8 novembro 2009CARTA PARA VALENTINA



Valentina,

Hoje é domingo, 8 de novembro de 2009. O dia é feito de azul absoluto. Olho pela janela desta 12ª laje e vejo um magnífico lençol, azulíssimo. Apenas um pequeno lenço branco, à esquerda, solto como se fosse meu “até logo” a vc.

A manhã está pronta p’ra mim. E, eu, p’ra ela. Por isso, já fui pegar Estadão e FSP, e lhe ver. Como vc., ontem, foi ao Papa Capim, jantar com Rafaela e Tiago, dormiu mais tarde. E, hoje, acordou depois das sete e meia. Porque seu pai não agüentou as vozes do silêncio e lhe trouxe com ele.

Há uma semana, você veio almoçar conosco. Comemos, brincamos um pouco e vc. foi ficando enfezada de sono. Então, como de uma primeira vez, tomei vc. nos braços, ao som de CD de jazz de NY. Fui embalando vc., eu olhando o mar lá ao longe, vc. olhando as fotos que estão colocadas na sala. Eu sentia a energia de seu corpo junto ao meu corpo e a de suas mãos nas minhas costas. Um pouco mais e eu percebi que vc. se deixou estar, abandonada ao balanço do avô. Vc. se tornou um pássaro em ninho improvável.

Como da primeira vez, roçou-me uma breve emoção, de traduzir em repouso o afeto que lhe dedico. Fui devagarinho para nosso quarto, fiz sinal para que fechassem as cortinas, ligassem o ar condicionado. E lhe deitei à cama. Vc. choramingou um pouco. Mas logo encontrou a posição ideal. E dormiu.

Pois bem, retomando a conversa de hoje. Sua vó e eu lhe encontramos, há pouco, comendo uma salada de fruta. Depois que vc. se mostrou satisfeita, Rafaela lhe deu água. Vc. tomou goles e parou. Quando sua mãe ofereceu, de novo, o bico da garrafa d’água, vc. balançou a cabeça negativamente. Esta é a novidade do dia. Ao menos p’ra mim. Sua negativa. Seu não claríssimo, gestual, à àgua.

Foi um começo perfeito para o avô do domingo. Ou o domingo do avô. Tiago fez uma tapioca p’ra mim. Rafaela botou o café (avisando logo que era fraco e não forte, como eu gosto). E, assim, cá estou, trazendo pão para o estômago e para o espírito. Feito de uma trindade querida.

Olho, de novo, o mar, dividido por barras de verde em vários tons. O céu continua limpo. Se espírito tivesse cor, o meu estaria, agora, verde como o mar de meus encontros. Ou azul como o céu de minha óbvia gratidão.

Pego o livro de poemas de meu amigo Paulo Mendes Campos (algum dia, vou ler poemas dele p’ra vc.). E leio:

“(…) E era na tarde tarde redundante
- longe vestígio em meigo pergaminho -
Um refluir azul de mar distante.
Era uma tarde estática de Deus.
Mas a boca da noite de mansinho …
E a tarde anil rendeu a alma. Adeus.”

Seu avô,

LO. 
 

11 Respostas em: “CARTA PARA VALENTINA”

  • Proberto Diz:

    Vovô coruja,
    Neto é um bicho muito bom! Parabéns pela sua sensibilidade!
    Um abraço,

  • Luiz Otavio Diz:

    Obrigado, companheiro avô.

  • Lux (mãe de 2) Diz:

    Eu quero ser avó!!!!!!!!!!!!

  • Luiz Otavio Diz:

    É educar com açúcar, é exercer o sim relativamente absoluto.

  • Cicero Cavalcanti Diz:

    Meu pai sempre dizia que o homem primeiro devia ser avô, depois pai…rs…velhas sabedoria

  • Cicero Cavalcanti Diz:

    No meu tempo a sesta do velho era sagrada. O silêncio na casa era tumular. Já com meu filho, neto dele, foi tudo diferente. Ele era acordado com tapas na barriga e gritos:… acorda véio mocorongo!rs

  • Luiz Otavio Diz:

    Ah, Cícero, seu pai tinha razão, se o homem fosse, primeiro, avô a qualidade das coisas seria outra.

  • HÉLIO FERREIRA Diz:

    Caro Luiz Otávio
    Através de um grande irmão de Palmares, Prof. Aragãom lí o romance da besta do papa Luiz Berto, que achei fenomenal. Sou “fraco leitor” e escritor pior ainda. Mas quando comecei a ler o livro, só parei findando a leitura. É muito bom. E ultimamente tenho visitado esse espaço para me destrair dos assuntos sérios e ler bobagens e causos de bom gosto. Mas, neste domingo, emocionei-me ao ler esse texto grande de alma e de amor.
    Não sou escritor, nem poeta e nem nada. Sou apenas um inventor de qualquer coisa criada.

    Que texto azul de céu
    E um pretexto verde de mar
    Que faz desse encontro teu
    Um encanto que é só de amar

    Forte Abraço

    HÉLIO FERREIRA

  • Luiz Otavio Diz:

    Você é grande, Hélio. Acaba de mostrar.

  • Aline Berto Diz:

    Eu tive sorte. Tenho um filho de um homem que já é avô. E, realmente, o modo de ver as coisas é bem diferente.

  • Luiz Otavio Diz:

    Certidão passada no cartório da vida.

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