http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

CALOR DEMAIS

Vi-o atrás de uma garrafa de cerveja, a umas quatro mesas, no fundo do bar. Era ele, sim, mas difícil de acreditar: sozinho, triste, mal vestido, barba suja, os olhos fixos na bebida que demorava a sorver, como se estivesse fora do mundo. Ainda há um mês havia lido uma reportagem extensa sobre os grandes foragidos do Brasil. A foto do Señor Ramirez era a maior. Falei baixinho para Galván, à minha frente, com medo de que, de longe, o bandido pudesse fazer leitura labial.

“Não olha, Galván, mas o Señor Ramirez está lá no fundo, tomando uma cervejinha…”

Galván apenas franziu a testa, continuou a bebericar sua Coca-Cola de alcoólico anônimo. Fazia muito calor naquele pedaço da fronteira e alguns homens no bar haviam tirado a camisa. Nós dois usávamos camisetas escuras, mas, se pudéssemos, andaríamos de cuecas. O Señor Ramirez parecia não sentir a temperatura absurda: vestia uma jaqueta jeans, velha e pesada, com uma camisa vermelha por baixo.

Passava do meio-dia. Boa parte daquela gente só sairia à noite do bar, amparando-se, cantando músicas em português e espanhol. Muito provavelmente, alguém encrencaria com alguém e levaria um tiro nos cornos. Era sempre assim, às sextas-feiras.

“Tem segurança?”, perguntou Galván, entre dentes.

“Aparentemente não”, respondi, excitado. “Atrás dele há uma mesa vazia e o pessoal que está na frente trabalha na construção do shopping…”

“Puta merda. Vou até o banheiro”, disse Galván.

“Dou cobertura.”

Eu tremia. Se o pegássemos, seria o meu primeiro grande caso.

“Não, fica aí, garoto. Só quero entender melhor.”

Galván era vinte anos mais velho e eu costumava atendê-lo. Às vezes me parecia meio porra-louca, até suicida, enfrentando de peito aberto umas situações-limite. Mas todos o consideravam um bom policial. Havia histórias de que dava proteção a uns comerciantes coreanos, que amaciava caminhões do Paraguai, mas tudo isso diziam de mim também, de todos nós. Éramos corruptos por definição. Eu não acreditava nas histórias que contavam sobre Galván. Estava de dupla com ele havia dois meses e não percebera nada.

Galván se levantou devagar, se espreguiçou, e tomou o caminho do banheiro lá no fundo. A essa altura do dia já não deveria estar dando nem para entrar no pequeno cubículo, sem pia e sem descarga. Um nojo, aquilo.

Eu me sobressaltei quando meu companheiro parou em frente ao bandido, curvou o corpo, pôs as mãos na mesa e lhe disse alguma coisa. De longe dava pra ver que o Señor Ramirez respondeu com rispidez. Galván fingiu que se dirigia ao banheiro. O homem me encarou com um olhar estranho e começou a mexer nos bolsos, procurando dinheiro, com certeza para pagar a conta.

Eu fiquei paralisado com a atitude de Galván, mas não podia fazer nada. Tudo muito claro: meu próprio colega fazia parte do esquema de proteção do Señor Ramirez. Deveria haver outros por ali; mas eu estava armado e tinha obrigação de prender o bandido e denunciar o policial corrupto – só que… teria alguma chance?

Quando Galván voltou, apenas nos olhamos. Eu disse tudo com meus olhos, mas ele baixou os dele e bebeu devagar um gole da Coca-Cola.

O bandido pagou a conta e levantou-se para sair. Passou ao nosso lado e pude sentir, vindo dele, um odor insuportável de suor seco. Algo me disse que eu deveria encará-lo e dar-lhe voz de prisão, foda-se Galván e os outros guarda-costas por ali. Mas não me mexi. Continuei examinando o rótulo da garrafa de cerveja.

“Você não vai mudar o mundo”, disse-me Galván, quebrando o constrangimento.

Silêncio. Bebi um gole mais generoso.

“Eu entendo, Galván. Há quanto tempo o Señor Ramirez vive por aqui?”

“Dez anos. Todo mundo sabe, menos os novatos. Você é menino. Mas não é mais novato.”

Eu bebi uma dose maior, a cerveja fica quente muito rápido nessa porra de lugar. Respirei fundo:

“Quando crescer, Galván, vou ser que nem você? Como é que dizem mesmo? ‘Vivendo e deixando viver?’”

“Vai. Vai ter medo de morrer, largar sua futura mulher, deixar seus filhos órfãos, vai querer comprar um videocassete que o salário não permite…”

“Não dava pra ser diferente, Galván?”

“Não. Faz calor demais neste lugar. A gente se larga. Viu o Señor Ramirez? Sozinho, relaxado, fedendo. Às vezes eu acho que ele está louco para ser preso – só para fugir da rotina, sair desta pocilga a quarenta graus.”

Muito discretamente, eu me cheirei nas axilas. Estava fedendo também.

 


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

AH, OS FRÁGEIS VITRAIS DA NOSSA INICIAÇÃO…

1

Culpado sempre se aponta, e Leonides Trifas, do 7º. step, foi o acusado.

As testemunhas do caso ficaram conhecidas por sua grande covardia e omissão, mas elas confidenciaram a amigos íntimos que, naquele dia de horror, Leonides aproveitou-se de uma rápida saída de dona Fitinha, a iniciadora de História, quando ela correu a atender ao telefone. Era o seu mais recente namorado, esse um pouco mais magro que os outros, comentavam as meninas da outra ala da Nossa Iniciação, separada da ala masculina por um muro de quatro metros e cães pastores treinados, além da guarda de segurança. As meninas comentavam e riam, e riam muito, que o novo namorado de dona Fitinha ostentava um enorme saco, a julgar pelas calças muito frouxas, calças de despiste, mas que não conseguiam esconder totalmente suas desproporções.

Naquele dia, Leonides Trifas teria escondido na bolsa um tijolo e, na ausência da iniciadora, mirado o rosto pio da Madonna, no vitral de traços acadêmicos, só que acabou acertando-lhe o halo indicador de santidade.

Ouviu-se, então, não um ruído de vidros estilhaçados, mas um grito de volúpia, ou dor carnal, consentida.

O grito, que ao mesmo tempo era excitante e aterrador, acabou num eco que o confirmava, eco sem-motivo, porque a sala do 7º. step da ala masculina fica muito distante da concha acústica, para as apresentações dos corais Verbo Divino (meninos) e Maria Mártir (meninas). Depois, o eco tomou conta de cada sala, corredor, banheiro, desvão, e isso nas duas alas da escola, passando por cães e guardas e muro alto, como se, em cada canto, estivesse um Leonides Trifas jogando pedras nos vitrais, basculantes, vidros de mesa, óculos, até o cinzeiro de cristal de dona Clara John, a iniciadora-maior. Tudo foi ruindo, foi cedendo, foi caindo não se sabe de onde. Alguns meninos e meninas chegaram a comentar depois, em suas respectivas alas, naturalmente, a visão de Aparecida Medina, 14 anos e um busto de mais de 20: o cinzeiro em forma de bola de cristal da iniciadora-maior, onde a cinza, quando depositada com razoável concentração mental, sugeria formas humanas e animais, interpretadas pela mística senhora como a antevisão dos seus próximos dias, ao espatifar-se no chão soltara uma densa fumaça avermelhada de onde surgiu a figura de um gigante completamente nu, numa escala aproximada de 1:50. E não era um gigante qualquer mas a figura de Ionesco da Silva, o iniciador-proprietário da Nossa Iniciação. Suas mãos agarravam-se à própria cabeça, e o rosto de óculos quebrados era uma careta só, de uma dor insuportável: no lugar do sexo, uma enorme borbulha de sangue, de onde também escapavam esguichos, e foi um desses esguichos que desenhou o sinal da cruz no rosto contraído de Aparecida Medina. A garota não soubera explicar como transpusera o muro, a guarda, os cães, e fora aparecer ali, na ala masculina, num step masculino, onde dona Clara John pusera seu cinzeiro inseparável. Naquela hora, Aparecida desmaiou, gritando antes:

“Amém, Dr. Ionesco, amém, amém!”

Mas não foi somente Aparecida quem transpôs a muralha entre as duas alas. Durante a queda e quebra de todos os vidros ocorreu uma confusão inexplicável. Ninguém ficara no seu lugar. Houve pânico, um pânico muito parecido com o que acontece dentro de aviões caindo, conforme lembrou um iniciado, o Josués, que estivera naquele famoso Boeing que explodiu na Ilha dos Adventos, sendo um dos três sobreviventes. Pois se o primeiro vitral quebrado do 7º. step masculino lembrava certo clamor de úteros, o que se seguiu de ruídos, durante muito tempo, era o áudio completo, em volume de discothèque, dos últimos instantes de Sodoma e Gomorra. Gemidos, gargalhadas, sem exceção, pois todos se despiram, total ou parcialmente, iniciadas, guardas de segurança, funcionários, iniciadores, todos se atracaram, sem preocupação alguma de separar sexo, idade ou grau de intimidade. Pelo contrário: a não ser os iniciadores, que lecionavam nas duas alas, e também alguns funcionários mais velhos que tinham licença especial de se encontrarem após o término das iniciações, meninos e meninas só vieram a se conhecer nesse dia, ensaio de fim de mundo.

Foi coisa de poucos minutos, apesar da impressão de um dia inteiro.

Quando se fez o silêncio, todos arfavam, esgotados, o coração saltando por dentro. Dona Heliomara, por exemplo, a iniciadora de Fundamentos da Filosofia (e logo ela, que sempre guardava metro e meio de distância ao se dirigir a qualquer homem ou menino), dava de mamar a um dos pastores-alemães da equipe de segurança, cachorro de nome Pitt, que se destacava dos demais pela eterna voracidade, sempre à procura de restos de lanche nos pátios. Dona Heliomara gritou e Pitt fugiu levando um negro mamilo entre as presas.

Todos tentavam se refazer, sem se encarar, abotoando calças e baixando vestidos. O iniciador- proprietário, Ionesco da Silva, era o único que esbarrava nas pessoas (míope, quase cego), à procura do serviço de som para anunciar que todos estavam dispensados, que, por favor compreendessem a situação caótica provocada pela quebra dos vidros, que telefonassem aos seus pais ou responsáveis para virem buscá-los o mais rápido possível, pois até as peruas da Nossa Iniciação, estacionadas nos pátios, tinham seus vidros quebrados, que todos entendessem…

Dr. Ionesco não pôde falar mais, chorava. O microfone lhe foi tomado por Rudolf Berna, o assessor de Política Interna da Nossa Iniciação, homem de óbvia formação militar e sangue frio proverbial, que nem se incomodava de estar só de cuecas, longas cuecas de algodão, manchadas de sangue e esperma. Berna acompanhava a retirada dos iniciados com explicações em voz pausada e grave, estranha à situação geral:

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

BEIJOS NO CORAÇÃO

Os espelhos tomavam completamente, como se fora papel de parede, o apartamento de cobertura de Phelix, com Ph.

Ele, quando chegava a casa, e sozinho conversava consigo mesmo, jamais conseguia experimentar um  raciocínio lógico, coerente, como a maioria das pessoas: é que, como suas imagens se multiplicavam pelo apartamento, ele acabava vivenciando-as todas. E todas – ele sentia – eram reais.

