ERA UMA VEZ UMA FEIRA – beatas e frutas

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Na rua da Igreja, beatas e feira. Feira de primeira. Toda segunda-feira. De verdura, cereais, mas principalmente, a colorida feira das frutas. Das jaboticabas roxinhas, limões verdes, pitangas vermelhas. Tamarindos marrons e azedos se juntavam a doces siriguelas amarelinhas para enfeitarem a banca de Mané Gordão e a boca gulosa da meninada.  Às vezes eram vistas acerolas cor de acerola e, quase nunca, carambolas, estas de uma cor sei-lá-que-cor. Os olhos brilhavam diante da aquarela de sabores, das goiabas e maçãs, das mangas e cajus… Onde estão as feiras? Onde se escondem as frutas? Onde brilham as cores? Hoje, aquela rua só tem as beatas. A feira mudou-se para o ar condicionado: lá, as frutas têm sabor acre e as cores se desbotam, se esvaem, lembrando do burburinho e com saudades da mão gorda de Mané a afagá-las. Na hora de pagar o dinheiro é de plástico. Na fila do caixa, sem a zoada da feira, uma criança chupa chiclete.

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GENTE E OBJETO – cadê o sono?

Desde cedo, tempos de escola, se mostrava capacho e treinava para o futuro denunciando colegas ao bedel. Agora, sua vocação se mostrava de forma mais nítida, mais acentuada. Uns na vida são gente, outros, objeto e outros até menos que isso. Ria dos colegas, com um riso frágil como sua alma, sua postura, seu viver. Índole servil, não levantava a cabeça quando se tentava olhá-lo nos olhos. Ia às Assembléias dos trabalhadores onde todos arriscavam a pele. Ele não: ficava quieto, ausente, mudo, sem coragem de votar contra mas já certo de furar a greve que se aproximava. Sabia a quem bajular, não se importava com a omissão e traía quem não fosse pelego, como ele. À noite, na sombra da covardia, abraçado ao travesseiro da consciência pesada, se perguntava: em que dia dormirei?

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UM PARAÍSO CHAMADO SERTÃO – Bem ali, perto do céu

 

 Pajeuzado de emoção e caririzado de saudades lembro desse sertão arrodeado de lua por todos os lados. Do terreiro onde se escuta a voz do vento moxotizado vindo de não sei onde para refrescar a tarde teimosa e araripense que não quer virar noite. E quando esta chega, ah, aí  dá pra   sentir que o paraíso foi inventado ali por perto, que o Criador se inspirou naquele lugar prá se motivar a criar o céu . Tivesse ele ficado por ali mais um tempinho, teria colocado Adão e Eva naquele terreiro sem maçãs e sem serpentes, com luz, sol e um vento que canta quando o sol, vencido pelo cansaço, veste o pijama e vai dormir. Deixem-me balançar nesse terreiro, deixem passar as galinhas por sob a rede, não impeçam  que o cachorro lata quando passar alguém na estrada, deixem o sol ser preguiçoso, como sou. Deixem tudo. No céu pode tudo.

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 RECEITA DE AMOR (poderia ser de Vinícius)

Insônia das brabas, olhos teimosos sem querer fechar. Abriu o livro, aleatoriamente, e leu um Poema qualquer, também de forma aleatória. Fechou o livro, beijou a mulher e recitou-lhe um verso. Amaram-se. No outro dia, a mulher tomou-lhe das mãos o livro, abriu-o, aleatoriamente, e leu um Poema qualquer, também de forma aleatória. Amaram-se. Toda semana iam à Livraria à busca de novos livros de Poesia. Nas bodas de prata, deram-se, um ao outro, um livro de Drummond. Ficam na cabeceira da cama.

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FALTOU-LHE UM PRATO DE LIBERDADE (fome e sede)

Não sei se tinha filhos, mulher, parentes outros além da mãe. Se os tivesse, dele estariam distantes. Preso, seria julgado.  Não matou, não roubou. Muito menos estuprou alguém. Jamais se envolveu com crimes de pedofilia. Não há notícias de que traficava. Trabalhava. Mas tinha voz, tinha opinião. Crime hediondo. Não esperou: perdera o gosto pela vida, faltara-lhe forças para lutar. Não bebeu da esperança, não comeu da liberdade. Com fome, sucumbiu. O mundo chorou. Alguns apenas leram no jornal a morte de um bandido.

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ASSIM TAMBÉM É DEMAIS! (Pense numa Vela!)

- Bom dia. Você não é a Ondina, a quem casei já há dois anos na minha antiga diocese?

perguntou Padre Almino à beata e piedosa irmã, à porta da Igreja.

- Sim, Padre, sou eu mesma – respondeu-lhe a fiel.

-  Não me lembro de ter batizado um filho seu. Não os teve?

 - Não, Padre, ainda não.

O padre disse:

- Bem, na próxima semana eu viajo para Roma. Por isso se você quiser, acendo lá uma vela por você e seu marido, para que recebam a benção de poder ter filhos.

- Oh Padre, muito obrigada, ficamos ambos muito gratos.

Alguns anos mais tarde encontraram-se novamente. O sacerdote ancião perguntou:

- Bom dia, Ondina. Como está agora? Já teve filhos?

- Oh, sim Padre, 3 pares de gêmeos e mais 4. No total 10!

Disse o padre:

- Bendito seja o Senhor. Que maravilha. E onde está o seu marido?

- Está a caminho de Roma, para ver se apaga a infeliz daquela vela que o senhor acendeu!

4 Respostas em: “DAS FEIRAS, DOS SERTÕES, DOS POEMAS DE AMOR”

  • CARDEAL CÍCERO CAVALCANTI Diz:

    Como sempre, delicioso. Adorável.

  • XICO BIZERRA Diz:

    obrigado, colega cardeal cicero. só preciso contratar um revisor para consertar umas besteirinhas que às vezes sai e que só percebo depois. na croniqueta ‘erqa uma vez uma feira’, por exemplo, há uma ‘desconcordância verbal’ grosseira: ‘tamarindos marrons e azedos se juntavam a doces siriguelas amarelinhas para ENFEITAREM a banca de Mané Gordão e a boca gulosa da meninada’. minha filha disse que eu dei uma pisada na bola sem tamanho. desculpem.

  • José Bezerra Maia Diz:

    Graças à boa vontade de Fafá (45 minutos dirigindo neste furdunço de trânsito, só de ida…) eis-me visitando Tia Myrthes e Tio Afrânio e para minha alegria alguns minutos de sua presença e de Dulce. Você perguntou-me se eu escrevia… Quem dera tivesse coragem e talento para escrevinhar, honrando a memória de Padim Zuza. Lendo alguns de seus escritos, lembrando da casa de meu avô defronte a de tio Ramiro, enchi-me de saudade e ousei escrever para dizer de minha satisfação. Parabéns. Que bom ter visto vocês.

  • XICO BIZERRA Diz:

    obrigado, zé bezerra. fique certo que a alegria foi recíproca. grande abraço estendido aos seus.
    paz e luz, sempre.

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