ESCRITOS QUE NINGUÉM LÊ

Seu ofício era escrever. Tinha compromisso com os editores dos jornais e blogs que lhe cobravam uma crônica semanal. Quando inspirado, ele escrevia 4, 5, 6 crônicas atemporais de uma só vez e as guardava, distribuindo-as, semanalmente, entre as editorias a que servia. E assim foi durante anos até que se exauriram suas idéias. Nada mais lhe surgia à mente para escrever. Recorreu, algumas vezes, a simplesmente transcrever textos de outros autores, mas dando-lhes o devido crédito e nunca deixando de esclarecer que aquilo se devia à falta de imaginação sua, à falta de idéias. Até que resolveu parar de escrever, comunicando o fato aos jornais e blogs. Depois de um tempo percebeu que sua ausência em nada afetou o mundo, o estado, a cidade, seu bairro e que ninguém sequer percebeu que ele deixara de escrever. Voltou a fazê-lo, para alegria dos Editores e indiferença dos leitores. Poderia, ao invés disso, ter-se internado numa clínica para loucos ou exilar-se, ir embora pra Compostela. Poderia, ainda, colocar um anel no dedo, usar um cajado e roupas de mago. Sair pelo meio do mundo inventando anjos, fazendo chover, tirando coelhos da cartola e iludindo o mundo. Mas não. Preferiu voltar a escrever suas crônicas que ninguém lê.

* * *

A CASA E A BOLA

Na esquina, a casa e, fronteiriça com ela, separada apenas por uma cerca de arame farpado, o improvisado campinho de pelada. Inevitável que, vez por outra, a bola caísse naquele terreno, às vezes quebrando o vidro da janela, às vezes batendo em alguém, às vezes nada acontecendo, mas sempre irritando o pai de Teté. Quando ele estava em casa, nessas situações a bola ficava retida e só era devolvida uma semana depois. Considerava o castigo justo para quem não atendia aos seus pedidos de cuidado. Pior era na casa da outra fronteira: seu Armindo furava a bola, na hora. Em ambos os casos o jogo terminava antes dos 45 do segundo tempo. Quando seu pai não estava, o pequeno Teté devolvia a bola e continuava assistindo ao jogo, sentado à beira do ‘gramado’, do lado de cá da cerca. Ainda hoje, 50 anos depois, Teté gosta de futebol e de vez em quando sonha ter sido jogador de futebol. Ainda hoje devolveria as bolas se por acaso elas caíssem no terreno de sua casa.
 

12 Respostas em: “CRONIQUETAS, CONTÍCULOS OU NOVELINHAS?”

  • Layla que vive em uma Democratura... Diz:

    “cronica que ninguem lê” é o verdadeiro oficio do escritor:
    quando vc escreveu aquilo já está velho, caducou!
    Melhor mesmo é escrever bobagens, discursos e propagandas…
    estas são infalíveis, são do gosto popular!

    Um abraço meu caro, espero que ainda possa ler as cronicas que mesmo sem ser mago, são as mágicas da sua caneta!!!!!!!!!!!!!!!!

  • Cardeal XICO BIZERRA Diz:

    Obrigado, Layla. Que bom que algúem que leia meus escritos e, mais que isso, considere mágina minha caneta. Haverá diferenças entre a DEMOCRATURA e DITACRACIA?

  • Cardeal XICO BIZERRA Diz:

    a pressa, sempre ela. Fica valendo o comentário a seguir:
    ‘Obrigado, Layla. Que bom que algúem leia meus escritos e, mais que isso, considere mágina minha caneta. Haverá diferenças entre a DEMOCRATURA e DITACRACIA?’

  • Layla que vive em uma Democratura... Diz:

    Caro Xico,
    Um prazer, sempre que puder estarei seguindo sua caneta mágica!!!!

    Sabe que acho que sim, tem uma diferença…
    Democratura é a ditadura manipulando a Democracia, tipo no Brasil!

    Ditacracia é a Democracia demonizando a Ditadura, tipo o que acontece em Hong kong que hoje pertence a China Comunista!

    ehehehehehhehhheheh!!!!!

  • CARDEAL CÍCERO CAVALCANTI Diz:

    Xico não escreve, desliza suavemente nas águas calmas do bom texto, para outros sempre dificeis e tormentosas.

    Aviso aos navegantes e marinheiros de primeira viagem: não se fiem muito no raso e mansidão dessas águas. Elas são bem mais profundas e crespas do que aparentam.

  • Cardeal XICO BIZERRA Diz:

    Cardeal:
    profundas? crespas? minhas águas são tão mansas, tão calmas. apenas às vezes as acho tormentosas, quando por elas navegam quem não deveria ou quando deixa de fazê-lo quem assim não deveria proceder. mas ainda assim, a tormenta se processa de uma forma rasa e leve, como convém a quem ama a vida.
    grande abraço, cardeal.
    PS: sua partitura ‘tá demorando mas vai chegar.

  • CARDEAL CÍCERO CAVALCANTI Diz:

    O recado foi bem dado. Fácil de entender.

  • Layla que vive em uma Democratura... Diz:

    prezadíssimo Cícero,
    falando em “profundezas”, me lembrei de belo poema… Fernando Pessoa sabe muito destas coisas quando recita:

    Como é por dentro outra pessoa

    “Como é por dentro outra pessoa
    Quem é que o saberá sonhar?
    A alma de outrem é outro universo
    Como que não há comunicação possível,
    Com que não há verdadeiro entendimento.

    Nada sabemos da alma
    Senão da nossa;
    As dos outros são olhares,
    São gestos, são palavras,
    Com a suposição de qualquer semelhança
    No fundo…”

  • padre irineu neto Diz:

    AMO VC,JBF!VC É A PASSARELA POR ONDE DESFILA FERAS COMO ESSAS AÍ EM CIMA E,EU O APRENDIZ QUE ATENTO A TUDO FICO APRENDENDO MUITO E APLAUDINDO FERVOROSAMENTE.OBRIGADO MINHA GAZETA DA BIXIGA LIXA.OBRIGADO MESTRE XICO E TODOS OS OUTROS QUE CONTRIBUEM PARA O ENGRANDECIMENTO INTELECTUAL DE INCIPIENTES COMO EU! BEIJOS NO CORAÇÃO DE TODOS!!FUI

  • Beni Tavares Diz:

    Ninguem lê, uma ova, seu moço. Eu leio e até me emociono, pois me leva a um passado distante, sem malícia, sem preocupação. Um passado feliz. Essas coisas tem tudo a ver com todo mundo.

  • Cardeal XICO BIZERRA Diz:

    Ôpa, mais um que lê meus escritos. Já contabilizei bem uns quatro, fora eu mesmo. Obrigado, Beni.

  • Magnolia Fiuza Menezes Diz:

    Eu também leio e duas vezes !!
    kkkkkkk pq leio aqui e no blog do sanharol

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