Cada Phelix, aparentemente igual, correspondia a uma personalidade, uma idade, um tempo de vida. Múltiplas encarnações. Mas não era possível, naturalmente, bastar-se a todas, ou até lembrar-se delas. Sentia-se atemporal, tinha dificuldade de fixar-se naquela individualidade que seria a mais próxima: esta que vivia na Terra, no início do Terceiro Milênio, e exercia uma atividade industrial; e que, com o lucro advindo daquela atividade, comprara e decorara o apartamento, cobrindo-o de espelhos e criando, assim, um mundo próprio. Com certeza, essa personalidade era a mais importante, a mais coerente.

Ou não? Algumas da imagens situavam-se, às vezes, num futuro muito distante. Ou, pelo contrário, em um passado remotíssimo. E, aí, o multiplicado Phelix, com Ph, sentia-se estranho de enxergar, além de si mesmo, mulheres, filhos, amantes. E sogros, sogras. Ou ainda os superiores, os desafetos. Com todos aos seus desmembramentos e consequências.

Sua cabeça era feita de histórias de si mesmo. Mas isso era tão bom!

E assim ele ia-se rindo, e como se ria, ao refletir sobre o mundo do Phelix-matriz, os loucos de personalidades duplas, ou aqueles que cultivavam heterônimos – os quais nunca passavam de cinco ou seis. Pobres humanos! Ele perdera a conta de quantos seria. Centenas – quem sabe?

Então, deveria ser mesmo feliz, perdido na conta de si mesmo. Mas não era isso o que ocorria, naquele dia depressivo, em que os espelhos, potencializados, repetiram sua imagem à loucura, invadindo espaços insuspeitados, como a tampa espelhada da privada, na qual chegou a encontrar quatro Phelix diferentes. Um era bom e justo, e vivia em nossa época; outro morrera pobre, após uma existência burocrática e sem sentido; e aquele terceiro, canalha, vendia sua própria filha em troca de favores do chefe; em compensação, a quarta imagem era a de um cientista brilhante, salvara milhares de vidas ao desenvolver vacina contra determinados tipos de câncer de pele.

Naquele dia, ele (a base) sentia-se saturado. As vidas o invadiam com cores, gritos e lamentações. Em todas fora humano, e cometera erros mais ou menos graves: assassinato, traição, omissão, impiedade. A multidão dos circundantes de cada existência o cobrava por isso e aquilo. Essa crise, esse desespero, a vontade insopitável de sumir do mundo já lhe acontecera outras vezes e dela escapara com seus próprios recursos emocionais, sua forte personalidade que quase o levara, certa vez, a um cargo executivo na Confederação das Indústrias.

‘Não, não’, dissera para si mesmo, ‘a minha identidade principal é Phelix, com Ph, estou no Brasil, ainda tenho algumas obrigações a cumprir, apesar dos meus cinquenta e oito anos…’

Obrigações. Teria, mesmo? Não, nenhuma. Rico, solteiro, disperso. Família distante e ressentida. Não seria morrer a melhor ideia? Era dono de coração fraco, segundo o geriatra, e aí resolveu descer correndo os quarenta lances de escada. Foi o que fez, imediatamente.

‘Além do mais’, refletia, à altura do décimo andar, sem espelhos para se repetir, ‘estou velho demais para um país estatisticamente jovem’. Já não tinha esperanças de viver um envolvimento amoroso espontâneo e desinteressado, seu desejo mais insistente. Poderia tê-lo  induzido, até. Mas esperou que acontecesse. Nada.

Quando chegou ao térreo, sequer estava cansado. Simeão, o porteiro, dentes superiores proeminentes, ainda o bajulou. “Que boa aparência a do senhor, seu Phelix!”.

“Com Ph”.

Desceu as escadas do hall de entrada, tomou a rua, sentou-se num dos bancos no jardinzinho próximo, justamente aquele mais ensolarado. Nem sequer ofegava, quase não suara.  Haveria um outro jeito de morrer… esteticamente? De insolação, quem sabe?

Lembrou-se, então, de Aramis, seu único amigo, quase íntimo, que morrera há dois anos (e que diabo, de enfarte). A Aramis confiara suas fantasias: que, na impossibilidade de ser um Phelix ditoso, decidira multiplicar-se.

“Mas, amigo, o que te falta para ser feliz?”

“Um amor romântico, arrebatador, um sentimento nostálgico, antigo, uma afeição quase assexuada de tão doce.”

“Ah, Phelix, eu também sonhei com isso e me perdi…”

Certo dia, o vexame. Aramis, já doente, o encontra em um coquetel.

“Phelix, és o último dos românticos! És terrivelmente lírico! Tenho impulsos de beijar teu coração!”

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

DE SINGULAR OCORRÊNCIA NO MAISON DES LIS

A mulher com um buraco na cabeça surgiu, pela primeira vez, em outubro do ano passado, e quem a viu foi a menina Dayuma Casares, filha do veterinário equatoriano.

Dayuma, após retirar a bicicleta do depósito, resolveu dar uma volta por toda a garagem subterrânea. A mulher com um buraco na cabeça andava à sua frente, e por isso Dayuma não pôde ver-lhe o rosto. Nem lhe dera atenção, na verdade, mas, ao passar rente a ela, viu o furo emergindo da cabeleira loura, na parte posterior do crânio, segundo descreveu. A menina teve uma reação retardada, achou estranho que uma pessoa com um ferimento exposto, de dez centímetros de diâmetro, mais ou menos, andasse pela garagem. Mas não olhou para trás e apenas comentou, distraidamente, com o pai, durante o jantar. Constantín, o veterinário, registrou o incidente como excesso de criatividade de uma criança.

No dia seguinte, foi a vez de seu Ernesto, o velho zelador do prédio, chamado “Maison des Lis”, dar de cara com a mulher com um buraco na cabeça. Ele a encontrou na portaria de serviço, às sete da manhã, e a viu de frente. Disse “bom dia, madame”, e ela não respondeu.

Seu Ernesto a descreveu de várias maneiras, confundindo todo mundo; mas, segundo os policiais que depois tomaram conta do caso, a primeira descrição inicial seria a mais precisa, por uma questão de estatística: testemunhas confusas costumam acertar mais na primeira. Assim, a mulher teria um metro e sessenta e oito a um metro e setenta e dois; uns quarenta e oito a cinquenta e dois anos; e possuía um número incrível de rugas ao redor dos olhos, tantas que chamou a atenção do zelador, homem muito distraído, até por causa da idade, e pouco afeito a esse tipo de observação. Os cabelos dela eram louros de raízes negras, ou seja, pintados, e havia em sua expressão alguma coisa indescritível, um ar de sofrimento, de expectativa, de zombaria até – seu Ernesto não soube precisar. Mas aquela visão produzia impacto. Confessou o zelador que “algo ruim” correu por sua espinha, e ele maldisse intimamente os condôminos por receberem hóspedes sem avisar à zeladoria. Seu Ernesto estava cansado disso, pois, se algum estranho aparecesse no prédio, ele seria cobrado, incontinenti.

A mulher fixara os olhos do velhinho e, sem dizer nada, virou-se para sair. “Ela não fez barulho quando andou”, lembrou-se, depois, o zelador, mas ninguém deu atenção a esse detalhe. De qualquer forma, ele se assustara ao ver um buraco na cabeça dela, um enorme orifício, como se uma bala de fuzil tivesse entrado ali.

“Mas havia manchas de sangue no cabelo, ou vestígios de sangue na roupa?”, perguntaram os policiais, com dificuldade de conter o riso.

“Não, não, só o buraco. Não tinha bordas. Era uma coisa preta no meio do cabelo, e pronto.”

“E por que o senhor não a chamou, já que ficou desconfiado dela?”, insistiram os tiras.

“Não fiquei desconfiado, fiquei irritado com os condôminos que não me avisaram da nova hóspede.”

“O senhor sentiu medo?”

“Não, quer dizer, só senti o arrepio de coisa ruim, mas acabei ficando preocupado com ela. Uma pessoa ferida não pode andar por aí assim.”

“Mas, por que ferida, se não havia sangue?”

“Olha, moço, um buraco na cabeça, mesmo sem sangue, não é um ferimento?”

Seu Ernesto e a menina Dayuma eram mesmo as únicas testemunhas do incidente. Sem qualquer dúvida. Porque, depois que a história se espalhou, vários outros moradores também viram a tal mulher, mas os policiais não acreditaram neles. Só de adolescentes foram oito, os visionários. Quando os tiras ameaçaram submeter suas histórias a um detector de mentiras, eles sumiram.

Foi o veterinário equatoriano que chamou a polícia. Sempre preocupado com possíveis ameaças a Dayuma, quer de “bandoleiros” ou “pervertidos”, Constantín associou a história do zelador às fantasias trágicas que criava sobre sua própria filha, e concluiu que alguma coisa andava errada por ali. Fora apenas um incidente, mas… Sua preocupação nada tinha a ver com o detalhe do furo na cabeça da falsa loura (afinal, seria uma ilusão de ótica), mas com a mulher em si, uma desconhecida, provavelmente uma ladra, a circular impunemente pelo condomínio.

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

VENTANIA

A menina era magra, tinha uns dez anos, sardas e cabelos ruivos. Vestia uma jardineira meio suja de barro. Corria sob um sol manso de primavera, acompanhada de dois cães pastores, pelo jardim próximo da casa; na verdade, a área inteira era um imenso jardim, onde todos os tipos de plantas de uma floresta de chuva brotavam, exuberantes; eram árvores antigas aninhando trepadeiras jovens, frutas de vários tamanhos e cores a pender dos galhos folhados, um revoar constante de pássaros tenores e borboletas com asas de desenhos fractais.

O jardim, então, era um jardim dentro do jardim maior, e se constituía de um espaço próximo à casa, um pouco mais organizado do que no restante do sítio. Não era uma propriedade imensa: seu dono levantara alguns galpões de madeira, de telhas aluminizadas, onde cultivava alguns tipos de verduras pelo sistema de hidroponia.

A menina ia de uma flor a outra, de um canteiro a outro, andava e corria alternadamente, tão leve e graciosa que se confundia com o todo do jardim; movia-se ao sabor de um vento quase frio que começava a soprar mais forte.

“Madressilva”, dizia ela à flor, “dê um pouco da sua força à minha mãe.”

“Girassol”, insistia mais adiante, “a minha mãe está precisando de você; passe um pouco da sua energia, que é tão forte, tão bonita, à minha mãe, que está lá dentro, e está muito, muito mal.”

“Borboletas”, ia dizendo a menina a correr atrás das pequenas aquarelas voláteis, “se vocês quisessem poderiam, somente vocês, salvar minha mãe, com toda esse vigor em excesso que vocês têm.”

De repente, ela pareceu se lembrar de alguma coisa, e correu para o lado oposto da casa, onde havia um lago natural alimentado por um riacho de águas limpas mas escuras, refletindo o fundo lodoso. Os cães foram atrás dela.

“Ah”, ela falou em voz alta, “os peixes!”

Lá estavam eles, no riacho, preparando-se para cair nas águas mais tranquilas do lago e depois continuar a trajetória, passando para outro terreno, e para outro e outro ainda, até desaguar num rio sujo, próximo à cidade grande. Ali, procuravam uma outra saída em busca de vida, de oxigênio. Lá estavam: eram pobres tilápias e bagres, mas havia também os valorizados e agressivos black bass, que divertiam os pescadores de fim de semana, e que se confundiam com a água marrom.

“Garotos, garotos”, disse a menina, de cócoras à margem do riacho, “vocês estão cheios de vitalidade, agora, podem respirar bem, comer bastante… Deem um pouco dessa força à minha mãe, ela está morrendo lá na casa…”

Alguns peixes começaram a saltar, pouco antes da entrada no lago, como se sinalizassem um OK à menina, e ela sorriu. Os cães latiram, com todo aquele movimento. Ela então se virou para o maior deles, um macho de kuvasz suntuoso, de pelo branco brilhante:

“Você tem muita energia, também, Aghar. Por que não oferece um pouco à sua dona, de quem você gosta tanto? E por que não convence o Thame a doar também? Ele ainda é filhote, mas é muito forte, alguma força há de ter…”

Os cães foram se retirando, devagar. Venceram o aclive que levava ao riacho, atravessaram todo o jardim, quase colados, sem-ligar para as borboletas, os pássaros e as flores. Agora, um vento súbito, de chuva prometida, empurrou os girassóis. Os pastores entraram na casa, subiram as escadas e estacionaram à porta do quarto de sua dona. Ela estava recostada na cama, em dois travesseiros, o olhar fixo em nada. Ao seu lado, a médica e o marido não escondiam a inquietação.

“Não se preocupem, eu não vou ainda”, disse a mulher com voz titubeante. Era ruiva e sardenta como a menina. “Meu coração suporta mais um tempo”, continuou. “Quando chego aqui é como se tomasse todos aqueles remédios antigos, que me davam ânimo e agora não funcionam mais.”

“A gente pode morar aqui, em definitivo”, disse o marido, ajeitando, com carinho, os cabelos dela. “É o motivo que me falta para jogar tudo para o alto e passar a viver de plantar verduras…”

“Se ela se sente melhor aqui, acho que é uma boa decisão”, disse a médica.

“Só lamento uma coisa, e por favor não digam que estou louca”, disse a mulher. “Sobreviver não é tão bom assim. É adiar meu encontro com minha filha…”

Não conseguiu segurar o choro. O marido deu-lhe um lenço de papel que apanhou no criado-mudo.

“Não sei se a emoção, neste momento, vai lhe fazer bem. Não fale nela, pelo menos agora”, disse ele.
“Está certo”, disse a mulher. “Vou tentar.”

Aí ela viu os dois kuvasz parados à porta, olhando-a, compassivos.

“Venha, Aghar; venha, Thame.”

Eles quase pularam sobre a cama, balançando os corpos, chorando baixinho de felicidade.

A mulher mergulhou a mão direita no pelo profundo de Aghar.

Lá fora, o vento aumentou de velocidade, alguns galhos secos despencaram das árvores, e um sibilar estranho, que às vezes dava a impressão de um riso infantil, chamou a atenção de todos. Mas não era nada, somente a energia do campo.

* * *

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003. 

 


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

INSENSIBILIDADES

As noites têm sido frias, mas prefiro essa temperatura. A gente não transpira, não se sente desconfortável e, sobretudo, não é obrigada a suportar a irritação de todo mundo. É incrível como os humores mudam quando faz calor. Pelo menos no meio da rua, mesmo que esses homens tenham saído de casa para se divertir.

Os clientes têm achado graça da minha cadernetinha cor-de-rosa e da caneta da mesma cor que a acompanha, presa na lombada. Dizem as bobagens de sempre, que só gente como eu é que usa isso. Às vezes, essas coisas são ditas num tom agressivo, duro. Mas eu me acostumei tanto à minha função, que já não ouço nada. Assim como também nada sinto, fiquei anestesiada de vez depois do incidente no ano passado: corte na garganta, quatro pontos na cabeça, muito sangue. E foi o próprio cara que pagou o hospital, a plástica e a indenização de dois meses parada. Como as pessoas são estranhas: o monstro que me agrediu com tanta fúria é o mesmo que ainda me liga toda semana, que me manda flores, inclusive.

É por causa dele que fiquei indiferente a tudo, até ao carinho verdadeiro. Sabe, os boyzinhos são meigos, inseguros, fazem nanã, dão beijinhos. Um deles me disse uma vez: “Queria tanto que você fosse a Heleninha”. Que graça! Eu lhe disse: “Querido, a Heleninha vai acabar dando bola pra você, hoje em dia é tão difícil o amor, alguém que goste de alguém… Se você gosta dela, tanto assim, ela não deixará de perceber.”

Essa insensibilidade não é nada boa, não. Eu sou gente, e gente possui sentimentos… Como é difícil mentir o tempo todo! Dia desses, fui obrigada a pedir desculpas ao carinha, ele reclamou que eu estava fria. Ele disse: “Sei que faz parte, não vou querer que você goste de mim, mas você tem de fingir legal. Tem de ser atriz. Jogar o jogo”. Eu disse: “Cara, você tem razão, vou me esforçar…”

Acho que ele saiu feliz daquela noite. Por outro lado, essa frieza, essa indiferença têm lá suas vantagens. Às vezes é difícil ser tão profissional. Mas gosto mesmo é quando aparece um contador de histórias… Não quero largá-lo! Cada uma… As coisas engraçadas que as pessoas fazem, meu Deus, sobretudo nas cidades do interior… Um causo melhor do que o outro! Eu me ligo mais nas histórias de assombração, o eco dos passos dos fantasmas dentro dos casarões, os mortos-vivos que saíam dos cemitérios para dar uma volta, as noivas brancas que matavam as pessoas de susto dentro das velhas igrejas. Melhor que novela de televisão!

Agora, não tenho mais tempo de ouvir lorotas. Fico com o cliente uma hora, e pronto. Está dando certo. Hoje é dia vinte e um e já faturei mais do que em qualquer mês que me lembre. Aí os caras perguntam: “O que você está escrevendo na cadernetinha?” Eu respondo que não é nada, são umas coisas que lembrei de fazer em casa, quando voltar. Mas eu quero mesmo é ter o prazer de contar cada tostão que ganho, para sentir que estou cada vez mais perto de arrancar aqueles troços e virar mulher de uma vez.

* * *

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.



http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

OS SEIOS DE GOVINDA

Encontrei J.G. Pearson num bairro longínquo da cidade, usando o nome falso de John Smith e conhecido na região como “o gringo”. Estava acompanhado da porta-bandeira da Escola de Samba Boca Vermelha, a sensacional Govinda. Não sei o que é mais incrível: se a incompetência da polícia de descobrir fugitivos, ou a ousadia do americano que, além de estar sendo caçado em todo o território nacional, é um dos primeiros da lista de inimigos públicos da Interpol. Que coisa: o cara ali, a menos de dois quilômetros de uma delegacia de bairro, passeando com um mulheraço famoso na cidade, e ninguém fica sabendo.

Eu mesmo o vi por acaso, apesar de fazer parte do grupo que o caça há tanto tempo. Estava voltando da casa de uma das minhas namoradas, a Séza, que mora por ali, quando me chamou a atenção o Mercedes do ano e a mulata ao volante. Govinda é um fenômeno, gostosíssima. Ela e o americano trocavam olhares de paixão.

O cabelo do cara é branco, de tão louro, e pensei comigo: ‘caralho, os gringos só são racistas na terra deles.’ Mas meu raciocínio é lento, reconheço. Levei muito tempo para me dar conta de que conhecia aquelas duas figuras. Só que aí não havia como alcançá-los. Mesmo assim, dei meia-volta e saí tesourando o trânsito das seis da tarde, com sirene e tudo, gritando palavrões para os babacas na minha frente, mas ninguém mais respeita nem polícia na hora dos congestionamentos. Até entendo: esta cidade está muito sofrida.

De qualquer maneira, seria fácil chegar a Govinda. Algum tempo depois, consegui o endereço. Fui lá direto. Era uma rua só de casas, calçada de paralelepípedos e cheia de árvores antigas. Crianças brincando, carrões entrando e saindo de garagens amplas. Lugar muito agradável. Minha paquera, que é do mesmo bairro, ou melhor, dos fundos do bairro, mora numa rua de merda, de asfalto carcomido e um buraco de esgoto sempre aberto, porque alguém rouba as tampas.

A casa de Govinda, dois andares, escada em S, estilo modernoso, estava fechada. Cheguei a cochilar na campana, poderia até ter sido assaltado: afinal, uso um carro de chapa fria. Mas está caindo aos pedaços, não serve nem pra desmanche.

A mulata voltou três horas depois, sozinha no Mercedes. Por mais que trepasse bem e posasse nua, jamais arrumaria dinheiro para comprar aquela máquina. Ali tinha grana pesada de J.G., como a gente o chama na polícia.

Porra, e agora? Poderia invadir a casa, dar um aperto na gostosa, mas J.G. não é burro: aquele não era seu real endereço.
Fiquei rodando feito um peru pela rua, dei uma parada na padaria da esquina, lugar de viado, com um cafezinho três vezes mais caro do que o da rua da Séza. O cara do café, um tal de Riche, uniformizado, com bonezinho, todo falante, me entregou o ouro: Govinda comprava bebida light quase todo dia; chegava sacolejando os peitos, num decote criminoso, e aí o tempo parava, ouviam-se as moscas tentando pousar nos pães doces. Clientes embevecidos. Ela, de vez em quando, vinha acompanhada do gringo.

“Acho que sei quem é; acho até que já vi esse cara na televisão. Parece americano. Será que é artista?”, arrisquei.

“Nada, é trambiqueiro”, respondeu prontamente Riche. Sabe, tipo largadão, tatuagem no braço. Como é que ele iria comprar um Mercedes?”

“É mesmo. Que trambique seria?”

“Para com isso, cara. Tudo: pó, armas, essas coisas. O gringo é polivalente.”

Pedi licença, dei uma volta nos quarteirões vizinhos. Voltei à rua, não havia ninguém, subi na ponta dos pés e observei a casa. Só vi o rabo do Mercedes na garagem e um jardinzinho com cheiro de jasmim.

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

LOUVADA SEJA A DOR!

Lá estava ela. Dona Djil Carmina. Tinha 84 anos de idade e parecia grávida. Parecia não, estava grávida. Para falar a verdade, isso não foi nenhuma surpresa, nenhum escândalo, pois, neste paraíso em que moramos, a vida será perpetuada até o final dos séculos.

Mas – Deus! Que situação… – não deveríamos jamais comentar sobre a gravidez de dona Djil Carmina.  Não nos importa. Não nos importaria. A vida pessoal dos membros da nossa comunidade, assim como a vida de qualquer ente planetário, é inviolável, inalienável, inacessível; e se dona Djil Carmina estava grávida, isso era, seria, um problema do Plano Superior, que a fez assimilar a Semente da Vida provavelmente para nos remeter, uma vez mais, à aventura da humanidade.

Nós temos sido íntegros e puros durante todos esses séculos e até já perdi a conta do tempo em que aqui estamos, andando por essas montanhas de gesso e respirando o ar rarefeito que nos mantêm lúcidos e viris até o Fim de Tudo.

