11 julho 2010 A PALAVRA DO EDITOR

Era domingo pela manhã e o telefone tocou. Tá fazendo duas semanas hoje. A característica voz grossa e o inconfundível sotaque nordestino fizeram com que eu identificasse de imediato o sujeito:
- Berto? Tô cum saudades de você, seu cabra!
Era Vladimir Carvalho, um amigo do peito com quem eu não falava desde que me mudara de Brasília pro Recife. Um sujeito do qual tenho inúmeras histórias pra contar e cuja convivência me faz uma falta da bixiga lixa. Cineasta, documentarista, professor aposentado de cinema da UnB e um apaixonado pela vida, pela Nação Nordestina e pela humanidade.
Quando era no final do ano, época de frutas, Vladimir e Lucília, sua mulher, saiam da casa deles e iam andando em direção à minha, quatro quilômetros de distância, e pelo caminho vinham batendo nas portas das residências que tinham pés de manga (e todas tinham no Lago Norte), pedindo as mais maduras que conseguiam avistar nos quintais, feito dois penitentes bem vestidos e de cara lisa. Vinham caminhando e chupando mangas pelo caminho, que nem dois meninos arteiros, até chegaram ao meu portão. E aí é que o consumo de mangas era mesmo pra valer. Junto com as mangas, as nossas conversas compridas, da qual participavam sempre os amigos, o eterno grupo de vagabundos que me dava prazer e sustança com a bem querença de sua presença e o calor da sua amizade.
Quando Cristovam Buarque foi eleito governador de Brasília pelo PT, no segundo semestre de 1994 (minha casa era um comitê fervilhante), convidou Vladimir pra ser seu secretário de cultura. E a resposta de Vladimir foi uma coisa que eu não esqueci nunca mais:
- Ôxi, Cristovam! E eu lá tenho cara de secretário? Num tenho carro, num sei dirigir e só ando de ônibus. Já pensou se os meus vizinhos me vêem chegando ou saindo de casa num carro oficial preto, com placa de secretário?! Deus me livre! Convide outro. Num tenho cara de secretário, não.
Eu achei tão arretada a reação de Vladimir que dei uma festa em homenagem a ele. Natan estava presente. Num país em que ninguém recusa boquinha alguma, num recanto de mundo em que o furor ideológico das esquerdas só dura até conseguir um bico pra mamar nos peitinhos do erário, a recusa de Vladimir me pareceu um gesto de raro heroismo. E por isso promovi uma festa da porra pra homenageá-lo, um grande churrasco, ao qual compareceu a nata da vagabundagem brasiliense.
Vladimir, junto com Sivuca e Jessier Quirino, é um dos componentes da suprema trindade de grandes filhos de Itabaiana, mesmo tendo Jessier nascido em Campina Grande. Passou a ser itabaianense por adoção e de coração.
Periodicamente o Canal Brasil, da TV a Cabo Net, passa os filmes de Vladimir. E assim eu mato as saudades do meu amigo. Tendo a seu crédito mais de duas dezenas de filmes, entre os quais O Homem de Areia, No Galope da Viola, O Evangelho Segundo Teotônio, O País de São Saruê e O Itinerário de Niemeyer, acredito que Vladimir seja mais conhecido e divulgado no exterior do que aqui dentro das nossas fronteiras. E estamos falando de um dos mais importantes e competentes documentaristas deste país. Quem quiser conhecer um pouco mais de sua vida e obra, basta clicar aqui. A página Quem é Quem no cinema também se ocupa do seu trabalho.
Nesta entrevista para a Revista Moviola, especializada em cinema, Vladimir fala sobre uma das grandes paixões de sua vida, o genial escritor paraibano José Lins do Rego, tema de seu último filme O Engenho de Zé Lins.


























































