Minha amiga noveleira me convenceu a continuar esta narrativa. Disse-me que a história é boa e precisa apenas incluir mais um conflito com gente famosa e concluir até o ponto em que os fatos chegaram. É uma novela da vida real que está se desenrolando e enrolando ao mesmo tempo, onde ninguém sabe quem é o mocinho e quem é o bandido; quem vai dizer isso é a Justiça no final da história, que ainda não está à vista. Este aspecto, garantiu ela, instiga a curiosidade do público e melhora a novela. Todos conhecem o conflito a que ela se refere; prossigamos, então.

Em 2014, a JBS se encontrava numa situação bastante confortável. Até ali não havia propaganda alguma de sua carne, e resolveram fazer uma campanha publicitária em grande estilo. Para isso, escolheram o “rei” Roberto Carlos como protagonista. Mas foram advertidos que ele é vegetariano. Melhor ainda, concluíram. Ele voltaria a ser carnívoro após conhecer a carne Friboi. Só precisaria combinar com ele, e essa combinação custou R$ 25 milhões, segundo uns, ou R$ 40 milhões segundo outros.

A propaganda entrou ar com o “rei” cantando “Eu voltei, voltei para ficar…” enquanto, sentado à mesa, certificava-se com o garçom se o filé era realmente Friboi. No entanto, ele sequer cortou o filé. Não se via ele levando um pedaço à boca, nem comendo a tal carne. O público ficou curioso em ver o cantor se transformar em carnívoro, e a propaganda virou uma polêmica. Será que ele voltou mesmo a comer carne? A polêmica foi se espalhando, enquanto a carne ficou em segundo plano. A propaganda não “pegou” no público e o contrato publicitário foi rompido pela empresa. Roberto Carlos entrou com uma ação na Justiça, cobrando o pagamento de uma multa rescisória de R$ 7,2 milhões. A JBS aceitou pagar apenas 3,2 milhões e não posso informar se caso está resolvido.

Nas eleições daquele o ano, quando o governo do PT foi reeleito, a JBS contribuiu com R$391,8 milhões para candidatos de 16 partidos políticos. Um valor maior do que a soma da contribuição de todas as empresas. A aquisição de novas empresas continuou no mesmo ritmo. O setor de aves foi reforçado com a compra da “Céu Azul Alimentos” e da “Belafoods”, no Brasil, e da “Tyson Foods”, no México, onde tornou-se líder no mercado. Fechou o ano de 2014 com mais duas aquisições: a australiana “Primo Smallgoods” e a paranaense “Big Frango”. Em 2015 adquiriu, nos EUA, a divisão de suínos da “Cargil”, incluindo duas unidades de processamento, cinco fábricas de ração e quatro granjas em diversos estados americanos. Com esta aquisição, paga a vista, ampliou bastante seu portfólio de produtos nos EUA.

No mercado comentava-se que o crescimento da JBS tinha uma lógica inversa. Quando os outros vão crescendo e adquirindo, eles vão adquirindo e crescendo. Um fenômeno intrigante, que chamava a atenção da imprensa. Porém, não foi um jornal ou revista da área econômica que realizou a melhor matéria sobre o vertiginoso crescimento da empresa. Foi a revista “Piauí” que publicou, em fevereiro de 2015, uma extensa reportagem intitulada “O estouro da boiada”, com um duplo significado: a gigantesca dimensão da empresa e/ou uma premonição do que estava por vir.

E o que estava por vir não era pouco. Como é sabido, os Batista gastaram mais de R$30 bilhões na compra de empresas e criaram, do nada, uma das maiores fabricantes de celulose do mundo, a “Eldorado”. Para isso, contou com a parceria do BNDES e crédito de bancos privados, ávidos por participarem dessa incrível ascensão. Quem poderia imaginar que um impeachment se aproximava do governo petista e mudaria o rumo da história?

Pois bem, foi o que se deu em agosto de 2016 e o império da carne começou a desandar. Tudo começou, como vimos no 2º capítulo, em 17 de março deste ano, com a “Operação carne fraca”, da Polícia Federal. Um abalo sísmico provocado na empresa e no mercado mundial da carne. Certamente foi um abalo previsto pelos gêmeos, pois 10 dias antes Joesley teve aquele encontro fatídico com o presidente Temer na calada da noite, com o gravadorzinho ligado no bolso. O que ele pretendia com aquela gravação? Queria se precaver contra alguma coisa que lhe ocorresse? Ficou com esta gravação durante dois meses, vendo o desenrolar da “Operação carne fraca”, até que em 17 de maio entrou em contato com a PGR-Procuradoria Geral da República e fez sua delação premiada, segundo a opinião de muitos juristas, excessivamente premiada.

No final de maio já estava negociado um acordo de leniência, onde o grupo J&F aceitou pagar R$10,3 bilhões no prazo de 25 anos, o maior do mundo, junto ao MPF-Ministério Público Federal. Desta data até agora, o que vemos é o que tem saído na imprensa. A reportagem mais expressiva saiu na revista Exame, de 12 de julho. A capa mostra o anúncio “Família vende tudo”, como normalmente se faz quando uma família quer mudar para outro lugar. Por esta época boa parte dos Batista já se encontrava nos EUA. Enquanto isso, o governo Temer é investigado e ameaçado de impeachment e a peleja continua.

Uma peleja jurídica e política ao mesmo tempo.

Em 31 de julho, a revista Época trouxe na capa ampla reportagem detalhando as provas de todas as denúncias feitas pelos irmãos gêmeos, colocando mais lenha na fogueira. A partir de agora, a correria do grupo J&F é para vender as empresas adquiridas, mas não está fácil. Dizem que mesmo vendendo tudo não dá para pagar todas as dívidas. Fica faltando uns R$2 bilhões. Este é o quadro que se apresenta no plano econômico. Mas falta ainda encontrar uma solução no plano jurídico. No plano administrativo, Joesley já foi afastado do comando da empresa e o BNDES quer o mesmo destino para Wesley. Desse modo, a novela continua e a partir deste ponto, pode ser acompanhada diariamente pela imprensa escrita, falada e televisada.

8 Comentários

  1. Este é o epilogo da novela. Não pretendo escrever o 4º capítulo. Caso venha a existir será devido a uma decorrência dos fatos ainda não desenrolados ou por insistência dos leitores fubanicos

  2. Este é o epilogo da novela. Não pretendo escrever o 4º capítulo. Caso venha a existir será devido a uma decorrência dos fatos ainda não desenrolados ou por insistência dos leitores fubanicos. Aliás, gostaria de saber dos leitores qual o final previsto da novela. Ocupem este espaço dos comentários para sugerirem um final que ajude o Brasil a sair dessa enrascada. O final não precisa ser feliz ou infeliz, tem que ser um bom final para o País

    • Beleza, Goiano!
      Grato pelo estímulo literário, mas penso que o Lula é um dos principais responsáveis pelo estado de coisas, e pelo Estado a que chegamos ao se conluiar com os empresários corruptos.

      Continuemos na novela

      Brito

  3. Essa novela acompanhei com muito interesse, por ser tão bem escrita, clara, precisa e concisa.
    Quanto ao final, eu diria que os bandidos ganham, sejam lá eles quem forem, e a empresa,como acontece em muitas novelas, vai pro beleléu.
    Conseguimos estabelecer uma empresa brasileira nos melhores moldes capitalistas, graças ao tino dos donos, à ajuda do governo pelas mãos do BNDES, e ao interesse privado, com bancos outros entrando na corrida ao ouro e muita gente comprando ações que se revelavam lucrativas.
    Certamente, como convém ao bom capitalismo competitivo, entraram no esquema algumas mutretas, algo dependeu de um porforinha, o que, se contamina a ética da gente nem de longe arranha os usos e costumes empresariais.
    Mas, uma parte de nós não deseja o sucesso: assim, ao mesmo tempo em que partimos para uma política governamental recessiva, vamos cuidar de fuder com a ação do BNDES, porque essa ação ajudou a termos uma das maiores empresas do mundo, e isso não é bom ao nosso espírito subalterno.
    Moveremos, ainda, céus e terras para desmanchar esse império: deixemos isso para os americanos, eles é que são os predestinados para isso.
    Duvido que Lula, no governo, deixaria desabar empreendimento de tal magnitude, uma das fontes capazes de alimentar programas sociais em favor do povo.

  4. A vaca foi pro brejo, Brito!
    Os americanos não vão levar vantagem daqui pra frente, meu caro! Eles sempre estiveram levando vantagem… Lula foi e continua sendo um agente deles, desde sua primeira militância nas fábricas do ABCD e nas igrejas católicas dessa região. Quem conviveu com ele como metalúrgico e como militante, sempre soube disso! Mas sempre foi politicamente incorreto emitir opinião a respeito desse tal mula-manca da esquerda falida e que admitiu “nuca ter sido de esquerda”…! Agora, é a hora de a porca torcer o rabo e de a onça beber água.
    Precisamos de um Moro (e de um mouro) adepto da Opus Dei (q tristeza!!) para fritar, cozinhar, tostar, grelhar e torrar até a queima total esse hereje cristão novo-velho (Silva…). O que é que a Igreja tem a dizer sobre esse seu filho de uma puta? Ah! Já sei! Nada! Nadinha de nada, como sempre!
    Abçs.

  5. Grande Laurindo
    Ainda bem que apareceste, Agora o Goiano tem com que conversar além de mim. Excelente, vamos em frente com a novela. Mas, confesso que não estou concordando com esse final tão dramático: fritar, cozinhar, tostar, grelhar o filho da puta.Vamos melhorar isso.

  6. O final dessa novela é previsível: os Batistas vão vender o que tiverem pra pagar parte da multa imposta pelo governo. Não será muita coisa pois essa multa gigantesca foi só pra aparecer na televisão, depois de recorrer algumas vezes eles a reduziram a uma pequena fração do montante, o que daria pra pagar vendendo só as Havaianas. Uma bela saída já que os estrangeiros valorizam muito mais esses chinelos de borracha que os brasileiros.

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