Quando iniciamos a série dos “Pernambucanos ilustres”, disse que gostaria de incluir alguns nomes que muita gente acha que é de Pernambuco, tais como Miguel Arraes, Ariano Suassuna e Dom Hélder Câmara. Isto provocou um cearense dizendo que “os pernambucanos gostam de gozar com a pica dos outros”. Tentei explicar a apropriação dizendo que estes nomes passaram a maior parte de suas vidas no Recife e aí fizeram suas carreiras, mas não teve jeito. Então, para não magoar nossos vizinhos, encontrei uma forma de homenageá-los com o título de Cidadãos Honorários.
Pernambucanos Honorários I

Dom Hélder Câmara (1909-1999)

Dom Hélder Pessoa Câmara nasceu em Fortaleza, em 07/02/1909. Filho de um jornalista, maçom e crítico teatral e uma professora primária, manifestou sua vocação para o sacerdócio desde cedo. Hélder é o 12º dos 13 filhos. Aos 14 anos ingressou no Seminário Diocesano de Fortaleza, onde concluiu o curso ginasial e os estudos de filosofia e teologia. Demonstrava uma certa desenvoltura nos debates de classe sobre estas áreas. Com autorização especial do Vaticano, foi ordenado padre com apenas 22 anos de idade. Além da vocação religiosa, dispunha de uma vontade e talento excepcionais para o trabalho. Em 1931 fundou a Legião Cearense do Trabalho e, dois anos depois, a Sindicalização Operária Feminina Católica, congregando as lavadeiras, passadeiras e empregadas domésticas. Envolveu-se, também, com a Educação, participando do planejamento e politica de educação pública, até ser nomeado diretor do Departamento de Educação do Ceará, cargo que exerceu por cinco anos.

Sentindo necessidade de se aprofundar nesta área, procurou ser transferido, em 1936, para o Rio de Janeiro, onde passou a se dedicar a atividades apostólicas e ocupou o cargo de Diretor Técnico do Ensino da Religião. Por esta época sentiu-se atraído por um movimento político denominado “Ação Integralista Brasileira”, cujo programa pregava o resgate dos valores de Deus, Pátria e Família. Considerou que esse “é o maior programa cristão de assistencialismo da história do Brasil”. Porém, mais tarde, ao perceber as implicações ideológicas, afastou-se de qualquer compromisso político-partidário. No Rio, seu diretor espiritual foi o Padre Leonel Franca, criador da primeira universidade católica do Brasil, a PUC-RJ, cuja convivência veio lhe injetar mais ânimo na área da educação e organização social.

Logo após a II Guerra Mundial (1945) fundou a Comissão Católica Nacional de Imigração, para apoiar a imigração de refugiados. Nesta atividade ganhou projeção e visibilidade, e em março de 1952 foi ordenado bispo auxiliar do Rio de Janeiro. Menos de um mês depois foi ordenado Bispo, em 20/04/1952. aos 43 anos. Seu trabalho consistiu em promover o colegiado de bispos e incentivar a renovação da Igreja, através de um fortalecimento de seu compromisso social. Sua convicção era que a Igreja tinha que desempenhar uma função social, além da religiosa. Com tais ideias, em 1950, entrou em contato com o subsecretário de estado do Vaticano, Monsenhor Giovanni Batista Montini, futuro Papa Paulo VI. Expôs seu plano e conseguiu a aprovação para a criação da CNBB-Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em 1952, onde atuou como secretário geral até 1964.

Pouco tempo depois, articulou com o mesmo Monsenhor Montini uma organização mais ampla, incluindo os bispos da América Latina. Assim, foi criada a CELAM-Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, em 1955, com sede em Bogotá. Participou ativamente das conferências gerais do CELAM como delegado do episcopado brasileiro até 1992 (1ª no Rio de Janeiro; 2ª em Medellín, em 1968; 3ª em Puebla, em 1979 e 4ª em Santo Domingo, em 1992). Além de delegado brasileiro, exerceu os cargos de presidente e vice-presidente no CELAM. Com tal bagagem e liderança, parte para organização do XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, realizado no Rio de Janeiro em 1955, contando com a presença de cardeais e bispos de todo o mundo. Em 1956 fundou a Cruzada São Sebastião, cujo objetivo era dar moradia decente aos favelados do Rio de Janeiro. Com esta iniciativa conseguiu, junto ao governo, a construção de diversos conjuntos habitacionais. Em 1959 obteve outra conquista relevante para os pobres: a criação do Banco da Providência para atender pessoas carentes, fornecendo pequenos empréstimos.

