Burle Marx (1909-1994)

Roberto Burle Marx nasceu em São Paulo, em 4/8/1909. Artista plástico, pintor, designer, arquiteto, tapeceiro, cantor lírico para os amigos e um dos paisagistas mais renomados do mundo. Filho da recifense Cecília Burle e de Wilhelm Marx, judeu alemão, parente de Karl Marx. Aos 4 anos, a família se mudou para o Rio de Janeiro. Logo que os negócios (exportação e importação de couros) do pai prosperaram, foram morar num casarão do Leme, onde ele, aos 8 anos, começou a cultivar mudas de plantas e iniciar sua própria coleção.

Em 1928, teve um problema nos olhos e a família foi procurar tratamento na Alemanha, onde permaneceram até 1929. Lá entrou em contato com as vanguardas artísticas e conheceu o Jardim Botânico de Dahlen, onde encontrou a vegetação brasileira numa estufa. Ficou fascinado com a beleza das plantas tropicais. Mas o fascínio mesmo, neste momento, se deu com a pintura, a partir das visitas que fez às exposições de Pablo Picasso, Henri Matisse, Paul Klee e Van Gogh. Entusiasmado, passou a estudar pintura no ateliê de Degner Klem. De volta ao Brasil, em 1930, Seu amigo e vizinho Lucio Costa o incentivou a entrar na Escola Nacional de Belas Artes. Aí conheceu e fez amizade com alguns nomes que se destacariam na moderna arquitetura brasileira: Oscar Niemayer, Hélio Uchoa, Milton Ribeiro etc.

Seu primeiro projeto paisagístico se deu em 1932, a pedido do amigo Lúcio Costa, para o jardim da residência da família Schwartz. Mas o primeiro projeto público se deu em 1934, na Praça de Casa Forte, no Recife, onde projetou mais 5 praças mais tarde, todas tombadas pelo IPHAN-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. No mesmo ano foi designado Diretor de Parques e Jardins do famoso DAU-Departamento de Arquitetura e Urbanismo, onde trabalhava Joaquim Cardoso, que viria a ser o calculista das obras de Niemayer. Neste cargo projetou diversos logradouros, fazendo uso intensivo da vegetação nativa e a se destacar na área. Em 1935, projetou a Praça Euclides da Cunha (Recife), que ficou conhecida como “Cactário Madalena”, devido a sua ornamentação com plantas da caatinga e do sertão nordestino. A partir daí passou a imprimir um caráter de brasilidade ao seu trabalho, livrando-se da influência europeia, onde predominam as azaleias, camélias, magnólias e nogueiras.

Para isso contava com o apoio de Luiz Nunes, Diretor do DAU e Atilio Correa Lima, gestor do Plano Urbanístico da cidade, e de simpatizantes como Gilberto Freyre, Cícero Dias e Joaquim Cardoso. Dois anos depois, o DAU partiu para um projeto mais ambicioso e deixou ao seu cargo o projeto do primeiro Parque Ecológico do Recife. Devido a sua atuação nesta cidade, é celebrada no Recife a “Semana Burle Marx”, no inicio do mês de agosto, conforme a Lei Municipal nº 17.571, de 2009. Passou 3 anos residindo no Recife e retorna ao Rio de Janeiro, em 1937.

Em seguida foi convidado para projetar os jardins do Edifício Gustavo Capanema (na época Ministério da Educação e da Saúde), no Rio de Janeiro. Idealizou um terraço-jardim que é considerado um marco de ruptura no paisagismo brasileiro. Com vegetação nativa e formas sinuosas, o jardim apresentava uma configuração inédita no país e no mundo. Por essa época toma aulas de pintura com Cândido Portinari, de quem se tornaria assistente, e Mario de Andrade, no Instituo de Arte da Universidade do Distrito Federal.

No final da década de 1930 sua obra paisagística já está perfeitamente integrada à arquitetura moderna, uma tendência mundial que abrange as artes de um modo geral. Ele passa a integrar o grupo de arquitetos adeptos da escola alemã Bauhaus, influenciados pela corrente francesa liderada por Le Corbusier. Trata-se de um estilo humanista integrador de todas as artes. Em 1949 adquiriu o Sitio Santo Antônio da Bica, em Campo Grande (RJ), com 365.000 m², e passa a viajar pelo Brasil, junto com botânicos, em busca de plantas tropicais. O objetivo foi coletar e catalogar exemplares para reproduzir, no sitio, a diversidade fitogeográfica brasileira.

Sua participação na definição da Arquitetura Moderna Brasileira foi fundamental, tendo atuado nas equipes responsáveis por diversos projetos célebres. A partir daí, passou a trabalhar com uma linguagem bastante orgânica e evolutiva, identificando-a muito com vanguardas artísticas como a arte abstrata, o concretismo, o construtivismo. Como é, também, pintor, as plantas baixas de seus projetos lembram em muitas vezes telas abstratas, nas quais os espaços criados privilegiam a formação de recantos e caminhos através dos elementos de vegetação nativa. Daí em diante sua parceria em trabalhos com Oscar Niemayer e Lúcio Costa toma impulso. Como arquiteto, inclui em seus parques e jardins elementos arquitetônicos como colunas e arcadas, encontrados em demolições; utiliza ainda mosaicos e painéis de azulejos, recuperando a tradição portuguesa.

A partir da década de 1950, passou a utilizar em seus trabalhos uma ordenação mais geometrizante, como ocorreu na Praça da Independência (João Pessoa), no Parque do Flamengo (RJ) ou Parque Ibirapuera (SP). Em 61 anos de carreira, assinou mais de dois mil projetos em todo o mundo e recebeu inúmeras honrarias. Mas a homenagem que mais o sensibilizou foi ver seu nome designando uma espécie de plantas tropicais: a Calathea Burle Marxii”, conhecida popularmente como “Calatea Burle Marx” ou “Maranta de Burle Marx”. Por essa época é contratado para projetar parques públicos em diversas cidades: 1950 – Parque Generalissimo Francisco de Miranda (Caracas, 1950), Jardins da Cidade Universitária da Universidade do Brasil (Rio de Janeiro, 1953), Jardim do Aeroporto da Pampulha (Belo Horizonte, 1953), Balneário Municipal de Águas de Lindóia (SP, 1954), Paisagismo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (1955), Paisagismo da Praça da Cidadania da Universidade Federal de Santa Catarina (1960), Paisagismo para o Eixo Monumental de Brasília (1961), Paisagismo do Aterro do Flamengo (1968), 1968 – Projeta o paisagismo da Embaixada do Brasil em Washington, USA, 1970), Paisagismo do Palácio Karnak (Teresina, 1970), Paisagismo do aterro da Bahia Sul em Florianópolis (1971) .

Tais atividades não o afastaram da pintura, e desde a década de 1930 participou de 74 exposições individuais, 71 coletivas e 22 póstumas. Seu traço revela influências de Pablo Picasso e dos muralistas mexicanos. Nos retratos, aproxima-se de Candido Portinari e Di Cavalcanti. Segundo os críticos de arte, a partir de década de 1950 “a tendência para a abstração consolida-se e a paleta muda, passando a incluir muitas nuances de azul, verde e amarelo mais vivos. Em suas telas o trabalho com a cor está associado ao desenho, que se sobrepõe e estrutura a composição. Nos anos 1980, passa a realizar composições geométricas em acrílico, os contornos são desenhados com a cor, as telas adquirem um aspecto fluído, flexível e ganham leveza.

A dedicação à pintura é intensificada com sua mudança para o sítio Santo Antônio da Bica (RJ), em 1972, onde passou a cultivar 3.500 espécies de plantas do mundo inteito, criando um verdadeiro “Éden Tropical”. Em 1985, o sítio é doado ao governo federal, passando a chamar-se Sitio Burle Marx, mantido pelo IPAH e aberto a visitação pública. Constitui-se num valioso patrimônio paisagístico, arquitetônico e botânico, além de uma escola para jardineiros e botânico. Em São Paulo, é mantido desde 1994, o Parque Burle Marx, no bairro do Morumbi, com 168.000 m2 e mantido pela Fundação Aron Birmann em parceria com a Prefeitura da cidade.

Em 1982, recebeu o título Doutor honoris causa da Academia Real de Belas Artes de Haia, e do Royal College of Art, em Londres, dentre as tantas homenagens recebidas com nomes de diversos logradouros, escolas e instituições. Sua obra pode ser melhor consultada nos diversos livros publicados sobre suas contribuições ao paisagismo e nos livros de sua autoria: Arte e paisagem: conferências escolhidas. São Paulo: Nobel, 1987 e Arte e paisagem: a estética de Burle Marx. São Paulo: MAC/USP, 1997. Faleceu em 4/6/1994, no Rio de Janeiro.

0 Comentários

Deixe o seu comentário!


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa