Aldemar Paiva

CABRAL OU LUIZ?

Escrever é muito fácil. Você começa com uma maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca as idéias. Isso foi dito por Pablo Neruda e, claro, longe de mim discordar de tamanho saber. O problema é que às vezes falta o miolo. Botar a primeira em maiúsculo e um ponto no fim é fácil, mas e o meio? Quando falta a inspiração? Pior quando você tem a obrigação, o compromisso, tem prazo pra mandar a matéria e nada de interessante passa por sua cabeça. Ainda bem que há escritores privilegiados que escrevem coisas que gostaríamos de ter escrito e, numa situação de carência literária, a gente deles se vale para preencher os vazios. Dentro da série ‘ARTIGOS QUE GOSTARIA DE TER ESCRITO’, segue belo texto da lavra de ALDEMAR PAIVA, a quem me desculpo pela transcrição sem a devida consulta prévia, embora tenha, sem sucesso, tentado fazê-la:

“QUEM DESCOBRIU O BRASIL?

Claro que foi um pernambucano do Exu, chamado Luiz Gonzaga.  A sua caravela era branca,  bonita,  sonora e  possuía 120  baixos.

Com ele, aportaram à terra do baião e do xaxado,  navegadores das mais profundas  raízes nordestinas como Zé Dantas, Guio de Morais, Humberto Teixeira, Lauro Maia,  Zé da Luz, Catulo de Paula, Gordurinha, Armando Cavalcanti, Klécius Caldas, Luiz Bandeira, Manezinho Araujo, Jackson do Pandeiro, Luiz da Câmara Cascudo, Nelson Ferreira, Gilvan Chaves e Dilu Melo, Luiz Vieira. 

Gonzagão foi o eminente  descobridor desse  Brasil do chapéu de couro, da toada ao som da viola, dos aboiadores e dos repentistas. Dos poetas cantadores, das vaquejadas, das cavalhadas, das novenas e das procissões.  Da sanfona,  do forró, da cana de cabeça e da Asa Branca.

Seu Luiz amou demasiadamente sua terra e sua gente. E foi amado por todos. Mesmo chamado  por  Deus, dizem que ele  nunca  se afastou da terra sertaneja, onde  suas cantigas o imortalizaram.

Agora, sempre que o sol esmorece nas quebradas do serrote, ele vai chegando de mansinho, seguido de  perto por uma fieira de estrelas. E canta choroso… “Vai  boiadeiro que a  noite já vem…“

Gosta de galopar pelo firmamento furando a neblina e prateando as pastagens. Pela  madrugada é ele quem romanticamente desperta os rebanhos ao som dos seus chorosos “oito baixos.”

Também conhecido como Lua, sua imagem permanece viva, tanto na vida sertaneja quanto na memória e no coração da sua gente.”

* * *

PANETONES, PIZZAS E SAFADEZAS

Meias, cuecas, bolsos de paletós. Meus Deus! Onde falta esconderem dinheiro sujo? A cada dia me convenço mais de que, dentre outras muitas qualidades, as mulheres também são mais honestas que os homens. Nunca se ouviu falar de dinheiro escondido nos sutiãs, nas calcinhas, nas cintas-ligas. E, por certo, pela inteligência de que são possuidoras, elas também jamais usariam a desculpa de que aquela dinheirama toda se prestaria à compra de panetones para os menos favorecidos. Haja panetone! Haja burrice! Haja safadeza! E viva as mulheres!

* * *

SPORT X ICASA: PELO MENOS ISSO!

Icasa: o verdão do Cariri

Encontro Santanna, o Cantador e, tão comovido quanto ele pelo rebaixamento de nosso Sport à segunda Divisão, tento reanimar-lhe, lembrando-lhe que nem tudo é tão ruim quanto parece. Com o Sport na série B teremos a oportunidade de ver jogando aqui na Ilha seu outro time de coração, o glorioso Icasa de Juazeiro do Norte, recém promovido da série C. Só uma justificativa dessa para aliviar a dor de um rebaixamento anunciado desde as primeiras rodadas. Resta a esperança da volta, triunfal, em 2010, com o Cantador alegre, serelepe e fagueiro louvando as cores rubro-negras. E eu vibrando junto.

* * *

PARECE PIADA, MAS NÃO É

Estou lendo HISTÓRIA DE CANÇÕES – CHICO BUARQUE, de Wágner Homem, Editora Leya, 2009. Não tratasse de figura tão ilustre, seria apenas mais um livro. Superficial. Mas, para deleite de fãs, como eu, do grande compositor, torna-se leitura indispensável. Pontualmente, algumas pérolas são encontradas, como a história da censura à sua ‘TROCANDO EM MIÚDOS’. Diz o autor que Chico, ao tomar conhecimento do motivo estapafúrdio da proibição – referência a um livro do Poeta Pablo Neruda (‘devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu’), teria dito aos encarregados da censura que não havia ali nenhum perigo de subversão já que a moça, embora tenha ficado com o livro, nunca chegou a lê-lo. Diante de argumentação tão ‘consistente’, a ‘dura’ amoleceu e permitiu a liberação da música. Evitava-se, assim, mais uma composição de Julinho de Adelaide, apelido de que se valia Chico para burlar o obscurantismo da época.