Em 1962 é realizado o Concílio Ecumênico Vaticano II, onde teve participação relevante como padre conciliar nas quatro sessões do concílio. Foi um dos propositores e signatários do Pacto das Catacumbas, documento assinado por cerca de 40 padres conciliares nas “Catacumbas de Domitila”, em Roma, após a celebração da Eucaristia. Este pacto foi decisivo para o surgimento do movimento denominado “Teologia da Libertação”. O Concílio Vaticano II dá-lhe projeção internacional, ao mesmo tempo em que lhe trará problemas com a política. Em 1964, diante da conturbada situação sociopolítica nacional, a divergência de posições com o Cardeal Dom Jaime Câmara torna difícil sua permanência no Rio de Janeiro. Assim, em 12/03/1964, pouco antes do Golpe Militar, é designado arcebispo de Olinda e Recife, para onde é transferido. Esperava-se que a transferência lhe arrefecesse o ânimo de “agitador” social, mas não foi o que aconteceu. Não ficou intimidado e instituiu uma administração colegiada na Diocese, organizada em setores pastorais; criou o “Movimento Encontro de Irmãos”; o Banco da Providência; a Comissão de Justiça e Paz e fortaleceu as comunidades eclesiais de base.

Em sua chegada no Recife, num sábado chuvoso, dom Hélder desembarcou às 15h30 no Aeroporto dos Guararapes, lotado por uma multidão. Em carro aberto, seguiu para a Matriz de Santo Antônio, na Avenida Dantas Barreto, centro da cidade. Alguém lhe perguntou se não iria se sentir degredado no Recife, longe dos centros de decisão da igreja. A resposta foi imediata: “O maior problema da Igreja são hoje os pobres, a América Latina é o centro desse problema, o Brasil é o maior país da América Latina e o Nordeste a região mais pobre do Brasil. Logo, estou no lugar certo”.

A partir daí assumiu abertamente uma oposição ao regime militar. Tornou-se líder contra o autoritarismo, em defesa dos direitos humanos. Utilizava com muita competência e senso de oportunidade todos os meios de comunicação para denunciar a injustiça, a tortura e o desaparecimento de presos políticos. Pregava no Brasil e no exterior uma fé cristã comprometida com os anseios dos empobrecidos. Foi perseguido pelos militares por sua atuação social e política, sendo acusado de comunista. “Se dou pão aos pobres, todos me chamam de santo; se pergunto porque não têm o que comer, me chamam de comunista”, costumava dizer. Após o recrudescimento do regime militar, com o Ato Institucional nº 5 em 1968, e não podendo prendê-lo, as forças da repreensão passam a atacar seus auxiliares mais próximos. No dia 27/05/1969, o padre Henrique Pereira Neto, seu colaborador na Arquidiocese, foi encontrado trucidado na Cidade Universitária. O crime é atribuído até hoje às forças de repressão. Feriram o pastor abatendo uma de suas ovelhas. No dia 4/09/1970, sua residência foi pichada com a frase “Brasil, ame-o ou deixe-o” e a bandeira nacional. Outros 20 colaboradores de sua arquidiocese são presos e torturados.

Por denunciar ao mundo tortura a presos políticos no Brasil, foi perseguido pela ditadura militar que se instalou no País (1964-1985). Vetaram a citação de seu nome nos meios de comunicação, no período de 1970 a 77. Tornou-se persona non grata para o regime autoritário, que o via como demagogo e comunista, e símbolo da resistência à ditadura para os defensores dos direitos humanos. Na madrugada do dia 25/10/1968, quatro homens metralharam sua residência, na Igreja das Fronteiras, na Boa Vista. Enquanto atiravam contra o muro, eles gritavam “morte ao arcebispo vermelho”. Dias depois a casa de dom Hélder foi novamente atacada com tiros de revólver, disparados por homens que fugiram num automóvel.

A ditadura negou-lhe acesso aos meios de comunicação, sendo proibido não apenas que ele falasse, mas que falassem sobre ele. Com isso ele passou certo período meio esquecido do público. Com esta proibição, ele ampliou significativamente o número de viagens ao exterior com a finalidade de denunciar as violações de direitos humanos, as condições carcerárias, a fome e a miséria no Brasil, e ficou ainda mais conhecido em todo o mundo. Seu envolvimento com a imprensa foi tão intenso que mais tarde, em 2002, foi instituído pela CNBB o “Prêmio Dom Hélder Câmara de Imprensa”. Não podendo falar nem ser visto no Brasil, empreendeu frequentes viagens ao exterior, onde divulgou amplamente suas ideias e denúncias de violações de direitos humanos no Brasil. Além da intensa participação na imprensa, escreveu 22 livros, alguns dos quais foram traduzidos para 16 idiomas. Costumava dizer que “O que me incomoda não é o grito dos violentos. O que me incomoda é o silêncio dos bons”. Sobre o arcebispo existem 352 títulos de livros publicados em vários países. Na área editorial, foi contemplado, em 1974, com o prêmio italiano de “Melhor escritor sobre os problemas do Terceiro Mundo”; em 1987 recebeu o “Cristhoper Award”, reservado para premiar, nos Estados Unidos, a melhor produção internacional de livros religiosos.

Recebeu uma quantidade de títulos e honrarias que supera a de qualquer brasileiro de sua época. Conta-se em cerca de 600 condecorações entre placas, diplomas, medalhas, troféus e comendas. O primeiro título veio em 1969, de doutor honoris causa pela Universidade de Saint Louis, EUA. Posteriormente vieram mais de 30 títulos conferidos por diversas universidades brasileiras e estrangeiras: Bélgica, Suíça, Alemanha, Holanda, Itália, Canadá, Estados Unidos etc. Foi condecorado Cidadão Honorário de 28 cidades brasileiras e da cidade de São Nicolau na Suíça, e Rocamadour, na França. Recebeu o Prêmio Martin Luther King, nos EUA, e o Prêmio Popular da Paz, na Noruega além de outros prêmios internacionais. Foi indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da Paz. Em 1970, o então presidente da República, Emílio Garrastazu Médici, instruiu pessoalmente o embaixador brasileiro na Noruega para tentar impedir que este prêmio lhe fosse concedido. O SNI-Serviço Nacional de Informações se encarregou de divulgar, por meio das embaixadas do Brasil em Oslo e em Paris, uma foto de quando D. Hélder era integralista na década de 1930. Tais manobras fizeram com que ele não fosse agraciado com o prêmio. Porém, a campanha difamatória produziu um efeito inesperado pelo governo ditatorial: fez com que a igreja brasileira e amplos setores do povo católico se unissem em sua defesa.

Em 1980, na visita que fez ao Recife, o Papa João Paulo II deu-lhe um afetuoso abraço, chamando-o de “irmão dos pobres e meu irmão”. Em 1984, ao completar 75 anos, a idade limite para ocupar o cargo, apresentou sua renúncia e passou o comando da Arquidiocese a Dom José Cardoso Sobrinho. Antes, porém, fundou a instituição “Obras de São Francisco”, com a finalidade de promover a dignidade humana em todas as suas dimensões. Continuou a viver em Recife, nos fundos da Igreja das Fronteiras, onde vivia desde 1968. Mas não se aposentou. Em fins da década de 1990, indignado com o fato de chegarmos ao ano 2000 com o Brasil convivendo com milhares de pessoas na miséria, lançou oficialmente na Fundação Joaquim Nabuco a campanha “Ano 2000 Sem Miséria”. Esta foi sua última realização pouco antes de falecer em 27/08/1999, aos 90 anos.

Seu legado e memória têm sido mantidas por diversas instituições, além do Instituto Dom Hélder Câmara, criado em 2003 a partir da instituição “Obras de São Francisco”. Em 2001 foi criado o “Projeto Dom Hélder Câmara”, através de um acordo de empréstimo internacional firmado entre o Brasil e o FIDA-Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrário e de uma doação do Fundo Mundial para o Meio Ambiente. Trata-se de um programa de combate à pobreza e apoio ao desenvolvimento rural sustentável no semiárido do Nordeste. O PDHC atua em seis estados do Nordeste, envolvendo oito territórios rurais e 77 municípios, beneficiando 15.021 famílias. No ano seguinte, foi criado pela CNBB, o “Centro Nacional de Fé e Política-CEFEP Dom Hélder Câmara”, com uma série de atividades e cursos dirigidos ao público em geral. Em 2010, o Senado Federal instituiu a “Comenda de Direitos Humanos Dom Hélder Câmara”, destinada a agraciar personalidades que tenham oferecido contribuição relevante à defesa dos direitos humanos no Brasil.

Em 2014,foi solicitado ao Vaticano a abertura de processo de canonização de Dom Hélder. No ano seguinte foi emitido um parecer favorável pela Congregação para as Causas dos Santos, concedendo-lhe o título de Servo de Deus. Com isso se deu a abertura do processo de beatificação, em maio de 2015, na catedral de Olinda. A instalação do tribunal nessa data marcou o início do processo de beatificação. Na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Dom Hélder já se encontra no calendário de santos e sua festa litúrgica é comemorada em 27 de agosto.

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Entrevista mediúnica com Dom Helder Câmara

Realizada pelo médium Carlos Pereira e publicada no livro Novas utopias. Belo Horizonte: Editora Dufaux, 2009. 

ESCLARECIMENTO NECESSÁRIO:

É do conhecimento geral, principalmente dos católicos brasileiros: Dom Helder Câmara foi um dos fundadores da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e grande defensor dos direitos humanos durante o regime militar brasileiro, cuja luta, nesse processo político da nossa história, o notabilizou no mundo todo, como uma das figuras mais expressivas do século XX, na defesa dos fracos contra a tirania dos fortes e dos pobres contra a usura dos ricos. Pregava uma igreja simples voltada para os pobres e a não-violência. Por sua atuação, recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais. Foi indicado quatro vezes para o prêmio Nobel da Paz. Em 1969 – Doutor Honoris Causa, pela Universidade de Saint Louis, Estados Unidos. Este mesmo título foi-lhe conferido por diversas universidades brasileiras e estrangeiras: Bélgica, Suíça, Alemanha, Holanda, Itália, Canadá e Estados Unidos. Foi intitulado cidadão honorário de 28 cidades brasileiras e da cidade de São Nicolau, na Suiça e Rocamadour, na França. Recebeu o prêmio Martin Luther King, nos EUA e o prêmio Popular da Paz, na Noruega e diversos outros prêmios internacionais.

Por isso, o livro psicografado pelo médium Carlos Pereira, da Sociedade Espírita Ermance Dufaux, de Belo Horizonte, causou muita surpresa no meio espírita e grande polêmica entre os católicos. O que causou mais espanto entre todos foi a participação de Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo, que durante nove anos foi secretário de Dom Helder Câmara, para a relação ecumênica com as igrejas cristãs e as outras religiões. Marcelo Barros secretariou Dom Helder Câmara no período de 1966 a 1975 e tem 30 livros publicados. Ao prefaciar o livro Novas Utopias, do Espírito Dom Helder, reconhecendo a autenticidade do comunicante, pela originalidade de suas idéias e, também, pela linguagem, é como se a Igreja Católica viesse a público reconhecer o equívoco no qual incorreu, ao negar a veracidade do fenômeno da comunicação entre vivos e mortos, conferindo a esse livro de Carlos Pereira toda a fé necessária para o Imprimatur do Vaticano.

É importante destacar, ainda, que os direitos autorais do livro foram divididos em partes iguais, na doação feita pelo médium, à Sociedade Espírita Ermance Dufaux e ao Instituto Dom Helder Câmara, de Recife, o que, aliás, foi aceito pela instituição católica, sem nenhum constrangimento. No prefácio do livro aparece também o aval do filósofo e teólogo Inácio Strieder e a opinião favorável da historiadora e pesquisadora Jordana Gonçalves Leão, ambos ligados à Igreja Católica. Conforme eles mesmos disseram, essa obra talvez não seja uma produção direcionada aos espíritas, que já convivem com o fenômeno da comunicação, desde a codificação do Espiritismo; mas, para uma expressiva parcela da população que vive na militância católica, que ora é chamada a conhecer a verdade espiritual porque “os tempos são chegados” e estes ensinamentos são realidades naturais que estão no mundo e, conseqüentemente, pertencem a todos os filhos de Deus.

A verdade espiritual não é propriedade dos espíritas ou de outros que professam estes ensinamentos e, talvez, tenha chegado o momento da Igreja Católica admitir, publicamente, a existência espiritual, a vida depois da morte e a comunicação entre os dois mundos. Na entrevista com Dom Helder Câmara o Espírito comunicante respondeu as seguintes perguntas sobre a vida espiritual:

Dom Helder, mesmo na vida espiritual, o senhor se sente um padre?

Não poderia deixar de me sentir padre, porque minha alma, mesmo antes de voltar, já se sentia padre. Ao deixar a existência no corpo físico, continuo como padre porque penso e ajo como padre. Minha convicção à Igreja Católica permanece a mesma, ampliada, é claro, com os ensinamentos que aqui recebo, mas continuo firme junto aos meus irmãos de Clero a contribuir, naquilo que me seja possível, para o bem da humanidade.

Do outro lado da vida, o senhor tem alguma facilidade a mais para realizar seu trabalho e exprimir seu pensamento ou ainda encontra muitas barreiras com o preconceito religioso?

Encontramos muitas barreiras. As pessoas que estão do lado de cá reproduzem o que existe na Terra. Os mesmos agrupamentos que se formam aqui se reproduzem na Terra. Nós temos as mesmas dificuldades de relacionamento, porque os pensamentos continuam firmados, cristalizados em determinados pontos que não levam a nada. Mas a grande diferença é que, por estarmos com a vestimenta do espírito, tendo uma consciência mais ampliada das coisas podemos dirigir os nossos pensamentos de outra maneira e assim influenciar aqueles que estão na Terra e que vibram na mesma sintonia.

Como o senhor está auxiliando nossa sociedade, na condição de desencarnado?

Do mesmo jeito. Nós temos as mesmas preocupações com aqueles que passam fome, que estão nos hospitais, que são injustiçados pelo sistema que subtrai liberdades, enriquece a poucos e colocam na pobreza e na miséria muitos; todos aqueles desvalidos pela sorte. Nós juntamos a todos os que pensam semelhantemente a nós, em tarefas enobrecedoras, tentando colaborar para o melhoramento da humanidade.

Como é sua rotina de trabalho?

A minha rotina de trabalho é, mais ou menos, a mesma. Levanto-me, porque aqui também se descansa um pouco, e vamos desenvolver atividades para as quais nos colocamos à disposição. Há grupos que trabalham e que são organizados para o meio católico, voltados àqueles que precisam de alguma colaboração. Dividimo-nos em grupos e me enquadro em algumas atividades que faço com muito prazer.

Qual foi a sua maior tristeza depois de desencarnado? E qual foi a sua maior alegria?

Eu já tinha a convicção de que estaria no seio do Senhor e que não deixaria de existir. Poder reencontrar os amigos, os parentes, aqueles aos quais devotamos o máximo de nosso apreço e consideração e continuar a trabalhar, é uma grande alegria. A alegria do trabalho para o Nosso Senhor Jesus Cristo.

O senhor, depois de desencarnado, tem estado com frequência nos centros espíritas?

Não. Os lugares mais comuns que visito no plano físico são os hospitais; as casas de saúde; são lugares onde o sofrimento humano se faz presente. Naturalmente vou à igreja, a conventos, a seminários, reencontro com amigos, principalmente em sonhos, mas minha permanência mais frequente não é na casa espírita.

O senhor já era reencarnacionista antes de morrer?

Nunca fui reencarnacionista, diga-se de passagem. Não tenho sobre este ponto um trabalho mais desenvolvido porque esse é um assunto delicado, tanto é que o pontuei bem pouco no livro. O que posso dizer é que Deus age conforme a sua sabedoria sobre as nossas vidas e que o nosso grande objetivo é buscarmos a felicidade mediante a prática do amor. Se for preciso voltar a ter novas experiências, isso será um processo natural.

Qual é o seu objetivo ao escrever mediunicamente?

Mudar, ou pelo menos contribuir para mudar a visão que as pessoas têm da vida, para que elas percebam que continuamos a existir e que essa nova visão possa mudar profundamente a nossa maneira de viver.

Qual foi a sensação com a experiência da escrita mediúnica?

