Gilberto Freyre 1900-1987

Esclarecimento: Vamos encerrar o “Painel dos Ilustres Pernambucanos” sob os aplausos de Gilberto Freyre manifestando sua alegria diante dos nomes que o compõe. Esta é a galeria de personalidades que escolhemos durante este ano para comemorar o bicentenário da Revolução Pernambucana de 1817. Como toda comemoração termina em festa, convidamos o ilustre Dominguinhos para animá-la na próxima semana.

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Gilberto de Mello Freyre nasceu no Recife, em 15/3/1900. Polímata, ou seja, “aquele que aprendeu muito”, cujo conhecimento não se restringe apenas a uma área. Sociólogo, antropólogo, historiador, escritor, jornalista, psicanalista, poeta e pintor. Mas, segundo ele mesmo “um brasileiro que descende de gente quase toda ibérica, com algum sangue ameríndio e fixada há longo tempo no país”. É considerado um dos mais importantes sociólogos do século XX. Filho do Dr. Alfredo Freyre, Juiz de Direito e catedrático de Economia Política da Faculdade de Direito do Recife e de D. Francisca de Mello Freyre. Iniciou os estudos no tradicional Colégio Americano Batista, o antigo Gilreath, em 1908.

Teve dificuldade em aprender a escrever, pois gostava mais de desenhar e foi alfabetizado primeiro na língua inglesa com o professor particular Mr. Williams, que elogiava seus desenhos. Assim, passou também a ter aulas particulares com o pintor Telles Júnior. Em 1911 escreveu um soneto camoniano num caderno cheio de desenhos e caricaturas. Aos 14 anos, deu aulas de latim, no colégio onde estudava, participou do grupo literário e tornou-se redator-chefe de “O Lábaro”, o jornalzinho da escola. Aos 15 anos, passou a ter aulas particulares, de francês, com Madamme Meunier.

Em 1916, manteve correspondência com o jornalista Carlos Dias Fernandes, de João Pessoa, que o convidou para dar uma palestra. O pai não aprovou este contato, pois considerava aquele jornalista um boêmio. Mas a mãe autorizou a viajem e ele foi à Paraíba dar uma palestra sobre Spencer e o problema da educação no Brasil. O texto foi publicado no jornal “O Norte”. O rapaz era precoce e o contato com um jornalista boêmio haveria de marcar seu caráter pelo resto da vida. Na adolescência tinha como leituras, o Peregrino de Bunyan, uma biografia do Dr. Livingstone e obras de Spencer e Auguste Comte.

Foi eleito presidente do Clube de Informações Mundiais, fundado pela Associação Cristã de Moços do Recife e em 1917 concluiu o curso do Colégio Americano Batista. Foi escolhido para ser o orador da turma, cujo paraninfo é o historiador Oliveira Lima, de quem se torna amigo. Começou a estudar grego e torna-se membro da Igreja Evangélica, para desgosto da mãe e toda a família católica. Com uma bolsa de estudos adquirida no Colégio, partiu para os EUA, em 1918, no Texas, e passa a estudar na Universidade de Baylor. Logo iniciou uma colaboração com o “Diário de Pernambuco”, enviando cartas para a coluna “Da outra América”, e passou a escrever os primeiros artigos em inglês e as primeiras caricaturas, publicadas num jornal da cidade de Waco. Na faculdade, teve aulas de literatura com A.J. Armstrong, crítico literário especializado em filosofia e na poesia de Robert Browning.

Em 1920 conheceu pessoalmente o poeta William Butler Yates e os “poetas novos” dos EUA: Vachel Linsday, Amy Lowell entre outros, através do seu professor Armstrong. Como estudante de Sociologia, fez pesquisas sobre a vida dos negros de Waco e dos mexicanos marginais do Texas. Em seguida, concluiu o curso de Bacharel em Artes. Em 1921 foi morar em Nova Iorque e ingressa na Universidade de Columbia. No mesmo ano a Academia Pernambucana de Letras designou-o sócio-correspondente. Na universidade tornou-se editor-associado da revista “El Estudiante Latino-Americano”, onde publicou diversos artigos. No ano seguinte defendeu tese para o grau de Master of Arts, intitulada Social life in Brazil in the middle of the 19th Century, publicada pela “Hispanic American Historical Review” e recebida com elogios pelos professores Haring Shepherd, seu conterrâneo Oliveira Lima e H. L. Mencken, que aconselhou-o a expandir o trabalho em livro.

