RIR E CHORAR

E ali estava ele. Rindo. Um riso tímido, contido, calado, mas um riso, como que a zombar da vida, do povo que passava, da tarde que começava a se aproximar da noite. Como explicar aquele riso? O que é um riso? No caso dele, era apenas a boca se alongando um pouco além em suas extremidades. Teria ele motivos para rir? Seus projetos de vida estavam satisfeitos? Era feliz? Seu time ganhara o campeonato? Seria um sinal de felicidade ou um disfarce por não poder chorar? Quem explica o rir? Perguntar-lhe, não adiantaria, pois, por motivo algum, ele interromperia aquele riso para responder. A família, os filhos, amigos e vizinhos queriam entender o porquê daquele riso, muito embora pouco interessasse, naquele momento, sua razão, pouco importasse seu riso. Entre choros e velas somente ele ria. Apenas ria. Ria da vida que passara.

* * *

 TEMPO, TEMPO MEU

“o tempo não para e, no entanto, ele nunca envelhece’- Caetano Veloso, em ‘Força Estranha’

Às vezes quero sair por portas que não existem, portas por mim mesmo inventadas. Quero pular muros que só eu enxergo.

- Calma, Xico, o tempo é o senhor da razão -  diz-me a alma, candidamente.

- Eu sei – respondo de mim para mim, mas o tempo corre e talvez não dê tempo.

E as horas, que passavam horas pra passar, agora passam em segundos, velozes, num raio de luz. Por que a pressa? Estará a vida em nosso encalço, feito polícia, ávida por nos prender? Por que a correria? O rio em que banhamos nossos pés se desencherá, se não nos apressarmos? A lua deixará de estar lá em cima, prateando nosso chão se, ao invés de ficarmos parados, contemplando, corrermos? O canto dos passarinhos será tão breve que não conseguiremos ouvi-lo? Nosso amanhã se desmanchará se formos pacientes e sonhadores? Não, não quero a pressa. Quero a paz da calma, o sossego da preguiça, o esperar chegar. Quero a vida, o sonho, o amor. Quero a paz, pra mim, pra nós. Quero o tempo passando preguiçosamente, no compasso certo do tempo. Quero o meu tempo chegando no tempo certo. Não me avexo. Não se avexe. Dêem-me uma rede pra balançar o tempo e fazê-lo dormir, enrolado num lençol de cambraia bem  branquinho e ainda cheirando a algodão.

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