CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

DEU NO JORNAL

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

DEU NO X

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETOS AOS PÉS DE DEUS – Afonso Félix de Sousa

Eu bato, eu bato, eu bato à tua porta,
bato sem ver que a porta está aberta.
Sem ver-te, sei, tua presença é certa,
e tento orar, mas minha voz é torta.

A luz que vem de ti em dois me corta,,
e do que fui e sou outro desperta.
Não posso, assim, a ti dar-me em oferta,
pois já nem sei que ser meu ser comporta.

Tudo o que busco dás, dás de sobejo,
pois sabes mais do que eu o que desejo,
e estás comigo e em mim, sempre a meu lado.

Comigo estás na paz e nas pelejas.
Por tudo o que me dás louvado sejas,
por tudo o que não dás sejas louvado.

Afonso Félix de Sousa, Jaraguá-Go (1925-2002)

DEU NO X

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

EX-AMOR

Danilo Mascarenhas abriu a janela da confortável suíte do Hotel Ponta Verde. Encheu-se de recordações extasiado com mar azul esverdeado. Logo telefonou para um amigo da cidade onde há 40 anos morou e cursou por cinco anos a Faculdade de Engenharia de Alagoas.

Danilo, baiano muito querido dos colegas, passou alguns dias sendo alvo de almoços e jantares. No sábado, enquanto esperava o amigo no lobby do hotel, avistou uma senhora, pareceu-lhe familiar, o coração disparou ao reconhecer aquela jovem alegre, bonita que ensaiava, cantava e dançava o rock nas festas de Maceió. Foi sua doce e inesquecível namorada. Aproximou-se.

– Tereza!

Espantada, ela levantou-se, o sangue ferveu e explodiu ao reconhecer o amor de juventude, um grito saiu da goela.

– Danilo! Não é possível.

Abraçaram-se longamente, pensamentos rodando, 40 anos de lembranças repentinas e sentimentos passados. Ao arrefecer a emoção do encontro, sentaram-se no sofá. Em um relance, o baiano fez uma rápida análise de seu ex amor: devia estar pelos sessenta, ainda uma mulher bonita, cabelos castanhos longos e lisos envolviam o rosto pouco machucado pela idade, olhos vivos castanhos, brilhavam cheio emoção. A boca carnuda era a mesma, ele dizia na época que seus lábios pareciam com os da Brigite Bardot. Tereza interrompeu-o:

– O que está olhando, seu cabra? Estou em forma, graças a muita malhação, bisturi e hormônios.

Conversaram bastante, Danilo contou que estava em Maceió para comemorar 40 anos de formatura. Confessou que, mesmo no tempo de casado, nunca esqueceu aquele amor juvenil, puro e bonito. Tereza emocionada deu um beijo em sua face, resumiu sua vida.

– Fiquei viúva há cinco anos, três filhos, quatro netos. Há algum tempo apareceu um câncer no seio, muita luta contra a doença, parece que venci, os últimos exames estavam bons. A compreensão da morte transformou minha cabeça. Hoje quero aproveitar o que resta, quero viver bem meus últimos anos. Entendi que a vida é uma dádiva. Sou uma coroa alegre que ama estar viva.

Nesse momento apareceu um colega de turma vinha buscar Danilo para o almoço de despedida. Cumprimentaram-se, ela conhecia o engenheiro. Tereza perguntou o restaurante do almoço, ficou de telefonar para Danilo.

Passava um pouco das três horas no agradável restaurante Akuaba os engenheiros com esposas deleitavam-se numa caprichada moqueca de arabaiana com cerveja. Rolavam histórias, memórias e muito uísque. De repente surgiu Tereza, deu boa tarde, cumprimentou o pessoal, puxou uma cadeira, sentou-se junto a Danilo e cochichou no seu ouvido:

– Não lhe largo mais.

Chegaram no hotel às sete da noite cantando antigas canções. Sozinhos no elevador, beijaram-se. No quarto amaram-se.. Danilo havia tomado uma azuladinha, ficou surpreso com a performance de Tereza; parecia uma loba no cio.

Depois do banho, enrolados em toalhas, sentados na varanda, pediram uma garrafa de uísque, os dois abriram os corações, contaram histórias de suas vidas. Tereza lembrou o pacto que fizeram de não escrever cartas. Ela na ilusão dele retornar, sofreu muito quando soube que ele estava morando no Canadá.

– O tempo passou e eu desisti de você, meu querido, no que fiz bem. Casei-me, mas nunca lhe esqueci. Essa é a verdade.

– Não há mais tempo de pedir desculpas. Assim que retornei à Bahia, meu pai, deputado, logo arranjou um emprego irrecusável no Canadá. Tive dificuldades com a língua e a parte técnica nos primeiros meses, logo estava dominando a tecnologia moderna de construção. Tive vontade de lhe escrever, mas achei que estaria alimentando uma ilusão. Casei-me. Depois de 10 anos retornei ao Brasil, sempre com bons empregos arranjados pelo deputado, meu pai. Tenho dois filhos, três netos e dois casamentos desmanchados. Preferi ser um coroa solteiro e boêmio. Nunca me prendi à outra mulher, acho que no inconsciente eu estava amarrado à você. Hoje tive essa clareza. Tereza aproximou-se deu um beijo em sua boca, os corpos rolaram no tapete. Adormeceram depois de muito uísque.

Amanheceu o domingo, Danilo deu-lhe um beijo no rosto, ela acordou-se e o puxou. Passaram o domingo conversando no apartamento do hotel. Desceram apenas para dar uma volta na orla, tomar uma cervejinha numa barraca. Afinal chegou a segunda-feira ingrata, só para contrariar. Danilo tinha que deixar o carro alugado no aeroporto, o avião decolava às 14:00 horas para Salvador. Tereza o acompanhou, retornaria de táxi. O carro deslizava na grande avenida. Num impulso ela beijou sua mão, seu rosto.

Na hora do embarque despediram-se entre beijos e lágrimas. Tereza retornou feliz da vida. Passou a semana recordando os bons momentos. Na sexta-feira telefonou para Danilo.

– Não vou desistir de você. Chego amanhã 12 h.. Vou lhe procurar.

– Não precisa. Estarei no aeroporto

DEU NO JORNAL

DEU NO JORNAL

SEM PRIVATIZAÇÃO, A ESCOLHA É A FALÊNCIA

Editorial Gazeta do Povo

correios

Os Correios – estatal que já foi sinônimo de qualidade e eficiência no passado – estão sangrando, mas o governo continua acreditando que pode estancar a hemorragia com um punhadinho de gaze. A empresa tem acumulado prejuízo atrás de prejuízo, e tem tudo para bater um novo recorde em 2025; o rombo, só no primeiro semestre, foi de R$ 4,25 bilhões, mais que o déficit de todo o ano passado. Mas o ministro Fernando Haddad, da Fazenda, afirmou em entrevista que a privatização da companhia não está nos planos. “Não vejo debate dentro do governo sobre privatizar os Correios. Não vejo nenhum ministro propondo isso”, afirmou.

Em se tratando de um governo bastante estatizante, o surpreendente seria o contrário, que a privatização estivesse sendo seriamente considerada. É verdade que, muito às vezes, a realidade acaba se impondo ao petismo, como quando Dilma Rousseff iniciou um ciclo de concessões de aeroportos após perceber que a infraestrutura aeroportuária nacional não teria a menor condição de absorver a demanda que viria com os megaeventos esportivos de 2014 e 2016 – mesmo assim, o cacoete estatista falou forte, com regras pouco razoáveis que mantinham um papel importante para a Infraero. Desta vez, no entanto, Lula parece disposto a repetir apenas o que deu errado nos governos passados do PT, ignorando as poucas medidas sensatas, mesmo que tomadas a contragosto.

É por isso que as primeiras cartadas para reanimar o paciente moribundo são o fechamento de agências deficitárias e um plano de demissão voluntária cuja meta é chegar a 10 mil desligamentos, pouco mais de 10% do efetivo atual da empresa, que no ano passado realizou concurso para a contratação de 3,5 mil pessoas. Mas a grande aposta do governo continua a ser o empréstimo de R$ 20 bilhões que ninguém parece disposto a conceder – nem mesmo os bancos estatais –, apesar das garantias oferecidas pela União por meio do Tesouro Nacional.

A hesitação dos agentes do mercado financeiro em botar dinheiro nos Correios é plenamente justificada. Para que servirão esses R$ 20 bilhões? Para que a estatal continue competindo com um setor privado que está bem à frente dos Correios em termos de tecnologia, eficiência e custo? Não demoraria muito para a empresa ficar para trás novamente, e voltar a acumular prejuízos. Seria dinheiro jogado fora em uma tentativa de negar o óbvio: que os Correios – ou ao menos os Correios sob administração estatal – podem ter se tornado inviáveis, sendo superados pela concorrência privada nas atividades onde há competição, e exercendo monopólio apenas sobre atividades cada vez menos relevantes em um mundo digital.

Por mais que o petismo tenha se empenhado em estragar os Correios a ponto de reduzir drasticamente seu atrativo para possíveis compradores privados, a empresa ainda tem vantagens interessantes, como uma capilaridade que nenhuma outra companhia de logística no Brasil consegue reproduzir. Se Lula tivesse um mínimo de responsabilidade e aceitasse um valor reduzido – pois nenhum operador privado aceitaria pagar muito por uma empresa na situação atual dos Correios –, a empresa poderia ter um futuro longe das mãos do Estado, aproveitando-se as boas experiências de outras nações que privatizaram seus serviços postais sem comprometer a universalização do atendimento.

Mas, a julgar pelo que diz Fernando Haddad, isso não acontecerá. A conclusão é simples: enquanto um governo responsável venderia ou fecharia uma empresa com uma performance tão ruim, um governo ideologicamente jurássico como o de Lula manterá os Correios em estado terminal, e os R$ 20 bilhões, se vierem, servirão apenas para adiar um desfecho praticamente inevitável, a quebra da empresa.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

GOLPE FEMININO

Marcha da Família – SP – 1964

Na época em que completei 28 anos, ao me dirigir, pela manhã, bem cedo, ao trabalho no Banco do Brasil, tentei passar, de carro, pela Ponte Maurício de Nassau, na ilha-bairro do Recife, mas fui impedido por um tanque de guerra, com vários soldados armados com rifles, nas duas cabeceiras. Procurei um beco perto da Rua Madre de Deus, estacionei o veículo e me mandei a pé.

Fiz o arrodeio, a fim de passar, a pé, pela outra ponte, a Buarque de Macedo. Ao chegar ao Banco fui chamado à Tesouraria para receber das mãos de Véscio, um envelope com um adiantamento em dinheiro, por 15 dias de trabalho. Maravilha!

Passei o recibo e “sebo nas canelas”, porque o Banco Central havia determinado Feriado Bancário, e todo mundo deveria ir pra casa. Necas de trabalho! Mas muita preocupação.

Sentia-se o cheiro ruim no ambiente das ruas e imaginava-se alguma nuvem pesada nos ares do Recife. E o pior era desconhecer o motivo da grande apreensão. O Recife novamente atacado por submarinos germânicos? Previa-se algum quebra-quebra?

Passados tantos anos, recordo alguns momentos incômodos que vivi durante a Revolução de 1964, embora sem sofrer nenhuma admoestação, porque sempre acompanhei a ideologia de meu pai, que era da UDN – União Democrática Nacional,

Retomo à história após a leitura do livro “Eu e Jango”, escrito por João Vicente Goulart, filho do Presidente e sua esposa, D. Maia Thereza Goulart, uma das Primeiras Damas mais belas do País.

De 1964 a 1985, Elio Gaspari, jornalista-escritor brasileiero, escreveu cinco livros comentando, sob a ótica de um historiador, o Regime Militar, movimento político que as mulheres brasileiras iniciaram nas ruas de São Paulo.

As pesquisas e comentários criteriosos, constantes de obras publicadas por vários outros escritores, indicam que tal passeata de protesto foi uma resposta direta ao comício que João Goulart, na época Presidente do Brasil, havia realizado na Central do Brasil, no Rio, onde anunciou a implantação das “Reformas de Base”, bandeira maior do esquerdismo nacional, que acendeu o pavio da revolta das mulheres brasileiras.

Setores conservadores, principalmente as mulheres da sociedade, temerosos do que consideravam ser uma real ameaça comunista, organizaram uma passeata para demonstrar oposição ao Governo e defender a ordem familiar tradicional.

Nota de jornal: São Paulo marcou o começo de mais de 50 manifestações por vários pontos do País, movimento que contou com o apoio de grande parte da Imprensa e do empresariado, forçando Jango a se evadir do Brasil.

Foi quando ocorreu a ruptura. Auro de Moura Andrade, então Presidente do Senado, na madrugada de 31 de março de 1964 declarou vaga a Presidência da República, levando Ranieri Mazilli, Presidente da Câmara dos Deputados, a ocupar o cargo, posse ocorrida em 2 de abril.

Até aí, me digam, alguém deu golpe fardado?! Então não foi golpe e muito menos militar!

Ora, se a posse legal de um presidente civil ocorreu nos primeiros dias de abril, não há como “inocentes desavisados e de má fé” continuarem alardeando que houve um ”Golpe Militar” em 31 de março de 1964 e em seguida instituiu-se uma ditadura.

Mas a petralhada atual sempre distorce a História, criando a narrativa de “Golpe Militar”, quando, em verdade, até se poderia dizer que, se houve golpe, este foi um Golpe Feminino.

O certo seria afirmar que houve sim, o “Golpe Feminino”, cujas consequências forçaram a vacância do cargo presidencial. Simples assim!…