28 maio 2011MEU AMIGO HENRIQUE



(Este texto foi publicado no JBF no dia 28 de maio de 2009. Hoje, novamente 28 de maio, republico para homenagear a memória de um cabra que mora na minha estima)

Eu morava numa pensão na Rua da Concórdia, ao lado do Colégio Carneiro Leão e vivia de uma mesada semanal que meu pai trazia às quintas-feiras, quando vinha de trem de Palmares pro Recife, a fim de fazer compras no Mercado de São José pra abastecer a sua bodega no interior.

Com frequência quase semanal, eu gastava a mesada em uma única noite, num puteiro que existia num primeiro andar da Rua Duque de Caxias, comendo uma rapariga por nome de Neuzinha, que adorava trepar com aquele rapazinho fogoso de 17 anos.

No quarto da pensão, que eu dividia com um sujeito chamado Paulo, operário da fábrica de borracha sintética Coperbo, no Cabo, havia um fogareiro a alcool onde eu fazia café pra enganar a fome quando o dinheiro acabava.

Mas, quando eu não aguentava mais o caldo-de-cana com pão doce e a fome apertava mesmo, eu pegava o ônibus da viação Nápoles e ia pra Olinda. Descia no pé da ladeira e subia bem devagar pra apreciar aquela paisagem encantada lá embaixo. Uma paisagem que eu decorei e que descrevi com detalhes num capítulo d’O Romance da Besta Fubana. Eu chegava no seminário e esperava na portaria até Henrique vir me buscar e me levar pro seu alojamento, um espaço que ele dividia com outro seminarista-maior e que era atulhado de livros do chão até o teto. As paredes seculares da construção ressaltavam aquele ambiente de estudos e de meditação.

Na hora do almoço eu entrava na fila dos seminaristas, entre Henrique e um cearense chamado Moacir, e comia aquele rango gostoso preparado pelas freiras que serviam na instituição. Antes, todos de pé, entoavam em coro o agradecimento, num espetáculo tão bonito e tocante que até hoje ressoa em meus ouvidos:

“Abençoai, Senhor, esta refeição”.

Após um pequeno momento de silêncio, começava a doce zuada dos pratos, dos talheres e das conversas no imenso salão.

O reitor do seminário, Padre Marcelo Carvalheira, ficava sentado numa mesa à parte, ao lado de outros padres-professores, presidindo aquela grande celebração diária.

Era comum um dos seminaristas subir ao púlpito que havia no refeitório e pedir silêncio pra fazer uma leitura. O silêncio se estabelecia de imediato como só seria possível numa comunidade disciplinada e consciente como aquela.

Em geral as leituras nunca eram sobre temas religiosos. Invariavelmente tratavam de temas políticos, tão comuns naquela época agitada e de profundas divisões entre a direita e a esquerda, no inesquecível período da guerra fria. O seminário, altamente politizado e menina-dos-olhos do arcebispo Dom Hélder Câmara, era em peso “de esquerda”. Assim como Henrique e Moacir, meus dois amigos que em breve se tornariam padres.

Henrique fez a minha cabeça, me deu vários livros de presente e eu perdi todos eles junto com minha biblioteca inteira numa chuvarada que caiu no galpão aos fundos da casa onde eu morava em Brasília. Todos os livros tinham uma dedicatória com a sua caligrafia redonda e caprichada, entre eles um livro intitulado “Deus e o Mal” de um teólogo francês cujo nome eu não me lembro.

Como presidente do meu grêmio no Ginásio de Palmares e ativista da política estudantil, levei Henrique à minha cidade duas vezes pra participar de palestras e debates. Eu tinha uma admiração profunda pela sua inteligência, pela sua sede insaciável de leituras e de conhecimento.

Me perdi nas curvas deste mundo, fiz minha vida na capital federal e, num dia de semana, na repartição onde eu trabalhava, eu folheava a revista Manchete e tomei um susto que me deixou pálido e eu tive que me segurar pra não “ter um troço”. A revista estampava uma foto em página dupla: Henrique morto, o rosto desfigurado pelas torturas que sofrera e largado num matagal na Cidade Universitária, aqui no Recife. O assunto foi tema de reportagens no mundo inteiro.

Os odientos agentes da repressão e da ditadura militar em Pernambuco não tiveram coragem e audácia bastante pra matar Dom Hélder e resolveram se vingar do arcebispo sequestrando, torturando e matando um dos seus mais próximos colaboradores, o jovem Padre Antonio Henrique Pereira Neto, conhecido como Padre Henrique, que tinha então apenas 28 anos de idade e um brilhante futuro pela frente na sua carreira eclesiástica e na sua vida de dedicação ao próximo.

Hoje, dia 28 de maio de 2009, faz 40 anos que assassinaram Henrique covardemente.

Sinto uma saudade da porra daquele dentuço baixinho e inteligente, que eu seguia como uma sombra e cuja enorme cultura, apesar da pouca idade, me motivava e me fazia ficar pensando que um dia eu iria saber tanto quanto ele e ler tanto quanto ele já havia lido. Era meu modelo de ser gente.

Recife inteira sabe quem foram os militares, da Polícia e de alguns órgãos das Forças Armadas, todos agentes da repressão clandestina, que o sequestraram numa Rural Willys, que o torturaram barbaramente e que o mataram de forma tão covarde. Mas o inquérito, uma farsa montada pelas autoridades da época, nunca apontou os culpados e foi arquivado muitos anos depois por falta de provas. Um escárnio que ainda tem tempo de ser reparado.

Um abração, Henrique, gosto mais ainda de tu hoje do que quando tu era vivo. Quer dizer, tu estás mais vivo do que nunca na minha cabeça e no meu coração.

Meu amigo Henrique

13 Comentários

  1. Bráulio de Castro disse:

    Crônica arretada de bonita, Papa Berto.

  2. Cardeal Paulo Carvalho disse:

    Berto, emocionante esta crônica os olhos marejaram. Parabéns. Mas vamos dar nomes aos bois: Major Ferreira, um agente que atendia pela alcunha de X9 foram os principais articuladores desta vingança contra D. Helder. Pensar que ainda existem pessoas que defendem e elogiam o período da ditadura militar, a tortura, a discriminação, o preconceito nos dias de hoje.
    Esta página ainda não foi fechada na história, está na sua e na nossa lembrança, como você o assassinato me chocou muito. Vale à pena lembrar também a luta da mãe do Padre Henrique para que a justiça fosse feita. Teve sua casa apedrejada, jurada de morte pelos algozes do seu filho, mas nunca desistiu da batalha. Lutou até o fim, uma mulher de quem o filho herdou a coragem, e os nobre ideais que nortearam a sua vida.
    Não sou religioso, mas hipocritamente, cinicamente, o candidato a santo é Frei Damião, conservador, reacionário, atrazado, preconceituoso, que não abençoava mulheres separadas dos maridos ou que estivessem de calças commpridas. Viva a ICAS que deveria santificar o Padre Henrique.

  3. Maurício Melo Júnior disse:

    Berto amigo, somente duas palavrinhas: Da pôrra.

  4. Fábio Passadisco disse:

    “Viva a ICAS que deveria santificar o Padre Henrique.”

    (Paulo Carvalho)

  5. Cardeal Paulo Moura disse:

    Pronto. ganhamos um patrono e um mote:

    O Padre Henrique é da Icas
    Frei Damião, de Bentão!

  6. Adriana disse:

    Luiz Berto, uma bela homenagem. Obrigada.

  7. Luiz Berto disse:

    Caríssima Adriana, querida amiga paulistana, é com uma alegria enorme que registro sua presença aqui na minha página, com um balaio de saudades.

    Beijão!!!

  8. Cardeal XICO BIZERRA disse:

    Parabéns, Berto, pelo belíssimo e emocionante texto. Contribui, inclusive, para que os mais novos passem a conhecer esse herói quase anônimo, Padre Henrique.

  9. Muza Clara disse:

    Valeu, Luiz Berto. Obrigada.

  10. José Alves de Andrade disse:

    Caro Luiz Berto, por demais oportuna a sua crônica tão carregada de sentimento amigo, por aquele que foi em vida um amigo dos amigos ( o conheci bem)e, depois de morto tornou-se para mim e quantos o conheceram, um símbolo. Lembro, como se fosse hoje, quando o rádio noticiou o trágico acontecimento e nos colocou a todos, os amigos de Henrique em estado de estupor, assim como você. Imagine que estiveramos dia s antes de sua cruel trucidação, num churrasco comemorativo na Ordenação Sacerdotal de Ivanildo, no estado da Paraiba e agora estávamos nas ruas aos milhares cantando o hino “Prova de Amor maior não há, que doar a vida pelo irmão”, desde a Matriz do Espinheiro até o Cemitério da Várzea, com entusiasmo e rancor contra a barbárie que parecia nos encolher, mas que só nos impulsionava para a luta. É, companheiro, são 40 anos passados que continuam muito vivos em nossas memórias e que temos o compromisso de repassar aos mais jovens. Parabéns pelo seu, e nosso amigo, Padre Antônio Henrique, cuja memória fortalece a luta contra a injustiça. Devemos sim, lutar pelo reconhecimento do Mártir!

  11. Goiano disse:

    Leio, leio e releio, para acreditar que é possível tanta barbárie em nosso mundo. Espero que a lição da ditadura não seja esquecida e que as novas gerações tomem conhecimento da História e a guardem, para que a humanidade possa dar um passo à frente.

  12. Fernando Antônio Gonçalves disse:

    Um excelente texto. Que homenageia uma excelente figura humana. Escrito por um excelente talento empreendedor. Está chegada a hora da Comissão da Verdade sair dos noticiários midiáticos e buscar os esclarecimentos de tamanha barbaridade, apontando os monstros culpados.

  13. Padre José Paulo disse:

    Um último comentário. Depois de tanto tempo, continua um texto atual. E belo. Só um escritor superior, como mosso Papa, é capaz disso. Parabéns. Abraços, JP

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