MARIO SCHENBERG (1914-1990)

Nasceu no Recife, em 02/07/1914. Porém há informação segura que nasceu em 1916. A data foi alterada visando a entrada na escola mais cedo do que o permitido. Físico, crítico de arte, político, pacifista e fotógrafo. Concluído os cursos primário e secundário, entrou na Faculdade de Engenharia do Recife em 1931. No 3º ano foi transferido para a Escola Politécnica, em São Paulo, sob a influência de seu professor Luís Freire, notável instigador de talentos. Em 1935 formou-se em engenharia elétrica e, no ano seguinte, em matemática na recém fundada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras-FFCL. Neste período esteve em contato direto com os professores Giuseppe Occhialini, Giacomo Albanese, Luigi Fantappié e Gleb Wataghin, que o convida para desempenhar a função de preparador de física geral e experimental na Escola Politécnica. Em 1937 deixou esse cargo para se tornar assistente de física teórica da FFCL.

A diversificação de interesses data de sua infância e foi influenciada pelas viagens feitas com seus pais à Europa. Desde cedo mostrou também notável capacidade para a matemática, encantando-se com a geometria, que teve forte influência em seus trabalhos posteriores. O interesse pela política, e particularmente o marxismo, começou também na adolescência.

Como pode uma pessoa ter se destacado em áreas tão distintas como a ciência, as artes e a política? Para saber sobre o “físico que estudava as artes com o olhar de cientista e pesquisava a física com a criatividade da arte”, uma historiadora realizou uma pesquisa de fôlego sobre sua produção na área científica e nas artes. A conclusão a que chegou é que a arte surgiu primeiro em seu horizonte. “Quando o jovem Schenberg abriu seus horizontes para a geometria, era pela razão de o auxiliar na utilização de suas percepções visuais”.(¹)

Em 1939 partiu para a Europa, onde passou uma breve temporada trabalhando no Instituto de Física da Universidade de Roma com o físico italiano Enrico Fermi; em Zurique, com Wolfgang Pauli e em Paris com Frédéric Joliot-Curie no Collège de France. Em 1940, já de volta ao Brasil, obteve uma bolsa da Fundação Guggenheim para passar uma curta temporada nos EUA, junto ao astrofísico George Gamow. Aí fez uma de suas principais descobertas: o “Processo Urca”. Trata-se de um estudo para entender o colapso de estrelas supernovas.

Outra de suas descobertas recebeu o nome de “Limite Schenberg-Chandrasekhar”, realizada num trabalho junto com o físico indiano Subrahmanyan Chandrasekhar. Schenberg calculou, em 1942, a massa que pode ter o núcleo de uma estrela em que não mais ocorram reações de fusão nuclear, mas que consiga suportar o peso das camadas mais externas. Para um núcleo de hélio, valores típicos desse limite são de 10% a 15% da massa da estrela. Devido a tais descobertas, Albert Einstein o apontou como um dos dez mais importantes cientistas de sua época. É considerado, ainda hoje, o maior fisico teórico do Brasil.

Em 1944 já exercia a crítica de arte de modo regular; mais dois anos é contratado para inaugurar a cadeira de Mecânica Racional e Celeste da FFCL, atual instituto de Física da USP. Isto confirma o modo simultâneo como exercia ambas as atividades. Anos mais tarde, dirigiu por oito anos o Departamento de Física da Universidade de São Paulo-USP (1953-1961). Seu curriculum na área científica é extenso: Trabalhou com mecânica quântica, termodinâmica e astrofísica. Publicou mais de uma centena de trabalhos em física teórica, física experimental, astrofísica, mecânica quântica, mecânica estatística, relatividade geral, teoria quântica do campo, fundamentos de física, além de escrever muitos trabalhos em matemática. Foi membro do Institute for Advanced Studies de Princeton e do Observatório Astronômico de Yerkes. Em Bruxelas, trabalhou em raios cósmicos e mecânica estatística. Criou o Laboratório de Estado Sólido da USP, instalou o primeiro computador da universidade, criando o curso de computação, e presidiu a Sociedade Brasileira de Física de 1979 a 1981.

Em 1969 foi o único latino-americano convidado para um congresso internacional sobre física de altas energias, em Kioto, Japão. Neste mesmo ano foi aposentado compulsoriamente pelo Governo, através do Ato Institucional nº 5. Na área política seu envolvimento não foi menos intenso, sendo eleito duas vezes deputado estadual de São Paulo (1946 e 1962) pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em 1947, sob a liderança do economista e empresário Caio Prado Júnior, a bancada aprovou o Artigo 123 da Constitução do Estado de São Paulo, instituindo os fundos de amparo à pesquisa no estado para impulsionar o seu desenvolvimento científico e tecnológico. Esse projeto levou mais tarde à concepção da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Era considerado um orador influente, chegando a mudar a orientação da bancada por diversas vezes. Devido a tais atividades, foi cassado e preso mais de uma vez pela ditadura militar brasileira.

Após a aposentadoria compulsória é proibido de frequentar a USP e passa por um período de isolamento e cerceamento de qualquer atividade política-social. Este período é compartilhado com sua amiga e conterrânea Clarice Lispector numa carta: “Desde 1970, minha situação geral se modificou bastante, em consequência do isolamento em que passei a viver, como resultado de minha aposentadoria e da impossibilidade de exercer a crítica de arte militante. Foi um desafio tremendo, mas creio que pude reagir de um modo criativo, não só retomando com maior energia as pesquisas anteriores sobre teoria da Gravitação e o problema das relações entre Física e Geometria, como também fazendo estudos filosóficos mais sistemáticos. Publiquei três trabalhos longos de Física, e aprofundei bastante o meu pensamento sobre Arte. Agora estou escrevendo um pequeno ensaio sobre a crise atual das artes plásticas, que talvez seja um ponto de partida para um ensaio mais longo”.

Como crítico de arte mantinha grande interesse por artes plásticas, tendo convivido com artistas brasileiros como Di Cavalcanti, Lasar Segall, José Pancetti, Mário Gruber, Cândido Portinari, Antonio Bandeira, Carlos Scliar etc. e também estrangeiros, como Bruno Giorgi, Marc Chagall e Pablo Picasso. Escreveu diversos artigos sobre artistas contemporâneos brasileiros como Alfredo Volpi, Lygia Clark e Hélio Oiticica etc.

Era considerado um “mecenas das artes” não no sentido de financiar artistas, pois não era rico; e sim de aconselhá-los e ampará-los num período difícil da política brasileira. Foi casado com Julieta Bárbara Guerrini, ex-mulher do poeta Oswald de Andrade, e com a artista plástica Lourdes Cedran. Teve uma única filha, a geneticista Ana Clara Guerrini Schenberg. Em 1979, com seus direitos políticos reabilitados com a abertura que se nciava, voltou para a USP e lecionou alguns cursos. Recebeu o título de Prof. Emérito em 1982 e, em 1984, foi homenageado com um Simpósio Internacional, no Instituto de Física, e a publicação de um número especial da Revista Brasileira de Física pelos 70 anos. Pouco depois, os sintomas de uma doença degenerativa acentuaram-se. Faleceu em 10 de novembro de 1990.

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(¹) VEIRA, Alecsandra Matias de. Schenberg – Crítica e Criação. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. 

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6 Comentários

  1. Carlos Eduardo Carvalho dos Santos disse:

    Brito,

    Você desenvolve um belo trabalho.

    Bote nossa terra pra frente, a fim de mostrar ao Brasil e ao mundo que Pernambuco é de fato imortal.

  2. Jonas disse:

    Grande Mario Schenberg, foi muito bem relembrado pelo ilustre Brito! Continue escrevendo sobre o belíssimo estado de Pernambuco, adoro conhecer mais sua cultura e seus representantes.

    • jose Domingos de Brito disse:

      Legal, Jonas
      Não perco a esperança de ainda morar mesmo que seja um pouco por lá e espero sua visita

      • jose Domingos de Brito disse:

        Recebi este e-mail de Plinio Assmann, fundador do Metrô de São Paulo
        ——————————————-
        Schenberg
        Para mim foi uma excelente recordação. Estive 1 ou 2 vezes no apartamento dele em Higienópolis enquanto era estudante da Politécnica.
        O assunto era a Física, principalmente. Eu tinha escolhido a modalidade da engenharia elétrica e mecânica na Poli. Nessa especialidade a Física era muito mais importante do que para os Civis. As discussões no entanto acabavam em política, inexoravelmente.
        Fico sabendo agora que o Schenberg era pernambucano. Não imaginava.

  3. Caio Carneiro disse:

    Mário Schenberg viveu em uma época em que os partidos comunista atraíam verdadeiros intelectuais. Hoje, atraem isso que aí está… A carreira de Schenberg ilustra também a imbecilidade da ditadura que, por razões políticas, manteve afastado de nossas Universidades um físico e matemático de primeira grandeza. Parece ser nossa sina, desperdiçar não apenas recursos materiais, mas também nossos talentos.

  4. jose Domingos de Brito disse:

    Meu caro, prestigioso e prestigiado Brito.
    Tu me pedistes comentários sobre ilustres pernambucanos. Fi-los!
    Citei, em meus comentários, a publicação de minha amiga Dra. Dina Lida, que você conhece.
    Pois Dina publicou um livro sobre a vida política de Shenberg. E você, infelizmente, não o citou na bibliografia. Como o sítio eletrônico que publicou teus comentários é bagunçado por natureza, reputo a isso a falha cometida (a meu ver.)
    Dina teve um trabalho enorme (ajudada pela professora Dra. Amélia Império Hamburguer, mãe do premiado diretor de TV e cinema Cao Hamburguer e irmã do premiado arquiteto Flávio Império, além de mulher do Dr. Ernst Hamburguer, todos físicos de nomeada).

    As referências às informações que prestei pareceram-me muito circunstanciais e não suficientemente precisas. Que eu saiba, Mário Shenberg publicou não “mais de 100”, mas, sim, mais de 200 trabalhos científicos em revistas de física e de matemática internacionais. Ele teve orientadores (todos citados por você) que receberam – TODOS! – Prêmio Nobel. E ele foi escolhido por Einstein como um dos TRÊS físicos de todo o mundo que seriam capazes de dar continuidade aos seus próprios trabalhos. Ele não apenas estava na lista dos “dez mais”, como presidiu em 1968 – como te disse – o Colégio Internacional de Astrofísica, que reunia os 30 maiores de sua época, em sua área de conhecimento.

    Infelizmente, o ar “meio pernambucano demais” da publicação (que faz justiça à glória de muitos dos representantes desse Estado!) talvez não lhes tenha permitido (Olha a censura aí traveiz!?) dizer que Mário Schenberg (como outros físicos brilhantes que você teve a desdita de conhecer…), só não foi mais longe (em idade, em produção científica, em glória individual como físico e matemático de nomeada e em “pernambucano da glória”) porque foi atingido mortalmente pela Ditadura Militar Brasileira. Que pena ter faltado este comentário nos teus escritos!
    Quanto a mim, que fiz denúncia pública e em juizo (Tribunal de Justiça de SP e Plenário do Comitê de Anistia, no Rio e em Brasília), lamento profundamente a injustiça de não citar Mário Schenberg como sendo não meramente um grande pernambucano, mas como um grande brasileiro – daqueles prá ninguém ter dúvida sobre seu valor.

    Congratulo-me com Plínio Assmann por ter convivido, como eu, com o iminente professor. Quando era aluno do Instituto de Física, ousei ajudar um colega (hoje Professor Dr. do Instituto de História da USP) a publicar um curso de História da Ciência, cuja autoria real e concreta cabia ao dito cujo pernambucano, e a um cientista japonês que havia convivido com o descobridor teórico da partícula Méson (com direito a Prêmio Nobel) e que havia dado aulas na USP. Se o pasquim de vocês pretende dar valor aos pernambucanos – mesmo que fazendo-o de forma jocosa – não seria melhor, Brito, que viesse a fazê-lo de forma mais completa e “séria”?

    Desejando um profícuo 2017 prá vocês todos, perôe-me o ar ressentido. Mas ele vem do mais fundo do meu coração, Brito!

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