O que não falta é convite. Pra debates, palestras, seminários, festivais e o cacete-a-quatro. Toda hora chega um e eu tenho um trabalho danado pra inventar desculpas pra mode não ir. Ainda bem que sou ficcionista e profissional da invenção e da mentira escrita.

Antigamente eu não perdia um, participava de todos e atendia a tudo quando era chamado. Mas, com o tempo, fui mudando de opinião e cheguei à conclusão que minha missão é escrever. E não falar sobre o que escrevo. Ou sobre a maneira como escrevo. Pra esse trabalho tem gente especializada, bem paga e que gosta do seu serviço, os críticos e os jornalistas da área cultural. O que antigamente eu via como badalação, com o tempo se transformou em aporrinhação na minha cabeça de cabra implicante. Uma meia dúzia de medalhões da literatura brasileira, cada um mais chato e pernóstico que outro, todos com o rei na barriga, com os quais tive o desprazer de conviver e ter contatos em eventos literários, solidificaram esta convicção na minha cabeça.

Numa entrevista que dei à TV Senado, no programa do colunista fubânico Maurício Melo, eu disse que escritor devia escrever, e não dar entrevista que nem eu tava fazendo ali naquele momento… Ainda bem que meu compadre é um cabra educado e não mandou eu me lascar ao vivo. Quem quiser ouvir, basta clicar aqui.

Acontece que, de vez em quando, aparecem uns convites que eu não posso recusar, que são verdadeiras intimações, dependendo da pessoa que faz.

Clarinha, diretora das Edições Bagaço, filha de Arnaldo e uma sobrinha muito querida, ligou pra mim certa vez e só fez dizer assim: “Berto, você vai participar hoje à noite de um debate na Faculdade de Filosofia do Recife”. Este “você vai participar”, sem perguntar se eu queria ou não, se aceitava ou não, resume tudo. Não tenho pra onde correr. Ainda mais em se tratando de Clarinha, que mora na minha estima e no meu bem querer.

Aliás, neste debate, cujo público eram os alunos de Letras daquela faculdade, eu tomei conhecimento de qual seria o tema no momento em que lá cheguei. E que era bonito que só a porra: “Ícones da cultura pernambucana“. A diretora do estabelecimento, que presidia a mesa, me entregou às feras sem mais demora e, assim que acabou de fazer a abertura, me passou a palavra. E eu iniciei dizendo que naquele momento estava realizando um dos grandes desejos da minha vida. “Sempre sonhei em me tornar uma dia uma proparoxítona. E hoje este desejo foi concretizado: virei um ‘ícone’”. A platéia veio abaixo e, daí pra frente, foi galhofa até o final.

 

Flagrante do dia em que virei proparoxítona; à minha esquerda, o escritor Antônio de Campos, criador da Fliporto; no extremo da mesa, o saudoso poeta Alberto Cunha Melo, em debate na Faculdade de Filosofia do Recife

Mas, debates com estudantes de nível superior, sobretudo com estudantes dos cursos de Letras, é uma merda. Universitário brasileiro não lê, não escreve e vê a leitura como uma penosa obrigação, como se fosse encarar uma ”esteira ergométrica”, conforme decretou em tempos recentes importante autoridade destepaiz. Em geral, os universitários são analfabetos funcionais que, além de não entender o que leram, são incapazes de escrever um simples bilhete ou fazer um anotação com três palavras sem cometer um erro crasso. Depois que o Ministério da Educação criou a Ortografia do Excluído e estabeleceu o “preconceito linguístico”, aí foi que acabou de fuder tudo de vez. Eu já ouvi um formando de Letras se gabar, após uma palestra minha, por estar terminando o curso e nunca ter lido um único livro em toda a sua vida. Lembro-me muito bem que ele falou exatamente esta frase: “Não sei nem pra que lado vai Machado de Assis!” Eu dei-lhe os parabéns e elogiei sua esperteza.

O que eu gostava mesmo era dos debates com a meninada. Menino, como dizia meu finado pai, é a imagem do Cão. Perguntam que só a porra, querem saber de tudo e pra tudo têm indagações.

Bombardeado por perguntas num evento evento promovido pela Bagaço, em palestra pra alunos do primeiro grau

Outra intimação que eu não pude deixar de atender foi a da querida e talentosa amiga Cida Pedrosa, uma criaturinha da porra e que mora de pijama no fundo meu coração. Era pra participar de um debate na última Bienal do Livro de Pernambuco, em setembro passado.

Cida e Senor, seu marido, são os criadores e diretores desta página arretada, a Interpoética, um espaço nobre da Poesia brasileira. Eu só num gostei do apelido no qual me enquadraram: escritor “linkado“, assim mesmo, com “k” e tudo. Vôte! Parece coisa de gringo.

Cida me escalou pra um debate com escritores brasileiros e portugueses e eu tomei um susto com a cara do luso que estava do outro lado da mesa: o sujeito era mais sério do que um porco mijando e parecia que exalava mau humor em cada poro. Pela cara trancada, aparentava ser aquele tipo de gente tão brava que até pra cagar só vai amarrada. Além do mais, neste tipo de evento é inevitável que você tenha de ouvir perguntas e intervenções dos teóricos muderninhos e escutar viadagens do tipo “escrever é uma maneira de não morrer” ou “o processo de criação é um parto sangrento”. Vôte!!!

Pelo menos o cachê que me pagaram pela participação serviu pra tomar uma porre alentado e me livrar da assombração que foi a cara do lusitano.

Pois é, tem isso: ultimamente inventaram esta boa moda de pagar cachês aos participantes. Num vou falar quanto é pra não servir de mangação pra vocês. Mas pagam. Apesar disto, eu estou decidido a só aceitar os próximos convites se me pagarem o mesmo cachê que a Odebrecht paga pro Cara fazer suas palestras. Nem um tostão a menos! Com uma vantagem: eu expilo muito mais abobrinhas do que ele durante um espaço de tempo bem maior. Fico uma hora completa falando unicamente miolo-de-fossa.

Caso contrário, não me chamem mesmo. Cheguei à conclusão que Literatura é igual sexo: enquanto se discute, não se faz porra nenhuma!

Em terras alagoanas, debatendo altas prosopéias e profundíssimas filosofofanças com o romancista paulista Ignácio de Loyola Brandão

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11 Respostas em: “PROSOPOPÉIAS E FILOSOFOFANÇAS”

  • Cardeal Huytamar Diz:

    Hahahahahaháá … esse é o nosso amado e idolatrado papa!

  • Monsenhor Fred Monteiro Diz:

    Dá pra imaginar, pelo pouco que conheço do Papa Berto, o nível de encheção sacal de um convescote literário. Mais ou menos o que havia numa reunião de que participei anos atrás pra discutir a criação de uma pretensa entidade agregadora de entidades carnavalescas (blocos, troças, clubes, etc) no formato dos CTGs do Rio Grande do Sul.) Esses burocratismos só agradam a quem tem saco de borracha mesmo.

  • Luciane Diz:

    É, MAS EM ALAGOAS, EU VI FILA PRA TIRAR FOTOS E TODAS AS CADEIRAS OCUPADAS SÓ MESMO EM DUAS OCASIÕES: PARA VER O SHOW DE JESSIER QUIRINO E PARA ASSISTIR A PALESTRA DE UM TAL DE LUIZ BERTO…

  • JH II Diz:

    …..e como já dizia o ditado, conversa é coisa prá boi dormir.a conversa só tem valor
    se for uma conversa mentirosa, como queria o personagem Pantaleão (Chico Anísio).
    Conversa séria era coisa de advogado do diabo (foi abolido pelo Papa João Paulo II
    em 1983).E também contar uma mentira séria, não é coisa para qualquer Mané; é uma
    Arte.Parabéns Papa Berto.

  • Cardeal Jorge Macedo - Recife PE Diz:

    Este é o nosso PAPA! O maior escritor da América Latina e adjacências!

  • Goiano Diz:

    Essas palestras são realmente um pé no saco, mas sendo o Berto o maluco que é possivelmente sua ausência faz falta para torná-las interessante: – Aceita, Berto!

  • Sérgio Bueno - De Goiânia Diz:

    É por isso que sou fã do JBF. O papa Berto escreve bem só a porra.
    Seus textos são claros, concisos e divertidos.
    Ele tem razão, em certos eventos a gente só ouve história pra boi dormir e isso nos deixa com a bolsa escrotal túrgida. Parabens pelas suas escrivinhações.

  • Padre Dema Diz:

    Santo Padre, Santo Papa Berto !!! Essa sua manha é pra
    fazer concorrência desleal ao nosso maior ‘tribunu e
    cunferêncista’ pátrio: Dom Ignaçu LI, mais conhecido
    nas rodas da malandragem corruPTiva por lullalau. Os
    invejáveis cachês citados são uma mincharia, comparados
    aos que elle já antecipou a empresários e bancariários.
    Inveja mata, Sacrossanto Papa !!!

  • Monsenhor Léo Medeiros Diz:

    ESTÁ MAIS PARA FILOSOPANÇA!

  • Luiz Berto Diz:

    Sequiessê uma igreja esculhambada:

    Um monsenhor avacalha com a pança do Papa e fica por isso mesmo..

  • coroinha Diz:

    Papíssimo…ao lado da cadeira é um rato?

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