Joaquim Cardoso (1897-1978)

Joaquim Maria Moreira Cardoso nasceu no Recife, em 26/08/1897. Desenhista, editor, engenheiro, professor e poeta. Ultimamente vem sendo reconhecido mais como poeta do que engenheiro, devido a reedição de suas obras e, talvez, ao fato de haver mais glamour em ser poeta do que ser engenheiro. Mas, ele mesmo enxerga uma certa similitude entre os dois afazeres: “Não visualizo qualquer incompatibilidade entre poesia e a arquitetura. As estruturas planejadas pelos arquitetos modernos são verdadeiras poesias. Trabalhar para que se realizem esses projetos é concretizar uma poesia.” Foi o engenheiro responsável pelos cálculos que permitiram a construção dos mais importantes monumentos de Brasília e do Conjunto Arquitetônico da Pampulha, projetados por Oscar Niemeyer, que chamava-o “o brasileiro mais culto que existia”.

A infância e os primeiros estudos se deram em várias escolas do bairro Zumbi e no Ginásio Pernambucano, onde se encontrava entre os redatores do jornal “O Arrabalde”, em 1913. Talentoso desenhista, no ano seguinte já trabalhava como caricaturista do “Diário de Pernambuco”. O interesse pela literatura esteve sempre presente e suas primeiras poesias datam de 1924. Mas o primeiro livro – Poemas – surgiu apenas em 1947, devido a insistência dos amigos, prefaciado por Carlos Drummond de Andrade, um de seus incentivadores.

Em 1915 entrou na Faculdade de Engenharia, mas só foi diplomado quinze anos depois, devido a morte do pai e as dificuldades econômicas que o levaram a trabalhar como topógrafo na Comissão Geodésica do Recife, em 1919. Nesse trabalho conheceu boa parte do interior do Estado, e adquiriu experiência vivendo isolado no mato e aldeias indígenas, expondo-se a situações perigosas na mata do Engenho do Meio. Em 1923 passou uma curta temporada, na casa de sua irmã, conhecendo o Rio de Janeiro.

De volta ao Recife, reencontrou Benedito Monteiro, colega redator na época de “O Arrabalde”, agora modernista fervoroso e declamador de poetas como Luiz Aranha, Sergio Milliet e Oswald de Andrade. Antes da Semana de Arte de 1922, já havia no Recife um movimento precursor do Modernismo. Vem daí o apelido de “São João Batista do Modernismo”, atribuído a Manuel Bandeira. Por essa época desfrutou a vida boêmia literária nos cafés do Recife ao lado dos amigos Osório Borba, Luiz Jardim, Ascenso Ferreira, Olívio Montenegro, Manuel Bandeira e Gilberto Freyre, então de volta dos EUA.

De 1924 a 1925 foi diretor da “Revista do Norte”, e apurou seu gosto pelas artes gráficas, chegando a elaborar vinhetas e um alfabeto, cujas letras eram inspiradas em motivos nordestinos. A revista publicou seu poema mais famoso e de maior impacto na época: Recife morto, “elaborando no interior da linguagem poética a fascinação lírica de duas realidades contrárias: o Recife da tradição e o Recife da manhã vindoura”. Em 1927 voltou à Faculdade e concluiu o curso de Engenharia em 1930. Em seguida foi trabalhar na Diretoria de Architetura e Urbanismo-DAU, primeira instituição governamental criada no Brasil com essa finalidade. Além de Luiz Nunes, coordenador, a DAU contava com Burle Marx, que aí projetou seus primeiros jardins, e dos arquitetos João Correia Lima e Fernando Saturnino de Brito. Em 1935, a DAU se fez representar na Exposição do Centenário da Revolução Farroupilha, em Porto Alegre, tendo Luiz Nunes projetado o “Pavilhão de Pernambuco”. Foram exibidas todas as obras e projetos e um grande número de maquetes e essa mostra representa a primeira exposição de arquitetura moderna no Brasil.

Esta experiência pioneira foi interrompida pelo Golpe de Estado de 1937. A partir daí ele passa a elaborar o cálculo estrutural de grande parte dos edifícios modernos do Recife e dar aula na Escola de Belas Artes, que ajudou a fundar, em 1939, exercendo a cátedra de Teoria e Filosofia da Arquitetura. Sobre este período, declarou: “Tive a oportunidade de colaborar com arquitetos que chegaram a aliar instintivamente a consciência perfeita do meio físico ao espírito tradicional, conseguindo, ao mesmo tempo, os melhores efeitos plásticos do concreto armado. …Foram utilizados todos os elementos arquitetônicos novos, a coberta-terrasse, o pilotis, as janelas de grandes vãos, a cor como elemento modificador do espaço e da iluminação, a estrutura independente etc., assim como o emprego de estruturas especiais para a realização de formas puras, que somente com o concreto se pode realizar e que são soluções mais livres e perfeitas… E se procurou integrar os edifícios na paisagem…” “Os volumes e superfícies vazados, que antigamente eram resolvidos com as venezianas, foram criados agora com o emprego justo e adequado de um material pernambucano por excelência: o combogó… Estas superfícies de combogó, atuando nas fachadas muito insoladas, como verdadeiro ‘brise-soleil’, produzem desenhos caprichosos de sombra e luz, de bom efeito decorativo.”

Em 1938 foi à Europa, viajando pela França, Portugal e Espanha em plena guerra civil. Na volta, reassumiu seu emprego no Departamento de Obras Públicas. No ano seguinte foi escolhido pelos alunos como paraninfo da turma da Escola de Engenharia de Pernambuco. Seu discurso na solenidade de formatura não agradou o interventor do Estado e foi “convidado” a fazer uma estrada em pleno sertão. Sua recusa custou-lhe a demissão do emprego. Passou um tempo curtindo a literatura e a vida boêmia com os amigos no Recife e, em 1940, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi trabalhar com Rodrigo de Melo Franco no Serviço do Patrimônio Histórico.

Em 1941, foi convidado por Oscar Niemeyer para fazer os cálculos estruturais no conjunto da Pampulha, um momento de grande importância na formação da Arquitetura Moderna Brasileira, sobre o qual ele se manifestou mais tarde: “O uso frequente das linhas curvas, no Cassino, na Igreja e na Casa do Baile, que se manifesta definitivamente na ‘forma aerodinâmica’… numa intenção de leveza, de desligamento do solo e das condições materiais, e mais ainda numa sugestão de efeito dinâmico. Compreendendo, já nessa época, que as imposições orgânicas a que está sujeita a boa arquitetura não definem categoricamente a sua forma; antes, deixam-na ainda indeterminada, ele alcança, partindo daquelas premissas indispensáveis, uma expressão mais pura, mais simples, mais fácil de ver, provocando também um movimento de admiração e surpresa.”

No Rio de Janeiro dos anos 40, a parceria Cardoso-Niemayer é efetivada, contando com outras amizades, que formam o “Grupo do Patrimônio”, com reuniões semanais na casa de Rodrigo de Melo Franco. Aproxima-se também do grupo, escritores pernambucanos residentes no Rio, em especial João Cabral de Melo, que todos os dias ia ao seu escritório, Manoel Bandeira, Eustáquio Duarte e Evaldo Coutinho. Foi esse grupo que promoveu a edição do seu primeiro livro, Poemas, em comemoração ao seu cinquentenário.

Antes de rumarem para a construção de Brasília, o Grupo do Patrimônio finca suas bases fundando a revista “Módulo”, em 1955, uma referência na moderna arquitetura brasileira. Aprofundando as afinidades políticas com Niemayer, ele passa a colaborar com o quinzenário “Paratodos”, dirigido pelos irmãos Jorge e James Amado, um jornal de cunho essencialmente político.

A partir de 1956, passa a dirigir a Seção de Cálculo Estrutural do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Novacap. Trata-se de uma equipe de 5 calculistas e 12 desenhistas trabalhando em período integral na projeção dos principais edifícios da nova capital federal. Um dos desafios foi fazer a cúpula da Câmara dos Deputados parecer que flutuava, apoiando-a numa laje, como se estivesse apenas tocando-a. Para isso, pesquisou os mais diferentes tipos de estrutura. Dominando inglês, alemão, russo e francês, acessou as mais recentes experiências e casos analisados e resolvidos por diversos autores, físicos e matemáticos, o que exigiu muito esforço e audácia do calculista e sua equipe. Outros desafios eram a esbeltez dos perfis e reduzidas seções dos pontos de apoio das colunas dos palácios de pórticos e da catedral. Hoje quando se fala de Brasília, os gênios exaltados são apenas Niemayer e Lúcio Costa, esquecendo-se do calculista que fez aquelas belas estruturas permanecerem em pé.

Em 1967 aposentou-se como servidor público e permaneceu trabalhando no seu escritório até 1972, logo depois da tragédia ocorrida com o desabamento do Pavilhão da Gameleira, em Belo Horizonte, causando a morte de 68 operários. Uma obra do governo estadual, projetada por Niemayer e calculada no seu escritório. O fato deixou-o transtornado mesmo sendo provado que não teve culpa alguma no acidente. Mesmo assim, foi inicialmente condenado, em março de 1974, a dois anos e dez meses de prisão. Seu advogado Evandro Lins e Silva conseguiu provar sua inocência e foi absolvido. A tragédia e a peleja judiciária causaram-lhe uma profunda depressão, não encontrando mais condições psicológicas para o trabalho.

Pouco antes disso, em 1973, foi morar junto aos familiares, no Recife. Recebeu diversas homenagens e manifestações de solidariedade de entidades culturais e estudantis: eleito para a Academia Pernambucana de Letras, em 1975; sócio benemérito do IAB-Instituto dos Arquitetos do Brasil; doutor honoris causa pela UFPE; Prêmio Auguste Perret, da União Internacional de Arquitetos; denominação de diversos logradouros, escolas e teatro em Pernambuco. Ao completar 80 anos, em 1977, doou sua biblioteca de quase oito mil volumes à UFPE, passou uma temporada ao lado do seu amigo Niemayer, no Rio e retornou ao Recife, onde veio falecer em 4/11/1978. Deixou diversos livros inacabados, que foram publicados posteriormente. Entre as obras literárias, destacam-se: Poemas (1947), O coronel de Macambira: bumba meu boi (teatro) (1963), Poesia completa (1971), Os anjos e os demônios de Deus (1973), O interior da matéria (1976).

Perambulando pelo Recife encontro o poeta na ponte, que me concedeu esta foto

2 Comentários

  1. laurindo junqueira disse:

    Brito: com esse currículo, esse cabra só pode ter pertencido à “Escola de Matemática do Ricifi”, órgão inexistente como “hardware”, mas sim como “software”, já que produziu matemáticos importantíssimos e que se espalharam pelo mundo todo. Pra fazer os cálculos estruturais das obras de Niemayer numa época em que não havia computadores suficientemente potentes para fazer cálculos de equações diferenciais (que tinham que ser feitos “na unha”), o cara tinha mesmo que ser muito bão!

    Além disso, “diz-me com quem andas e te direi quem és”, óh! Brito! Foi esquecimento teu não ter dito, ou esse cabra era mesmo um comunista da glória? Andar com Niemayer e ser defendido por Evandro Lins e Silva deve ter sido altamente suspeito para o DIP de Getúlio…
    Abçs.

  2. J.D. Brito disse:

    Antes de rumarem para a construção de Brasília, o Grupo do Patrimônio finca suas bases fundando a revista “Módulo”, em 1955, Laurindo
    Não disse que o cabra era comunista, porque o termo hoje anda em baixa, mas falei de suas afinidades políticas com Niemayer e sua colaboração com o quinzenário “Paratodos”, dirigido pelos irmãos Jorge e James Amado, um jornal de cunho essencialmente político.
    Só tem comunista aí. Que saudade daqueles tempos, né não? Quanto ao matemático, concordo contigo, o cabra não era fraco não!!!!

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