Ariano Suassuna passou a maior parte de sua vida no Recife. Por motivos óbvios, mantinha um certo afastamento de sua terra natal, a Paraíba. Este título de cidadão honorário pouco lhe acrescenta na sua longa lista de homenagens, é apenas mais um reconhecimento e gratidão aos seus serviços prestados à cultura brasileira.

Ariano Suassuna (1927-2014)

Ariano Vilar Suassuna nasceu em 16/06/1927, em João Pessoa, PB. Filho de Rita de Cássia Vilar e João Suassuna, presidente da província (atual governador do estado). Logo, nasceu nas dependências do Palácio da Redenção, sede do Executivo paraibano. Em 1928 a família passou a viver no Sertão, na cidade de Souza. Dois anos após, com Revolução de 1930, seu pai é assassinado por motivos políticos, e a família mudou-se para Taperoá, onde viveu até 1937 e concluiu o curso primário. Aí assistiu, pela primeira vez, o teatro de mamulengos e desafios de viola, na feira da cidade, cujo caráter de “improvisação” marcou definitivamente toda sua produção artística posterior. Após breve estadia em Campina Grande, passou a viver no Recife a partir de 1942.

Estreou na literatura precocemente, em 1945, com o poema Noturno, publicado no Jornal do Commercio, do Recife. Neste ano concluiu o curso secundário no Ginásio Pernambucano, no Colégio Americano Batista e no Colégio Osvaldo Cruz. Em 1946 ingressa na Faculdade de Direito do Recife, conhece Hermilo Borba Filho e fundam o TEP-Teatro de Estudante de Pernambuco. Sua primeira peça Uma mulher vestida de sol, com a qual ganhou o prêmio “Nicolau Carlos Magno”, é representada até hoje. Em seguida escreveu Cantam as Harpas de Sião (ou O Desertor de Princesa) e Os Homens de Barro, montada pelo TEP em 1948.

Ao concluir o curso de Direito, em 1950, recebeu o Prêmio Martins Pena, com a peça Auto de João da Cruz. Em seguida foi diagnosticado uma doença pulmonar, fazendo-o retornar a Taperoá para se curar. Enquanto se tratava, escreveu e montou a peça Torturas de um coração. Em 1952 voltou a morar no Recife e passa a trabalhar como advogado, fazendo teatro nas horas vagas: O castigo da soberba (1953), O rico avarento (1954) e o Auto da Compadecida (1955), que o projetou em todo o país, considerada o texto mais popular do moderno teatro brasileiro. A peça foi adaptada para o cinema e para a televisão, e é considerada uma das peças brasileiras mais encenadas até hoje. Nos anos seguintes foram encenadas algumas peças fora do circuito do Recife: O casamento suspeito (1958), O santo e a porca (1958), O homem da vaca e o poder da fortuna (1959) e A pena e a lei (1959), premiada dez anos depois no Festival Latino-Americano de Teatro.

A amizade mantida com Hermilo Borba Filho prosperou com a criação do Teatro Popular do Nordeste, em 1959. A criação de peças prossegue com a Farsa da Boa Preguiça (1960) e A caseira e a Catarina (1962). Por esta época decidiu aprofundar seus conhecimentos sobre Estética, interrompe temporariamente a carreira de dramaturgo e passa a estudar na UFPE. Tais estudos resultaram na defesa da tese de livre-docência A onça castanha e a ilha Brasil: uma reflexão sobre a cultura brasileira, em 1976. Passa a exercer o cargo de professor da UFPE ao mesmo tempo em que se afirma como expressivo “agitador cultural”. Foi membro fundador do Conselho Federal de Cultura, em 1967, do qual fez parte até 1973 e do Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco, no período 1968-1972; dirigiu o Departamento de Extensão Cultural da UFPE, em 1969 e iniciou o “Movimento Armorial”, em 1970, com o concerto “Três séculos de música nordestina – do Barroco ao Armorial” e com uma exposição de gravura, pintura e escultura.

Na definição dele mesmo, “A Arte Armorial Brasileira é aquela que tem como traço comum principal a ligação com o espírito mágico dos folhetos do romanceiro popular do Nordeste com a música de viola, rabeca ou pífano que acompanha seus cantares, e com a xilogravura que ilustra suas capas, assim como com o espírito e a forma das artes e espetáculos que ilustra suas capas com esse mesmo romanceiro relacionados”. Seu objetivo foi o de valorizar a cultura popular do Nordeste brasileiro, pretendendo realizar uma arte erudita a partir das raízes populares da cultura do País. Seu emprego na música resultou na criação da “Orquestra Armorial”, que deu origem ao “Quinteto Armorial”. Um dos remanescentes desse grupo é o músico Antônio Nóbrega, que comanda o Instituto Brincante, em São Paulo. Mais tarde o quinteto se desfez, dando origem ao “Quarteto Romançal”. Na gravura, a arte armorial é representada pelo pintor Gilvan Samico. Na Literatura, é o próprio Ariano quem se destaca com O romance d’a pedra do reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta (1971). Um “romance-memorial-poema-folhetim”, como definiu o poeta Carlos Drummond de Andrade, e emendou “Não é qualquer vida que produz uma obra desse calibre”.

Sobre o Romance d’A pedra do reino, lembremos que Ariano construiu, em São José do Belmonte (PE), um santuário ao ar livre, composto de 16 esculturas de pedra, com 3,50 m de altura, dispostas em círculo, representando o sagrado e o profano. Nos últimos anos de vida ele fazia anualmente uma cavalgada/procissão nas redondezas, vestido a caráter, junto com outros participantes. Tais atividades se davam simultaneamente ao cargo de Secretário de Educação e Cultura do Recife (1975-1978), ao doutoramento em História (1976), aulas de Estética, Teoria do Teatro e História da Cultura Brasileira, na UFPE, onde lecionou por 32 anos e aposentou-se em 1994.

Ao se aposentar, o Governador Miguel Arraes convida-o para comandar a Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco. Exerceu o cargo por quatro anos (1994-1998), e deu um impulso extraordinário à cultura nordestina com o patrocínio de diversos artistas, tanto na divulgação como na promoção e sustentação de suas atividades. Por essa época, inicia uma nova atividade exercida além de seu mandato como Secretário de Cultura e além dos limites do Estado: são as “aulas-espetáculo” apresentadas em todo o País. Foram dezenas de apresentações para plateias enormes, onde contava “causos” e exaltava a cultura brasileira de um modo divertido. Suas apresentações foram consolidadas num projeto intitulado “Arte como missão”. Ele mesmo dizia que fazia isso por uma necessidade de retribuição pelo que tinha recebido do povo brasileiro.

Em 2011 foi convidado pelo governador Eduardo Campos para ingressar no PSB-Partido Socialista Brasileiro, na condição de Presidente de Honra, e declarou que encerraria sua vida política neste cargo. Juntamente com o cargo, que não lhe exigia atividade alguma, aceitou também ser assessor especial para assuntos culturais, do Governador até abril de 2014.

Durante sua vida, recebeu diversas homenagens e condecorações: título de Doutor Honoris Causa pelas universidades: UFRN-Universidade Federal do Rio Grande do Norte, UFPB-Universidade Federal da Paraíba, UFRP-Universidade Federal Rural de Pernambuco, UFPF-Universidade de Passo Fundo e UFCE-Universidade Federal do Ceará. Foi também integrante de três academias de letras: Academia Brasileira de Letras (1989), Academia Pernambucana de Letras (1993) e Academia Paraibana de Letras (2000). Em 2002, foi tema de enredo no carnaval carioca na escola de samba “Império Serrano”, intulado: “Aclamação e Coroação do Imperador da Pedra do Reino’. Em 2008 foi novamente tema de enredo da escola de samba “Mancha Verde” no carnaval paulista. Em 2013 sua mais famosa obra, o Auto da Compadecida foi o tema da escola de samba “Pérola Negra”, em São Paulo.

Em 2013 Ariano foi internado duas vezes devida a um infarto de pequenas proporções e um aneurisma cerebral. A recomendação médica era de repouso e pouco esforço. Mas ele continuou com suas “aulas-espetáculo” por todo o País. Em 16 de julho fez uma apresentação para 1600 pessoas no Teatro Castro Alves, em Salvador. Dois dias após se apresentou no 24º FIG-Festival de Inverno de Garanhuns. Começou falando da morte com bom humor: “Eu até pedi para Caetana (expressão que representa a morte) que ela não viesse em 2014, só para ver essas homenagens todas que fazem. Estou tentando não ficar vaidoso”. Voltou ao Recife e em seguida sofreu um acidente vascular cerebral. Não resistiu e faleceu em 23/07/2014. Por pouco não morreu no palco, como gostaria.

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6 Comentários

  1. Carlos Eduardo Carvalho dos Santos disse:

    Excelente material de pesquisa, redação equilibrada, contribuição inestimável ao que se tem dito sobre esse homem tão importante para a nossa cultura.

    Feliz Páscoa.

  2. Quincas disse:

    É coisa de documentário. Para ter em casa!

    • jose Domingos de Brito disse:

      Legal, Quincas
      Ao final,que não sei quando será, teremos um pequeno dicionário de Pernambucanos ilustres e honorários.

  3. José Julio Azevedo disse:

    Uma agradável supresa ver parte da produção do editor do genial “Tirodeletra” neste site – que acabo de conhecer. Excelente biografia de ARIANO SUASSUNA, um nordestino universal. Esse grande catalizador da cultura popular do Nordeste, diga-se de passagem, era um cristão declarado, em prosa e verso, fato que possivelmente incomodava as patrulhas ideológicas.

  4. jose Domingos de Brito disse:

    É isso aí, Julio. O tiro de letra acertou na Gazeta da Besta Fubana. Continue com a gente
    Abraços

  5. Gabriel Kwak disse:

    Suassuna é o nosso D. Quixote. Foi um gladiador pela cultura popular, pelo armorial. Suas aulas-espetáculo marcaram época, até suas anedotas. O pai de Suassuna foi assassinado no contexto de um caldo de cultura relativos às rixas que redundaram na “República de Princesa”, episódio que você deveria evocar nesta sua coluna.

    Aguardamos ansiosamente a publicação de seu livro póstumo cujo teor Raimundo Carrero já conhece.

    Brito, cabra da peste, o primor da suas pensatas e registros da sua coluna refletem a grandeza do autor, no caso, vossa mercê.

    Meus cumprimentos e respeitos ao trabalho do Luiz Berto.

    Gabriel Kwak
    Jornalista
    Revisor
    Escritor
    Diretor da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA)
    Ex-diretor da União Brasileira de Escritores (SP)
    Membro da Academia Paulista de Jornalismo
    Membro da Academia de Letras de Campos do Jordão (SP)

    P.S.: como eu lhe disse eu conhecia a “molesta dos cachorros”, mas desconhecia a “cachorra da molesta

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