30 abril 2012LEILA SILVA



Três momentos de Leila Silva

A enxurrada avassaladora do rock, bossa nova e ie-iê-iê da Década de 1960 varreu do cenário artístico todos os grandes nomes da Velha Guarda da Música Popular Brasileira, assim acontecendo com Emilinha Borba, Marlene, Jorge Veiga, Aracy de Almeida, Carlos Galhardo e muitos outros. Mas, vez em quando, ainda ouvíamos deles falarem. O caso de Leila Silva é impressionante. Desapareceu sem deixar rastros na mídia, perdurando somente na memória de seus fãs, como é meu caso.

Todos os anos, no período que vai de dezembro até fevereiro, tempo de férias, eu me lembro de minha fase de solteiro em Balsas (MA), na mesma época da enxurrada, quando saía com os amigos seresteiros, nas madrugadas, cantando na porta das garotas da cidade. No final de 1960, o que dominou nosso repertório foi o samba-canção Não Sabemos, de Rubens Caruso, gravação de Leila Silva, que dedicávamos a alguns de nossos ex-amores. Era o tema tapas e beijos dito de amena forma.

Leila Silva foi revelada ao grande público exatamente no início da década cruel para a MPB e, de imediato, conheceu estrondoso êxito, graças a sua voz maleável e extensa, de timbre inconfundível, e capacidade interpretativa. Configurava-se numa cantora para todos os gêneros e todas as músicas, além de sambista verdadeira, artigo que, mesmo no Brasil, berço do samba, não mais é muito encontrável. Alguém aí ainda se recorda dessa grande estrela?

Inezilda Nonato da Silva, a Leila Silva, filha de Seu Raimundo e de Dona Raimunda da Silva, nasceu a 07.06.1935, em Manaus (AM), na Rua Ajuricaba, Bairro da Cachoeirinha, onde foi criada. No início da Década de 1950, seu pai, que era telegrafista, resolveu buscar uma localidade que oferecesse melhores condições de vida para os 10 filhos, transferindo-se, então, para a cidade de Santos (SP) com a família.

Aos 15 anos de idade, Leila demonstrou grande tendência artística. Estudou piano durante seis anos além de receber aulas de violão.

Começou a cantar na Rádio Atlântica, de Santos, acompanhada pelos conjuntos regionais de Pascoal Melilo e de Maurício Moura, Mais tarde, ingressou na Rádio Clube, e Rádio Cacique, ambas de Santos. Na primeira, chegou a ter um programa exclusivo. Nessa época, ganhou o Troféu A Melhor Intérprete, do jornal A Tribuna, e foi coroada Rainha dos Músicos de Santos.

Também era crooner da Orquestra do Maestro J. Pinto, em bailes e no dancing Samba Danças, e também da orquestra Los Cubancheros, do Maestro Cabral, com repertório dominantemente de mambos, rumbas e outros ritmos latino-americanos.

A Capital Paulista, para onde se mudou em 1959, passou a ser sua meta natural. Naquele ano, foi contratada pela gravadora Califórnia e estreou em discos cantando os sambas-canções Resignação, de Plínio Metropolo, e Mentira, de Denis Brean e Osvaldo Guilherme. Nessa época, por sugestão de Denis, adotou o nome artístico de Leila Silva.

No mesmo ano, levada pelo compositor Diogo Mulero, o Palmeira, transferiu-se para a gravadora Chantecler, gravando o tango Mar Negro, de Leo Rodi e Palmeira, e o samba-canção Irmã da Saudade, de João Pacífico e Portinho.

Em 1960, gravou, com a Orquestra do Maestro Guerra Peixe, o tango Tango Triste, de Osvaldo de Souza e Haroldo José, e o samba-canção Sarjeta, de J. Luna e Clodoaldo Brito, o Codó. Em setembro daquele ano, teve bom êxito com a balada Perdão Para Dois, de Palmeira e Alfredo Corleto, e, em novembro, estourou no mercado fonográfico com o samba Não sabemos, maior sucessos de todos os tempos de sua carreira. Ainda no mesmo ano, lançou seu primeiro LP, Perdão Para Dois, com orquestras regidas pelos Maestros Élcio Alvarez e Guerra Peixe.

Em 1961, gravou os sambas Justiça de Deus, de Normindo Alves e Ruth Amaral e Nossa União, de Vicente Clair; o tango Promessa, de W. White, versão de Teixeira Filho; o rock-balada Adeus Amor, de Haroldo José e Eufrásio Boreli, e o bolero Na Solidão do Meu Quarto, de Rubens Machado. Ainda em 1961, lançou pela Chantecler o LP Quando a Saudade Apertar.

No ano de 1962, gravou, ainda na Chantecler, o bolero Vai Dar no Mesmo, de Edmundo Arias e Teixeira Filho; as baladas Mais Uma Vez, Adeus, de G. Auric e D. Langdon, versão de Teixeira Filho, e Meu Amor Pertence a Outra, com adaptação de Teixeira Filho, sobre tema de Beethoven, e o samba O Que É Que Eu Faço?, de Ribamar e Dolores Duran. Naquele ano, assinou contrato com a gravadora Continental embora ainda lançasse mais três discos pela Chantecler.

Em seu disco de estreia na nova gravadora, registrou a balada Deus, o Mundo e Você, de Palmeira e Alvares Filho, e o tango Desespero, de Umberto Silva, Luiz Mergulhão e Paulo Aguiar. Também em 1962, lançou pela Chantecler o LP Quando Canta Leila Silva.

