nunca tenha ouvido falar de Seu Lunga. Ele é um personagem natural de Juazeiro do Norte, local aonde reside até hoje e é dono de uma loja de peças sucateadas. Bastante conhecido por sua “delicadeza”, dizem até que ele é um sério candidato a Homem Mais Ignorante do Mundo pelo Guiness Book. Sua fama já o levou até a ser entrevistado pela Rede Globo do Ceará. Algumas histórias são verídicas e outras decorrem do folclore que se criou a seu redor em função de seu modo delicado de tratar as pessoas quando elas lhe fazem perguntas estúpidas.

Contam as más línguas que Seu Lunga ao completar 18 anos se apresentou à Marinha para a entrevista que antecedia ao engajamento nas Forças Armadas:

 

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11 janeiro 2010XICO COM X, BIZERRA COM I

HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS - 1

BAIÃO DO SOL ESCONDIDO 

Música construída num instante de decepção com o PT, em quem sempre votei, desde os tempos do Lula sindicalista. Daquele PT resta o Presidente Lula, coligado com os Sarneys, Collors, Renans, Temers e Barbalhos da vida, se defendendo de alianças tão espúrias com o argumento da governabilidade.  A intenção da música foi mostrar minha indignação não com a figura pessoal do Lula, mas com o que ele representa com essas alianças imorais.

A letra, de minha autoria, com todas as metáforas a que tive direito, se encaixou na melodia de meu parceiro Ozi dos Palmares e foi interpretada por Miguel Filho, do Bodocó, constando do CD Forroboxote 6 – BAIÃO:  DO REINO ENCANTADO DO NOVO EXU ÀS VEREDAS DO RESTO DO MUNDO E ADJACÊNCIAS, disco em que presto modesta homenagem aos 60 anos do Baião, tendo como intérpretes artistas nascidos na região do cariri cearense/pernambucano.

 

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BAIÃO DO SOL ESCONDIDO
De Ozi dos Palmares e Xico Bizerra
Com Miguel Filho

nos lupanares de uma aldeia sem esquinas
mãos tão malinas escondiam nosso sol

e a consciência da peneira
se agigantou pra que a sujeira
se derramasse feito lama encharcando toda a terra
vendo o boi que ao rebanho anuncia, grita e berra
que todo o pasto se foi e não voltará
nem hoje, talvez nunca mais

a fé que não foi replantada
a lua que não se acendeu
um rio que de água tão suja que se desencheu
e a paz de tão rara, tão pouca
calou-se, de rouca, se foi
e a flor numa roça tão louca, sumiu

CAROLICES DE UM CARDEAL

PADRES DO CEARÁ 1: CICERO E DAVID

Capa do livro de Lira Neto

Estou lendo o excelente ‘PADRE CICERO – PODER, FÉ E GUERRA NO SERTÃO’, do Cearense Lira Neto. Gosto muito de biografias, embora entenda que os biógrafos, por natureza, tendam a tomar partido em seus escritos, a favor ou contra o biografado. Mas no livro citado percebo uma isenção elogiável: o reverendo é mostrado sob diversos ângulos, o de herói e o de bandido, o de submisso, às vezes até subserviente e o de revolucionário. À parte o enfoque dado pelo autor, também digno de registro é o texto do ponto de vista literário: enxuto, limpo, sem sobras nem faltas.

Poucos sabem, mas o Padre Cícero nasceu no Crato, mesma terra em que nasceu um outro Padre, David, este tido como um gênio, por sua vastíssima cultura. Ensinava no Seminário e no Colégio Diocesano matérias tão díspares como História e Matemática, Química e Música, Português e Geografia. Era também tido como pessoa de extremado humor e presença de espírito.

Certa feita, seus alunos viram um jumento roendo tocos de capim de burro pelos cantos do meio-fio nas proximidades do Diocesano e conduziram o animal até a sala de aula, durante o intervalo do recreio. O Padre David entrou para aula de Física, fez de conta que não viu o animal na sala e ministrou sua aula com toda tranqüilidade possível, como era de seu feitio. Ao final, foi até o local onde o jumentinho a tudo assistia com redobrada atenção e assim falou para o burrico:

- Avise aos seus colegas que na próxima aula vai haver prova.

A prova foi um pouquinho mais difícil do que seria se não houvesse aluno tão orelhudo na sala.

* * *

PADRES DO CEARÁ 2: QUINDERÉ

Padre Quinderé recebendo a homenagem de amigos e familiares na comemoração do cinqüentenário de seu ordenamento em 1954

Monsenhor José Alves Quinderé foi um sacerdote de extraordinárias virtudes. Além disso era tido como o mais espirituoso dos Padres cearenses. Foi professor de Latim do Liceu do Ceará, fundador do Colégio Marista Cearense, onde estudei, Deputado Estadual em duas legislaturas e Secretário do Arcebispado de Fortaleza.

Quando morou no interior, seus vizinhos andavam escandalizados com o que se passava na casa do sacerdote sem que ele, nem de longe, pudesse imaginar. Então convocaram um senhor muito católico para ir falar com ele.

 

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18 dezembro 2009XICO COM X, BIZERRA COM I

HAJA LINGÜIÇA PRA SE ENCHER!

Aldemar Paiva

CABRAL OU LUIZ?

Escrever é muito fácil. Você começa com uma maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca as idéias. Isso foi dito por Pablo Neruda e, claro, longe de mim discordar de tamanho saber. O problema é que às vezes falta o miolo. Botar a primeira em maiúsculo e um ponto no fim é fácil, mas e o meio? Quando falta a inspiração? Pior quando você tem a obrigação, o compromisso, tem prazo pra mandar a matéria e nada de interessante passa por sua cabeça. Ainda bem que há escritores privilegiados que escrevem coisas que gostaríamos de ter escrito e, numa situação de carência literária, a gente deles se vale para preencher os vazios. Dentro da série ‘ARTIGOS QUE GOSTARIA DE TER ESCRITO’, segue belo texto da lavra de ALDEMAR PAIVA, a quem me desculpo pela transcrição sem a devida consulta prévia, embora tenha, sem sucesso, tentado fazê-la:

“QUEM DESCOBRIU O BRASIL?

Claro que foi um pernambucano do Exu, chamado Luiz Gonzaga.  A sua caravela era branca,  bonita,  sonora e  possuía 120  baixos.

Com ele, aportaram à terra do baião e do xaxado,  navegadores das mais profundas  raízes nordestinas como Zé Dantas, Guio de Morais, Humberto Teixeira, Lauro Maia,  Zé da Luz, Catulo de Paula, Gordurinha, Armando Cavalcanti, Klécius Caldas, Luiz Bandeira, Manezinho Araujo, Jackson do Pandeiro, Luiz da Câmara Cascudo, Nelson Ferreira, Gilvan Chaves e Dilu Melo, Luiz Vieira. 

Gonzagão foi o eminente  descobridor desse  Brasil do chapéu de couro, da toada ao som da viola, dos aboiadores e dos repentistas. Dos poetas cantadores, das vaquejadas, das cavalhadas, das novenas e das procissões.  Da sanfona,  do forró, da cana de cabeça e da Asa Branca.

Seu Luiz amou demasiadamente sua terra e sua gente. E foi amado por todos. Mesmo chamado  por  Deus, dizem que ele  nunca  se afastou da terra sertaneja, onde  suas cantigas o imortalizaram.

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1 dezembro 2009XICO COM X, BIZERRA COM I

COCÔS, RENAS, LUAS e DISCOS

SÓ FAÇA COCÔ SE TIVER COM DIARRÉIA

Pelejo pra entender a incongruência que envolve a decisão do STF sobre o caso Battisti mas Deus não me privilegiou com inteligência necessária para tal. Sem entrar no mérito da questão – se os crimes cometidos pelo acusado, na Itália, foram políticos ou comuns, a verdade é que, numa votação apertadíssima, o Supremo decidiu pela ilegalidade do refúgio do italiano em ‘terras brasilis’, mas se Lula quiser fazer o contrário, mantê-lo por aqui, não há problema, pode. Ou seja, a decisão foi terceirizada: se acaso Lula assim decidir, Battisti não voltará extraditado para a Itália, contrariando uma decisão legal proferida pela mais alta Corte de Justiça. É como dizia Mundim do Sapo, lá das brenhas do cariri cearense, ao falar sobre suas dúvidas acerca das leis brasileiras, dando como exemplo: ‘é proibido fazer cocô na praça, desde que não se esteja com diarréia!’. Em outras palavras: não pode, mas pode. Ou, pode, mas não pode.

