FRANCISCO VIEIRA SALES - CRATEÚS-CE
Quando eu era menino,” FAZ TEMPO! ” apenas porque nasci em janeiro de 1929; na época meu irmão mais velho adquiriu um livrinho de Cordel com a Peleja de dois Cantores: um deles conhecido pelo nome de “PELADO”.
Um dos versos o Pelado dizia:
Eu cheguei no porto de Alagoas,
Estava tudo em belas condições
Tinha mais de cento e cinquenta embarcações
Entre Paquete navios e canoas
Na presença de mais de cem pessoas
Num Paquete Alemão eu encostei,
Quando ele quiz partir eu segurei,
Desta vez o PELADO criou fama ,
E o oceano ficou da cor da lama
Mas o navio só saiu quando eu solte
Eu solicito por favor, que, se o irmão não conhecer este verso completo, possa adquirir através deste MARAVILHOSO JORNAL, que é o JBF, Jornal da Bexiga da Lixa.
Todos os dias vejo o JBF e passo para os amigos.
Aceite meu forte abraço. Olhe aí, abraço de homem, hein?
R. Tá certo: abraço de homem!
Meu caro, se você nasceu em 1929, fazendo a conta de diminuir, a gente chega à conclusão que você tem 81 anos. Uma idade da bixiga lixa! Um dia eu também chegarei lá. E essa turma nova que não quer envelhecer, só tem uma solução: morrer jovem.
Saiba que sua carta me deu uma alegria enorme, inclusive pelo assunto, pois esta peleja à qual você se refere é uma das minhas prediletas. Me encantei desde que a li pela primeira vez, no livro “Vaqueiros e Cantadores” (Ed. Itatiaia, 1984, Belo Horizonte), do saudoso Luis da Câmara Cascudo, o genial potiguar que foi uma das mais brilhantes e lúcidas inteligências da Nação Nordestina.
Trata-se de uma peleja entre João Martins de Ataíde e Raimundo Pelado do Sul e que já foi publicada aqui no JBF, na coluna “Repentes, Motes e Glosas”, assinada pelo Cardeal Pedro Malta.
Vou transcrevê-la do jeito que está no livro de Câmara Cascudo, como um presente pra você e pra todos os nossos leitores que apreciam a genialidade dos repentistas nordestinos.
Abraços e bom final de semana!
* * *
João Martins de Ataíde
Quando eu pego em longa discussão
bebo as águas caídas de um dilúvio,
e já tapei as chamas do Vesúvio
passou um mês sem haver erupção…
A cratera eu cavei até o chão
para o grande oceano eu enterrar
Quando este serviço eu aprontar
fica até uma estrada muito boa
quem quiser ir daqui para Lisboa
não precisa ir a bordo pelo mar.
Raimundo Pelado do Sul
Eu sozinho já amarrei uma baleia
em um dia de sábado de Aleluia
Desgotei o mar Negro com uma cuia
alegre, ouvindo a canção de uma sereia …
O mar ficou seco na areia.
Fui ajudante na tenda de Vulcano,
viajei lá por trás do oceano ,
tudo isso eu faço sem trabalho,
como é que agora eu me atrapalho
com este pobre cantor pernambucano ?
João Martins de Ataíde
Entre o sétimo túnel da Russinha
o trem da Serra descia em disparada
e com um tombo que eu dei na retaguarda ,
rebolei todo o trem fora da linha.
Atendendo os amigos que ali vinham
porque alguns não podiam ter demora,
de um cordeiro eu peguei fiz uma escora,
fiz alavanca de dois cambões de milho
e novamente botei o trem no trilho
e o maquinista apitou e foi embora…
Raimundo Pelado do Sul
Eu fui um dia no porto de Alagoas
encontrei tudo em belas condições
tinha cento e cinquenta embarcações
entre navios, paquetes e canoas…
Na presença de mais de cem pessoas
num paquete alemão eu me encostei.
Quando ele quis partir, eu segurei,
Desta vez o Pelado criou fama ,
o oceano ficou da cor de lama
e o navio só saiu quando eu soltei.
João Martins de Ataíde
Fui conduzido a um campo de batalha
no momento em que o tiro detonava.
Tinha a boca maior que uma fornalha ,
eu escondido por trás d’uma muralha ,
tapei a boca da peça de canhão ,
deu um estrondo maior que um trovão
que a esquadra inimiga recuou,
o que é certo é que a peça detonou
porém a bala ficou na minha mão.
Raimundo Pelado do Sul
Muitas vezes que estou aperreado ,
descarrego meu ódio em certa gente
deixando os astros de um modo diferente
e o horizonte sombrio, arroxeado …
Neste dia se eu for ao teu Estado
Nem o Exército me pode repelir .
Muita gente sem culpa há de sentir
no momento penoso deste apuro
passa o Recife três dias no escuro
até quando eu mandar o Sol sair…