Minha tentativa de adaptação a essa nova forma de escrever foi muito interessante, porque, de início, não sabia exatamente como me adaptar ao médium para poder escrever. É necessário que haja uma aproximação muito grande entre o pensamento que nós temos com o pensamento do médium. É esse o grande problema de todos nós, porque o médium precisa expressar aquilo que estamos intuindo a ele. No início foi difícil, mas aos poucos começamos a criar uma mesma forma de expressão e de pensamento, aí as coisas melhoraram. Outros (médiuns) pelos quais tento me comunicar enfrentam problemas semelhantes.

Foi uma surpresa saber que poderia se comunicar pela escrita mediúnica?

Não, porque eu já sabia que muitas pessoas portadoras da mediunidade faziam isso. Eu apenas não me especializei, não procurei mais detalhes, deixei isso para depois, quando houvesse tempo e oportunidade.

Imaginamos que haja outros padres que também queiram escrever mediunicamente, relatarem suas impressões da vida espiritual. Por que Dom Helder é quem está escrevendo?

Porque eu pedi. Via-me com a necessidade de expressar aos meus irmãos da Terra que a vida continua e que não paramos simplesmente quando nos colocam dentro de um caixão e nos dizem “acabou-se”. Eu já pensava que continuaria a existir, sabia que haveria algo depois da vida física. Falei isso muitas vezes. Então, senti a necessidade de me expressar por um médium, quando estivesse em condições e me fossem dadas as possibilidades. É isto que eu estou fazendo.

Outros padres, então, querem escrever mediunicamente em nosso país?

Sim. E não poucos. São muitos aqueles que querem usar a pena mediúnica para poder expressar a sobrevivência após a vida física. Não o fazem por puro preconceito de serem ridicularizados, de não serem aceitos, e resguardam as suas sensibilidades espirituais para não serem colocados numa situação de desconforto. Muitos padres, cardeais até, sentem a proteção espiritual nas suas reflexões, nas suas prédicas, que acreditam ser o Espírito Santo, quando na verdade são os irmãos que têm por eles algum tipo de apreço e colaboram nas suas atividades.

Como o senhor se sentiu em interação com o médium Carlos Pereira?

Muito à vontade, pois havia afinidade, e porque ele se colocou à disposição para o trabalho. No princípio foi difícil juntar-me a ele por conta de seus interesses e de seu trabalho. Quando acertamos a forma de atuar foi muito fácil, até porque, num outro momento, ele começou a pesquisar sobre a minha última vida física. Então ficou mais fácil transmitir-lhe as informações que fizeram o livro.

O senhor acredita que a Igreja Católica irá aceitar suas palavras pela mediunidade?

Não tenho esta pretensão. Sabemos que tudo vai evoluir e que um dia, inevitavelmente, todos aceitarão a imortalidade com naturalidade, mas é demais imaginar que um livro possa revolucionar o pensamento da nossa Igreja. Acho que teremos críticas, veementes até, mas outros mais sensíveis admitirão as comunicações. Este é o nosso propósito.

É verdade que o senhor já tinha alguns pensamentos espíritas quando na vida física?

Eu não diria espírita; diria espiritualista, pois a nossa Igreja, por si só, já prega a sobrevivência após a morte. Logo, fazermos contato com o plano físico depois da morte seria uma consequência natural. Pensamentos espíritas não eram, porque não sou espírita. Sem nenhum tipo de constrangimento em ter negado alguns pensamentos espíritas, digo que cheguei a ter, de vez em quando, experiências íntimas espirituais.

Há as mesmas hierarquias da Igreja no mundo espiritual?

Não exatamente, mas reconhecemos os nossos irmãos que tiveram responsabilidades maiores e que notoriamente têm um grau evolutivo moral muito grande. Seres do lado de cá se reconhecem rapidamente pela sua hombridade, pela sua lucidez, pela sua moralidade. Não quero dizer que na Terra isto não ocorra, mas do lado de cá da vida tudo é muito mais transparente; nós captamos a realidade com mais intensidade. Autoridade aqui não se faz somente com um cargo transitório que se teve na vida terrena, mas, sobretudo, pelo avanço moral.

Qual seu pensamento sobre o papado na atualidade?

Muito controverso esse assunto. Estar na cadeira de Pedro, representando o pensamento maior de Nosso Senhor Jesus Cristo, é uma responsabilidade enorme para qualquer ser humano. Então fica muito fácil, para nós que estamos de fora, atribuirmos para quem está ali sentado, algum tipo de consideração. Não é fácil. Quem está ali tem inúmeras responsabilidades, não apenas materiais, mas descobri que as espirituais são ainda em maior grau. Eu posso ter uma visão ideológica de como poderia ser a organização da Igreja; defendi isso durante minha vida. Mas tenho que admitir, embora acredite nesta visão ideal da Santa Igreja, que as transformações pelas quais devemos passar merecem cuidado, porque não podemos dar sobressaltos na evolução. Queira Deus que o atual Papa Ratzinger (Bento XVI) possa ter a lucidez necessária para poder conduzir a Igreja ao destino que ela merece.

O senhor teria alguma sugestão a fazer para que a Igreja cumpra seu papel?

Não preciso dizer mais nada. O que disse em vida física, reforço. Quero apenas dizer que quando estamos do lado de cá da vida, possuímos uma visão mais ampliada das coisas. Determinados posicionamentos que tomamos, podem não estar em seu melhor momento de implantação, principalmente por uma conjuntura de fatores que daqui percebemos. Isto não quer dizer que não devamos ter como referência os nossos principais ideais e, sempre que possível, colocá-los em prática.

No futuro, a existência e a comunicação espirituais serão aceitas pela Igreja?

Não tenho a menor dúvida. Não pertencem estes ensinamentos à nossa Igreja, ou a outros que professam estes ensinamentos espirituais. Portanto, mais cedo ou mais tarde, a nossa Igreja terá que admitir a existência espiritual, a vida depois da morte, a comunicação entre os dois mundos e todos os outros princípios que naturalmente decorrem da vida espiritual.

Quais são os nomes mais conhecidos da Igreja que estão cooperando com o progresso do Brasil no mundo espiritual?

Enumerá-los seria uma injustiça, pois há base em todas as localidades. Então, dizer o nome de um ou de outro seria uma referência pontual porque há muitos, que são poucos conhecidos, mas que desenvolvem do lado de cá da vida um trabalho fenomenal e nós nos engajamos nessas iniciativas de amor ao próximo.

Que mensagem o senhor daria especificamente aos católicos, agora, depois da morte?

Que amem, amem muito, porque somente através do amor vai ser possível trazer um pouco mais de tranquilidade à alma. Se nós não tentarmos amar do fundo dos nossos corações, tudo se transformará numa angústia profunda. O amor, conforme nos ensinou o Nosso Senhor Jesus Cristo, é a grande mola salvadora da humanidade.

Que mensagem o senhor deixaria para os espíritas?

Que amem também, porque não há divisão entre espíritas e católicos ou qualquer outra crença no seio do Senhor. Não há. Essa divisão é feita por nós, não pelo Criador. São aceitáveis porque demonstram diferenças de pontos de vista, no entanto, a convergência é única, aqui simbolizada pela prática do amor, pois devemos unir os nossos esforços.

Que mensagem o senhor deixaria para os religiosos de uma maneira geral?

Que amem. Não há outra mensagem senão a mensagem do amor Ela é a única e a principal mensagem que se pode deixar.

14 Comentários

  1. Mardonio Gadelha Pessoa disse:

    DOM HELDER PESSOA CÂMARA; foi e ainda é o cearense mais amado e reverenciado pelos pernambucanos. Sinto um orgulho danado de ter beijado sua mão lá em Fortaleza na residencia da poetisa Albanisa Frota no ano de 1966, quando os “gorilas” da ditadura iniciavam a apertar o cerco junto aos cidadãos que defendiam os pobres e a igualdade social.
    A mãe deste cidadão era irmã de meu avô paterno, portanto, sou seu primo em segundo grau. Sou honrado com este parentesco que muito me orgulha.

    • jose Domingos de Brito disse:

      Muito legal, Sr. Mardonio.
      Fico orgulhoso em receber comentário de um parente de Dom Hélder. Os pernambucanos são gratos aos cearenses por ter enviado ele prá cá

  2. sergio soares filho disse:

    E fundou uma organização comunista,inclusive proscrita pelo próprio Vaticano,hoje nas mãos de um comunista.Tudo lixo.

  3. sergio soares filho disse:

    E fundou uma organização comunista,inclusive proscrita pelo próprio Vaticano,hoje nas mãos de um comunista.Tudo lixo.Aqui no Rio,até hoje ,a Avenida Suburbana é chamada por mim do mesmo jeito e não pelo nome desse crápula.

    • jose Domingos de Brito disse:

      O Sergio Soares Filho postou primeiro um insulto ao Dom Hélder. Em seguida, não satisfeito, postou uma agressão chamando-o de crápula
      Eu sei do estrago que a “esquerda” (aspas necessárias)fez à juventude do país, mas não sabia que o estrago iria tão longe, ao ponto de ignorar o trabalho de ilustres brasileiros e chegar a agredi-los. Olhe aqui, Serginho: não confunda o trabalho de Dom Hélder com o uso que a “esquerda” fez dele. Leia melhor sua biografia concisa, e peça perdão à Dom Hélder. Garanto que ele o perdoará.

      • sergio soares filho disse:

        Com certeza não perderei mais meu tempo lendo seus comentários.Não sabe o que escreve.Sou de duas famílias católicas,finalizei meus estudos secundários em uma escola católica e passei por 5 sacramentos para ser um crítico com fundamentos dessa igreja dogmática e corrupta por séculos.

      • sergio soares filho disse:

        Militante pró-nazista

        Talvez poucas pessoas saibam, mas Dom Helder Câmara começou sua vida pública como militante na direita pró-nazista.

        Ele foi, de fato, hierarca da Ação Integralista Brasileira (AIB), o movimento pró-nazista fundado por Plínio Salgado. Em 1934, o então Padre Câmara passou a fazer parte do Conselho Supremo da AIB. Dois anos depois, ele se tornou o secretário pessoal de Plínio Salgado e então Secretário Nacional de AIB, participando como protagonista em comícios e passeatas paramilitares que imitavam as dos nazistas na Alemanha. Suas convicções pró-nazistas eram tão profundas, que ao ser ordenado sacerdote fez questão de vestir, sob a batina, a famigerada “camisa verde” que era o uniforme da milícia integralista.

        Em 1946, o arcebispo do Rio de Janeiro queria fazê-lo seu bispo auxiliar, mas a Santa Sé recusou por causa de sua precedente militância pró-nazista. A nomeação veio apenas seis anos depois. Enquanto isso, Helder Câmara havia completado sua passagem do integralismo pró-nazista ao progressismo pró-marxista.

        Quando, em 1968, o escritor brasileiro Otto Engel escreveu uma biografia de Mons. Câmara, ele recebeu ordens sumárias da Cúria de Olinda-Recife proibindo-o de publicá-la. O arcebispo não queria que seu passado pró-nazista fosse conhecido.

      • sergio soares filho disse:

        Melhora para você se eu for mais OBJETIVO e “bem-educado”?

      • sergio soares filho disse:

        Defendendo União Soviética, China e Cuba

        As tomadas de posições concretas de Dom Helder Câmara em favor do comunismo (embora às vezes criticava o ateísmo) foram numerosas e consistentes.

        Por exemplo, permanece tristemente notório seu discurso de 27 de Janeiro de 1969, em Nova York, durante a sexta conferência anual do Programa Católico de Cooperação Interamericana. Sua intervenção foi assim tão favorável ao comunismo internacional, que lhe valeu o epíteto de “arcebispo vermelho”, um apelido que permaneceria indissoluvelmente ligado ao seu nome.

        Depois de ter reprovado duramente a política os EUA e a sua política anti-soviética, Dom Helder propôs um corte drástico nas forças armadas dos EUA, enquanto pedia à URSS para manter suas capacidades bélicas, a fim confrontar o ‘”imperialismo”. Ciente das consequências desta estratégia, ele defendeu-se de antemão: “Não me digam que esta abordagem colocaria o mundo nas mãos do comunismo!”

      • sergio soares filho disse:

        E só COPIAR a Wikipédia não é uma boa fonte de informações…

  4. Glória Braga Horta disse:

    Grande figura socialista. Deve ser respeitado.

    • jose Domingos de Brito disse:

      A resposta é p/ Sergio Soares Filho: Câmara Cascudo também, inadvertidamente, participou da AIB. Vamos massacrá-lo também por esse equivoco da juventude?

  5. Antônio Lopes disse:

    Entrevista mediúnica com Dom Helder???????????
    Parece que os espíritas são mais idiotas e imbecis
    do que os católicos.

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