Em 1963, gravou a balada Canção do Fim, de U. Mincci e R. Jaden, versão de Paulo Rogério, e os sambas Correio das Estrelas, de Denis Brean e Osvaldo Guilherme, Coração a Coração, de Arquimedes Messina e B. Barrela, e Não Diga a Ninguém, de José Messias. Nesse ano, lançou seu último disco pela Chantecler, o LP Novamente Ela.

Em 1964, gravou pela Continental os sambas Juca do Braz; Nó de Porco e Joguei Fora o Brilhante, de Haroldo José e Romeu Tonelo; e Favela do Vergueiro, de K-Ximbinho e Laércio Flores.

Ainda na Década de 1960, apresentou um programa na TV Record de São Paulo que ficou no ar durante três anos.

Sua carreira discográfica incluiu ainda as gravadoras RGE, RCA Victor, Bervely, Copacabana e Warner, contabilizando, até 1978, 27 compactos e 15 LPs. Teve também discos lançados na Itália, França, Japão, México, Argentina, Paraguai e Uruguai. Recebeu inúmeros prêmios ao longo de sua trajetória, sendo detentora de quatro Roquete Pinto, cinco Chico Viola e cinco Discos de Ouro. Em Curitiba, recebeu o Pinheiro de Prata. Além disso tudo, foi também coroada pela Revista do Rádio como Rainha do Samba. E, do compositor Palmeira, recebeu o título de A Estrela de São Paulo.

Em 2001, apresentou-se no programa da Saudade na TV, do cantor Francisco Petrônio, no canal Rede Vida. Em 2002, a Revivendo Músicas lançou o CD Leila Silva – O Mais Puro Amor, com 21 faixas, incluindo antigos sucessos, cuja capa e contracapa vocês aí estão:

Tanto esse LP, quanto outros títulos fonográficos lançados pela cantora, já se encontram fora de catálogo, mas são facilmente encontráveis em sebos virtuais.

Atualmente residindo em Santos, Leila Silva continua na ativa, apresentando-se por todo o Brasil, mas sem cobertura da mídia.

Para que vocês conheçam um pouquinho de seu trabalho, disponibilizo-lhes o samba-canção Não Sabemos, o inesquecível sucesso de sua brilhante carreira.

Compartilhe Compartilhe

9 Comentários

  1. Madre Superiora Dalinha disse:

    Olá Mundim,
    Tenho visto tarde da noite, na tv Brasil, um programa sobre grandes cantores da era do rádio realmente fico encantada, em ouvir e ver músicas cantaroladas no passado pela minha mãe.
    Em sua coluna também provo um pouquinho deste gosto em conhecer ou rever o antigo.
    Meu abraço

  2. Cardeal Mundinho Fulô (do Bico Doce) disse:

    Querida Madre Superiora Dalinha,

    Minhas prateleiras estão repletas de verdadeiros tesouros musicais da MPB, que me salvam quando estou sem assunto para a coluna, que sai impreterivelmente todas as segundas-feiras, desde o começo do JBF. Aos poucos, vou relembrando ou apresentando grandes ídolos passados, já esquecidos pela mídia. Passei a vida toda na garimpagem, e agora tenho imenso prazer em disponibilizar meus achados nestas páginas atualmente lidas por mais de 100 mil internautas.

    São preciosidades como a que me pediu na semana passada a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, para homenagear, no programa Onde Canta o Sabiá, no quadro Alguém Muito Especial, o cantor Ivon Cury. Trata-se do samba-canção Tristeza, de sua autoria e por ele gravado no ano de 1953. Coisa raríssima!

    Vou mandá-lo para seu e-mail, como pequena amostra do trabalho desse grande cantor brasileiro.

  3. WALTER FREITAS-PESQUEIRA disse:

    O Cardeal foi buscar longe e trouxe coisa boa. Música simples, bonita e interpretada impecavelmente por uma cantora afinada. Sem falar do acompanhamento nota 10.

  4. Cardeal Mundinho Fulô (do Bico Doce) disse:

    Amigo Cardeal Cícero,

    Você, que não viu essa fema pessoalmente, pode avaliar, pela foto dela com o microfone, que ela era muito boa de cama, digo, de fama.

  5. Cardeal Mundinho Fulô (do Bico Doce) disse:

    Amigo Walter,

    Boa é apelido! Gotosa é o que ela é! Vez em quando, eu estarei apresetando aqui velhas novidades tiradas da rapa do tacho.

  6. Bispo Carlo Marqui disse:

    Eu também não conhecia esta esplêndida cantora. Merece nossas homenagens. A Wikipédia informa que ela nasceu em 1935. No You Tube encontrei uma apresentação dela em um programa do Francisco Petrônio (1923-2007). Cardeal Mundinho, parabéns pela oferta aos que participam do JBF.

  7. Cardeal Mundinho Fulô (do Bico Doce) disse:

    Prezado Bispo Carlo Msrqui,

    Continue ligadão em minha coluna onde, vez em quando, você conhecerá grandes nomes da MPB, completamente esquecidos pela mídia no presente.

  8. Rebeca disse:

    A minha mãe trabalhou no Samba Danças,foi a maior bailarina de lá,seu nome artistico era Itamara,e ela me disse que a Leila era ótima!

  9. Cardeal Mundinho Fulô (do Bico Doce) disse:

    Querida Leitora Rebeca,

    Leila Silva é uma ilustre esquecida para a maioria do público brasileiro. Parabéns a sua mãe por ter convivido com essa grande Musa da MPB.

Deixe o seu comentário!


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa