A BAILARINA E OS INSANOS 

Nize dançava e dançava. De todas as formas, de todos os jeitos. Dançava todos os passos e era uma alegria só. Cada compasso lhe trazia um alargar de sorriso como que a desafiar todos aqueles que a julgavam insana. Nize, calada, apenas dançava. E ria. A paz estava em seus pés, a alegria em seus passos, em seu sorriso, em sua alma. Seu dançar, contradizendo a lógica, era como um chamamento a um duelo, a uma derradeira e fatal disputa, entre ela, a que dançava, e todos aqueles que não escutavam a música. Enquanto isso, Nize dançava e dançava. E ria sem se importar.

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ANDAR É BOM

Andar, acordar cedo, olhar pela janela e ver um céu ainda escuro clareado por uma luzinha solitária. Um avião que passa, um pára-raios que não passa ou um vagalume a pirilampear na madrugada? Ou seria um pirilampo vagalumeando a manhã que está chegando? Virar de lado, não andar, fechar os olhos, re-dormir. Deixar de perder alguns quilos, ganhar o conforte de um lençol quentinho numa madrugada escura e esfriada pela preguiça do sol. Amanhã, a mesma manhã, a mesma janela, o mesmo céu, o mesmo não-andar. Ao final do dia, gramas e felicidades a mais. E o sol, tão preguiçoso quanto eu. .

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ESTRELAS E LUARES

Ficava na parte alta da cidade e tinha nome de mulher: Cristiane’s, assim mesmo, com apóstrofo e tudo. Lugar chique, o jantar era servido à sombra do céu e com a mesa salpicada de luares. Isto é o que me disseram, lá nunca fui. Até que passei pertinho, certa noite e vi o neon anunciando a casa, mas não fui. Era apenas um estudante e só em sonho poderia estar ali. Soube, tempos depois, que o restaurante fechou: o proprietário vendia ilusão e drogas. À chegada da Polícia, escondiam-se sob as mesas algumas estrelas brancas e um raio prateado de luar. Os lustres estavam apagados e as toalhas sujas de lagosta. Chovia.

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CHINELA PERDIDA

 

Dona Bastia, encrenqueira e já entrada nos anos, recebeu na sua casinha a visita de uns cabras da Secretaria de Saúde à procura do mosquito dessa tal de dengue. Depois de mil e uma perguntas, saíram pelo terreiro procurando focos onde pudessem se alojar o infeliz do mosquito. Nada encontraram mas, em cumprimento à obrigação, deram alguns conselhos e informações para a dona da casa e um dos zelosos funcionários perguntou: - E estes potes? A senhora tem o cuidado de lavá-los direito?  - Ah, meu senhor, estes potes eu lavo eles todo santo dia, de manhã e de tarde. Pode espiar, disse ela! O cabra alumiou uma lanterna dentro de um deles, meteu a mão e arrastou de dentro um chinelo de couro feito por Expedito Seleiro, lá de Nova Olinda e sacudiu no meio da sala. Dona Bastia, surpresa, falou: - Eita, minha chinela que fazia quinze dias que eu procurava! Olha onde é que a danada tava escondida!

 

3 Respostas em: “CONTÍCULOS DE UMA MANHÃ SEM SOL”

  • Natan Diz:

    Querido Xico!
    Tu não és somente bom em poema-poesia!
    Tu também és muito bom em poesia em prosa!
    E eu sou bom em pontos de exclamação. Só assim sei exprimir meus sentimentos, pelos verdadeiros talentos!
    Agora dá uma licencinha que vou reler teus escritos, em forma de benditos!

  • XICO BIZERRA Diz:

    Obrigado, Natan! Fico feliz que tenhs gostado. Abraço grande,

  • CARDEAL CÍCERO CAVALCANTI Diz:

    Se o JBF fosse uma escola, Xico seria o recreio. Se fosse um ano, seria as férias. Se fosse um mês, seria o feriado. Se fosse uma semana,seria o sábado. Se fosse um dia, seria a madrugada.
    Cabra bom.

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