4 janeiro 2010CAROLICES DE UM CARDEAL
PADRES DO CEARÁ 1: CICERO E DAVID
Capa do livro de Lira Neto
Estou lendo o excelente ‘PADRE CICERO – PODER, FÉ E GUERRA NO SERTÃO’, do Cearense Lira Neto. Gosto muito de biografias, embora entenda que os biógrafos, por natureza, tendam a tomar partido em seus escritos, a favor ou contra o biografado. Mas no livro citado percebo uma isenção elogiável: o reverendo é mostrado sob diversos ângulos, o de herói e o de bandido, o de submisso, às vezes até subserviente e o de revolucionário. À parte o enfoque dado pelo autor, também digno de registro é o texto do ponto de vista literário: enxuto, limpo, sem sobras nem faltas.
Poucos sabem, mas o Padre Cícero nasceu no Crato, mesma terra em que nasceu um outro Padre, David, este tido como um gênio, por sua vastíssima cultura. Ensinava no Seminário e no Colégio Diocesano matérias tão díspares como História e Matemática, Química e Música, Português e Geografia. Era também tido como pessoa de extremado humor e presença de espírito.
Certa feita, seus alunos viram um jumento roendo tocos de capim de burro pelos cantos do meio-fio nas proximidades do Diocesano e conduziram o animal até a sala de aula, durante o intervalo do recreio. O Padre David entrou para aula de Física, fez de conta que não viu o animal na sala e ministrou sua aula com toda tranqüilidade possível, como era de seu feitio. Ao final, foi até o local onde o jumentinho a tudo assistia com redobrada atenção e assim falou para o burrico:
- Avise aos seus colegas que na próxima aula vai haver prova.
A prova foi um pouquinho mais difícil do que seria se não houvesse aluno tão orelhudo na sala.
* * *
PADRES DO CEARÁ 2: QUINDERÉ
Padre Quinderé recebendo a homenagem de amigos e familiares na comemoração do cinqüentenário de seu ordenamento em 1954
Monsenhor José Alves Quinderé foi um sacerdote de extraordinárias virtudes. Além disso era tido como o mais espirituoso dos Padres cearenses. Foi professor de Latim do Liceu do Ceará, fundador do Colégio Marista Cearense, onde estudei, Deputado Estadual em duas legislaturas e Secretário do Arcebispado de Fortaleza.
Quando morou no interior, seus vizinhos andavam escandalizados com o que se passava na casa do sacerdote sem que ele, nem de longe, pudesse imaginar. Então convocaram um senhor muito católico para ir falar com ele.
- Monsenhor, desculpe-me vir até aqui ocupar seu precioso tempo. Mas está acontecendo uma coisa na sua casa, que está chocando toda a vizinhança. Temos certeza que não é do seu conhecimento.
- Explique-se logo, homem – suplicou-lhe o padre, com muita curiosidade.
- É que a Maria, sua cozinheira, deixa a janela do quarto do oitão somente encostada e depois das dez horas da noite, o namorado dela entra no quarto pela janela.
O padre agradeceu a informação e prometeu tomar as providências. Cedo da noite, armou uma rede no quarto do oitão e disse para a empregada:
- Maria, hoje eu vou dormir aqui. Você vá dormir no seu quarto.
- Mas padre, e o leite que eu recebo do leiteiro todo dia, cedinho, pela janela? - perguntou-lhe a empregada.
- Pode deixar que eu mesmo recebo.
Dito isso, o padre escanchou-se em sua rede, e aguardou até as dez horas da noite. Ouviu a janela ser aberta e fez-se dormindo. O namorado de Maria foi direto para rede e, como de hábito, passou a mão por baixo, bem onde se agasalhava a bunda do Reverendo . O padre levantou-se de um só pulo e disposto a enfrentar o invasor, perguntou:
- Que é que você está fazendo aqui, rapaz?
- Padre Quinderé, desculpe se eu lhe acordei, mas eu só queria saber que dia é hoje? - gaguejou o namorado da Maria, sem outra desculpa melhor, como se desculpa boa houvesse pro seu ato.
- E você ‘tá pensando que o meu ‘fiofó’ é calendário?
No dia seguinte, Maria amanheceu desempregada. Quanto a seu namorado, não se teve mais notícias dele nas cercanias da cidade.
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PADRES DO CEARÁ 3: QUINDERÉ, DE NOVO
José Alves Quinderé - o Padre Quinderé
Domingo cedinho, Padre Quinderé chegou atrasado para celebrar a missa das seis horas. Agoniado pelo atraso e já vestindo as paramentas, viu aproximar-se uma velhinha da cidade pedindo para que ele a ouvisse em confissão, pois não desejava passar um dia sem comungar. Ele lembrou que a confessara na tarde anterior e perguntou:
- Criatura de Deus, que pecado tão grave você cometeu de ontem para hoje pra esse aperreio todo?
Então a beata, na inocência típica da idade e da carolice, perguntou:
- Padre, eu queria saber se ‘ventar’ na Igreja é pecado?
- Depende: se não apagar as velas, pode ‘ventar’ à vontade.”
Com um arzinho de riso no canto da boca, Deixou a velhinha feliz e foi celebrar sua missa.
* * *
PADRES DO CEARÁ 4: GILSON
Antigamente se rezava missa em latim e os assistentes todos respondiam-na, mesmo sem saber o que estavam dizendo, como se papagaios fossem. Acho que por conta disso, o pessoal de Roma resolveu que a missa deveria ser feita em Português para promover uma maior interação entre celebrante e assistentes.
Em Fortaleza, na paróquia de Padre Gilson, a medida mostrou-se ineficaz. À tradicional saudação ‘O Senhor esteja convosco” .o Padre ouvia sempre uma resposta diferente da que deveria ser. Apurou as ‘oiças’ e identificou, no banco primeiro da Igreja, uma velhinha que assim respondia àquela saudação:
- Ele está com medo de nós.
A partir daí, e contrariando as ordens superiores, Padre Gilson passou a utilizar-se do tradicional ‘Dominus Vobiscum’





































4 janeiro 2010 às 11:04
O livro é muito bom seu Xico. Apesar de volumoso já vou muito pra lá da
metade.
4 janeiro 2010 às 11:10
E os causos mais ainda.
4 janeiro 2010 às 11:46
Estou curioso pra saber se o Testamento do Padre Cícero, várias vezes modificado, foi abordado nesse livro.
Quero saber o que realmente tocou pro deputado Floro Bartolomeu e o que sobrou pra diocese do Crato!
4 janeiro 2010 às 16:58
Caro Abilio,
o livro trata, realmente, das várias alterações procedidas no testamento do Padre, ao sabor de suas intrigas com a Igreja e de suas concessões a favor de Floro. A parte final certamente desvendará o mistério. Tão-logo conclua a leitura, dirimirei sua curiosidade, agora também minha. Se por acaso alguém já tenha descoberto (lido o livro até o final) pode postar a resposta nesse espaço. Não me tirará o prazer de ler até o fim e descobrir a real destinação do testamento do Padim Ciço.
Abraço,
4 janeiro 2010 às 23:19
Prezado Xico, a razão do meu comentário foi a postagem da música “Testamento do Padre Cícero”, de Augusto Boal e Gilberto Gil, aqui na minha coluna, cuja letra ridiculariza com o Padim, mas não sei por que passou despercebida. Obrigado pela resposta e, abraços.
13 janeiro 2010 às 16:50
Oi Xico, estive por aqui.
Falando no livro sobre o “Padim Padre Ciço”, vou entrar na fila porque quero ler, também, quando Manel devolver, ok?
14 janeiro 2010 às 16:46
Caro Abilio,
só agora posso dirimir sua dúvida suscitada acima. Segundo registros da época um dos principais herdeiros de seus bens – provavelmente o maior deles, foi a Ordem dos Salesianos, fundada por Dom Bosco. Cícero exigiu, em contrapartida à doação, que aquela Ordem realizasse um trabalho socioreligioso e educacional no Juazeiro, tendo por lastro financeiro os bens doados. Essa informação é corroborada por um outro livro que estou lendo – este bem mais denso e tecnicista que o de Lira Neto, mais leve e romanceado. Trata-se de SOCIOLOGIA DE UM PADRE, ANTROPOLOGIA DE UM SANTO, de autoria de Antônio Mendes da Costa Braga.
15 janeiro 2010 às 13:58
Brigadão, poeta Xico Bizerra.