Então, diriam vocês, como deixar passar um caso desses sem muito cochicho e maledicência? Oh, diríamos nós, porque o cochicho e a maledicência não fazem parte da nossa estratégia de salvação – e isso há muitos séculos, quando entendemos que não somos singulares, mas gregários, egos coletivos e pequeninas partículas integrantes do Uno Superior. Porque o cochicho e a maledicência são memórias negativas dos piores momentos da nossa experiência no Planeta; acontecimentos de tanto tempo atrás que não conseguimos, hoje, sequer compreender o que realmente fora erro, dor, pecado original – toda uma gente à mercê de suas próprias misérias, gente que não se respeitara a si mesma e ao próximo. Humanos. Nós não o somos. Ou…não o seríamos.

Foi por tudo isso que nos isolamos neste paraíso,  há séculos.

De qualquer forma, pensando bem, como deixar de comentar, apenas comentar, a gravidez de dona Djil Carmina? Não há vida renovada entre nós… Somos apenas uma continuidade, uma sobrevivência estática: assistimos ao espetáculo do Plano Maior à espera da nossa própria ascensão, quando atingiremos (atingiríamos) o patamar dos seres angélicos.

Dona Djil Carmina grávida. Ela sempre morou sozinha no seu iglu. Discreta, simpática, popular. Amiga dos Divinos, os Anjos, Tronos, Potestades que habitualmente nos visitam.

Rufino, Eleôncio e Maravins, Anjos; Dovanes e Baladís, Tronos; e Cleonildo e Baravelo, Potestades, viviam a organizar tertúlias no iglu de dona Djil. O fato de esses encontros, essas trocas de experiências, ter acontecido a portas fechadas – sempre a portas fechadas – não teria, jamais, a menor importância…

Mas, como não… teria? Lembro-me de que, numa noite, Etenildo Bonsil, o profeta, veio me procurar. Mostrava algo raro: uma testa franzida. Parecia mais velho – nós, que não envelhecemos… -; e parecia amargo – nós, que somos tão doces…

“Não sei como começar…”

“Então…”

“Há problemas…”

“Quais?”

“Você sabe…”

“De nada sei…”

“Dona Djil Carmina…”

“Nossa irmã.”

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

JOANA SOLTA NO MUNDO

E Joana, que até agora não veio?

Talvez sejam os meus próprios fantasmas que estejam fechando o cerco sobre mim. Não são poucos. Agora, que tenho o dia inteiro pra pensar, descobri que todos eles vêm da infância. E é engraçado: quanto mais erros encontro nos meus saudosos pais, mais os perdôo e os amo.

Minha filha Joana, assim como seus irmãos, Maristela e José, ainda refletirão muito sobre os erros dos seus próprios pais, ou seja, sobre os meus erros, sobretudo os meus, porque Florbela foi uma santa em todos os sentidos.

Sinto muito medo. Sempre senti. E aí, nos mergulhos mais fundos da alma, deitado aqui nesta preguiçosa, a televisão desligada, que não a suporto mais, fui pesquisando a origem desse medo, e lamentando as estratégias que usei, durante toda a vida, para negá-lo. Poderia ter vivido a minha própria vida, mas acabei vivendo (e estendendo aos outros, inclusive aos meus filhos) a negação de mim mesmo.

Para não reconhecer esse pavor dentro de mim, gritei, bati, ameacei, abandonei, traí. Fui, em resumo, um grande filho da puta.

Esse medo volta agora, denso, indócil. Velho como estou, e em tudo dependendo de Joana, sou a vítima preferencial do meu próprio pavor. E a única. O meu medo já não me usa para fazer os outros sofrerem. Nem Joana, coitadinha, a única que me restou e que é a cópia exata de Florbela. Tão doce. Tão carinhosa. Não consigo entender por que está solteira ainda.

Onde está ela?

São onze da noite. Ela nunca demorou tanto assim. E também não me avisou. A última aula acaba às nove e trinta. Ela poderia ficar conversando com alguma amiga, ou até namorando, mas ela prefere voltar correndo para casa e ver como anda seu velho pai. Disse-me que ia comprar um telefone celular somente para conversar comigo enquanto estiver fora. Minha santinha.

Na semana passada, nosso bairro atingiu o recorde histórico de vinte e sete crimes em uma semana. Deu no rádio. Estamos longe de ser o ponto mais perigoso, mas, com esses números, chegamos também ao quinto lugar no ranking de violência da cidade. Que tristeza!

Eu tinha uns sessenta anos, na época, portanto não faz tanto tempo assim: a gente descia lá no ponto final da linha de ônibus, a dois quarteirões, e vinha a pé até a casa para caminhar um pouco, mexer-se. A qualquer hora do dia ou da noite. Quantas vezes, às duas, duas e meia da manhã, saí do escritório (ou de algum bar), desci no ponto, vim caminhando tranqüilo, curtindo minha cervejinha, um cigarro no canto da boca. Alguns cachorros latiam, um ou outro bêbado tentava puxar conversa. Seu Joveci, aqui da esquina, ainda estava vivo e sofria de insônia. Quantas vezes não me convidou para uma saideira!

Hoje, as ruas ficam desertas por volta das oito da noite. Dizem que são as novelas de tevê, mas eu tenho certeza de que é o medo. A perua cobra um pouco mais caro, mas acaba deixando Joana na porta de casa, porque nem ela nem ninguém se arrisca a andar dois quarteirões à noite.

Os crimes também acontecem de dia. Busilis, o filho de dona Ninha, morreu praticamente na minha frente, atingido por dois tiros que um cara gordo, de camisa aberta na barriga, disparou. Busilis era traficante, todo mundo dizia, e o cara gordo seria um agente policial. Acerto de contas lá entre eles. Meu coração bateu muito forte quando vi o menino caído, imóvel, a poça de sangue se formando debaixo dele.

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

HOJE, NUM FUTURO QUALQUER

Eu ainda gritei “Maria, desgraçada, não vai abrir a porta?”. Mas a campainha tocou de novo, após algum tempo. Um toque leve, de gente educada. Maria deveria ter saído cedinho. Pra namorar, com certeza. Maria ia acabar engravidando, aos dezesseis anos, e a gente seria obrigado a devolvê-la à família no interior.

“Já vai! Espere um pouco!”, berrei lá de dentro. Estava nu, preparando-me para o banho que tomava, pontualmente, às oito da manhã. Meus dois filhos àquela hora já haviam iniciado o trabalho na oficina mecânica, no prédio vizinho. Eu, com meus direitos de coroa, sempre chegava atrasado. E a vontade era a de atrasar mais, a cada dia. Também, cinquenta e três no costado… Trabalhando desde os doze…

Quem seria, àquela hora? Vesti a camiseta que estava jogada sobre o cesto. Meio fedida. Dane-se. A inútil da Maria ainda não recolhera a roupa suja. E se um dos meus rapazes transasse com ela? Não, não, eles tinham juízo, e arrumavam mulher quando e onde queriam. Igual ao pai.

Devo ter aberto a porta meio no tranco. A menina, uns dez anos, sobressaltou-se. Que gracinha! Simpatizei com ela imediatamente. Rostinho redondo, cabelo curto, lourinha. Covinha só de um lado. Usava uma roupa meio estranha, larga, parecida com uma jardineira. Um tecido… amarrotado, como se fosse papel. Já não havia visto aquela criança antes?

“Desculpe, minha filha, se assustei você…”

“Não… não…”, ela fez, com um sorriso lindo. Olhou para mim com muita curiosidade, como se procurasse alguma coisa no meu rosto.

“Então diga, minha filha, que você deseja? Já sei… O carro do seu pai ou da sua mãe quebrou.”

“Não…”, ela balbuciou novamente, e era extremamente gracioso o jeito de articular a palavra. “Nada disso, eu só vim te ver, vovô.”

E logo depois consertou:

“Eu não deveria ter vindo, mas vim. Desculpe. Sabe, amo você. Olhei pra você agora e amei você… ainda mais! Já amava antes.”

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

INTEGRALISTAS

Eu tinha curiosidade de conhecer o grande cineasta Asperceulta, sim, até para lhe perguntar se Asperceulta era nome, apelido ou brincadeira. Sempre me fascinei com pessoas que conseguiram ficar famosas usando um nome só. Como Cher, a atriz. Mas, na hora, acabei nem me lembrando disso.

Foi um encontro muito tenso, o nosso. Estou longe de ser um grande escritor, sei disso, mas sou muito cioso da minha pobre obra. Não poderia ser diferente com o conto “Integralistas”, do meu livro de estreia, “Povo de Deus”, que se encontra temporariamente esgotado. A editora já me havia comentado que Asperceulta tinha a intenção de fazer um filme inspirado em “Integralistas”. Assim, quando ele me telefonou, pedindo um encontro pessoal, “entre treze e quatorze horas da próxima quinta-feira”, eu já me invoquei. ‘Como ele sabe que vamos resolver o problema em uma hora?’, me perguntei.

O viado (nossa… que agonia, de piercing na língua) chegou de carrão cor-de-rosa e secretário particular, mais gay do que ele. Não aceitou água, nem café, fez cara feia para Gandhi, meu labrador, e a primeira coisa que disse foi: “Vamos tentar resolver essa pendência rapidinho…”

“Não sei o que dizer, senhor Asperceulta, porque, para mim, não há pendência alguma. A única coisa que sei é que o senhor estaria interessado na minha história ‘Integralistas’”.

“É fato.” (Ele iria repetir “é fato” muitas vezes, num cacoete.) “Na verdade, já estou com a produção bastante adiantada. A única coisa que me falta é a sua liberação. Afinal, o senhor é o autor da história…”

Disse a última frase como se lamentasse profundamente esse detalhe.

“É muita confiança do senhor adiantar tanto o seu trabalho sem saber se eu vou liberá-lo ou não.”

Houve um silêncio mais ou menos longo. Chamei Gandhi para lhe fazer um carinho. Gandhi deu o seu salto característico, na minha direção, enquanto a bichona do secretário do cineasta gritou um “aiii” de afetado pavor.

“O senhor não sabe que labradores não atacam seres humanos? A não ser que o senhor não se enquadre nessa categoria…”, sorri, fingindo bom humor.

Asperceulta me encarou, juntou as mãos em prece, suspirou fundo, como se eu fosse a causa dos seus males, e disse, pausadamente:

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

A SORTE É PRA QUEM PODE

“Ela agora é um vegetal.”

Foi assim que dona Larissa, de volta do hospital, definiu Toninha, sua própria filha, às vizinhas reunidas na sua casa. Havia um clima de velório, ali, e as crianças estavam muito confusas com aquela história. Dona Larissa ficou com vergonha de confessar que esquecera o nome da doença de Toninha e preferiu dizer que nem os médicos sabiam.

“Ela voltará a si?”

“Pode voltar, pode não voltar. Pode ficar assim por uma semana e morrer. Pode ficar assim para o resto da vida.”

Uma semana depois, quando Toninha retornou a casa, de ambulância e de maca, as crianças suspiraram: o “vegetal” era a mesma Toninha de sempre, meio criançona apesar dos vinte e dois anos, e que gostava de se vestir de bruxa para perseguir a molecada da rua. Era uma farra. Agora, como iria dormir sem hora para acordar, a brincadeira ficara adiada, sabe-se lá até quando. Aquele pessoal com menos de onze anos sentiu muito.

Mas nem se passaram cinco dias, quando o povo, ainda chocado, viu dona Larissa, sempre com um enorme lenço de choro no bolso, receber o caminhão da “Sorte é pra quem pode”, promoção das Lojas Sol. O veículo ocupava metade da rua, que era meio torta, com muitos problemas no calçamento e poucas árvores, e estacionara em frente à pequena casa.

“Dona Larissa! Dona Larissa!”, gritou um palhaço, acompanhado de uma câmara de televisão, “a senhora ganhou a troca de todos os seus móveis e aparelhos domésticos! A sorte é pra quem pode!”

Uma pequena multidão se acercou da casinha, e dona Larissa, cujo marido havia se engraçado por outra, e que vivia de produzir bolos e doces, já não conseguia controlar o choro e o riso, que agora vinham intercalados. As vizinhas, eufóricas, confluíram rapidamente. Ela, no centro das atenções, não largava o lenço grande, orientando a equipe de carregadores a acomodar os móveis novos, belíssimos, e a retirar os antigos, lamentáveis.

Na confusão, um dos carregadores lhe pediu para acordar a mocinha lá dentro, a fim de trocar a cama, e aí dona Larissa caiu num choro mais dramático, correu até Toninha, beijou-a muitas vezes no rosto.

“Ela não acorda mais, senhor. Come, faz necessidades, tudo, tudo, sem sair da cama. Mas, de vez em quando, chora. Eu fico preocupada: será que ela está vendo o que acontece aqui?”

O homem, muito impressionado, disse que seguramente não. Mas, com certeza, e até pra compensar sua situação, ela estaria desfrutando dos mais lindos sonhos que um ser humano poderia ter.

“O senhor acha mesmo?”

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

O GÊNIO DAS OITO

Não vou dizer que nunca conheci homem. Conheci, sim, o Geraldinho. Foi em 1967, nós éramos quase crianças, ele me enganou dizendo que gostaria apenas de um carinho, mas eu queria ser enganada, eu queria. Acho que aquela foi uma das três ou quatro vezes na vida em que perdi a razão. As outras duas foram de raiva mesmo, mas no geral sou muito calma.

O Geraldinho foi tão delicado comigo e com minha inexperiência, naquela única vez, que eu jamais havia imaginado quanto um homem pode ser violento – e quanto uma relação sexual pode magoar, despedaçar uma mulher frágil, sozinha no mundo.

Eu disse “um homem”, mas não sei se aquilo era – era não, é – exatamente um homem, ou se já fora homem, bem, eu estou confusa.

Faz quinze dias. De noite, quase nove horas, o último capítulo da novela das oito estava no fim, quando Amância revelou ao doutor Clésio que fora ela que matara Fidalga, a esposa dele, a doentinha. Meu Deus! O doutor Clésio tão apaixonado por Amância… Eu fiquei com lágrimas nos olhos, mas aí vi uma sombra perto da porta do banheiro, achei que era a lágrima atrapalhando a vista, enxuguei os olhos, olhei de novo – e lá estava ele.

Corpo escuro, mas não era negro. Um rosto sem expressão, um rosto sério, com cabelo, lábios, nariz, olhos, tudo da mesma cor, um marrom, uma cor esquisita – a cor dos demônios?

Aí ele veio se aproximando, eu paralisada, saltou em cima de mim, eu gritei “fui operada da vesícula!”, mas ele rasgou minhas roupas e as jogou longe, cada puxão e lá se ia uma peça, e aí sua violência me sufocou, e eu cedi, cedi, mesmo porque não tinha outra coisa a fazer. Não deu nem tempo de desligar a televisão.

Chorei no chão, aniquilada, mas ele se satisfez, levantou-se e sumiu – nem uma palavra, nem um gemido, nada.

Passei três dias sem ir à repartição. Só chorava pelos cantos do apartamento, imaginando que a qualquer momento ele apareceria com sua violência. O ataque fora na segunda-feira; na terça ele não veio, nem na quarta, mas na quinta, na mesma hora… brutalidade, dor, angústia!

Procurei Cleonides, que é professora, é casada, espiritualista, estudada, viajada, e ela me explicou tudo. “É um íncubo!”, ela disse.

“Um…?”

“Íncubo. Ín-cu-bo. É um espírito maligno masculino que ataca mulheres… como você. O contrário, o espírito feminino que faz a mesma coisa com os homens, chama-se súcubo. Sú-cu-bo.”

“Mas por que eu, Cleonides?”

Aí ela me olhou com uma cara de desdém que não gostei, como se dissesse “eu acho que motivo ele nem tem”, mas ela consertou, muito inteligente, e veio com uma história de carma, que eu devo ter feito alguma coisa horrível em outra encarnação, e agora estou pagando…

Sei lá. O homem… a coisa, ou o gênio – é um gênio, não é? – tem uma consistência de borracha, ou isopor, só que pesado, isso eu não pude deixar de sentir. Como não sentir? Veio quinta, na sexta me deixou em paz, voltou sábado e domingo… Nem uma palavra, nem um gesto: aparece de repente, salta sobre meu pobre corpo e…

Tenho chorado muito todos esses dias. Li na revista do dentista que a solidão afeta a mente das pessoas. Que elas chegam a ficar roucas de não falar. A solidão é a maior praga do mundo ocidental. É um vírus… E até ele, o fantasma, o gênio… ataca mulheres sozinhas, desamparadas. Sem ter outra coisa a fazer no mundo… Com toda sinceridade, acho que ele é uma pessoa muito só, também.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

FREGE

Diorinda gritou de um jeito que o prédio inteiro deve ter ouvido:

“Corre aqui, Camurça, que seu Tinho teve outro troço!”

Camurça saiu da cozinha muito além do que os seus sessenta anos permitiriam, atravessou a sala aos saltos, para não desarrumar os tapetes persas, passou por cima do cocker spaniel azul ruão com pintas brancas, que disparou logo atrás, e chegou à porta do banheiro, enquanto a enfermeira se esgoelava:

“Acode logo, Camurça, seu Tinho tá com mais de cem quilos!”

Mas quem entrou no banheiro foi o cachorro, e pulou sobre o corpo inerte de seu Tinho, oitenta anos, desabado dentro do boxe, e começou a lamber, e a fazer festa, agitando nervosamente seu toco de rabo.

“Camurça, tira o Ubalu daqui, pelo amor de Deus! Chispa, cachorro chato! Ai meu Deus…”

Ubalu, como era chamado pelas duas mulheres, mas que ganhara, originalmente, o nome de “White Blue”, criação de seu Tinho, por sinal, pressentia quando a cozinheira ameaçava tirar o chinelo. Aí gania, como se tivesse sido realmente atingido, e fugia, sempre esbaforido, para se esconder no armário das vassouras e do aspirador.

“Me ajuda, Camurça!”, insistia a enfermeira, mas a cozinheira plantara-se imóvel, de costas, diante da porta aberta do banheiro.

“Diorinda…”

“Vem logo, mulher. Que é, mulher?”

“Ele tá nu?”

“Nu? Ora, Camurça, não está tão gagá a ponto de tomar banho de roupa. É claro que está nu! Vem cá, mulher!”

“Com as vergonhas de fora?”

“Camurça, pelo amor de Deus! Essas vergonhas já morreram faz tempo, mulher. Me ajuda se não eu quebro a coluna.”

“Morreram, não, Diorinda… Eu é que sei.”

A enfermeira, cujo peso não ficava atrás do de seu Tinho, sentou-se, extenuada, no chão mínimo do boxe ao lado do corpo do homem. Não se importou de molhar todo o uniforme branco.

 

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

A EGRÉGORA

Não foi uma coincidência muito feliz aquela história do monstro aparecer na praia de Punta del Chifre.

Todas as piadas já haviam sido feitas com o lugar, até porque Punta del Chifre se tornara famosa pelo grande número de automóveis com namorados dentro, fazendo amor alegremente, muito longe de barulhos e indiscrições, a qualquer hora do dia ou da noite.

O monstro apareceu pela primeira vez na noite de oito de outubro, lua cheia. Foi visto pelo casal Ananias e Josefina, ele solteiro, ela casada, com dois filhos. Ela ficou tão apavorada que esqueceu todo decoro, reputação, família, e saiu correndo nua pela praia, pedindo socorro aos gritos. Ananias desmaiou. Saiu tudo nos jornais. E Punta del Chifre confirmou sua fama de reduto de traições.

O monstro, segundo depoimento da pobre senhora infiel, era um humanoide deformado, de dois metros de altura no mínimo, de braços e pernas um pouco mais longos do que os de um homem normal; e o que seria a pele era uma cobertura de algas marinhas, de odor ofensivo, que provocavam náuseas e vômitos. A cabeçorra e os traços do rosto não se divisavam bem, certamente pelo excesso de algas que lhe pendiam do alto da testa, como se cabelos fossem. Mas o pior era o grito pungente e dolorido que a criatura soltava ao sair do mar e se aproximar, com certa agilidade, das suas vítimas. Nenhum dos ouvintes soubera precisar se aquilo era brado de dor ou de fúria. Mas todos se arrepiavam.

A primeira notícia apareceu num jornal popular que a tratou com o deboche que o caracterizava: “Monstro ataca cornos em Punta”. Foi o sinal para que até programas de televisão nacionalmente famosos, além de pesquisadores europeus e americanos, transformassem a desprezível Punta del Chifre numa praia da moda. Desfiles de coleção verão de shorts e biquínis foram feitos por lá. Os donos das duas barracas de coco do lugar, que viviam cochilando, enquanto os infiéis faziam amor dentro dos carros, chegaram a quadruplicar seus lucros e houve até denúncias de periódicos de esquerda de que toda aquela agitação não passava de especulação imobiliária.

Como que respondendo diretamente a esta acusação, o monstro amassou as nádegas de Querênio Acosta, diretor de um semanário comunista, no dia em que ele e um grupo de amigos resolveram tomar banho de mar no território da entidade demoníaca. Era meio-dia, ou quase, e de repente Querênio começou a gritar, dentro d’água, e a tentar afastar alguma coisa que o estaria perturbando na parte posterior do próprio corpo. Numa dessas tentativas, sua mão direita se encheu de algas viscosas de um odor tão forte que não se despregou do seu olfato por semanas.

“É ele! É ele!”, gritava o jornalista, enquanto seus amigos riam do que imaginavam ser uma performance.

Dia seguinte, as calças abaixadas e as nádegas arroxeadas de Querênio foram estampadas nas primeiras páginas de milhares de gazetas do mundo, além de aparecerem na televisão, apesar dos protestos da vítima. O pior é que ninguém vira o monstro, dessa vez apenas uma sombra dentro da água, que em Punta del Chifre é um pouco turva, diferente das outras praias da cidade. Com essa quase aparição, somavam cinco as vezes em que o monstro fizera algum estrago. Na maioria delas, surgira repentinamente da água e se aproximara dos carros ou das barracas de coco. As pessoas saíam correndo, gritando, e pronto: o monstro desaparecia. A polícia, por sua vez, sempre se atrasava, de quinze a trinta minutos. Os moradores das casas mais próximas à praia apenas ouviam os gritos do monstro, inesquecíveis, segundo eles, verdadeiramente terrificantes. Mas, de alguma maneira, a aparição já havia virado rotina e o povo começou a se perguntar que diabo pretendia o estranho ser, aparecendo somente por ali.

 

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

DÍAZ SARMIENTO TEM ALGO A DECLARAR

Papatcho abriu mais uma garrafa de aguardente, enfiou o gargalo na boca e o líquido começou a descer, como se fosse um refrigerante. Era a terceira garrafa, as outras duas ele dividira com Zezão e Ribamar, que já se haviam apagado sobre as mesas do botequim.

“Há algum problema com esse boliviano”, comentou seu Crispim, que passara por ali somente para comprar cigarros. “É impossível suportar tanto álcool sem entrar em coma.”

Manero, o mestre-de-obras que, apesar de beber pouco, passava as noites e algumas madrugadas no bar, contando histórias de mulheres devassas que jamais existiram, balançou a cabeça, preocupado. Ele já fora amigo de Papatcho, no tempo em que o boliviano esculpia animais, com perfeição, aproveitando troncos velhos de árvores caídas.

“Ele bebe assim”, disse Manero para Getúlio, seu companheiro de garrafa, “desde que a dona Mora não o quis como motorista. Mas como pode uma pessoa imaginar que é ‘casado’ com alguém que não lhe dá a menor atenção? Papatcho apaixonou-se por ela, isso acontece, mas ele exagerou: inventou, para si mesmo, que vivia um romance com a dona, que se beijavam e coisa e tal. Acho que foi por isso que ela lhe meteu o pé na bunda. O boliviano devia lhe encher o saco.”

Getúlio não demonstrou nenhum interesse pela história, e aí Manero, contrariando sua rotina, engoliu o copo de cerveja de um gole. “Ô vida de merda! Só sofrimento, só amor contrariado! E ninguém ouve a gente… Puta que o pariu!”, berrou, assustando o companheiro e o pessoal das mesas próximas.

Papatcho continuava de pé mas, a julgar pela direção dos seus olhares, não via mais nada. Ou melhor, via sim: dirigia-se agora a um personagem imaginário, que chamou, respeitosamente, de Señor Díaz Sarmiento, e de quem ouviu notícias aterradoras.

Todos testemunharam: os olhos baços do boliviano foram-se arregalando para depois encharcarem-se de lágrimas, que derramou sobre o ombro de seu Julião, o dono do botequim. Seu Julião, por outro lado, era um verdadeiro demônio para todos os alcoólatras do lugar. Quando esses atingiam o estágio final, seu Julião preparava-lhes uma mistura secreta de vários ingredientes, em que sobressaíam a raspa de chifre e a jurubeba. Os homens bebiam aquilo, vomitavam as tripas e jamais conseguiam pôr novamente um gole de álcool na boca. Era beber e vomitar. Mas seu Julião sempre fora honesto: só preparava a mistura a pedido da vítima, ou da sua família desesperada. E não enganava o desgraçado: “Nunca mais você vai beber, peste, mas que vai morrer de vontade, ah, vai! Eh, eh! Quer mesmo tomar a gororoba?” Pressionado pela família, desmoralizado, nas últimas, os bebuns aquiesciam e começavam a viver o inferno do desejo insatisfeito. Não há maldição pior.

Agora, Papatcho pedia ao velho bodegueiro que, pelo amor de Deus, lhe desse um pouco da mistura.

“Com a morte da minha amada”, disse-lhe o boliviano, com seu sotaque forte, “quero apressar minha ida para o Além. A mistura é o melhor caminho. Quero morrer vomitando a mim mesmo.”

“Que história é essa de que dona Mora morreu?”

 

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

EM PLENO VOO

A primeira vez que ameacei sair do corpo foi no restaurante da empresa. Minha amiga Ciranes estava comigo e não percebeu nada. Eu devo ter perdido a cor e expressado uma certa confusão; a fome, perdi completamente, e abandonei o prato cheio na mesa. Ciranes olhava para mim, rindo, dizendo as coisas bobas de sempre.

É uma sensação desagradabilíssima ir saindo do corpo. (É bom deixar claro que não saí completamente; foi, digamos, uma ameaça.) Você pensa até que está morrendo, e não entende por quê. Depois imagina que é vítima de alguma moléstia cerebral. Estranho: nada dói e, mesmo a ponto de pular fora do corpo, você pode se levantar da mesa e cumprimentar alguém.

Fui voltando aos poucos, respondendo sim, sim, para Ciranes, que continuava a me tratar como uma pessoa normal. Quando tomei o cafezinho, entendi que o problema era bastante complexo. Logo depois, a estranha sensação passaria, e era como se nada tivesse acontecido. Então me fiz a pergunta dramática: mas o que, realmente, ameaçava sair de mim? Alguma coisa era. O eu, o meu eu, a consciência, teria condição de escapar da massa física e manter-se raciocinando? Mesmo sem contar com os cinco sentidos? Aí me lembrei que estava tomando Sulphur 1000, um medicamento homeopático, e no dia seguinte invadi o consultório do meu médico, após brigar com a atendente, que queria me fazer esperar quase um mês pela consulta.

“Talvez seja um efeito do Sulphur”, disse o doutor Madureira, economizando palavras, “mas talvez você esteja pronto para voar”.
“Está brincando.”

“Muita gente começa na sua idade. Na sua meia-idade.” O homeopata não tinha dúvidas.

Saí de lá do jeito que entrei: perplexo. Por enquanto, o maldito sintoma não se havia repetido, mas, por via das dúvidas, suspendi o almoço no bandejão e passei a comer sanduíches naturais na mesa do escritório, o que provocou um certo constrangimento entre os meus colegas, todos partidários de uma hora e meia de folga para as refeições. Eu, com meu sanduíche, gastava quinze minutos. Não foi minha intenção, mas, no final de dois meses, ganhei, como prêmio, uma viagem de férias, por uma semana, a uma praia distante, e com acompanhante. Ninguém teve dúvidas de que o prêmio se referia ao tempo gasto com a refeição e ao fato de não sair mais da mesa de trabalho. Eu, na verdade, não ficava por ali exatamente trabalhando, mas navegando pela internet, à procura de literatura sobre Projeciologia – a ciência que estuda as viagens fora do corpo.

Já que era divorciado e sem filhos, perguntei a Ciranes, que trabalhava em uma outra empresa, no andar de baixo, se gostaria de me acompanhar na viagem. Ela, que tinha duas semanas de folgas acumuladas, vibrou muito. E veio me perguntar se o convite incluía sexo.

 

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

LÁGRIMAS VÃS POR UM CADÁVER ROMÂNTICO

Um dos tiros atingiu o gancho do quadro do Coração de Jesus, pregado na parede da sala do barraco há mais de trinta anos. O quatro desabou e o vidro partiu. A imagem, impressa, perdeu carisma e status, solta no chão: ficou parecendo uma folha de calendário, em meio aos cacos de vidro e pedaços do reboco da parede. Bode Gil achou que aquilo era um mau presságio.

“Por favor, Crise, pega uma pistola e atira pra fora, de qualquer jeito, não precisa olhar nem mirar, é só pra dar um pouco de cobertura, fazer barulho.”

“Tenho medo, Gil.”

“Mas há chance de escapar, Crise. Com você atirando, também, essa chance aumenta.”

Bode Gil e sua namorada Crise estavam encurralados no velho barraco, que pertencera aos pais dele, e para onde ele sempre fugia, quando se complicava. Era o mais alto do morro, o mais protegido. De lá, Bode Gil via a cidade e o resto do mundo.

Os tiros continuavam, esporádicos: pistola, revólver, escopeta. Por algum motivo, os atacantes não usavam metralhadoras. Bode Gil achava isso muito estranho: todos os seus inimigos possíveis prefeririam atirar de metralhadora. O pessoal do tráfico já nem sabia usar outra arma. Ele mesmo tinha uma, israelense, importada, mas por azar não conseguira pentes de bala no último fim de semana, como lhe haviam prometido. Seu fornecedor, o Azulão, fora apanhado pela polícia e já ocupava uma gaveta gelada do Instituto Médico Legal.

“Me ajuda, Crise. Não sei quantos são. Daqui a pouco, um deles, ou um grupo, pode invadir os fundos do barraco, eu não consigo estar em todos os pontos ao mesmo tempo.”

“Estou morrendo de medo de morrer, Gil.”

“Você sabia que viver comigo é um puta risco.”

“Mas eu não tinha visto isso, antes, Gil. Tô apavorada. Minhas mãos tremem.”

Sem saída, o rapaz, de pouco mais de vinte anos, corria de um lado para outro, atirando. Através de uma fresta na porta da frente, ou nas janelas laterais entreabertas. Agora, uma bala arrombara a gaiola do curió, e ele fugira na sequência, ileso.

“Puta que o pariu!”, gritou o rapaz. “O curió do meu pai… Estava há mais de dez anos aqui em casa. Por que será que essa gente só atira na parte de cima da casa?”

“Quem é que quer nos matar, Gil?”

“Sei lá… Bufão, Noves Fora, Cajamar… um deles.”

“Mas você não tinha feito acordo com todo mundo?”

“Fiz. Tudo selado. Territórios demarcados. Você sabe.”

“E então?” A moça quase chorava.

“Acordo é pra ser desfeito… Não é a primeira vez, não vai ser a última.”

“Você sempre me disse que o tráfico é ético. Palavra empenhada é sagrada.”

 

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

CASCAS

Estávamos em um daqueles ônibus antigos que, após o desembarque do avião, nos levam da pista até o aeroporto. Eu ia justamente pensando no eterno atraso em que vivemos, com relação a outros lugares. Devemos ser um dos poucos países que ainda usam esse tipo de transporte, bastante complicado porque atrasa a operação em pelo menos meia hora, o que é incompatível com as necessidades contemporâneas de otimização do tempo. Só temos desembarque civilizado em uma ou outra grande cidade.

Eu sou um defensor assumido da globalização da economia e da modernidade dos costumes. Não podemos viver num mundo de parasitas, de viciados em previdência, de doentes e idosos.

Bem. Pessoas como eu não são a maioria dos contribuintes. Ainda. E assim me vejo obrigado, sempre, a conviver com as baldas do Terceiro Mundo. Tenho pensado seriamente em pedir transferência para uma das nossas filiais nos Estados Unidos ou no Canadá.

E lá vinha meio perdido nesses pensamentos, porque não há nada a fazer num ônibus de embarque e desembarque, quando o sujeito ao meu lado, terno impecável, cabelo à escovinha, gravata gloriosa, começou a berrar para ninguém:

“Não vou fazer isso! Quero que você se dane! Chamo de você, sim, seu incompetente!”

Gravei todas as suas palavras, pois foram ditas, além do volume altíssimo, com firmeza e convicção. Só que, após os gritos, o homem, que não tinha mais de trinta e cinco anos, transformou-se completamente. De furioso virou um cordeiro, pálido, balbuciando “me desculpem, me desculpem”, para mim e outros próximos, e aceitou o lugar que alguém lhe ofereceu em um daqueles banquinhos laterais.

Cabisbaixo, envergonhadíssimo, fez todo o percurso com o olhar fixo em nada e foi o primeiro a descer, quando o ônibus parou. Chegou a empurrar uma senhora à sua frente, que protestou: “ah, que mal-educado…”

O fato não me passou despercebido. Pelo contrário. Tudo bem, já disse que sou favorável à economia globalizada e à competitividade na sua expressão máxima, ou do contrário nos transformaremos nos mendigos do Planeta, a exemplo de alguns países africanos e asiáticos, de economias engessadas e difusas, sem produtividade e eficiência. Ou, por outro lado, sofreremos do mesmo jeito, se mergulharmos em modelos nacionalistas ultrapassados. Não, precisamos reagir. Mas sou obrigado a reconhecer que esse estilo de desempenho econômico nos tem levado a alguns exageros mais ou menos ridículos.

 

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

UM DIABO COLORIDO

UM

“Em nome do Pai do Filho e do Espirito Santo.”

(O som é ótimo).

“Há quanto tempo você não se confessa, menina?”

“Faz uma semana.”

“Então, vá: conte seus pecados.”

(Ele derrama as frases, engraçado; que pieguice).

“São pecados veniais e pecados mortais. O senhor quer que comece pelos veniais ou pelos mortais?”

“Diga os mortais, menina.”

(Às vezes, a voz da menina fica longe. Deve ser o microfone que está mais perto do padre, não é?).

“Eu pequei contra a castidade.”

“Ah… mas foi sozinha? Ou acompanhada?”

“Tenho de dizer o nome?”

“Não… não é preciso. Quero saber se você estava sozinha, se foi um pecado solitário ou se você estava com um amigo, ou uma amiguinha, ou um bichinho…”

(Que é que é isso, sô?)

“Acompanhada. Com o Geraldo, um amigo do meu irmão…”

“Menina: se não me engano não é a primeira vez.”

“É a quinta.”

“Que foi, minha filha?”

“Que foi o quê?”

(Burra, ou se faz de burra).

“Que foi que você fez com ele?”

“Nada.”

“Minha filha, você disse que pecou contra a castidade com o rapaz. E agora diz que não fez nada? Explique melhor.”

“Não fiz nada… dessa vez. Nós juramos, sabe? Eu não tocava nele, nem ele tocava em mim… Fizemos até promessa…”

 “Vocês dois cumpriram o juramento?”

“Mais ou menos…”

(Ela é demais! Pô, conta logo!)

“Menina, não seja boba: eu estou aqui para perdoar os seus pecados. Agora, o que eu não posso é perder tempo. Há pessoas na fila da confissão. Você não deve ter medo de contar suas faltas; de qualquer forma será absolvida. Para isso você veio aqui…”

 

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

A CONFISSÃO

No fim da vida, vou ser obrigado a confessar que devo todo o meu sucesso, prêmios internacionais e outras homenagens ao ditador Porfirio Luz. E, se o meu país realmente me considera um dos seus símbolos, possui, por conseqüência, uma certa dívida para com “O Sanguinário”.

Acabo de dizer isso e ouço, agora, esse “uuuuuu” surdo da platéia. Pensei que seria assim mesmo, que vocês se chocassem e que até imaginassem este meu ato como um delírio próprio da decrepitude. Mas tenho testemunhas do que vou lhes dizer e, se for o caso, eu as recrutarei. Acho que possuo alguma credibilidade.

Em nenhum momento, senhores, demonstrarei simpatia política pelo ditador. Pelo contrário. A memória dos “mortos queridos da resistência” pautou minha vida de ativista e formou meu caráter. Não esquecerei, jamais, também, os anos de exílio a que fui submetido.

A verdade sempre faz bem aos anciãos e realmente não posso conviver, neste meu fim de vida, com a culpa do meu encontro secreto com o “Papá Morte”.

Eu havia publicado, com dinheiro emprestado do meu padrinho, o meu primeiro livro de poemas, um livro modesto, fino, que eu mesmo distribuí pela universidade, vendendo-o a um dólar e meio. Um dos poemas, não exatamente o mais fraco deles, mas um dos mais discretos, chamava-se “Porfirio no Espaço”. Quando o escrevi, tinha em mente apenas um personagem de ficção, alguém que por acaso se chamava “Porfirio”. Não pensei, jamais, no “Monstro Engalanado”.

E era poesia, pós-lírica, ingênua e quase juvenil, aquele texto em que Porfirio, o personagem, vagava por entre galáxias, como um Pequeno Príncipe sul-americano, só que em busca de uma saudade que deixara de sentir. Vejam vocês que coisa boba, um produto do sentimentalismo antiquado do jovem romântico que eu era.

Dois meses após ter lançado a obra, ou seja, ter vendido o primeiro exemplar no diretório central dos estudantes, justamente a Maria Almeja, minha querida professora de Idiomas, um oficial à paisana bateu lá em casa. Era um homem cordial que só se assemelhava a um dos cães do ditador por causa do corte de cabelo à escovinha. Nesse tempo de terror, qualquer estranho que batesse à nossa porta, ainda mais um homem bem vestido e bem alimentado, não podia ser boa coisa. Minha mãe tremeu quando ele pronunciou meu nome, apesar de ele tê-lo dito com respeito, sem qualquer traço de agressividade.

 

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

SEGUNDA DESTRUIÇÃO DE BERLIM

O buraco é muito fundo, tem uns três metros. Por que ele veio passear com o menino na área das demolições? O menino pediu, gostava de ver os ferros tortos, brotando das colunas semidestruídas.
 
O senhor Wernher, deitado no fundo do buraco, imóvel desde a queda, tenta levantar-se.

“Gilberto! Gilbertinho!”

Todo o corpo dói. A perna direita quase não se mexe sozinha. Uma fratura, talvez.

Na hora da queda, o menino não estava com ele. Isso foi mais ou menos há cinco minutos - ele franzia a testa e apertava os olhos, como se pudesse espremer a memória.

“Gilbertinho!”

Na hora da queda, o menino estava longe, correndo para um brinquedo perdido, um aviãozinho de plástico, meio encoberto de pó. No lugar daqueles esqueletos de casas, restaurantes e cinemas, uma área de dois quarteirões, a prefeitura construiria um complexo de viadutos, com espaço também para jardins e play-grounds. Todo dia, o baque das picaretas e dos grandes martelos derrubando as casas, e mais a gritaria abafada dos operários, pareciam assustar o menino. Mas, no domingo, o mundo destruído ficava deserto. Gilberto se aproximava, para certificar-se disso. O velho procurava desviar-lhe a atenção:

“Meu filho, vamos ver as lanchas no lago do parque, isso aí é perigoso, uma parede dessas pode cair em cima da gente, machucar o Gilbertinho…”

“Não, vovô, vamos ver as casas por dentro.”

Agora conseguiu agachar-se. Confundiu o ruído de um motor de carro, longe, com a queda de alguma parede. Viu Gilbertinho morto, esmagado. Gritou de novo, o pó coçou-lhe a garganta:

“Gilbertinho, pelo amor de Deus! Gilbertinho venha cá!”

O senhor Wernher está chorando. A mãe de Gilberto, sua filha, pedia sempre, rogava: “Papai, não leva o menino para a desapropriação; papai, olha duas vezes antes de atravessar a rua”.

Controlava-se: “Não tenham medo, não estou caduco”. E até compreendia tanto cuidado: era filho único. Mas insistia em passear com o menino. Gilberto gostava, corria em volta da praça, arrastava seus carrinhos, era mais sabido que os outros meninos, batia em todos. Temperamento forte, eh ,eh, como o meu.

 

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

DOÇURAS

A moça de vinte e quatro anos chegou à porta do restaurante. Vestia jeans e uma blusinha azul-bebê, com uns bordados na gola e nas extremidades das mangas curtas. Carregava, presos à cintura, a pochete, de um lado; e um celular fora de moda, imenso, do outro. Ficou na ponta dos pés, porque não era muito alta, para observar o movimento. Lá no fundo, sozinho numa mesa de quatro lugares, estava quem ela queria.

A moça, morena, bonita de rosto e talvez um pouco magra de corpo, pediu licença e foi-se chegando à mesa do homem mais velho, uns sessenta e poucos, comendo com prazer sua massa de todos os dias.

“Ah, você…”, ele disse, a boca lambuzada, e demorou um pouco para ameaçar levantar-se. A moça de vinte e quatro anos desobrigou-o. Ele agradeceu com um sorriso sem jeito.

“Servida?”, ele continuou, como se houvesse alguma coisa a oferecer. Toda a massa, com a carne picada, já havia migrado da travessa para o prato.

“Obrigado, doutor Mário. Já almocei.”

“Sim, mas um vinho… um cálice”, ele insistiu.

Ela ficou quieta, o que ele interpretou como uma aceitação. A moça puxou uma cadeira e se acomodou.

“Ei, Marrom!”, ele gritou para o garçom. A moça constatou que o garçom era mesmo marrom. “Traz mais uma taça de tinto”, ele pediu de longe, incomodando os rapazes da mesa ao lado. Um deles virou-se e encarou o homem mais velho, que nem percebeu.

“Doutor Mário”, a moça continuou, “eu vim resolver a nossa questão.”

“Mas que questão, Lili? Não temos questão nenhuma. Somos amigos.” O homem diminuíra o ritmo com que sorvia os fios de macarrão. Começou a usar a faca.

“Somos amantes, doutor Mário.”

“O quê? Amantes? Que é que é isso, Lili?” O homem, que era branquelo, pintava os cabelos da cor do garçom, usava suspensório e parecia acima do peso, olhou de lado com medo de que o ouvissem. Baixou a voz. “Nós só transamos uma vez”, ele disse, mostrando o dedo indicador virado para cima. “Uma vezinha.”

“Você queria mais.”

“Bem…”

“E eu também, doutor Mário. Só que eu fingi que não, para não reconhecer que estava apaixonada pelo senhor.”

“Por mim, Lili? Um… agonizante? Um animal pré-histórico que passa o dia sonhando apenas com a hora das refeições, que já não aguenta trabalhar, que morreu e não sabe…”

 

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

O CONSTRANGIMENTO

Já fazia uma semana que Nhá Sirvina não pisava na loja. “Alguma coisa errada tem”, pensou seu Ferreira. Outra que não aparecia era dona Rosa Machado, mas esta só há uns três dias.

O português, apesar da aparência largada, barba por fazer, camiseta regata, e de soltar uns palavrões que, de vez em quando, deixavam as pessoas arrepiadas, era muito cioso das suas conquistas comerciais. E aquelas duas mulheres, entradas em anos (Nhá Sirvina já passara dos setenta), visitavam todos os dias, com rigor religioso, a lojinha de tecidos. Compravam, no máximo, três peças por semana. Um zíper hoje, uns botões amanhã, e entretelas, agulhas, linha. Coisinhas. Mas compravam.

Seu Ferreira estava convencido de que dona Rosa Machado guardava ilusões românticas a seu respeito, apesar de comportar-se como uma dama, sempre; já o problema de Nhá Sirvina era de solidão mesmo: largada no mundo, morando com o filho único, Lulão, que jamais aparecia em casa, ela precisava conversar com alguém. Escolhera o português.
“O que está errado na porra desta loja?”, perguntou seu Ferreira para si mesmo, em voz alta, assustando umas clientes que olhavam peças de algodão cru. “Será que elas não vêm por causa dos assaltos?”

Imaginou, por um momento, que o noticiário da televisão sobre os perigos da zona portuária, onde se estabelecera, estaria afastando a clientela. “Mas, grandes merdas”, dizia-se sempre em voz alta. “Os bairros ricos são os mais perigosos, aqui só tem pé de chinelo, uns coitados que roubam pra beber cachaça… Será que tem alguma coisa a ver com Xibiu?”

Lá estava Xibiu, olhando para ele com um “amor desesperado que me faz chorar”, como o próprio seu Ferreira definia o afeto que o adolescente, portador da Síndrome de Down, lhe dedicava. Xibiu estaria completando, agora, uns quinze anos. Seu Ferreira até evitava encará-lo por mais tempo, pois o rapaz soltava um urro assustador, de amor puro, levantava-se desengonçado (estava engordando demais) e corria até o português para abraçá-lo e cobri-lo de beijos.

“Ô, pare com isso, maluco, pare, pare…”

Seu Ferreira dizia “pare, pare”, mas, no fundo, não podia passar sem aquele carinho. Nunca tivera irmãos, namoradas, amantes. Servia-se das prostitutas ali de perto, uma de cada vez para não “pegar costume”. Dona Adélia, sua querida mãe e até então a única afeição da vida, morrera em Trás-os-Montes aguardando a passagem para viajar ao Brasil. Mas isso já fazia uns vinte anos. O segundo afeto do português era o Xibiu.

“Xibiu, você fez alguma coisa com dona Rosa Machado e com Nhá Sirvina?”

O garoto balançou alegre e violentamente a cabeça, de um lado para o outro, enquanto emitia seus impressionantes ruídos guturais.

“Entende tudo, o puto”, pensou seu Ferreira, sem deixar de sentir uma ternura definitiva pelo garoto. Xibiu surgira na sua vida há treze anos, quando uma mulher jovem e bem-vestida apareceu na lojinha. Trazia uma criança num saco às costas, o que não era muito comum por ali. De relance, porque atendia a outros clientes, seu Ferreira pensou tratar-se de uma criança japonesa. “Pai japonês, ou chinês”, pensou consigo. De repente não viu mais a mulher e, quando foi fechar a loja para almoçar (era o único comerciante que ainda fazia isso na rua), descobriu, numa pilha de tecidos desfraldados, que haviam sido arrumados como um berço, a estranha criança, dormindo. Teve certeza, depois, que lhe haviam dado alguma droga para que não fizesse barulho.

“Mas que filha duma puta!”, foi sua primeira reação. Correu para a rua atrás da mãe desalmada, mas nem sinal. Preocupado, logo voltou à loja vazia, e o garoto ainda dormia.
Desconsolado, mostrou o troféu para seu Golinho, do bar ao lado, e dona Aírdes, do brechó da esquina. Seu Golinho não teve reação, já estava tão calibrado àquela hora do dia que confundiu o garoto com um delirium tremens inédito.

“Que agonia!”, foi seu único comentário.

Já dona Aírdes encantou-se.

 

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

A VELHA CHAMA E A NEGRA SOLIDÃO

Quem olhasse para aqueles três, entrando e saindo do automóvel velho (as duas mulheres sempre com muita dificuldade), logo se perguntaria qual a relação entre eles. O rapaz, motorista e dono do veículo, moreno escuro comprido e magro, sorriso de luz, roupa branca impecável de profissional de saúde, excedia-se na cortesia às duas mulheres, mais estropiadas do que idosas, e que talvez nem tivessem passado dos setenta. A mais alta e muito magra, brancosa, cabelo louro pintado mas de raízes brancas, vestido de velhinha, preto de bolotas esverdeadas; a outra, negra quase azul, ombros sugados, cabelo acaju espichado, blusa lilás e saia rosa curta, absolutamente inadequada à idade, via-se que emagrecera muito ultimamente.

O rapaz, pouco mais de vinte anos, apoiando as duas para fazê-las descer e subir do carro com mais conforto, chamava-as por nomes estranhos: dirigia-se à branca como A Velha Chama; e à outra, A Negra Solidão.

Mas não havia outro jeito de comunicar-se com elas, as duas nem admitiam isso, até já se haviam esquecido dos seus nomes próprios.

Aquele ponto da cidade era difícil de estacionar: o centrão, no chamado Recife Antigo, sempre de poucas vagas e muitos guardas de trânsito; as ruas eram tomadas de prédios baixos, estilo Rive Gauche, do começo do século passado; e, em ruas próximas, outros prédios parecidos, de arquitetura portuguesa, edificações ainda mais velhas, do final do século 19 – tudo isso deixava as duas mulheres embevecidas, emocionadas, tontas.

“Olha lá, Negra Solidão”, dizia A Velha Chama apontando uma janela. “A gente passou ali três anos, foi quando Hermes La Porte quase me ensinou a falar português direito…”, ria a velhinha, o braço esticado, só pele e osso.

“Não era a “Blu Valter” ali?”, perguntou a negra, referindo-se a uma das muitas boates da época, a Blue Water.

“Sei não, menina; minha cabeça já era”, riu a outra. “Os prédios são os mesmos, mas agora estão aviadados, com essas cores gritantes,  horrorosas… “ A Negra Solidão não era de poupar palavras.

As duas se viraram ao mesmo tempo para o rapazinho moreno sorridente:

“Você é um santinho, meu filho”, disse A Velha Chama. “A gente estava querendo fazer essa visita há muitos anos.”

“Sei que não foi fácil convencer o dono do botequim”, completou A Negra Solidão, referindo-se ao diretor do hospital onde as duas praticamente moravam, pacientes em tempo integral, portadoras terminais do HIV.  O maior segredo do hospital, aliás, era a identidade de quem pagava, há anos, o tratamento das duas ex-prostitutas.

Péricles, o enfermeiro moreno e simpático, fizera-se uma espécie de neto daquelas senhoras, fontes de desarmonia no Hospital Lusitano.  Os internos eram poucos, em geral gente rica, homens e mulheres, que as famílias preferiam entregar a cuidados médicos intensivos e sobretudo permanentes, como uma forma de se livrar deles.

Assim, A Velha Chama e A Negra Solidão, duas putas da pior zona do Recife, a do Cais do Porto, conviviam com esclerosados Albuquerque, Cavalcanti e Pessoa de Melo, além de outras famílias tradicionais.

Houve conflitos. Dona Hermínia Buarque  Maciel, por exemplo, não admitia a proximidade das duas mulheres. A Velha Chama poderia até ser tolerada, tinha a pele branca, mas uma crioula, jamais! Nem que fosse princesa do país mais rico da África!

 

Clique aqui e leia este artigo completo »


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

NÃO ERA UM SORRISO

Chegou devagar, gravata frouxa, jeito relaxado, à mesa da nova menina do Departamento de Criação (era mesmo uma menina, apesar de ter-se formado em publicidade havia um ano). Ela examinava umas fotos, de uma rua ou de uma feira; ele viu pelo olho periférico, não conseguiu definir. Reparou bem nela: cabelos supernegros, jeitinho clean (como quase todas ali), 20% dos peitinhos aparecendo na blusa de verão. Sorriu ao lembrar como seu pai a definiria: um pitéu. Tinha aquele cheirinho de fundo de perfume seco, igual a todas. Ele pôs os cotovelos na mesa, seu rosto ficou muito próximo ao dela. Era o dono da agência, podia fazer qualquer coisa,

“Tô a fim de você”, disse com firmeza, mas em meia voz, para não chamar a atenção da outra garota na mesa do lado.

Ela levantou os olhos, nem a cabeça mexeu. Encarou-o, séria:

“Quantos centímetros?”

“O quê?”

“Quantos centímetros?”

“Não entendi. Centímetros…?”

“De membro viril. Pênis. Caceta. Quantos?”

Impossível evitar a pausa constrangida. Ela continuava a fitá-lo nos olhos, sem dor nem expectativa.

“Não foi minha intenção magoá-la. Uma brincadeira.”

Ela usava aquele batom meio escuro que lembra bocas de vampiros. Será que ele teria visto um sorriso nascendo sutil nos movimentos das suas bochechas, um pouco mais cheias do que deveriam?

“Você não me magoou. (Veludo de voz…) Tenho estreitamento vaginal e não posso perder tempo com homens de pau um pouquinho além do normal”.

Ela continuou a encará-lo, enquanto ele dava meia-volta e sumia da sala, apressado. (Teve certeza: aquilo não era mesmo um sorriso a nascer no rosto da moça).

Pelo vidro azul da janela, o dono da agência viu o trânsito parado lá embaixo. Pensou no crescimento difícil da empresa, nos sócios americanos complicados. Naquela semana, não iria escapar de uma ou duas noites de trabalho. Sua mulher gastava cada vez mais nos cartões de crédito e o seu caçula destruíra o segundo automóvel importado. Filho da puta.

http://fernandoportela.wordpress.com/

 


http://fernandoportela.wordpress.com/

Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

AVANTESMA DE RESPEITO

Miniconto

O adolescente Julinho, 15 anos,  assustou-se porque Cleôncio, o médium de efeitos físicos, dormia, exausto, e não costumava liberar ectoplasma durante o sono; mas o fluido branco, parecendo uma fumaça espessa, escapava, generoso, por todos os buracos da cabeça do paranormal e começava a formar uma imagem. Há dois anos, Julinho era tudo para o médium: secretário, empregado doméstico, alcoviteiro. Já não se assustava com os fantasmas produzidos por Cleôncio. Tudo gente boa. Quando um quepe surgiu na figura brancosa, que lentamente adquiria cor, Julinho viu quem era: o coronel Quintino Prado, da Guarda Nacional. Morrera no começo do século 20, estava cheio de carmas pra resgatar, mas reclamava demais. “Vou aproveitar o sono dele pra lhe mandar um recado e é você que vai dar, moleque”, disse o coronel (e toda vez que ele abria a boca, o ambiente esfriava mais). “Estou farto! Transformaram-me em foca de circo! Apareço, digo coisas, aconselho, faço as vezes de vigário, conto segredos da plateia e ainda pensam que sou um truque desse infeliz aí” – resmungou, apontando o médium largado no sofá. A forma do coronel já se desprendera do corpo de Cleôncio e circulava à vontade, levemente colorida, pela sala gelada. Até os pés, sempre as últimas construções da escultura fluídica, haviam-se formado.  “Mas o que eles querem?”, insistiu a aparição. “Que eu dance cancã? Aqueles físicos da Universidade me olharam e tascaram na minha cara: ‘Olha a fraude! Veja como o corpo é desproporcional. Descubram onde está o projetor!’ ”  “Ora, desproporcional é a mãe deles! Mesmo o deputado, que estava junto, acreditou, gostou do meu ‘espetáculo’ e agora vai trazer até a amante pra ver o ‘show’. Menino, diga ao idiota aí que não me evoque mais! Estou morto mas não sou palhaço! Sou um cidadão, um militar sério! Homessa! Onde estamos?” Julinho se apressou em dizer, bem alto, “sim, sim, sim, seu coronel, eu falo!”, pra ver se o espectro sumia de vez; o rapaz estava só de camiseta e não suportaria aquele gelo nem mais um minuto sem correr o risco de pegar uma bruta gripe. 

http://fernandoportela.wordpress.com/


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa