Madame Satã 1900-1976

João Francisco dos Santos nasceu em Glória do Goitá, em 25/2/1900. Considerado uma referência na cultura marginal urbana do século XX. Muitos afirmam que foi a primeira “drag queen”, numa época em que esse nome não existia. Ele se auto-denominava “primeiro travesti-artístico brasileiro”. Criado numa família pobre de 17 irmãos, ficou órfão de pai aos 7 anos. Sua mãe – Dona Firmina -, não podendo cuidar de todos, trocou-o por uma égua. Assim, ele foi morar com outra família na condição de ajudante, ou seja, quase escravo.

Em tais condições, não se deu bem com esta família e mudou-se para o Recife, onde viveu de pequenos serviços prestados. Posteriormente, foi adotado por uma senhora e mudou-se para o Rio de Janeiro. A vida de serviçal que levava também não lhe agradou e, aos 13 anos, fugiu de casa e caiu na vida, indo morar no bairro da Lapa, reduto carioca da malandragem e boemia. Analfabeto, o melhor emprego que conseguiu foi o de carregador de marmitas. Posteriormente, trabalhou como segurança de casas noturnas e cuidava que as meretrizes não fossem vítimas de estupro ou agressão. Por essa época aprendeu capoeira e tornou-se um exímio “jogador” ou lutador de capoeira.

Por essa época participou de pequenos bacanais promovidos pelas prostitutas, e neles atuava como “homem e como bicha, mas acabei tomando gosto mesmo pela prática homossexual”, conforme declarou. Depois passou a fazer pequenos trabalhos, como cozinheiro, garçom e, eventualmente, como prostituto. A partir de 1923 começou a conquistar alguma respeitabilidade nas rodas da malandragem, adquirindo a fama de destemido e até valentão, conhecido como Caranguejo, um malandro que pisa macio, com leveza, para não se dar mal. Trabalha dando proteção a bares, cabarés, bichas, moleques e prostitutas – isto é, quando não está curtindo a noite com Chico Alves, Nelson Cavaquinho e outros cantores e compositores que frequentavam a Lapa.

Ficou atraído pela vida noturna, de bar em bar, e enveredou pelo mundo artístico. Em 1928 começou a fazer uma encenação imitando Carmen Miranda numa boate. Depois conseguiu uma participação no show “Loucos em Copacabana”, na praça Tiradentes. Ali surgia o transformista – a “Mulata do Balacochê” – anos antes de receber o epiteto Madame Satã. A carreira de transformista durou pouco, foi interrompida por uma prisão.

Acusado pela morte de um guarda civil, foi encarcerado na Ilha Grande.

Foi solto em 1930, quando inicia a era do rádio, a era Vargas e um ar de modernização tomando o Rio. Em 1937, Clóvis Bornay criou no Teatro Municipal os carnavais de gala e concurso de fantasia. Na Praça Tiradentes, as bichas já pulavam o carnaval no bloco “Caçadores de Veados”, criado em 1930. Copiando Clóvis Bornay, a turma resolveu promover, em 1938, um concurso de fantasia no Teatro República. Ele foi vestido de morcego, numa roupa escandalosa e muita lantejoula. Ganhou o 1º lugar e recebeu um tapete e um rádio Emerson. Semanas depois foi preso junto com outras bichas para simples averiguação. Um policial reconheceu-o e lembou que sua fantasia era parecida com a do personagem do filme de Cecil B, De Mille intitulado Madame Satã. “Ei, não era você que estava vestido de Madame Satã no carnaval?” Ali foi batizado e por ironia da história, por um milico

Foi preso várias vezes e frequentemente enfrentava a polícia, sendo detido por desacato à autoridade diversas vezes. Como bom capoeirista, lutou várias vezes contra mais de um policial, geralmente em resposta a insultos que tivessem como alvo mendigos, prostitutas, travestis e negros. Na década de 1940 há pouca coisa escrita sobre sua vida, mas sabe-se que tentou se afastar da malandragem, abriu uma lavanderia, pegou uma menina abandonada para criar (a primeira de 6 filhos que adotou), passou uma temporada em São Paulo e iniciou uma relação complicada com Maria Faissal, uma garota que conheceu na Lapa e com quem viveu muitos anos.

A partir da década de 1950, a Lapa vai perdendo a fama de bairro boêmio e a modernidade das boates e nightclubes vai se instalando em Copacabana, o bairro que vai abrigar a bossa nova. Em 1955 ocorre uma das brigas mais notórias de Satã. O compositor Geraldo Pereira (autor de Falsa baiana) era um tipo que gostava de implicar com os homosseexuais. Contam que numa passagem pelo Bar Capela, ele encrespou com Satã. Dizem que foi uma briga das boas, e Geraldo não se deu bem. Contam tmabém que o soco de Satã era um coice de mula. Assim, Geraldo foi parar no hospital e logo morreu devido a uma hemorragia. A culpa de sua morte não recaiu diretamente sobre Satã, pois foi uma briga de golpes limpos. Mas, ele ficou mais visado ainda depois dessa briga. Meses depois, foi preso sob a acusação de aplicar o “golpe do suadouro” (atual “boa-noite ciderela”). Voltou para Ilha Grande, onde ficou até 1965.

Ao sair com 65 anos, já não podia manter aquele ritmo de vida da malandragem. Por outro lado, a Lapa também já não era a mesma. Passou por um projeto de reurbanização e os tempos são outros. Decide, então, ficar na Ilha Grande e morar numa pequena chácara, onde passa a cozinhar para uns e outros, criar galinhas e fazer pequenos bicos. No inicio da década de 1970, quando ele está totalmente esquecido e alijado da vida carioca, surge um fato inusitado. A turma do jornal “O Pasquim” – Millôr Fernandes, Paulo Francis, Sergio Cabral, Jaguar, Fortuna Paulo Garcez e Chico Júnior – decide entrevistá-lo. A entrevista, publicada em 5/5/1971.

A entrevista, publicada em 5/5/1971, causou um certo furor na imprensa, além do furo jornalístico que representou, e “ressuscitou” Madame Satã no meio político-social. Vale lembrar que estávamos nos “anos de chumbo” da ditadura militar, onde transgredir era uma ato de coragem, e Satã era um exemplo de transgressão. Vamos transcrever 4 pertguntas de Millôr Fernandes para dar uma ideia da entrevista, mas quem quiser vê-la inteira, pode acessar o site Tiro de Letra.

Millôr – Você tem consciência de que você é uma figura mitológica no Rio de Janeiro?

É o que diz a sociedade, não é? Só que tem que eu sou anti-social.

Millôr – Você sabe que nós aqui fazemos um jornal que é marginal. De modo que o fato de você ter uma vida um pouco à margem da sociedade só faz com que nós tenhamos uma grande emoção em falar com você. Agora, você ficou famoso na mitologia carioca, na lenda do Rio, porque você foi um homem que dominou a vida da Lapa, pelo menos esta vida de uma certa margem da sociedade do Rio, e você era famoso por ser o homossexual mais macho que já houve na história do Rio.

Isso é o que diz a história, né?

Millôr – De onde vem a sua fama de extraordinária masculinidade? Eu sei que foi através de inúmeras brigas. Conte alguma coisa.

Eu comecei em 1928. Deram um tiro em um guarda civil na esquina da rua do Lavradio com a avenida Mem de Sá e mataram, né. Eu estava dentro do botequinzinho e disseram que fui eu. Então fui preso. Eu tinha 28 anos. Aí eu fui para o Depósito de Presos e daí para a Penitenciária e fui condenado a 26 anos. Na penitenciária, não. Na Casa de Correção.

Millôr – Você tem consciência que é do estofo de homem como você que se fazem líderes. Você se transformou em um marginal. Se você fosse alfabetizado você seria um líder.

Eu vou lhe explicar uma coisa: Deus dá o frio conforme a roupa. Se eu fosse um intelectual, é assim que se fala? Eu não sei dizer essas coisas. Deus disse: faz por onde que eu te ajudo. Mas Deus não me ajudou porque ele sabe que se me ajudasse eu vendia o mundo com o dinheiro dele.

Na época, a contracultura estava na moda e Hélio Oiticica criou o slogan: “Seja marginal, seja herói”. Nesse contexto, Satã representava tudo o que as pessoas gostariam de ser: bem resolvidos em sua história de vida, fortes em sua luta contra a opressão, livres em sua sexualidade. Assim, ele voltou ao palco da vida carioca, cultuado pela intelectualidade e pela mídia popular. Apareceu na TV no programa do Silvio Santos ao lado de Elke Maravilha; sua imitação de Carmen Miranda vira show na boate Cafona’s; em 1972 o escritor Sylvan Paezzo publica o livro Memórias de Madame Satã; no ano seguinte sua história é associada ao filme Rainha Diaba, de Antonio Carlos Fontoura. Em 1974 seu desejo de se tornar artista parece se concretizar: o grupo de teatro “Chegança” encena a peça Lampião no inferno, de Jairo Lima, no Teatro Miguel Lemos, e convidam-no para fazer o papel de Satanás. A peça não despertou a atenção da crítica, mas representou sua realização artística, aos 74 anos.

Entusiasmado com o repentino sucesso, voltou a morar na Lapa em quartos de pequenos hotéis. Aguinaldo Silva, repórter policial na época, foi um dos últimos jornalistas a conversar com ele e escrever sobre sua personalidade. Queria um fazer um retrato mais pessoal, afastado da atmosfera heroica e mítica que o cercava, e conseguiu. O ano de 1976 marca sua despedida desse mundo. Em fevereiro, magro e adoentado, dá entrada num hospital como indigente. Jaguar e a turma do Pasquim ficam sabendo e transferem-no para o hospital do INAMPS, em Ipanema. Vitimado por um câncer de pulmão em estágio avançado, disse onde gostaria de ser sepultado. Faleceu em 14/4/1976 e Jaguar levou o caixão num pequeno barco até Ilha Grande. Em 2002, foi retratado no filme Madame Satã, premiado aqui e no exterior, interpretado por Lázaro Ramos. Em 2004 saiu uma nova biografia – O Rei da Lapa: Madame Satã e a malandragem carioca, de Gilmar Rocha, segundo o qual “a malandragem fornece pistas para a reflexão sobre aspectos da sociedade brasileira, tais como a violência, a honra, a valentia e a malícia, inseridos em contexto de classes populares.”. Em 2015, foi homenageado no Carnaval pela Escola de Samba Portela, que apresentou os 450 anos da Cidade do Rio de Janeiro. Em junho 2017, estreou em São Paulo a peça Madame Satã: um musical brasileiro, com direção de João das Neves. (Agradeço ao jornalista Pedro “Pepa” Silva pelo texto publicado no site Revista Geni, de onde parte desse relato foi extraído)

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3 Comentários

  1. Jonas disse:

    Muito bom o texto, legal conhecer a história de Madame Satã! Só sugiro trocar o termo bicha por gay. Descobri há pouco tempo que esse é um termo que somente os gays podem usar entre eles! Se apropriaram da palavra é mole?

  2. Paulo Moura disse:

    Espetacular!!! Após ler o texto fui diretinho para o site indicado, para ler a íntegra da entrevista com Madame Satã…
    Terrivelmente espetacular!!!

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