Ulisses Pernambucano 1892-1943

Ulisses Pernambucano de Mello Sobrinho nasceu no Recife, em 6/2/1892. Médico neurologista e psiquiatra, e professor procedente de uma tradicional família pernambucana. Realizou os primeiro estudos no Ginásio Aires Gama e partiu para o Rio de Janeiros, onde foi diplomado pela Faculdade de Medicina em 1912. Escolheu a psiquiatria como especialidade e foi médico-residente do Hospital Nacional de Alienados, tendo como supervisor o prof. Juliano Moreira, o fundador da psiquiatria brasileira. Em seguida defendeu a tese Sobre algumas manifestações nervosos da Heredo-Sífiles, obtendo o grau de Doutor em Medicina.

De volta a Pernambuco, abriu um consultório na cidade de Vitória de Santo Antão, onde em decorrência das precárias condições de vida e das necessidades da população, atuou também como médico generalista. Em 1914, transferiu-se para cidade paranaense de Lapa, já consolidado profissionalmente. Casou, em 1915, com a doutora Albertina Carneiro Leão, sua prima. Com saudades de sua terra, amigos e parentes retornou ao Recife em 1916. Dois anos após, concorreu à recém-criada cadeira de Psicologia e Pedagogia, na Escola Normal Oficial de Pernambuco. Obteve o 1ª lugar no concurso, mas por questões politicas, o governador Manuel Borba nomeou o 2ª colocado.

No mesmo ano, prestou concurso para professor de Lógica, Psicologia e História da Filosofia no Ginásio Pernambucano, obtendo, de novo, o 1º lugar. Assumiu o cargo de professor catedrático no Ginásio onde mais tarde foi Diretor. Em 1923, foi nomeado Diretor da Escola Normal, em cuja função se manteve até 1927. Teve uma gestão marcada por reformas de caráter social: introduziu o exame de seleção para admissão à Escola Normal, quando anteriormente o ingresso nesse estabelecimento obedecia a critérios de amizade ou apadrinhamento; criou um jornal, a merenda escolar, os exames de promoção por média em conjunto, entre outras medidas.

Antes de criar o Instituto de Psicologia, em 1925, preparou o pessoal para lidar com o trabalho a ser iniciado e como diretor reuniu pessoas interessadas nessa área, como Anita Paes Barreto, que assumiu a direção da Escola Normal. Em 1930 assumiu a direção do Ginásio Pernambucano e dois anos depois passou a dirigir o Hospital da Tamarineira, que apresentava, na época, aparelhamento insuficiente e métodos terapêuticos inadequados. Tomou a tarefa de reformar o hospital e enfrentou políticos e poderosos da época. Uma das primeiras medidas foi retirá-lo do controle da Provedoria da Santa Casa de Misericórdia e passá-lo para a gestão do Estado. Por essa época foi também professor de Neuro-Psiquiatria e Clínica Neurológica na Faculdade de Medicina do Recife.

Sua filosofia de trabalho estava assentada na integração dos conhecimentos de Antropologia e Sociologia aplicado na prática e no ensino da Psiquiatria. Advogava uma Psiquiatria com laços com seu meio social e preconizava que o psiquiatra fosse um defensor do doente mental, destacando a necessidade de garantir cuidados básicos de higiene e alimentação aos enfermos e o registro clínico completo das observações médicas. Tal orientação tinha como base as ideias preventivas de higiene mental, divulgadas por Clifford Beers, em seu livro Um espírito que achou a si mesmo (1908), que motivou a criação de “serviços de higiene mental” pelo mundo.

Teve atuação destacada em defesa das minorias marginalizadas, tais como, crianças excepcionais, doentes mentais, negros e adeptos de seitas africanas. Com este posicionamento e tendo em vista a “intentona comunista de 1935”, que se anunciava, foi acusado de comunista, gerando conflitos e redução das verbas para manutenção da qualidade do atendimento aos pacientes. Cansado de enfrentar forças poderosas, chega ao seu limite e em 8/11/1935, pede demissão do cargo de diretor da instituição que implantara. Dias depois é considerado persona non grata ao regime de força então vigente, e detido e preso na Casa de Detenção do Recife, por 60 dias.

