24 maio 2010DA BABÁ DE JOÃO AO CARTEIRO SORTUDO
LIA
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João era um menino muito impossível, como dizia minha avó. Suas babás demoravam muito pouco no emprego. Lia, não. Magrinha, crente e míope Lia pesava pouco, orava muito e enxergava quase nada, mas tinha o maior respeito de João que nunca lhe escondia os óculos. Lia só não podia levá-lo à praia, de manhã cedo, pois a mãe de João não confiava o atravessar da Bernardo Vieira daquela criatura com 23 graus em um olho, 21 no outro e com um João danado nos braços. João, hoje, vai à praia todo fim-de-semana, trabalha com vendas e estuda marketing em uma faculdade do Grande Recife. Lia, soubemos há pouco, casou, teve dois filhos, fez cirurgia ocular e continua crente. Não mais usa óculos nem tem tanto tempo para orar. Às vezes, leva seus filhos à praia.
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CARTAS AO VENTO

Não pensara em se apaixonar, mas no coração ninguém manda. Apaixonou-se logo por aquela moreninha que morava tão longe, podendo ter-se apaixonado por outra moça de sua cidade. Mas aconteceu e assim foi. Danou-se a escrever cartas e até poeta virou. De tantas cartas e poemas o caminho da agência dos correios até sua casa quase afunda. A moça nunca respondia suas cartas e isso o deixava intrigado. Depois de um ano voltou à cidade para revê-la, para propor-lhe namoro, coisa séria, como antigamente. Tarde demais: a moça apaixonara-se pelo carteiro, tantas as vezes que ele a visitara para entregar-lhe aquelas cartas, nunca abertas, nunca lidas.
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GUIA DE CEGO

O cego se fazia acompanhar de seu guia que tudo podia enxergar. Aquele, de nascença sem ver, tinha apurado os demais sentidos e podia pressentir uma calçada mais alta ou a beira de um abismo. O outro, vista melhor que boa, tudo enxergava, bastava que lhe aparecesse à frente. E assim andavam os dois pelas ruas, acima e abaixo, andando e parando calçadas, subindo e descendo ladeiras, sempre longe dos abismos. Certo dia o Guia se foi e não mais voltou. O cego lamentou a ausência e a falta que lhe faria o companheiro de tanto tempo. Procurou pela cidade outros guias mas nenhum era igual àquele. Não mais viu um guia tão bom, amigo tão fiel. Apenas sentia seu cheiro no ar como que a indicar-lhe calçadas, ladeiras e abismos. Vez por outra escutava um barulho como se estivesse ele ao seu lado. Apenas ouvia o lamento da saudade que o outro também devia sentir, do outro lado do mundo.
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EINSTEIN – SABIDO E FEIO

Certa vez, Einstein recebeu carta da miss New Orleans onde dizia a ele: - Prof. Einstein, gostaria de ter um filho com o senhor… A minha justificativa se baseia no fato de que eu, como modelo de beleza, tendo um filho com o senhor certamente o garoto teria a minha beleza e a sua inteligência”. Einstein respondeu: - Querida miss New Orleans: o meu receio é que o nosso filho tenha a sua inteligência e a minha beleza”.




































24 maio 2010 às 13:12
Uma dia qualquer no futuro, em nova encarnação, quando eu nascer pelo menos parecido com um Xico Bizerra, eu vou escrever curtinho assim, com a mesma beleza, doçura e eficiência.
24 maio 2010 às 13:38
Concordo inteiramente contigo, Cardeal Cícero.
Parabéns, Xico.
24 maio 2010 às 14:26
…rsrsrsrs!
24 maio 2010 às 17:02
Como diz meu amigo e parceiro Flávio Leandro, eu fico ‘todo cagado por dentro’ com palavras elogiosas proferidas por autoridades eclesiásticas do porte de um Ciço e de um Natan. Valeu. Obrigado aos dois.
24 maio 2010 às 17:28
O meu sorriso sem graça aí se deve à inteligentíssima mordacidade do meu amado e admirado Cardeal Natan. Isso sempre morde soprando…rs
24 maio 2010 às 17:57
e eu pensando que a concordância do natan era com os elogios aos meus modestos escritos. rsrsrs
24 maio 2010 às 18:09
Mas é sim Xico…garanto que é! Mas ele aproveitou pra colocar em prática uma maldadezinha embutida. Só isso. Posso ter até vontade de matar o Natan, mas não posso tirar dêle a sensibilidade do grande artista que ele é. E os seus elogios são sempre muito sinceros.
25 maio 2010 às 7:08
gostei muito : do texto aos comentários.q beleza que é isso tudo!!!
26 maio 2010 às 20:56
Contos breves,
quase haicais,
muito legais.
27 maio 2010 às 8:47
irineu e goiano,
obrigado por serem tão generosos na avaliação de nossas ‘croniquetas’.