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RENAS E JUMENTOS

Lá vem de novo o Natal e a mesma babaquice de sempre: um velhinho vestido de vermelho e branco, montado num trenó puxado por renas, trazendo no bagageiro um monte de presentes. Berrando aos quatro cantos um Merry Christmans (é assim que se escreve?) o velhinho só sabe de cor o endereço das crianças ricas. Diferentemente do Papai Noel ideal, esse sim, transitando pelo sertão de chapéu de couro, alpercatas nos pés, com seu jumentinho carregando dois caçuás entupidos de muitos votos de paz, amor, harmonia, saúde para os homens de bem. Esse é e deveria ser sempre o verdadeiro espírito do Natal, totalmente desvinculado dos shoping centers do consumismo que nos consome, dia a dia. Aproveito a proximidade da data para desejar aos que nos lêem toda a Luz que os homens de bem precisam e merecem para que continuem praticando o bem.

 

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19 novembro 2009XICO COM X, BIZERRA COM I

DOMINGUINHOS E OUTROS FUXICOS

1 - Além de ser publicada em  GAZETA NOSSA, a partir desse número, nossa Coluna estará sendo publicada também no JORNAL DA BESTA FUBANA, editada pelo Papa BERTO I, da IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA SERTANEJA, da qual, orgulhosamente, faço parte na condição de Cardeal. O Papa BERTO é ninguém mais, ninguém menos que o Palmarense boa-praça Luiz Berto, autor, dentre outros, do ROMANCE DA BESTA FUBANA, um dos maiores livros da Literatura Brasileira, opinião não só minha mas, principalmente, de críticos especializados de todo o Brasil. Viva a GN, agora de ‘chambregação’ com o JBF.

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2 - ENCONTREI DOMINGUINHOS NOS ARREDORES DE TÓKIO

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Dominguinhos visto por Humberto Araújo

Semana passada tive um prova irrefutável de que a tecnologia tomou conta de nós, por inteiro. Participei de uma entrevista numa rádio japonesa – Rádio Kalapalo: www.radio.kalapalo.com/, juntamente com Dominguinhos, ele de São Paulo, eu de Recife, simultaneamente, falando para os brasileiros que moram em Tóquio. Coisa inimaginável há dez anos atrás e só possível pelo avanço tecnológico. Com o medo que Dominguinhos tem de avião e minha pouca disposição de empreender viagens longas, jamais nos encontraríamos no Japão. E nos encontramos, conversamos, sem sairmos de nossas aldeias. Melhor assim.

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3 - É O ‘FORRÓ E AI’, E AI!

Liga-me um amigo dizendo que estou concorrendo, numa enquete da ACINPE – ASSOCIAÇÃO DOS CANTORES E COMPOSITORES DE PERNAMBUCO, na categoria de Melhor Apresentador de Programa Cultural do Rádio por conta do nosso FORRÓ E AI, apresentado às 18 horas, na Rádio Folha FM - 96,7, de segunda a sexta-feiras (apresento-o nas terças e sextas). O Programa também está concorrendo na categoria de Melhor Programa Cultural do Rádio. Outras categorias lá constantes são Cantor, Cantora, DVD, Disco de Frevo, Disco de Samba, Disco Instrumental, Destaque e Revelação, além de Compositor de Forró (que, estranhamente, não contempla nomes como Dominguinhos, João Silva, Anchieta Dali, Flávio Leandro, dentre outros).  Escutem, avaliem e votem. Se for em mim, muito obrigado; se for nos outros, muito bem, eles merecem. O simples fato de estar concorrendo com nomes da estatura de Ivan Ferraz, Elias Lourenço, Zé Mário Austregésilo – para citar só alguns, já significa uma premiação para esse modesto colunista. O site é www.acinpe-pe.blogspot.com/ e a votação se dará até 10.12, data da entrega do prêmio. Até o momento em que escrevo, já manifestaram suas intenções cerca de 30.000 internautas.

 

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10 novembro 2009XICO COM X, BIZERRA COM I

BOBAGEANDO BESTEIRAS OU BESTEIRANDO BOBAGENS

Salve, salve, Humberto

A chegada de Humberto Araújo ao Jornal da Besta Fubana me deixa feliz e, mais que isso, vaidoso, de tê-lo, logo no número de estréia, ilustrando minha coluna. Humberto, além do grande artista que é (chamo-o de Poeta do traço, pela beleza de seu risco e originalidade de suas idéias) consegue conciliar duas características difíceis de encontrar numa só pessoa: grande artista e grande figura humana. De parabéns, os leitores do JBF pela agregação de valor causada pela benvinda chegada desse cabra lá das bandas de Itambé. As caricaturas que ilustram meu derradeiro disco – COM A SANFONA AGARRADA NO PEITO, elogiadas pela crítica especializada e pelo público em geral, são de autoria de Humberto.

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Verdades ou mentiras

Jamais saberei se o cineasta Polanski estuprou ou não Samantha. Nunca terei a certeza acerca da propalada pedofilia de Jackson, o do Pop. Mas, o que me importa essas certezas, essas verdades ou mentiras? O que acrescentará ao meu modo de vida saber das proezas de um ou de outro? Deixem-me em dúvida.

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Nobel da Paz? A notícia caiu como uma bomba

Com 7 palmos de areia na caixa dos peitos, Alfred Nobel deve estar sem nada entender com a indicação de Obama para o prêmio que leva o seu nome. O americano agora é “colega” de Madre Tereza de Calcutá, Martin Luther King, Bispo Desmond Tutu, Nelson Mandela … Pode? Em que virtudes terá se baseado a Comissão Sueca (ou é de Oslo?) para delegar-lhe esse prêmio? Pelas balas e bombas no Iraque e no Afeganistão, pelos bloqueios econômicos impostos a quem discorda de sua política ou pela instalação de bases militares na vizinha Colômbia? Isso tudo, dirão alguns, é coisa de seus antecessores, principalmente do Demobush (o demo é de demônio, não confundir com outra coisa) ou do branquelo Clinton. O único mérito da escolha é que, com o prêmio – a meu ver concedido em tom preventivo – o Barack deverá pensar duas vezes, de agora em diante, antes de atear fogo no barril de pólvora do Oriente ou de comandar a escravidão a que, do ponto de vista econômico, submete o pessoal de Cuba, do Irã e da Coréia do Norte. Teremos que esperar pra ver. Enquanto isso, Alfred Nobel estrebucha na cova.

gazetaobama

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Mineira de Pernambuco ou pernambucana de Minas?

Conheci Irah há dez anos e há dez anos me tornei seu fã. Incondicional. Pela bravura, pela tenacidade, pelo talento, pela amizade. Testemunha de sua luta, a cada dia me tornei mais admirador dessa cantoraa/pessoa. Tanto que, em diversas oportunidades fico na dúvida se devo ou não aceitar convites que me são formulados para homenageá-la, porque parecerão suspeitos ante a amizade e o carinho que por ela tenho. Assim foi na solenidade da Câmara – já comentei nesse mesmo espaço sobre o assunto, e assim foi quando convidado fui para escrever a apresentação de seu último trabalho musical, o disco Compositoras Nordestinas, por ela produzido e interpretado. Mas não pude recusar e escrevi o texto abaixo:

“NO REINO DA VERDADE E DO TALENTO

Eis que nos chega essa também Maria registrando o canto das Marias já descobertas ou cantando as Marias por descobrir. Ainda bem que tantas Marias há, com muito mais luzes que dores.

Da alma à boca, as notas musicais se enfeitam com laços de fita e se vestem de arco-iris para perfumar a vida, receita sempre presente quando a artista é Irah.

Passeando por entre canções e forrós ou flertando com cocos e sambas, outra vez ela vai muito além do fazer bem o seu, não se limitando a ser apenas a boa cantora que é.

Produziu. Dirigiu. Fez. Combinou, na dose adequada, a maturidade de seis discos já lançados com a energia e a vontade de um primeiro trabalho, de uma estreante. Nada de mais, nada de menos, tudo na medida certa. Estranharia se assim não fosse.

Essa é a Irah que eu conheço: Rainha da verdade e do talento.

Quando o dia, cansado, adormecer, se enfeitiçando em noite, ou quando esta, buliçosa, viçosa, acordar para que o dia seja tecido, qualquer que seja a hora será uma boa hora para se escutar Irah e suas divinais mulheres. Resta-nos fazê-lo.

Feliz de um povo que tem Irah para ouvir.

Xico Bizerra, Poeta e Compositor

Numa noite de quase Setembro, ouvindo Irah e vendo a lua refletir-se no espelho/mar de Candeias.”

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