No dia de hoje, sexta-feira, faz exatamente uma semana que, contrariando hábito adquirido em tempos recentes – o de dormir cedo -, fiquei acordado até tarde, pra assistir a entrevista que o General Newton Cruz, um dos ícones mais representativos do período de mando dos militares, concedeu ao canal Globo News.

Valeu a pena. Pra quem, como eu, se interessa pela história recente deste país, notadamente por aquele tempo imposto pelos fardados, a entrevista foi extremamente esclarecedora. Tanto pelo que o general disse, como pelo que ele insinuou e, mais ainda, pelo que ele deixou de dizer.

Eu vi o General Newton Cruz pessoalmente em duas oportunidades. A primeira foi quando eu estava a bordo do meu carro, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, participando de uma carreata-buzinaço do movimentos Diretas Já e ele, o general, desceu furioso de sua sala de trabalho e apareceu sinistramente no meio da manifestação, brandindo um bastão com o qual batia na lataria dos carros e gritando furioso com os manifestantes. Passou na fileira de carros imediatamente após a minha e eu fiquei aterrorizado. Não tanto com a possibilidade de levar uma bastonada na cara, mas aterrorizado pela consciência de que aquele homem era um dos mais poderosos do Brasil por aqueles dias, à frente do Comando Militar do Planalto, e que, no entanto, se portava como um louco furioso prestes a explodir uma bomba atômica.

Na segunda vez em que vi o general pessoalmente, meu terror atingiu um grau mais alto na hierarquia da paranóia. A furiosa intempestividade do militar se manifestou de uma maneira completamente irracional e totalmente incompatível com quem foi formado, treinado e preparado pra comandar e ter serenidade pra decidir.

Esta segunda visão do general Newton Cruz foi numa solenidade militar no Batalhão da Guarda Presidencial, em Brasília, em dezembro de 1983. Era a formutura no CPOR do jovem Tony, irmão mais novo do meu grande amigo Natan, colunista deste JBF e Cardeal da Igreja Sertaneja.

Ao final da solenidade militar, com desfile e discursos, estávamos nós, familiares e amigos dos formandos, no saguão de entrada do batalhão, bem próximo do general, que estava cercado de assessores fardados e jornalistas ávidos por entrevistá-lo, quando, de repente, tudo aconteceu.

Este vídeo que reproduzo a seguir conta melhor a cena do que minhas palavras. Eu e Natan estávamos a poucos metros do acontecimento e testemunhamos tudo do começo ao fim.

Em junto de 2008, o jornalista Nelson Cadena, publicou no Portal Imprensa um artigo intitulado “O General que engravatou o jornalista”, que transcrevo a seguir:

No Natal de 1983 (17/12) o todo poderoso general Newton Cruz, então comandante militar do Planalto, o “nosso Mussolini” na cínica observação do presidente João Figuereido, convocou uma entrevista coletiva com o objetivo de prestar contas à nação sobre as medidas de emergência em vigor desde 19/10 do referido ano. Já fazia dois meses que o Presidente da República, através do decreto Nº 88.8888, estabelecera medidas de emergência em Brasília a pretexto de preservar a ordem pública, mas com o objetivo explícito de sufocar o movimento das “Diretas Já” que tomava conta do país.

A Invasão da sede da OAB, então presidida por Mauricio Corrêa, em 24/10, era a mais contundente expressão do regime, naquele momento político de incertezas, o fim de um longo ciclo de autoritarismo que teimava em desafiar o processo de abertura em curso. O certo é que o truculento General Cruz, ex-chefe do SNI, envolvido com o seqüestro e morte do jornalista Alexandre Von Baumgarten em 1982 (inocentado mais tarde pela justiça por falta de provas) e no ano anterior com o fracassado atentado do Riocentro (o general fora informado uma hora antes que militares pretendiam explodir uma bomba no local), convocava a entrevista para dar a sua versão sobre as medidas de emergência.

Começou acusando à imprensa de má fé, questionou o teor das noticias que os correspondentes em Brasília enviavam para os jornais, insistia nessa linha de confronto com os repórteres quando, de repente, se aborreceu com uma observação do radialista Honório Dantas, da Rádio Planalto.

 

Gravata e chave de braço

O radialista aproximava o gravador aos lábios do entrevistado quando foi surpreendido por um empurrão. O General, então, afastava o gravador e aos berros constrangia o jornalista: “Cale a boca, deixa eu falar e desligue essa droga”. Dantas afastou-se alguns passos e provocou, gravando: “De minha parte, depois de ser empurrado pelo general Newton Cruz, me sinto muito honrado”.

De costas, não percebeu a vulcánica reação do militar; descontrolado, livrou-se dos assessores que tentavam segurar o seu impulso, segurou o repórter pelo pescoço, em seguida aplicou-lhe uma chave de braço e na frente dos cinegrafistas ordenou: ”Peça desculpas, moleque”. Dantas obedeceu: “desculpas”. Newton Cruz, ainda possesso, não se deu por satisfeito: “Não é assim. Diga eu peço desculpas”. O radialista repetiu a frase que a rede Globo exibiria à noite, durante o “Jornal Nacional”, revelando ao Brasil o destempero e truculência do comandante militar do Planalto.

A repercussão do episódio foi sufocada pelo espírito de Natal, mas mesmo assim as entidades de classe reagiram emitindo comunicados de protesto; a Folha de São Paulo publicou um artigo assinado por Paulo Sérgio Pinheiro que destacou: “o abuso de autoridade e a agressão do general refletem a concepção que várias autoridades do regime fazem da imprensa e dos meios de comunicação”, observando:” sua excelência nada entende do funcionamento da moderna imprensa…apesar de sua larguíssima experiência no Serviço Nacional de Informações”. O episódio inspirou, ainda, o título do livro de Fernando Jorge, Editora Vozes, sobre a violência contra a imprensa (Cale a Boca, Jornalista!) lançado em 1987.A publicidade também se manifestou, através de uma pequena agência de Feira de Santana (VMA), interior da Bahia, que no dia seguinte publicou um anúncio sobre o episódio com o título: “Peça desculpas Sr General”. A 6º Região Militar pediu explicações à agência e ao jornal e o Prêmio Colunistas (premiação que destaca os melhores trabalhos publicitários) de 1984 conferia medalha de ouro à peça no formato de ¼ de página, mais pela coragem do que pelo leiaute.

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* * *

Na sua coletânea de livros sobre o período militar, Elio Gaspari nos informa, com detalhes e abundância de fatos, depoimentos e documentos, sobre a anarquia que se instalou nas casernas por ocasião do combate ao que se convencionou chamar de “subversão e terrorismo”. Foram vergonhosamente quebradas a hierarquia e a disciplina, espinhas dorsais da vida militar, em nome da luta “pela democracia”. Os militares, de todas as patentes, que trabalhavam nos porões e se dedicavam ao ofício da repressão, não se submetiam a determinações superiores e, sob o pretexto de combater o terrorismo, se tornaram também terroristas e instalaram um estado paralelo e subterrâneo, com poderes de julgar e de matar. A baderna só teve fim quando o General Geisel, com risco de ser deposto, enquadrou os indisciplinados, demitiu dois generais de 4 estrelas, “com humilhação”, aí incluído o seu ministro do Exército e empurrou goela abaixo da extrema direita o processo da assim chamada “distensão lenta, segura e gradual”.

Num estado sulista, um major, a paisana, proibiu a entrada num quartel de um general, fardado, que ali fora a pedido de um civil seu amigo, pedir informações sobre a prisão de um ”subversivo” filho deste amigo. Quando do sequestro do embaixador americano, o Presidente Nixon telefonou ao General Médici, o ditador da vez, e este lhe deu a garantia de que os prisioneiros exigidos em troca do refém seriam soltos. Ao saber disso, os terroristas militares dos porões repressivos organizaram um comboio que saiu da Vila Militar para ir ao aeroporto metralhar os trens de pouso do avião que levaria os presos libertados. Ficaram retidos num engarrafamento e, quando chegaram ao destino, o grupo já estava nos ares rumo à liberdade. Se tivessem chegado a tempo, teriam desobedecido, sem a menor cerimônia, ordem do então Presidente da República, um general de 4 estrelas e Comandante Supremo das Forças Armadas.

A ousadia da turma dos porões não conhecia limites. Desafiaram abertamente o General Geisel com dois assassinatos em São Paulo, o do operário Manoel Fiel Filho e o do jornalista Vladimir Herzog. Que marcaram o fim de uma época e a partir dos quais se iniciou efetivamente a tal distensão. Uma das ousadias mais emblemáticas do desafio da extrema direita militar ao processo de abertura foi o atentado do Rio Centro, sobre o qual teceu considerações o General Newton Cruz em sua entrevista.

Sargento Guilherme Pereira do Rosário, dedicado operário do aparelho repressivo montado pela ditadura militar, morto por acidente de trabalho, ao fazer detonar no seu colo uma bomba que era destinada a explodir dentro do Riocentro, onde se realizavam as comemorações do dia 1º de maio. A conclusão do “inquérito oficial”, levado a efeito pelos militares, foi um deboche acintoso que concluiu que o sargento fora vítima de “terroristas da esquerda”; na entrevista, o general Newton Cruz confessa que o serviço sujo foi obra de militares do estado clandestino da repressão

Ao declarar, durante a entrevista, que soubera com antecipação da realização do atentado, na condição de todo-poderoso chefe da agência central do SNI, mas que não pudera fazer nada, o general Newton Cruz confessou, com todas as letras, a completa inversão da hierarquia. O atentado matou um sargento, por acidente de serviço, e deixou gravemente ferido um capitão, ambos posicionados bem abaixo do general na hierarquia militar. E disse mais. Muito mais. Disse, por exemplo, que conhecia a célula terrorista de direita vinculada ao DOI do Primeiro Exército.

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Dez anos depois do atentado, já em pleno estado democrático de direito, a imprensa escancarava a grande mentira e denunciava a farsa que foi montada pelos terroristas da extrema direita

Quer ver outra coisa que o general disse durante a entrevista? Disse o seguinte: que o atual Deputado Paulo Maluf procurou-o num final de semana em sua residência funcional no Setor Militar. Maluf, por aqueles dias, concorria à Presidência da República por votação indireta, no Colégio Eleitoral, com Tancredo Neves. Disse o General Newton Cruz que o Deputado Paulo Maluf propôs que ele, o general, matasse Tancredo. Que representava um perigo para a “democracia”.

Um tempo recente, um tempo doloroso e ainda bem vivo na nossa memória. Mas que, tudo indica, não serviu de lição pra muita gente. Os adoradores de regimes de exceção, de um extremo ou de outro, estão aí militando, cegos e surdos, mas falantes até demais. O tempo que gastam obrando pela boca impede que leiam e que se informem sobre o passado recente deste sofrido país.

Valeu a pena ter ficado acordado pra assistir a entrevista.

Voltarei ao assunto. Mas, antes de voltar, transcrevo, a seguir, artigo do jornalista Jânio de Freitas,  publicado nesta semana na Folha de S.Paulo.

E mais seis vídeos com trechos da entrevista.

Boa leitura.

* * *

DE CRIMES – Jânio de Freitas

Na entrevista de TV ao repórter Geneton Moraes Neto, o general Newton Cruz proporcionou mais dois reforços substanciais à imagem que construiu quando chefe da agência central do SNI e, depois, comandante militar do Planalto (não o palácio, a região).

Chamado de Nini por seus colegas, o general contou que jogava peteca (“é jogo de homem, de macho”, apressou-se a sargentar) quando foi interrompido por uma visita. O deputado Paulo Maluf, depois de “uma conversa de joão-sem-braço”, chegou ao assunto: “Ele queria que nós matássemos o Tancredo. Pensavam que eu era matador”.

Em outro momento, quando indagado sobre a autoria do assassinato de Alexandre Baumgarten, testa de ferro do SNI na compra da revista “O Cruzeiro”, Newton Cruz foi veloz: “Sei quem matou. Sei, mas não digo”. E pouco depois, quase inaudível: “Civis e militares”.

No passado, houve referências àquela visita de Paulo Maluf, derrotado por Tancredo Neves na eleição indireta para a Presidência pós-ditadura, mas Newton Cruz trouxe agora a acusação explícita. Suspeito ele próprio do assassinato do casal Baumgarten, e isentado à falta de provas, Newton Cruz afirma agora um conhecimento de autoria que não declarara.

Não são duas passagens apenas interessantes como retratos de época e de personagens. Nos dois casos, o general Newton Cruz confessou o acobertamento de um pretendido assassinato, com o autor do propósito devidamente identificado, e a autoria de três assassinatos consumados (além do casal, foi morto um barqueiro). Conivência consciente e deliberada para a impunidade de criminosos em crimes muito graves. Parece que não fica muito bem para um general.

Mas a omissão caberia muito bem no Código Penal brasileiro. Na história dos anos militares cabe apenas, porém, como mais uma impunidade. 

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10 Respostas em: “A ENTREVISTA DO GENERAL”

  • Bispo DeAmbrosio Diz:

    Prá Você ver como säo as coisas!…
    Já tinha até esquecido dessa “peça”, com olhar de louco – que sempre foi -, excrescência das terras de Macunaíma em seu lado mais triste.

    Mas näo esquecí do Herzog e do Manoel Fiel Filho, esses sim, libelos ainda vivos cuja ausência reverbera de modo ensurdecedor que tudo mais que ainda possa dizer semelhante figura histriônica.
    E o mundo continua cheio “deles”.
    Vige!…

  • Cardeal Huytamar Diz:

    Pegue esse discurso, faça nele um upgrade e coloque um pouco do que hoje chamamos de “politicamente correto” que não havia na ocasião e me diga com o quem fica parecido! A única diferença vai ser a farda!

  • Dom Capeta Marco di Aurélio Diz:

    Tanto a ditadura de direita como a de esquerda produz aberrações inaceitáveis. E, mesmo a democracia, tão almejada, se não construída sobre pilares reforçados de consciência política, sob uma educação transparente de direitos e deveres, incorre, muitas vezes, numa ditadura da maioria sobre a minoria, ou seja, o ranço do poder pelo poder se camuflando de um falso populismo.

  • Xanoca Diz:

    É o Capeta usando seu tridente para alfinetar!

  • Dom Capeta Marco di Aurélio Diz:

    Xanoca,

    E de baixo pra cima! viu?
    Tatu quando não sai pelo buraco, fuga pelo suspiro!

  • Goiano Diz:

    Olha só, Berto,você e eu estávamos no mesmo local, na mesma hora, porque eu também buzinava furiosamente na Esplanada dos Ministérios junto daquela parafernália naquele momento histórico quando surgiu o general Newton Cruz berrando, mandando parar de buzinar e batendo com o bastão no meu carro.

  • Monsenhor Paulo Dunga Moura Diz:

    .. . e hoje esta ai, entregue ao ostracismo, num quarto. Esquecido por todos. Por tudo que ele representou na sua vida publica, tivesse sido um homem correto , estaria sendo lembrado e homenageado.

  • Bob Jef Diz:

    Vc tá é doido! Esse aí é muito bem lembrado pelos seus e por quem ele fudeu. A globonews é a prova!

  • Carlito Lima Diz:

    Fui militar por 15 anos (1956-1971), nada que fiz me envergonha, pelo contrário, conto isso em meu livro “CONFISSÕES DE UM CAPITÃO”. Por simples fatos, como tratar com respeito aos presos políticos, e outros,era taxado de pacifista colorido por alguns colegas. Quando critiquei algumas atitudes já me chamaram de comunista,entretanto, posso afirmar, que a maioria da oficialidade não era que nem o Nini. E o que estava acontecendo nos porões, na rede DOI-CODI, era restrito a alguns militares da direita que manobraram o país, depois do Castello Branco. Ainda existem muitas histórias a serem contadas sobre a inversão de valores e de hierarquia, da ditadura. Para não ser muito longo, no 20° BC em Maceió servia o Capitão Zamith, da ultra-direita, colocaram em Maceió para acalmá-lo. Esse capitão mandava mais que o comandante e generais. Esses caras mancharam a imagem do Exército Brasileiro, desonraram sua história. Estou escrevendo outro livro, no tempo que servi na Companhia de Guardas no Recife 1964-1966, o título provisório, “O CARCEREIRO DE ARRAES”. Aguardem. No mais, é impressionante a entrevista do Newton Cruz e a do General Leônidas também.

  • Natan Diz:

    Meu Prezadíssimo Papa Berto.
    Antes de tudo, meus parabéns pela excelente reportagem.
    Eu também, naquele dia, fiquei receoso do General ou algum dos vários assessores dele puxar uma arma, tamanha a fúria estampada no rosto deles, ao ver o Honório Dantas falando com o Nini sem o menor medo; dando o seu recado profissional.
    Nós estávamos muito próximos do ‘muído’. Se naquele dia (de festa) houvesse um bafafá, ia sobrar pra gente…
    Os assessores do General eram todos nazistóides; tinha até uns galegos dos zóis azuis, se balançando pra pegar o Honório. Mas quem foi atrás do repórter foi o próprio Nini. O resto da história está muito bem contada por VS, o Jânio de Freitas e o próprio General.
    Aqueles tempos de transição deixou a Direita desesperada.
    Ouvi de alguns oficiais da FAB, muitos anos antes, que aquele Regime seria mais duradouro que o do Hitler, que foi ‘bolado’ pra durar 1000 anos…
    Mais uma vez, parabéns pelo trabalho.

    Em tempo: esses parabéns não são por ter sido citado na reportagem, nem o meu irmão…

    Um parabéns especial para o insigne Capitão Carlito Lima, que foi para a reserva na época em que todo oficial daria tudo para permanecer na ativa e gozar o sadismoque imperava naquela fatídica década…

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