Em 1936, cansado das perseguições e injúrias, sofre um ataque cardíaco, que comprometeu seu coração. Mesmo assim, em julho do mesmo ano, fundou o Sanatório Recife, instituição modelar de prestação de serviços aos doentes mentais. É o primeiro do Estado no âmbito da iniciativa privada, e logo se tornou um importante centro psiquiátrico. Em 1937, um grupo fiel de colaboradores, se solidarizou publicamente com o “Mestre” e publicou os Estudos Pernambucanos, dedicados a Ulysses Pernambucano. Acolheu em seu Sanatório muitos de seus discípulos, como Arnaldo Di Lascio, René Ribeiro, Luiz Cerqueira, entre outros, os quais se tornaram posteriormente expoentes na psiquiatria pernambucana. Sua última iniciativa, infelizmente não concluída, foi a seleção, em Pernambuco, dos elementos componentes do Corpo Expedicionário Brasileiro, mediante uma triagem psicométrica e reclassificação dos soldados nas armas e serviços, mediante provas de seleção profissional.

Como propugnador da cooperação científica, atuou nesse campo criando a Liga de Higiene Mental de Pernambuco e a Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste Brasileiro. Foi membro correspondente da Sociedade Brasileira de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal (RJ); sócio efetivo e ex-presidente da Sociedade de Medicina de Pernambuco; sócio efetivo e ex-presidente do Sindicato dos Médicos de Pernambuco; fundador e presidente da Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Brasil; membro-correspondente da Academia Nacional de Medicina; Membro honorário da Sociedade de Psiquiatria e Medicina Legal de La Plata (Argentina); fundador da revista “Neurobiologia”, que hoje é a mais antiga revista de Psiquiatria do Brasil. Em termos de obras publicadas, sua produção é significativa, onde destacam-se as obras Bases fisiológicas da ambidestria (1924), As medidas de estatura dos escolares de Pernambuco (1927), As doenças mentais entre os negros de Pernambuco (1935).

Seu primo Gilberto Freyre costumava dizer que ele era mais pernambucano do que muitos, pois trazia isso no próprio nome. Sua última contribuição para a Psiquiatria brasileira se deu na abertura do III Congresso da Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste, realizado em Natal, em outubro de 1943, com a conferência de abertura, intitulada “A ação social do psiquiatra”. Faleceu dois meses depois, ainda jovem, em 5/12/1943. 40 anos depois, em 1983, o Hospital da Tamarineira recebeu o nome de “Hospital Ulisses Pernambucano”.

3 Comentários

  1. Carlos Eduardo Carvalho dos Santos disse:

    Li, há poucos dias, um livrocom referências a ele.

    Bom trabalho, Britão.

    Você é mesmo um missionário biográfico.

    Beijoca do Kadu.

  2. J.D. Brito disse:

    Carlão

    Eu inclui o Ulisses na Galeria dos Iustres Pernambucanos porque você fez a sugestão. Desse modo,quem rezou a missa foi você. Eu fui apenas o transmissor biográfico, o missionário é você

    Abração. e quero lhe dizer que esta Galeria ou Painel dois Ilustres Pernambucanos encerra dia 28/12, o fim do ano bicentenário da Revolução de 1817. Encerraremos com Luiz Gonzaga e Doinguinhos,mas antes incluiremos seu amigo Capiba, porque nessa festa tem que ter frevo.
    Oportunamente vou lhe pedir ajuda na feitura do verbete biográfico do Capita;

    Abração e muito obrigado

    Brito

  3. J.D. Brito disse:

    Carlão

    Eu inclui o Ulisses na Galeria dos Iustres Pernambucanos porque você fez a sugestão. Desse modo,quem rezou a missa foi você. Eu fui apenas o transmissor biográfico, o missionário é você

    Abração. e quero lhe dizer que esta Galeria ou Painel dois Ilustres Pernambucanos encerra dia 28/12, o fim do ano bicentenário da Revolução de 1817. E

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