Dominguinhos

Esclarecimento: Como se trata de uma comemoração, uma festa, não podia deixar de chamar Dominguinhos para iniciar o encerramento.

Convidei-o “pessoalmente”, já que somos de Garanhuns. Ele reparou bem os integrantes do painel, balançou a cabeça afirmativamente, disse muito bem, agradeceu a honraria, mas declinou do convite:

– “Fico grato e envaidecido com o convite, mas não vou poder aceitar. O painel está bom, a homenagem é merecida, mas está faltando um compadre meu, que não poderia faltar”.
Sabendo a quem ele se referia, adiantei:

– “Sabe, Dominguinhos, na verdade você é o penúltimo ilustre que vai abrir os festejos de encerramento. Mas quem vai encerrar mesmo é o seu compadre Luiz Gonzaga. Desculpe, mas você vai apenas anunciar sua entrada e depois tocar e cantar juntos”.

Ele ficou me olhando com os olhos arregalados, sério o quanto podia e, meio espantado, emendou:

– “Mas, por que você não disse logo!?”

* * *

José Domingos de Morais nasceu em Garanhuns, em 12/2/1941. Filho de um conhecido tocador e afinador de sanfona, Mestre Chicão, e de Dona Mariinha, uma família humilde de 17 filhos. Aos seis anos ganhou uma sanfona de oito baixos e logo aprendeu a tocar. Para ajudar no orçamento familiar, passou a se apresentar em feiras e portas de hotéis junto com os irmãos Moraes e Valdomiro, formando o trio “Os Três Pinguins”. Tornou-se um bom sanfoneiro e passou a ser conhecido na cidade como “Neném do acordeon”.

Em 1948, tocando na porta do ainda hoje maior hotel da cidade (Tavares Correia), teve a sorte de encontrar Luiz Gonzaga, lá hospedado. Ele ficou impressionado com a habilidade do garoto na sanfona. O trio foi convidado a tocar dentro do hotel para ele e seus acompanhantes. Ao final da apresentação, Gonzaga entregou-lhe um maço de dinheiro e seu endereço no Rio de janeiro, junto com a recomendação de procurá-lo quando crescesse um pouco mais e fosse ao Rio. Após esse encontro, foi estudar no numa escola de Olinda, onde passou 4 anos e voltou para Garanhuns.

A situação econômica da família não era das melhores, e Mestre Chicão achou que com tantos filhos bons de trabalho, poderia se dar melhor no Rio de janeiro. Em 1954 embarcaram num caminhão “pau-de-arara” e em onze dias chegaram em Nilópolis. Pouco depois foram procurar Luiz Gonzaga, que morava no bairro do Méier. Neste reencontro, ganhou de presente uma bela sanfona de oitenta baixos. “Em cinco minutos, ele me deu uma sanfona novinha, sem eu pedir nada”. De posse do novo instrumento formou com Miudinho e Borborema o Trio Nordestino, passando a se apresentar em circos e arrasta-pés de pequenas cidades do interior do Rio. Em 1956, já acompanhava Luiz Gonzaga em shows e gravações. No ano seguinte, recebeu o nome artístico de “Dominguinhos” dado pelo próprio Gonzaga. No mesmo ano faz sua primeira gravação profissional, tocando na música Moça de feira, com seu famoso padrinho artístico. Por essa época, “Gonzaga estava divulgando para a imprensa o disco ‘Forró no Escuro’ quando ele me apresentou como seu herdeiro artístico aos repórteres. Foi uma surpresa muito grande, não esperava mesmo”, lembrou-se numa entrevista no fim de 2012.

Em 1958 casou-se com Janete, sua primeira mulher. Deste casamento nascem os filhos Mauro e Madeleine. Continuou se apresentando em programas de rádio e casas noturnas, até gravar seu primeiro disco, Fim de festa, em 1964. No ano seguinte, Pedro Sertanejo, um dos pioneiros do forró no Sul do país (pai de Oswaldinho do Acordeon), o convidou para gravar um disco “long play” dirigido aos migrantes nordestinos em sua pequena gravadora “Cantagalo”. Após a gravação de mais dois discos, voltou a integrar o grupo de Gonzaga em 1967, viajando pelo nordeste e dividindo as funções de sanfoneiro e motorista. Numa dessas viagens, conheceu uma cantora de forró, a pernambucana Anastácia, com quem compôs mais de 200 canções, inclusive um de seus maiores sucessos, Eu só quero um xodó, em uma parceria e casamento que durou onze anos. Com término desse segundo casamento, Anastácia ficou enfurecida e destruiu 150 fitas cassete com melodias inéditas, conforme uma declaração dela mesmo em 2013.

Sua reintegração ao grupo de Luiz Gonzaga trouxe-lhe reputação como músico e arranjador, aproximando-se de artistas consagrados dos movimentos bossa nova e MPB, nas décadas de 1970 e 1980. Trabalhou junto a músicos de renome, como Nara Leão, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, Elba Ramalho, Chico Buarque e Toquinho entre outros. Acabou consolidando uma carreira musical própria, englobando gêneros musicais diversos como bossa nova, jazz e pop. Segundo Gilberto Gil, que também é sanfoneiro, “Dominguinhos foi além, em uma direção que Gonzaga não pôde, não teve tempo. Ele foi na direção do início de Gonzaga, o instrumentista, da época das boates do Mangue, no Rio de Janeiro, quando ele tocava tango, choro, polca, foxtrot, tocava tudo, repertório internacional, tudo na sanfona”.

Participou de diversos festivais de música nacionais, com diversos discos gravados. Até 1978, já havia gravado sete LPs. O famoso “Forró do Dominguinhos” além de espalhar-se pelo País nos shows que ele fazia para plateias universitárias, virou um gênero musical. No final da década de 1970, conheceu a também cantora Guadalupe Mendonça, com quem se casou em 1980. Deste casamento, nasceu uma filha, a cantora Livys Morhays. Seguiram-se as gravações de mais discos até o LP Isso aqui tá bom demais, em 1985, uma de suas músicas de maior repercussão. O sucesso continuou no ano seguinte com lançamento de outro LP, aproveitando a grande vendagem do anterior, intitulado Gostoso Demais. O título haveria de render mais frutos e, em 1990, lançou outro disco com o título Aqui Tá Ficando Bom.

E realmente estava. Não durou muito tempo o surgimento das premiações: em 2002, foi vencedor do Grammy Latino com o CD Chegando de Mansinho. Após 5 anos sem lançar um trabalho solo, voltou a gravar pelo selo Eldorado o disco Conterrâneos e foi agraciado com o Prêmio TIM (2007) na categoria Melhor Cantor Regional. Em 2007, concorreu ao 8º Grammy Latino com mesmo álbum na categoria melhor disco regional. Em 2008, foi o grande homenageado do Prêmio Tim de Música Brasileira. Em 2010, foi o vencedor do Prêmio Shell de Música. Em 2012, foi novamente agraciado com um Grammy Latino: Melhor Álbum de Raiz Brasileiro, com o CD e DVD Iluminado. Ao todo, foram 47 discos gravados, muitos deles em parceria com os principais cantores do Brasil, além de renomados instrumentistas como Yamandú Costa em discos de 2007 e 2010. Seu último disco gravado recebeu um título apropriado: Iluminado. Em fins de 2012, houve uma grande comemoração do centenário do nascimento de Luiz Gonzaga. Durante o show no dia centenário, 13 de dezembro, realizado em sua terra natal, Exu (PE), Gilberto Gil reiterou um comentário feito antigamente: “Dominguinhos teve a herança do Gonzaga, que ele incorporou, através das canções, dos estilos, o gosto pelo xote, xaxado”.

Por essa época já vinha lutando contra um câncer de pulmão e apresentava problemas relacionados a arritimia cardiaca e foi internado no Hospital Santa Joana, no Recife, em dezembro de 2012. Um mês depois foi transferido para o Hospital Sírio-Libanês em São Paulo. No decorrer dos meses seguintes seu quadro se agravou, tendo sofrido várias paradas cardíacas. Em março seu filho Mauro declarou à imprensa que o cantor não deveria mais retornar do coma em que se encontrava. Em julho, ocorreu uma breve melhora e deixou a UTI, mas permaneceu internado, com quadro considerado estável. Poucos dias depois o quadro se agravou novamente, voltou para a UTI e faleceu em 23/7/2013. Seu velório foi realizado na Assembleia Legislativa de Pernambuco, e recebeu inúmeros artistas e autoridades. Apenas dois dias após seu falecimento, recebeu homenagem em show realizado em Recife por Elba Ramalho, Fagner, Geraldo Azevedo, Nando Cordel, Jorge de Altinho, Flávio José e outros artistas.

Devido a uma disputa judicial entre os familiares, quanto ao local do sepultamento, seu corpo teve dois sepultamentos. O primeiro foi no “Cemitério Morada da Paz” em Paulista, Região Metropolitana do Recife. Pouco depois foi encontrada uma entrevista dada ao radialista Geraldo Freire, da Rádio Jornal do Comércio, no Recife, onde expressou o desejo de ser sepultado em sua cidade natal. Dois meses depois, em 26 de setembro, seu corpo foi transferido para Garanhuns, onde foi sepultado no “Cemitério São Miguel”, com as devidas honras num cortejo com milhares de pessoas, organizado pelo governo municipal. Na lápide do mausoléu foi colocada sua foto em aço escovado, com a legenda “De volta pro meu aconchego”, trecho de uma de suas músicas mais conhecidas, expressando seu desejo. Em 2014, a prefeitura realizou o 1º “Festival Viva Dominguinhos”, evento musical anual incorporado ao calendário turístico da cidade no mês de abril.

3 Comentários

  1. Cícero Tavares disse:

    EXCELENTE ARTIGO, MEU CARÍSSIMO COLUNISTA JOSÉ DOMINGOS BRITO, sobre esse gênio de Garanhuns.

    O nobre colunista como sempre com sua verve de grande pesquisador nos brindando com mais essa pérola!

    Só lamentei uma coisa na passagem desse excelente artigo-lembrança-eterna: a destruição das 150 fitas cassete com melodias inéditas feita pela grande cantora Anastácia, numa fúria separatista, conforme declaração dela mesmo em 2013.

    Imagino quantas obras-primas queimadas no jogo mesquinho da separação!

    Continue a escrever, nobre pesquisador! Há muita gente boa por aí que carece de aparecer com a pena da sua sensibilidade!

    Feliz 2018, com muita saúde e disposição e amor a arte musical que não lhe falta!

  2. Quincas disse:

    Bonito e merecido..

Deixe o seu comentário!


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa