ESCUTANDO O MAR

Ela foi, não havia como deixar de ir. Não queria, mas findou por ir, junto com os pais. O pretexto de conhecer o mar não lhe parecia convincente, mas incontestável se mostrava. Como ficar, sem pai, sem mãe, apenas com ele, seu amor, à espreita, aguardando uma chance? O mar? E ela queria lá saber de mar! Muito mais lhe aprazia os carinhos recebidos e testemunhados pela lua, só por ela. Mas estava lá o mar à sua frente, sem graça, totalmente imenso e insosso, uma coisa grande, mas sem sal. De nada teria valido aquela paisagem não fossem as conchinhas recolhidas na areia para ofertá-las, como presente, quando voltasse. Ao recebê-las, ele levou aos ouvidos o regalo e, da conchinha mais bonita, ouviu o mar, distante. Beijou-as, a concha e quem a trouxe de tão longe. Ela adorou ter visto o mar. Ele adorou ter escutado o mar.

* * *

RAMIRO, O BELO

 

Ramiro era muito feio e todos os bonitões da cidade riam de sua feiúra. Descaradamente. Até os que também eram feios riam de sua feiúra, tão exagerada que era. Ele não se importava e seguia a vida, carregando bagagens na estação de trem, trabalhando como chapeado: era assim que se chamavam aqueles que transportavam malas, identificados por um número na chapa de bronze colada ao quepe: O dele era o 341. Um dia Ramiro ganhou de um viajante um espelho encantado que refletia a alma das pessoas que nele se olhassem. Ramiro olhou, viu-se e passou a rir da feiúra de todos os bonitões da cidade. Discretamente, sem que ninguém percebesse o seu riso. Como era feio aquele povo! Como era belo o Ramiro!

* * *

PRA QUE PROVOCOU?

Quando o presidente da Câmara dos Deputados Ranieri Mazzili deu a palavra ao Deputado Carlos Lacerda, representante do Distrito Federal – Rio de Janeiro, à época, o deputado Bocaiúva Cunha, rápido e grosseiramente, gritou ao microfone, sob os risos do plenário:

- Lá vem o purgante!

Lacerda, num piscar de olhos, respondeu:

- Os senhores acabaram de ouvir o efeito! A Câmara quase vai abaixo, tanta a risadagem.

Sem entrar no mérito das virtudes (ou desvios) morais dos envolvidos, há de se reconhecer a presença de espírito e a malícia do Deputado Lacerda.


3 Respostas em: “EM CIMA DA TERRA, DEBAIXO DO SOL”

Envie também seu comentário


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa