29 março 2010CRONIQUETAS, CONTÍCULOS E NOVELINHAS
1 - RIO DE TODOS OS JANEIROS (de fevereiro a dezembro)

Conhecia, de fotos e de ouvir falar, a beleza do Rio de Janeiro. Cidade Maravilhosa. Luzes, Morros, Praias. Agora, estava lá, de verdade. Sua aldeia amada não tinha pães-de-açúcar nem corcovados. Seu Cristo Redentor era uma pequena imagem de Frei Damião, pouco mais de metro e meio, na praça principal, em frente à Prefeitura. Sua Copacabana era o Açude, com menos água que o mar, mas tão belo quanto. Era o que amava, ali nascera. Mas não havia dúvidas quanto à beleza do Rio. Principalmente quando visto do alto, da janelinha do avião, na viagem de volta. Seu lugarejo era seu chão, seu céu, seu rio, de janeiro a dezembro. E a bala, quando necessária, sempre achava o endereço certo, não se perdia
* * *
2 - FORMIGAS E FORMIGUEIROS – gramas e lamas

Não pisou na grama. Nunca, por questão de princípios, pisava na grama. Fazê-lo seria uma atitude agressiva e desrespeitosa para com a natureza. Foi assim que aprendeu com seus pais e, depois, na escola. Pisando, a grama morre. Além do mais, escondidas sob a grama poderiam estar formigas, a trabalho ou a passeio. Muitas formigas. Do mesmo jeito que nas calçadas estão pessoas, a trabalho ou a passeio. Muitas pessoas. Um formigueiro humano. Naquele dia nublado, chegou cedo ao trabalho e pendurou seu guarda-chuva no cabide para esse fim destinado. Percebeu que o sapato do chefe estava sujo de lama: podiam-se ver pedacinhos de grama no solado, quando ele cruzou as pernas.
* * *
3 – MEU TIO ALMIR – uma vez flamengo …

Meu tio Almir nunca acreditou em Deus e só fazia uma exigência, metódico que era: quando morresse, que seu cortejo fúnebre desviasse pela rua de trás, evitando passar em frente à Igreja de Nossa Senhora da Penha. Fez até um mapa detalhando o roteiro a ser cumprido. Estava tudo preparado para esse dia, por ele mesmo, desde a bandeira do Flamengo a ser colocada sobre o caixão até o discurso de despedida, por ele próprio redigido e que seria lido por Altamiro, seu amigo, aposentado do BB e também flamenguista. Proibido estava que se fizesse qualquer oração, sequer um Pai-Nosso. Altamiro foi-se antes, coração atropelado por um enfarte desgovernado e sem freios. Seu Almir morreu num domingo, na hora da missa das sete e seu sepultamento foi às quatro da tarde, quando se iniciava a novena em louvor à Virgem Maria. A rua estava lotada de fiéis e seus amigos o acompanharam da Pedro II até o cemitério pela rua que fica por trás da Igreja. Se houve reza, foi baixinho e ninguém ouviu. Mais tarde, o Flamengo ganhou do Vasco por 1×0. Da arquibancada do céu ouviu-se um grito de gol.
* * *
4 - CADEIRAS E CALÇADAS – tristeza marrom

Tinha a calçada e as cadeiras na calçada. Ainda menino, ele gostava de ficar ouvindo as histórias dos mais velhos, logo que a lua aparecia. Ali se ouvia motes desembrulhados por Louro do Pajeú e Pinto de Monteiro, se contavam histórias de Lampião mas também se sabia que a mulher da farmácia, que ‘tava separa-não-separa do dono do armazém, passara um calote em Emilinha, a manicure da Cidade; e que o médico recém-chegado era um homem bom, um doutor do bem que fazia consultas sem cobrar de quem não pudesse pagar-lhe. Estaria querendo ser Prefeito, no futuro? Cresceu, estudou e diplomou-se na cidade grande sem esquecer da conversa/poesia que ouvia de seus tios e avós. Na casa em que foi morar havia uma calçada logo em seguida ao portão. E toda noite, ele colocava cadeiras e esperava, em vão, um vizinho sequer para, iluminados sob a lua, prosearem uma conversa/poesia. Desistiu. O portão era marrom, da mesma cor da sua tristeza.
* * *
5 - NOVA E FOGOSA, VELHA E DESBOTADA (a mulher, a foto)

Remexeu o armário e deparou-se com aquela foto. Ele com 18, ela com 36, mas parecia muito menos. Fora sua primeira namorada e ensinara-lhe tudo sobre o amor. Nunca se importou com o dobro da idade. Isso não fazia diferença, apesar da diferença. Mas passou. Foram-se, cada qual para o seu lado, ela mais dengosa, professora competente, ele mais experiente, bom aluno que era. Dela não mais tivera notícias até que soube, por um amigo, estar morando numa cidadezinha do interior, ali bem próximo. Seria fácil encontrá-la, bastava querer. Não quis. Deu-lhe vontade, mas não quis. Guardaria no álbum da memória a imagem da moça de quase 40, parecendo 20. Hoje, ela está com quase 80. Preferiu não vê-la. Guardou-a na lembrança, nova e fogosa, diferentemente da fotografia, meio amarelada, desbotada pelo tempo. Ela deve estar aparentando, no máximo, 60 anos.
* * *
6 - NÃO BEBER, NÃO FAZER EXTRAVAGÊNCIA E CIGARRO, BEM ‘POUQUIM’

Mané ‘tava sentindo uns tremelicos, uns suar-frio, umas coisas meio estranhas e foi convencido por Beta, sua mulher há 25 anos, a visitar o doutor.
Exames, esteira, calabreação dos peitos com gel pra fazer um tal de ecocardiograma. Mané fez tudo que tinha que fazer. Achando ruim, mas fez.
Tinha exame, tinha fechar a boca, tinha andar e tinha um tomar de ‘caxete’ todo santo dia e, recomendação maior, tinha um fumar pouco:
- Seu Mané, fume, no máximo, 5 cigarros por dia – recomendou-lhe o Doutor.
Trinta dias depois, braço empeneirado de tanto exame que fez, chega Mané no consultório do doutor ‘coraçãosista’, resultado esquentando o sovaco.
- E aí, seu Mané, como está o senhor, melhor?
- Tô, seu Doutô. Só num me acostumei ainda cum a tonteira que eu sinto quando fumo os infeliz desses cigarro que o senhor receitou.
Mané nunca tinha fumado na vida.



































