15 março 2010MAIS CRONIQUETAS



LOUCOS E SÃOS (quem somos nós?)

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Dentro, o verde, o ar puro e um hospital de loucos. Fora, o vai-e-vem de carros, o ar de fumaça e a liberdade dos sãos. No boteco da esquina políticos, empresários e lobistas tomam porres de ganância com tira-gosto de hipocrisia. Beberes e comeres à loçé. Dentro, um shoping terá paredes pintadas de verde, um museu de remorsos e consciências onde se contemplará Deus e o Dinheiro; fora, os bêbados e os pedintes incomodados com as bicicletas circulando pelas calçadas. Entre elas e a rua, padres, jornalistas e povo trafegam: loucos ou sãos, ainda? Curiós e Sabiás, alheios a tudo, cantam para os sãos de dentro e os loucos de fora. Todos, sem distinção, escutam. Os de dentro, choram. Os de fora, se foram.

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ASSASSINOS DA ESPERANÇA (a primeira que matam ou a última que morre?)
 

Dona Ética bateu mas ninguém abriu-lhe à porta. Insistiu, e nada. Ouviu – atentos ouvidos tem a Dona Ética, passos de dentro da sala. Certamente, alguém veio ao olho mágico observar quem era a visita. Identificada como incômoda, a porta não foi aberta. Dona Ética pensou insistir mais uma vez mas, já tinham lhe dito, não adiantaria: ali ninguém lhe daria ouvidos. Seria perda de tempo. Desistiu. Saiu prometendo a si mesma não mais querer conversa com aqueles homens de paletó, pastas e meias fartas. Dali, já atrasada, foi ao sepultamento da amiga Esperança.

 

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ZERO A ZERO (e todos perderam)

empate

Era apenas um jogo de futebol. Nada mais que isso. Claro que as paixões, assim como as religiões, os amores e a política, são coisas que não se deve discutir. Aliás, pra bem falar a verdade, o discutir, se não por temas nobres, enlameia a alma. Conversar, ah, isso sim, faz bem ao coração e ao entendimento. Mas estava lá o vermelho de uma das camisas misturado com o vermelho da outra, complementadas por cores outras, cada uma delas. Em comum, a cor que lavava a cabeça do homem que recebeu a pedrada. Um vermelho-vergonha cor de sangue. E o jogo foi 0×0. Todos perderam.

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COITADINHO (Santa Clara, tende piedade de nós!)

Perdeu pouco mais de um minuto para ser atendido na fila do Banco. Na saída, pegou o ônibus, com ar condicionado, que já o esperava, sem atraso e sem nenhum assaltante a bordo. Em casa, viu que a Velox atendeu seu pedido e consertou a Internet. Estava novamente ligado ao mundo. Suas contas, todas em dia, assim como sua saúde, estavam perfeitas. Sem problemas. Os amigos, vários, nunca ausentes quando convocados a por perto estarem. A família, desde sempre unida, cada vez mais se unia. Ganhara um neto, bonito, saudável. Fazia tempo não recebia ligações de tele-atendimento. Estava até se familiarizando com a nova regra ortográfica, colocando com perfeição as crases, os hífens. Nada a reclamar. Sua TV, porém, não mais sintonizava o BBB. Defeito estranho. E agora? Como viria a saber do destino  dos participantes? Quem ficaria rico? Qual deles se tornaria a ‘celebridade’ maior? Quem posaria pra Playboy? Pobre infeliz sem TV.

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CUIDADOS NO SOBE-E-DESCE (abra o olho se quiser enxergar)

Relutou em entrar no elevador e só o fez depois de verificar que o mesmo estava parado em seu andar, porta aberta, claro. Previdente e cumpridor das leis, não pisava em grama, não fumava em bares e só entrava no elevador nessas condições. Seria besta de entrar num buraco, sem o ‘bicho’ no lugar? Só se fosse doido. E doido ele não era. Apenas não entendia o raciocínio brilhante das autoridades que aprovaram essa Lei de colocar aviso em tudo que é elevador no Recife avisando aos usuários de que eles só devem utilizar o danado se ele estiver parado no mesmo andar que se está. Imagino que daqui a alguns dias vai ter aviso do tipo: “só dirija seu carro se ele estiver com o motor ligado” ou “só pare na sombra se estiver fazendo sol” ou, ainda, “só beba água se o copo contiver o precioso líquido”. Por falar nisso, se você só enxergar de óculos, coloque-os para ler essa croniqueta.

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EITA GOTA! (uma viagem da ‘bixiga’)
 

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Acabo de ler, de uma só tacada, o “Eita Gota!” de Efigênio Moura, Profissional de Marketing e Radialista da vizinha Paraíba (Editora Universitária UFPb, 2010, 2ª Edição). Nordestino múltiplo – filho de Pernambucano com Alagoana, achou de nascer em Monteiro, o Autor soube absorver e, mais que isso, transmitir todo o espírito de nordestinidade que permeia o espírito  dos que aqui nascem. Com um linguajar fácil, alegre e bem humorado, o livro proporciona uma viagem às cidades paraibanas no interior de uma Veraneiro lotada de passageiros interessantíssimos, cada um deles com a peculiaridade sertaneja que enobrece a alma e acalanta o coração. O livro é prefaciado por Marco di Aurélio e Zelito Nunes (precisa dizer mais alguma coisa?). Vale a pena pegar um bigu na Veraneio MN 1903, cobrir-se de poeira matuta e conhecer um pouco mais desse chão rico e de sua gente maravilhosa.

 

 

 

2 Respostas em: “MAIS CRONIQUETAS”

  • BISPO (ANALISANDO) CÍCERO CAVALCATI Diz:

    “Dona Ética pensou insistir mais uma vez mas, já tinham lhe dito, não adiantaria: ali ninguém lhe daria ouvidos. Seria perda de tempo. Desistiu. Saiu prometendo a si mesma não mais querer conversa com aqueles homens de paletó, pastas e meias fartas. Dali, já atrasada, foi ao sepultamento da amiga Esperança”. É de arrupiá até os cabelin do…deixa pra lá.

  • XICO BIZERRA Diz:

    Meu Caro Bispo,
    desculpando-me pela defasagem (estava sem computador e sem tempo), só agora vejo seu comentário. Agradeço a generosidade de suas palavras, tão frequente quando a mim se refere. Admiração mútua, podes crer. Grande abraço,

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