26 abril 2010JANELAS E SONHOS, BICICLETAS E DINHEIROS
A JANELA DA CASA DA FRENTE – do outro lado da rua
Estava tão perto, bastava atravessar a rua onde morava meu avô. Do outro lado, ela e seu sorriso, à mesma distância. A vontade de ir até àquela janela do outro lado só era menor que a timidez que impedia seu atravessar. Coisa de adolescente. Sempre, à mesma hora, o ritual repetido: debruçar-se à janela, aprumar a vista para a casa de frente, sonhar. Sabia que ela tinha o mesmo desejo e a mesma timidez, talvez o mesmo sonho, por isso, o mesmo ritual. Era a melhor parte das férias. Numa tarde de um junho beirando julho passaram pela rua que os separava quase 30 fuscas, duas freiras e uma carroça carregando móveis usados, puxada por um cavalo castanho. Meu irmão menor viu e contou. Eu mesmo nada percebera além do debruçamento da menina à minha frente. Apenas para ela tinha olhos. No fim do ano, a casa da janela enfeitada foi alugada. Foi a pior parte das férias. Numa tarde, contei 41 fuscas passando pela rua, a maioria deles branco. Duas freiras voltaram a passar, ambas de óculos. À tardinha, bem lentamente, passou uma carroça de saudades puxada por um cavalo azul.
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MARISOL DOS SONHOS JUVENIS – a loura e o mar

Eu sabia que não era verdade, que era apenas pabulagem. Ele mentia para me fazer inveja, só porque morava na capital e eu era um menino besta do interior. Chatice de menino chato. Tinha certeza que ele não vira, mesmo morando na capital, o último filme de Marisol, em que ela volta de Madri pra sua aldeia natal. Curioso, perguntei-lhe como ela fizera a viagem, se de avião ou de ônibus. Ele baixou os olhos e num tom de voz quase inaudível, próprio dos inimigos da verdade, respondeu-me que fora de avião. Desconversou, mudou de assunto e fomos jogar bola. Quando o filme passou no Crato, encantei-me com a volta de Marisol pra sua cidade. Embelezando o já naturalmente belo, suas madeixas amarelas e um vestidinho da mesma cor. O mar estava lindo, combinando com Marisol. Ela não enjoou na viagem e cantava como nunca.
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PADRES E CICLISTAS – gol de Amarildo

Haviam-lhe dito que todos os alunos teriam seu apartamento e, nele, uma bicicleta para uso individual e privativo. E ele acreditou. Um mês depois estava interno e os sonhos começavam a caminhar para a realidade: o da mãe, de ter um filho padre; o dele, de ter uma bicicleta egoisticamente sua, só sua. À noite, dormitório coletivo e, dia seguinte, nenhuma bicicleta. Rezas, missas, orações, estudos. Nos sábados jogava bola e depois da Ave-Maria e do café das seis e meia, tinha ao seu dispor uma mesa de pingue-pongue, até a hora de dormir. Num domingo, depois das rezas, missas, orações e estudos vibrou com o gol de Amarildo contra a Espanha, abrindo o caminho para o bi. Quase não deu para ouvir, mais ruídos que gritos de gol no radinho do salão de jogos. Alegria maior porque o bedel era espanhol. Nos corredores, apenas Padres e Seminaristas. Hoje, nos fins-de-semana, passeia de bicicleta com a mulher e os três filhos. Faltou-lhe vocação para o sacerdócio. Sobrou-lhe o amor pelo ciclismo.
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AMIGO DINHEIRO - poupar é bom: depende do quê

Acumulou riquezas, poupou alegrias. Pensou que ser feliz era juntar dinheiro, bens. E assim fez a vida inteira. Privou-se de tudo que não fosse necessidade e ficou rico. Desconheceu o que de bom a vida ofertava, não viveu. Mas seu enterro foi cerimônia de primeira qualidade: presentes, os filhos e a viúva. Seu ataúde foi o mais caro que se encontrou para comprar. Na missa de 7° dia ouviu-se pouco choro. O Padre não faltou e celebrou a missa com a Igreja quase vazia.
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BATE-BOCA NO PARLAMENTO INGLÊS – veneno no dos outros …

Num dos discursos de Churchill estava no plenário a deputada oposicionista, Lady Astor, encrenqueira que só, que pediu um aparte. Churchill não gostava que interrompessem suas falas, mas, educadamente, concedeu a palavra à deputada. Ela, então, falou em alto e bom tom:
- Sr. Ministro, se Vossa Excelência fosse o meu marido, eu colocava veneno no seu chá!
Churchill, lentamente, tirou os óculos, fez com que seu olhar astuto percorresse todo o plenário e, naquele silêncio em que todos aguardavam, respondeu:
- Sra. Deputada, se eu fosse o seu marido tomaria esse chá com o maior prazer!




































