Capiba 1904-1997

Lourenço da Fonseca Barbosa nasceu em Surubim, em 28/10/1904. Músico e mais conhecido compositor de frevos do Brasil. Não obstante ter composto mais de 200 canções, que vão do samba à música erudita, é com o frevo que ficou marcado na memória musical brasileira. Poucos sabem que é o autor de Maria Betânia (1944), a canção que tanto agradou Caetano Veloso, ainda criança, fazendo com que ele insistisse com a mãe, Dona Canô, para que ele desse esse nome à irmã que estava para nascer em 18/6/1946. Filho de Severino Atanásio de Souza Barbosa, mestre de banda, orquestrador, arranjador, tenor de igrejas, clarinetista e violonista. Aos 8 anos já tocava trompa, e mesmo antes de aprender a ler, já entendia uma partitura. Com dez anos tocava vários instrumentos de sopro e participava, junto com os irmãos, da banda “Lira da Borborema”, dirigida pelo pai, em Itaperoá (PB).

Em 1914, a família mudou-se para Campina Grande (PB), onde o pai foi dirigir a “Charanga Afonso Campos”. Pouco depois substituiu a irmã, que tocava piano no cinema Fox. Jamais havia enfrentado um piano. Em 10 dias aprendeu a tocar 7 valsas dedilhadas. Com 16 anos tornou-se pianista profissional, dando vida e voz aos heróis do cinema mudo. Daí em diante, passou a dividir seu tempo entre o piano e o futebol, no qual chegou a se destacar, integrando times profissionais da cidade (América e Campinense Clube). Aos 20 anos, foi obrigado pela família a trocar a música e o futebol pelos estudos.

Mudou-se para João Pessoa PB, onde se matriculou num liceu. Mesmo contrariando a opinião dos pais, não abriu mão da música e compôs sua primeira composição, a valsa Meu destino, em 1925. Em seguida morreu o pianista do Cine Rio Branco, o principal da cidade. Assim, no mesmo ano, tornou-se pianista do cine Rio Branco, mas logo surgiu o filme sonoro e ele sentiu que seu emprego teria vida curta. Depois de fundar uma orquestra de baile, para atuar no Clube Astréia, e um conjunto, o Jazz Independência, venceu em 1929, com o tango Flor das ingratas, um concurso patrocinado pela revista “Vida Doméstica”, do Rio de Janeiro, que o publicou em fevereiro do ano seguinte.

Em 1930 participou do concurso carnavalesco da Casa Edison, classificando-se em quarto lugar com o samba Não quero mais (com João Santos Coelho Filho), gravado para o Carnaval desse ano por Francisco Alves. Foi sua primeira música gravada com o pseudônimo de José Pato.

No mesmo ano, deixou João Pessoa, seguiu para Recife, onde entrou, por concurso, no Banco do Brasil, mas não deixou a música. Ou melhor, se empenhou mais ainda aproveitando seu exíguo tempo para isso. Em 1931 fundou a Jazz-Band Acadêmica, formada por estudantes universitários, e que destinava à Casa do Estudante Pobre toda a renda auferida em bailes.

Em 1932 compôs a Valsa verde (com Ferreira dos Santos), apresentada pela Jazz-Band Acadêmica na festa de formatura dos alunos de medicina. A orquestra, da qual era regente e pianista, tornou-se uma das mais famosas de Recife, apresentando-se também em outros Estados.

Ainda em 1932 compôs, com Ascenso Ferreira, o maracatu É de tororó, que, depois de se tornar um sucesso em Recife, foi levado para o Rio de Janeiro, sendo incluído numa revista de Jardel Jércolis, que excursionou pelo Brasil, Espanha e Portugal. A experiência ao lado dos acadêmicos fez com que se interessasse em cursar direito, sem deixar de lado a música e o trabalho no banco. Nesse ambiente conheceu Hermeto Pascoal e Sivuca, com os quais fundou o trio “O Mundo Pegando Fogo”. Em 1934 venceu o concurso de frevo, promovido pelo Diário de Pernambuco, com o frevo-canção É de Amargar, gravado por Mario Reis, uma de suas composições mais famosas. Em 1936, seu frevo-canção Manda embora essa tristeza foi gravado por Araci de Almeida.

Dois anos depois, formou-se em advocacia pela Faculdade de Direito do Recife, mas nunca foi buscar o diploma. Em vez disso, foi buscar a premiação de um concurso de tangos em João Pessoa. A atividade musical vai se intensificando e se diversificando até 1943, quando compôs a canção Maria Bethânia, feita para a peça Senhora de Engenho, de Mário Sette, dirigida por Hermógenes Viana. No ano seguinte, a canção foi gravada por Nelson Gonçalves e se tornou conhecida em todo o país.

No período 1947-48, compôs uma série de músicas para peças teatrais, na época em que os escritores Hermilo Borba Filho e Ariano Suassuna fundaram o Teatro de Estudantes de Pernambuco e, mais tarde, o Teatro Popular do Nordeste, do qual foi presidente.

Tomou gosto pelo teatro e do final da década de 1940 até meados da década de 1960, compôs músicas para diversas peças: Haja pau (de José de Morais Pinho) e Mãe da lua (de Hermilo Borba Filho), para o Teatro de Bonecos; Amor de dom Perlimpim com Belisa em seu jardim (de Federico García Lorca), para o Teatro de Estudantes de Pernambuco; A pena e a lei (de Ariano Suassuna); Mandrágora (de Maquiavel), Viola do Diabo (da pintora Ladjane), encenadas pelo Teatro Popular do Nordeste; e O coronel de Macambira (de Joaquim Cardoso), pelo Teatro do Ministério da Educação e Saúde, entre outas.

Também musicou vários poemas de autores brasileiros: Castro Alves, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Ariano Suassuna, Manuel Bandeira, Ascenso Ferreira, Mauro Mota, Alphonsus de Guimarães, Jorge de Lima, João Cabral de Melo Neto, Carlos Pena Filho e Ferreyra dos Santos, com quem compôs a “Valsa Verde”, que fez grande sucesso. Em 1949 conheceu o maestro Guerra-Peixe, quando este foi trabalhar na Rádio Clube do Recife. Com ele estudou harmonia e composição erudita, passando a compor um concerto para piano, outro para flauta, um trio para violão, violino e celo, e uma suíte para piano, orquestrada por Guerra-Peixe. Seu concerto para flauta, dedicado a Esteban Ester, foi executado pelo próprio flautista no Brasil, Uruguai, Chile, Argentina e França.

Em 1950, no concurso da prefeitura de Recife para a comemoração do primeiro centenário do Teatro Santa Isabel, vencido por Guerra-Peixe, obteve o segundo lugar com uma abertura solene para orquestra sinfônica. No mesmo ano compôs o maracatu Elefante, mais tarde gravado na França.

Em 1957 compôs, para o Carnaval, o maracatu Nação Nagô. Após 30 anos de serviço, aposentou-se do Banco do Brasil em 1961. Incentivado pela artista plástica Lidjane Bandeira, passou a dedicar-se ao hobby da pintura, ao mesmo tempo em que inscreve suas composições em festivais de música popular.

Em 1964, alcançou em todo o Brasil seu maior sucesso da década, com o samba-canção A mesma rosa amarela (letra do poeta pernambucano Carlos Pena Filho). Dois anos depois, sua composição Dia de festa ficou entre as finalistas do I FIC-Festival Internacional da Canção, da TV-Rio, do Rio de Janeiro. No ano seguinte, no II FIC, da TV Globo, obteve o quinto lugar e medalha de ouro com seu samba-baião São os do Norte que vêm, com letra de Ariano Suassuna. Em 1968 concorreu no III FIC com A cantiga de Jesuíno (letra de Ariano Suassuna) e o samba-afro Por causa de um amor. Compôs ainda diversas canções e músicas para a Orquestra Armorial de Pernambuco: Sem lei nem rei, e para o Quarteto Armorial: Toada e desafio. No início dos anos 1970, foi eleito patrono do Movimento Armorial, e recebeu títulos de Cidadão Benemérito de Olinda, Recife e Campina Grande.

Em 1984, ao completar 80 anos, seu grande amigo e admirador, Hermínio Bello de Carvalho, produziu um belíssimo disco e sendo tema do concurso de monografias Lucio Rangel, teve um estudo sobre sua vida e obra publicada pela Funarte-Fundação Nacional de Arte. No ano seguinte, outro grande amigo, Leonardo Dantas Silva, diretor de assuntos culturais da Fundarpe, estimulou-o a escrever um livro sobre sua vida e obra. Assim, em 1985, foi lançado Capiba: o livro das ocorrências, no qual recorda fatos e ocorrências de sua vida, numa linguagem solta como se estivéssemos a ouvi-lo em seu linguajar e sotaque característicos.

Capiba produziu uma obra caudalosa. São mais de 200 composições gravadas, das quais cerca de metade são frevos. Entre as não gravadas, estima-se que tenha deixado umas 400 composições inéditas, entre frevos, canções e peças eruditas. Desesperada Solidão (1983) foi uma das suas últimas canções. Faleceu em 31/12/1997. Em 2014, com o objetivo de marcar os 110 anos do multiartista, o SESC do Recife prestou-lhe uma homenagem diferenciada, apresentando uma exposição de suas pinturas, denominada “Simplesmente Capiba”. Em 2017, autoridades municipais e estaduais manifestaram a intenção de criar dois museus dedicado à memória de Capiba. São projetos que, infelizmente, se desenvolvem em separado: em Surubim e no Recife. Em sua cidade, o Ministério da Cultura, juntamente com a diretoria da Associação Cultural Capiba, noticiou esta intenção no início do ano. No Recife, o governo do Estado realizou o tombamento de sua casa no bairro do Espinheiro, em outubro, e está desenvolvendo o projeto de transformá-la em museu. Dizem que poucas personalidades brasileiras têm mais de três biografias. Além da autobiografia Capiba: o livro das ocorrências, ele tem cinco. Entre elas vale destacar uma publicada em 1984, a de seu amigo Carlos Eduardo Carvalho dos Santos – Capiba: sua vida e suas canções – , também meu amigo e colunista deste Jornal da Besta Fubana.

7 Comentários

  1. Quincas disse:

    Brito, dessa vez botou para lascar…..

    • J.D. Brito disse:

      Quincas

      Eu e você somos os biógrafos da Besta Fubana. Você mais na música e eu no resto. Mas agora tive que entrar na música também. Mas nunca é demais louvar o frevo.

      Grato pelo estímulo e abração

  2. Caio disse:

    Muito bom, Brito!

  3. Carlos Eduardo Carvalho dos Santos disse:

    Brito,

    Muito grato pela referência ao meu livrinho que na verdade foi o primeiro trabalho biográfico editado sobre o Mestre, antes mesmo do dele – O LIVRO DAS OCORRÊNCIAS – que veio a público em 1985.

    Poucos, porém, notaram a gozação logo no título, pois, nas Delegacias de Polícia existe o LIVRO DE OCORRÊNCIAS e Capiba grafou: DAS OCORRÊNCIAS.

    Já se vê que era mesmo um gênio, não só escrevendo pautas musicais e versos para suas músicas, mas igualmente em tudo quanto era esculhambação que viesse a provocar sorrisos.

  4. J.D. Brito disse:

    O recado acima não sei porque repetiu. Mas quero dizer que o Carlão é o primeiro e único amigo de Capiba que se tornou seu biógrafo

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