Em seguida parte para uma viagem pela Europa, onde conviveu com alguns artistas brasileiros ali residentes, tais como Vicente do Rego Monteiro, Tarsilia do Amaral e Brecheret e entrou em contato com as novas tendências artísticas e políticas. Nestas andanças, escreveu artigos para a “Revista do Brasil”, a pedido de Monteiro Lobato. Em 1923 permaneceu uma temporada maior em Portugal em contato com a intelectualidade local. De volta ao Brasil em 1924, passou a colaborar como o “Diário de Pernambuco”, conhece José Lins do Rego e incita-o a escrever romances, em vez de artigos políticos. Em abril ajudou a fundar o “Centro Regionalista do Nordeste”. Pouco depois passou a diretor do jornal e, em 1925, organizou a edição do Livro do Nordeste, uma edição comemorativa do 1º centenário do “Diário de Pernambuco”, onde foi publicado o poema Evocação do Recife, por Manuel Bandeira, a seu pedido.

Em 1926 foi conhecer a Bahia e Rio de Janeiro, onde mantém amizade com Manuel Bandeira, Prudente de Morais Neto, Sergio Buarque de Holanda, Villa-Lobos e os compositores Pixinguinha, Donga e Patrício. Assim participou ativamente das noitadas boêmias cariocas em boa companhia. Por esta época escreveu um longo poema modernista: Bahia de todos os santos e de quase todos os pecados, publicado no Recife e no Rio, elogiado por Manuel Bandeira. Dotado de um espírito agregador, participou do Congresso Pan-Americano de Jornalistas, nos EUA, e promoveu a realização do 1º Congresso Brasileiro de Regionalismo, no Recife. Em 1927, assumiu a chefia de Gabinete do Governador de Pernambuco, Estácio de Albuquerque Coimbra, e a pedido do mesmo, a direção do jornal “A Província”, em 1928. Neste jornal, passa a escrever artigos e desenhar caricaturas com diferentes pseudônimos, e acolher diversos novos escritores de todo o País. No ano seguinte foi nomeado professor da Escola Normal do Estado de Pernambuco, onde cria a primeira cadeira de Sociologia que se estabelece no Brasil com moderna orientação antropológica e pesquisas de campo.

Com a Revolução de 1930, partiu para uma longa viagem por mar, acompanhando o Governador Estácio Coimbra ao exílio. Saíram de Salvador, conheceram parte da África e chegaram a Lisboa. Nesta viagem deu início as pesquisas que deram origem ao livro Casa Grande & Senzala. “Em outubro de 1930 ocorreu-me a aventura do exílio. Levou-me primeiro à Bahia: depois a Portugal, com escala pela África. O tipo de viagem ideal para os estudos e as preocupações que este ensaio reflete”, escreveu no prefácio. Em 1931 foi convidado pela Universidade de Stanford como professor extraordinário; realizou nova viagem pela Europa, demorando-se na Alemanha em visitas aos museus de antropologia. Retornou ao Brasil em 1932, fixa-se no Rio de Janeiro e continua as pesquisas para o livro Casa Grande & Senzala. Por conta disso, recusou diversos convites para empregos no novo governo e passa por dificuldades financeiras, chegando a morar em casas de amigos e pensões baratas. Mesmo assim, contratou o poeta Augusto Frederico Schimidt, na época editor, para ajudá-lo na edição de seu livro.

A situação financeira obriga-o a voltar ao Recife e continuar a escrita do livro na casa de seu irmão Ulysses Freire. Em 1933, conclui o livro e envia os originais ao editor Schmidt, que o publica em dezembro. No ano seguinte surgem os primeiros artigos sobre o livro, escritos por Yan de Almeida Prado, Roquette Pinto, João Ribeiro e Agripino Grieco. O livro recebeu um prêmio da Sociedade Felipe d’Oliveira e ensejou a organização do 1º Congresso de Estudos Afro-Brasileiros, no Recife. Neste Congresso teve participação destacada o poeta Solano Trindade. Em 1935 publicou o Guia prático, histórico e sentimental da cidade do Recife, em papel especial e coloridos a mão por Luiz Jardim, inaugurando um novo estilo de guia de cidade, um dos primeiros livros para colecionadores e bibliófilos. No mesmo ano iniciou na Faculdade de Direito do Recife um curso de Sociologia com orientação antropológica e ecológica e logo depois, a convite de Anísio Teixeira, iniciou o primeiro curso de Antropologia Social e Cultural da América Latina.

No ano seguinte, a Companhia Editora Nacional publicou o vol. 64 da coleção Brasiliana: Sobrados e mocambos, uma continuação de Casa Grande & Senzala. Em 1937 foi enviado à Lisboa, como delegado do Brasil para participar do “Congresso de Expansão Portuguesa no Mundo”. Nesta ocasião proferiu conferências nas universidades de Lisboa, Coimbra e Porto. De volta ao Recife, participou da campanha de José Américo de Almeida à presidência da República, inicia colaboração semana no jornal “Correio da Manhã” e publica o livro Nordeste: aspectos da influência da cana sobre a vida e a paisagem do Nordeste do Brasil. No ano seguinte, foi nomeado pelo presidente Oliveira Salazar como membro da Academia Portuguesa de História. Logo, segue para os EUA como lente da Universidade de Columbia, onde dirige seminário sobre sociologia e história da escravidão.

Em 1939 viajou de novo para os EUA, como professor extraordinário da Universidade de Michigan. No Rio de Janeiro, foi publicado o livro Açúcar, um livro de receitas de doces e licores. Gostava de oferecer aos amigos um famoso licor de pitanga, preparado por ele mesmo. Ainda em 1939 publicou Olinda, 2º guia prático, histórico e sentimental da cidade brasileira, numa edição do autor, para bibliófilos e tem sua primeira biografia publicada em Nova Iorque pelo Instituto de las Españas em los Estados Unidos: O escritor Gilberto Freyre, vida y obra, escrita pelo historiador Lewis Hanke. No ano de 1940 fez diversas conferências em algumas cidades brasileiras e publicou, pela Columbia University Press, o opúsculo Some aspects of the social development on Portuguese America. No Brasil são publicados os livros Um engenheiro francês no Brasil e O mundo que o Português criou.

No ano de 1941, casou-se com Maria Magdalena Guedes Pereira. Aproveitou a lua de mel para conhecer o Uruguai, Argentina e Paraguai. Torna-se colaborador dos jornais La Nación (Buenos Aires), do Correio da Manhã e de A Manhã (Rio de Janeiro). No Recife deu uma conferência na Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste: Sociologia, psicologia e psiquiatria, depois expandida e incluída no livro Problemas brasileiros de antropologia e contribuição para uma Psiquiatria social brasileira, que seria destacada pela Sorbonne ao distingui-lo com o título de “Doutor Honoris Causa”. No Rio de Janeiro, ao publicar o livro Região e tradição, foi homenageado por um grande número de intelectuais brasileiros, com um almoço no Jóquei Clube. No ano seguinte foi preso no Recife, por ter denunciado atividades nazistas e racistas no Brasil. Foi solto no dia seguinte, por interferência direta do seu amigo General Góes Monteiro. Somam-se mais participações com sua entrada no Conselho Consultivo da American Philosophical Association; Conselho da Faculdade de Filosofia da Universidade de Buenos Aires e da Academia Nacional de História do Equador.

Inicia o ano de 1944 com a recusau a dois convites: Catedrático de Sociologia da Universidade do Brasil e professor da Universidade de Harvard. Por essa época, passou a colaborar no jornal “O Estado de São Paulo”. Em viagem aos EUA proferiu 6 conferências na Universidade de Indiana, as quais foram publicadas no livro Brazil: an interpretation. 1945 é um ano de eleições presidenciais, e ele toma partido pela candidatura do Brigadeiro Eduardo Gomes. Em 3 de março, num comício ele discursa na sacada do “Diário de Pernambuco”, quando o estudante de Direito, Demócrito de Souza Filho tomba ao seu lado, assassinado pela polícia civil. A UDN ofereceu, em sua representação na futura Assembleia Nacional Constituinte, um lugar aos estudantes do Recife e estes preferem que seu representante seja Gilberto Freyre. Eleito deputado federal, em 1946, seguiu para o Rio de Janeiro, a fim de tomar parte nos trabalhos da Assembleia Constituinte. Proferiu alguns discursos críticos ao projeto de constituição, no plenário e em diversas agremiações estudantis a convite dos alunos. Em novembro, a Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados indicou, com aplausos de Jorge Amado, membro da Comissão, seu nome para o Prêmio Nobel de Literatura de 1947, com o apoio de numerosos intelectuais brasileiros.

A convite da Unesco, participou em Paris, em 1948, no conclave de 8 notáveis cientistas e pensadores sociais reunidos por iniciativa do então diretor Julian Huxley para estudar as “Tensões que afetam a compreensão internacional”. Posteriormente, apresentou as conclusões do conclave no Ministério das Relações Exteriores e na Escola do Estado-Maior do Exército. Ainda na Câmara dos Deputados, proferiu discurso justificando a criação do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. Sua rotina de publicar livros e colaborar em jornais prossegue com a revista “O Cruzeiro”, “Diário de Notícias”, do Rio de Janeiro e “Jornal Pequeno”, do Recife, sem contudo descuidar de sua atividade parlamentar. Em 1949, foi para os EUA participar, na categoria de ministro como delegado parlamentar do Brasil, na 4ª Conferência Internacional da Organização das Nações Unidas. Em novembro de 1950, despediu-se de seus pares, não obstante a ativa vida parlamentar, por não ter sido reeleito.

Nos dois anos seguintes são publicados novas edições dos livros Nordeste, Sobrados e mocambos, em edição expandida e a 7ª edição de Casa Grande & Senzala. Convidado pela Universidade de Londres, publicou estudo sobre a situação do professor no Brasil, publicado pelo Year Book of Education, e profere mais uma série de conferências na Europa. A lista de jornais onde participa como colaborador é ampliada com o “Diário Popular de Lisboa” e “Jornal do Commércio” do Recife. Em 1954 foi escolhido por uma Comissão da ONU para examinar a situação racial na União Sul-Africana e apresentou à Assembléia Geral um estudo publicado no mesmo ano: Elimination des conflits et tensions entre les races. No Recife, as Edições Condé publicou em 1955, uma edição para bibliófilos do livro Assombrações do Recife velho, com ilustrações de Lula Cardoso Ayres.

Participou do Comparece ao 3º Congresso Mundial de Sociologia, realizado em Amsterdam em 1956, com o estudo Morals and social change, publicado no mesmo ano pela Associação Internacional de Sociologia. Com o objetivo de discutir Casa-grande & senzala, e o pensamento do autor, reúnem-se em Cerisy-LaSalle, os intelectuais M. Simon, Roger Bastide, G. Gurvitch, Leon Bourdon, Henri Gouhier, Jean Duvignaud, Tavares Bastos, Clara Mauraux, Nicolas Sombart e Mário Pinto de Andrade. Tal reunião representou a maior homenagem já prestada na Europa a um intelectual brasileiro. Nesta ocasião, A editora Knopf publica a 2ª edição, em inglês, de Casa-grande & senzala. Até o final da década de 1950 publicam-se novas edições de seus livros em Lisboa, México e Nova Iorque. No Rio de Janeiro, José Olympio publica Ordem e progresso, terceiro volume da série Introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil, iniciada com Casa-grande & senzala, continuada com Sobrados e mocambos e a ser concluída com Jazigos e covas rasas.

A década de 1960 inicia com um novo périplo pela Europa com conferências em universidades francesas, alemãs, italianas e portuguesas; a publicação de novos livros e a edição em japonês do livro New world in the tropics (Atsuitai no sin sekai). Por ocasião das comemorações do V centenário da morte do Infante Dom Henrique, foi publicado em Lisboa seu livro O luso e o tropico, em português, francês e inglês. No Carnaval de 1963, a Escola de Samba Mangueira desfilou com enredo inspirado por Casa Grande & Senzala. No mesmo ano foi admitido pelo Presidente da República como Comandante do corpo de graduados da Ordem do Mérito Militar e recebeu o grau de Doutor honoris causa pela Faculdade de Letras de Coimbra. Ao completar 25 anos, a edição de Casa Grande & Senzala recebe uma edição popular, promulgada pela Lei estadual nº 4.666 do Governo de Pernambuco, com uma exposição no Teatro Santa Isabel.

Viajou para os EUA em 1964 para uma série de conferências; recebeu o Prêmio Moinho Santista para Ciências Sociais e recusou o convite do Presidente Castello Branco para o Ministério da Educação e Cultura. Em seguida foi graduado, in absentia, Doutor pela Universidade de Paris (Sorbonne). Tal distinção foi ampliada com o mesmo título outorgado em outros países pelas universidades de Columbia, Coimbra, Sussex e Munster. Na Alemanha, teve a primeira edição de Casa-grande & senzala publicada: Herrenhans und Sklavenhutte; ein bild der Brasihanischen gesellschaft. Por solicitação da ONU, apresentou ao “United Nations Human Rights Seminaron Apartheid” (realizado em Brasília, de 23 de agosto a 5 de setembro de 1966) um trabalho de base sobre “Race mixture and cultural interpenetration: the Brazilian example“. Por essa época, passou a combater com mais vigor o conceito de que as regiões tropicais eram inadequadas ao desenvolvimento humano, defendida por alguns cientistas e antropólogos, como Levy Stauss com seus “tristes trópicos”. Em 1966, ele criou não apenas o “Seminário de Tropicologia”, mas uma nova área de estudo científico, onde o clima tropical e o homem dos trópicos são de extraordinária riqueza, com potencial enorme de desenvolvimento. Tais estudos vêm sendo desenvolvidos até o momento e foram objeto de um amplo debate ao completar 50 anos, num evento organizado pela Fundação Joaquim Nabuco em 2016: “Seminário de Tropicologia – 50 Anos: Semiárido Sustentável”.

Em 1968 publicou, pela Editora da UnB, o livro Como e porque sou e não sou sociólogo, onde explica a dificuldade em enquadrá-lo literária ou cientificamente: “Se sou de difícil classificação como sociólogo – sendo, talvez mais antropólogo ou mais historiador ou mais filósofo da cultura ou da História do que sociólogo sistemático – na mesma situação está o livro intitulado Casa Grande & Senzala. Digo escritor porque, afinal, é o que principalmente me considero: escritor”. Tal afirmação é confirmada pelo Prêmio Internacional de Literatura “La Madonnina”, que recebeu na Itália, em 1969. Para arrematar, o crítico Wilson Martins disse que ele criou um estilo literário, na análise que fez sobre Casa Grande & Senzala. Completou 70 anos como se fosse um jovem intelectual: escrevendo livros, colaborando em jornais e revistas, dirigindo cursos, proferindo conferências, presidindo o Conselho Diretor e animando as atividades da Fundação Joaquim Nabuco, presidindo o Conselho Estadual de Cultura, dirigindo o Centro Regional de Pesquisas Educacionais e o Seminário de Tropicologia da Universidade Federal de Pernambuco, comparecendo às reuniões mensais do Conselho Federal de Cultura e atendendo a convites de universidades europeias e norte-americanas.

A década de 1970 demonstra que ele é brasileiro mais premiado e homenageado na história do País: em 1971 recebeu o título de Doutor Honoris Causa pelas universidades UFPe e UFRJ; Sir (Cavaleiro do Império Britânico) pela Rainha Elizabeth; Cidadão Honorário de Olinda e Medalha Joaquim Nabuco (1972); “Troféu Novo Mundo” e “Troféu Diários Associados”, em São Paulo; “Educador do Ano”, pelo Sindicato dos Professores de Ensino Primário e Secundário de Pernambuco e da Associação dos Professores do Ensino Oficial; criação do “Prêmio de Criatividade Gilberto Freyre”, pelo Instituto do Açúcar e do Álcool. A veia literária ressurge em 1977 com a publicação da novela O outro amor do Dr. Paulo, uma continuação de Dona Sinhá e o filho padre. Ainda na área literária, teve seu livro Sobrados e mocambos transposto para o teatro, numa peça encenada pelo grupo Nosso Teatro, no Recife.

No exterior, novas homenagens e novas edições são incorporadas ao seu curriculum: Comendador das Artes e Letras da França; sócio honorário do Pen Clube do Brasil; publicação da 3ª edição de Casa Grande & Senzala, em Caracas pela Editora Ayacucho, com introdução de Darcy Ribeiro; publicação em Madrid de Más allá de lo moderno, com prefácio de Julián Marías. No Brasil, sai a 18ª edição de Casa Grande & Senzala e 5ª edição de Sobrados e mocambos. Em 1978, a Ranulpho Editora de Arte publica Arte & ferro, com pranchas de Lula Cardoso Ayres; o Conselho Federal de Cultura publica Cartas do próprio punho sobre pessoas e coisas do Brasil e do estrangeiro. Em 1979, o Arquivo Público Estadual de Pernambuco publica a edição fac-similar do Livro do Nordeste. No 44º Congresso Mundial de Escritores do PEN Clube Internacional, recebeu a medalha Euclides da Cunha. Ao completar 80 anos, recebeu diversas homenagens: Medalha da Ordem do Ipiranga, pelo Governo de São Paulo; Comendador da Ordem do Mérito Aperipê, pelo Governo de Sergipe; sessão solene no Congresso Nacional; homenagens especiais durante a 32ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e XII Congresso Brasileiro de Língua e Literatura; Grã-Cruz do Mérito da República Federativa da Alemanha.

Em 1981, recebeu da Embaixada Francesa o título de Oficial da Légion d’Honneur e foi nomeado, pelo rei da Espanha João Carlos I, membro do Conselho Superior do Instituto de Cooperação Ibero-Americana. Em 1982, recebeu da Embaixada da Espanha em Brasília, a Grã-Cruz de Alfonso, El Sabio. Na Alemanha foi publicada a tradução de Sobrados e mocambos e a 2ª edição de Casa Grande & Senzala. Em 21 de março de1983, por ocasião do Dia Internacional das Nações Unidas contra a discriminação racial, e aproveitando o cinquentenário da publicação de Casa Grande & Senzala, recebeu a “Homenagem da Unesco”. A data foi comemorada, também, com um espetáculo de dança, com música de Egberto Gismonti, pelo Balé Studio, no Recife, e um selo postal. Em abril, expôs seus últimos desenhos pinturas na Galeria Aloísio Magalhães, no Recife. Em 1985, recebeu nos EUA, na Baylor University, o “Distinguished Achievement Award”, um prêmio pelos seus notáveis triunfos. Em dezembro foi hospitalizado no INCOR, em São Paulo, para cirurgia de uma hérnia do esôfago. Retornou ao Recife, mas teve que voltar ao INCOR, em fevereiro de 1986, para uma cirurgia de próstata. Em outubro, a Academia Pernambucana de Letras deu-se conta que ele não era acadêmico em seu próprio estado, e providenciou sua posse em dezembro. Sua última façanha foi a criação da Fundação Gilberto Freyre, em 11 de março de 1987. No mês seguinte, num Sábado Santo, 18 de abril, recebeu de Dom Basílio Penido, os sacramentos da Reconciliação, da Eucaristia e dos Enfermos. Três meses depois, em 18 de julho, aniversário de sua esposa Madalena, faleceu no Hospital Português e foi sepultado no Cemitério de Santo Amaro.

Obs. Este relato biográfico é um resumo extensivo da biobibliografia de Gilberto Freyre, publicada no site Releituras entremeado com informações extraídas de fontes diversas.

2 Comentários

  1. Carlos Eduardo disse:

    Estive com ele de perto em duas oportunidades.
    A primeira quando fiz uma entrevista para o livro VALE DO SIRIJI.
    A outra quando fui lançar o livro e fui Chefe de Cerimônias da festa, no Salão Nobre do Internacional.
    Tive contato também com D. Magdalena, fina dama.
    Nas duas oportunidades ele já estava além dos 80.

  2. J.D. Brito disse:

    Carlão
    Um contato com o Mestre de Apipucos é para poucos. Dois, então, é só para uns pouquíssimos privilegiados

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