* * *

2010 BATENDO NA PORTA

Momento de, aproveitando o final de ano que aí está (ou esteve, depende de quando for publicada a coluna) louvar os intérpretes queridos que deram vida à minha obra, cantando minhas canções. Momento de saudar os parceiros que ao meu lado construíram canções de que tanto me orgulho. A todos, aos que aqui estão e àqueles que não mais, meu abraço de gratidão plena. Hora também de agradecer aos que tiveram, ao longo de 2009, paciência para ler minha coluna. Votos de um 2010 feliz, com paz, luz, amor, saúde, sucesso, poesia e cantigas.

 

3 Respostas em: “HAJA LINGÜIÇA PRA SE ENCHER!”

  • Padre Ismael Gaião Diz:

    “Escrever é muito fácil”(Pablo Neruda) e “O problema é que às vezes falta o miolo”(Xico Bizerra). Duas expressões maravilhosas, poéticas, porém não verídicas. Ambas só demostram uma das qualidades mais bonitas que um homem pode ter: a modéstia.

    Escrever poderia ser fácil pra Neruda, mas não é pra qualquer um. Faltar miolo, pode faltar, em qualquer um! Menos num gênio do calibre de Xico.

    Esquecendo todas as magníficas composições de Xico Bizerra, basta analisar o que ele nos dá de presente hoje, em sua coluna, quando diz que falta a inspiração. E se não faltasse, como seria?

    Primeiro Xico transcreve um texto de ALDEMAR PAIVA, lembrando-nos de tudo aquilo que um brasileiro sensato nunca deveria esquecer: “Foi um pernambucano de Exu, chamado Luiz Gonzaga, quem descobriu o Brasil para o resto do mundo”. Só falta o resto do mundo descobrir Xico Bizerra! Mas isso acontecerá um dia, provavelmente daqui há cinquenta anos quando ele nos deixar, como sempre acontece com os gênios.

    Depois Xico nos lembra que as meias, cuecas e bolsos de paletós não têm mais a utilidade que sempre tiveram. Hoje eles servem para esconder a falta de vergonha dos políticos brasileiros. E também nos lembra, uma constatação que muitos homens não querem admitir: “as mulheres são mais honestas e mais inteligentes que os homens”.

    Demonstrando que, apesar de ser um compositor genial e um dos maiores defensores do nossa música nordestina, ele é um cidadão que vive o nosso dia a dia, Xico nos lembra a dor de um rebaixamento do Sport. Que não é só dos rubronegros, é de todo pernambucano, pois ver Santa, Sport e Náutico nessas situações é deprimente. Fere o nosso ego! E sabermos quem são os culpados, os cartolas, é mais angustiante ainda.

    Mas Xico, como todo poeta, é sonhador e nos diz: Resta a esperança da volta. Quando será?

    Xico também destaca que os governantes militares, principalmente os responsáveis pela censura, eram burros e incompetentes, pois além proibirem textos (letras de músicas, livros, reportagens, crônicas, peças teatrais, filmes, etc.) sem a menor necessidade, liberavam outros que criticavam a ditadura por não saberem interpretar seus conteúdos. E, graças a isso, compositores inteligentes como Chico, quando não conseguiam a liberação como autores, usavam pseudônimos, mas gravavam o que queriam e transmitiam as mesmas mensagens de protestos que desejavam. É muito importante alguém nos lembrar desses fatos, sempre, para que a nossa juventude saiba como funcionou a Ditadura no Brasil.

    E, fechando com chave de ouro, Xico aproveita sua coluna, com muita modéstia, para louvar os intérpretes que deram vida à sua obra. Na realidade sua obra foi que engrandeceu e embelezou o repertório de grandes intérpretes, pois sem elas eles teriam dificuldades para demonstrar seus talentos musicais.

    Eu, já há algum tempo, não tenho tido o prazer de ler as colunas do JBF, pois insisti em aproveitar, ao máximo, minha fase criativa para escrever meus cordéis, minhas poesias, meu livro e preparar o CD de declamações que pretendo gravar com o poeta Felipe Júnior, além de passar dias e mais dias, decorando poesias para declamar e participando de recitais.

    Hoje, que resolvi me deliciar com as leituras do JBF, encontrei essa página alegre e educatica do grande Xico Bizerra. Que maravilha!

    Parabéns, poeta! Feliz Natal e um Ano Novo cheio de grandes realizações, para você e todos que integram o nosso tão querido Jornal da Besta Fubana.

    Abraços.

  • XICO BIZERRA Diz:

    Meu Padre,
    a generosidade de suas palavras me estimula a continuar bsteirando bobagens - ou bobageando besteiras - neste JBF tão querido. Diria ser elogios omo os seus o verdadeiro combustível para que não paremos, para que sigamos em frente, sempre buscando melhorar.
    Valeu , Ismael. Grande abraço,
    XICO BIZERRA

  • Bispo Huytamar Diz:

    É uma honra e prazeiroso aprender com tanta gente boa do JBF e da ICAS!

Envie também seu comentário


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa