Miguel Arraes, junto com Dom Hélder Câmara e Ariano Suassuna, talvez seja o mais conhecido “pernambucano honorável” até agora destacado nesta coluna. Demos este título aos nomes que muitas pessoas acham que é pernambucano para não faltar com a verdade e ao mesmo tempo dar uma satisfação aos nossos vizinhos paraibanos e cearenses que alegam o fato de os pernambucanos “gostarem de gozar com a pica dos outros”. Nas próximas semanas vamos alargar o leque de personalidades, incluindo outros nomes ilustres que, não sendo nativos, viveram parte de suas vidas e tiveram atuação relevante no estado de Pernambuco. Estamos abertos às sugestões dos leitores fubânicos para ampliar a galeria.

Miguel Arraes (1916-2005)

Miguel Arraes de Alencar nasceu em 15/12/1916, em Araripe, CE. Advogado, economista, politico e governador de Pernambuco por três vezes, além de deputado federal, estadual e prefeito do Recife. Ainda hoje é homenageado como um mito na política pernambucana. Filho de agricultores, seu pai foi um empreendedor que montou um matadouro e uma indústria de beneficiamento de algodão. Ainda jovem mudou-se para a cidade do Crato, a fim de concluir o ginásio. Por essa época, um fato viria marcar sua personalidade e selou seu destino político: testemunhou a prisão de três flagelados presos por tentarem fugir da seca para Fortaleza. Mais tarde afirmou: “É uma lembrança que guardo para sempre. Era um horror difícil de compreender e marcou meu jeito de ver as coisas”.

Ao concluir o curso secundário no Colégio Diocesano, em 1932, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde entrou na Faculdade de Direito da Universidade do Brasil (atual UFRJ). No mesmo ano foi aprovado num concurso para trabalhar como escriturário no IAA-Instituto do Açúcar e do Álcool, no Recife. Com isso conseguiu se transferir para a Faculdade de Direito do Recife, e concluiu o curso em 1937. No IAA fez carreira por algum tempo e conheceu Barbosa Lima Sobrinho, com quem travou um longo relacionamento e que o levou definitivamente para a Política. Em 1943, aos 27 anos, já era Delegado Regional do IAA. Foi aí que conheceu o poder de influência da aristocracia canavieira contrapondo com a vida miserável no campo.

Em 1948, o amigo Barbosa Lima Sobrinho, agora Governador do Estado, convidou-o para comandar a Secretaria da Fazenda. Em seguida disputou a sua primeira eleição para deputado estadual pelo PSD-Partido Social Democrático, mas ficou na suplência, vindo ocupar o cargo posteriormente. No ano seguinte casou com Célia de Souza Leão, irmã do usineiro Cid Sampaio, com quem manteve uma relação de parceria e concorrência. Em 1958 foi eleito deputado estadual. No ano seguinte, sob o governo de Cid Sampaio foi novamente Secretário da Fazenda e no mesmo ano aceitou – a pedido das forças progressistas – ser candidato a prefeito do Recife. Foi seu primeiro mandato executivo. Em 1961, faleceu sua esposa com quem teve oito filhos. No ano seguinte foi eleito governador de Pernambuco pelo PST-Partido Social Trabalhista, apoiado pelo PCB-Partido Comunista Brasileiro. No mesmo ano, casou-se com Maria Madalena Fiúza, com quem teve mais dois filhos.

Sua atuação ficou marcada com programas destacados na área da educação e no setor rural. O “Acordo do Campo” feito com os usineiros compreendia o pagamento do salário mínimo aos trabalhadores rurais. Apoiou a criação de sindicatos, associações comunitárias e as ligas camponesas, liderada pelo deputado Francisco Julião. Nessa época o as relações de trabalho dos canavieiros com os senhores de engenho eram consideradas como semiescravidão. Tais atividades fizeram com que, em abril de 1964, o Palácio das Princesas fosse cercado pelo militares, que lhe propuseram a renúncia ao cargo para evitar a prisão. Não só recusou a proposta como fez uma corajosa declaração pública, num ato de bravura, que não foi veiculada pelo Radio, pois as emissoras já estavam ocupadas pelos militares.

Foi deposto e preso na Ilha de Fernando de Noronha por 11 meses. Libertado em 1965 seguiu para o Rio de Janeiro, onde orientado pelo seu advogado Sobral Pinto, procurou o exílio para evitar uma nova prisão. Pediu asilo na Embaixada da Argélia, um país com problemas sociais semelhantes aos do Brasil. Passou 14 anos, junto com a família, em Argel colaborando com o governo argelino e sobrevivendo com tradutor. Nesta função traduziu um importante livro politico do russo Serge Tchakhotine, A mistificação das massas pela propaganda política, publicado pela editora Civilização Brasileira, em 1967. Neste mesmo ano foi condenado à revelia com a pena de 23 anos de prisão, pelo crime de subversão.

Retornou ao Brasil em 1979, com a Anistia. Com todo esse tempo fora do país, o povo pernambucano não esqueceu do político. Uma multidão foi recebê-lo no aeroporto com faixas: “ARRAESTAÍ”. 50 mil pessoas estiveram presentes no comício de boas-vindas. Retomou a trajetória política filiando-se ao PMDB e foi eleito Deputado Federal em 1982. Na eleição seguinte (1986) foi eleito governador pela segunda vez. Nesta gestão implementou programas voltados ao pequeno agricultor, tais como o “Vaca na corda” (financiando a compra de uma vaca), “Chapéu de palha” (empregando canavieiros na época de entressafra) No final da década, desencantado com a linha politica do PMDB, ajudou a criar o PSB-Partido Socialista Brasileiro, foi seu presidente nacional e elegeu-se Deputado Federal (1991-1993) com a maior votação proporcional do país.

Em 1994 foi eleito governador pela terceira vez, aos 78 anos. Contam uma história que não se sabe se é piada ou não: seus assessores ficaram preocupados com a idade avançada do candidato e foram lhe perguntar como estava a saúde; se era o caso de enfrentar mais um mandato; se estava realmente disposto etc. Sua resposta foi hilariante:

– Eu vou consultar minha mãe.

Nesta gestão realizou o maior programa de eletrificação rural do estado, o “Luz que produz”, que mais tarde influenciou o programa “Luz para todos”, no Governo Lula. Por outro lado, foi um período marcado por uma grave crise financeira e pela greve das policias civil e militar. Para piorar o quadro, foi um dos principais opositores do presidente Fernando Henrique Cardoso, o que lhe causou grande prejuízo político. Isto faz com que não se reeleja governador em 1998. Perdeu a eleição para seu ex-aliado Jarbas Vasconcelos.

Não abandona a política e continua suas articulações com políticos em todo o país na presidência do PDB-Partido Socialista Brasileiro. A esta altura, passa a ser chamado de “Oráculo do Nordeste”, devido a fama e a idade avançada. Em 2003, aos 86 anos é eleito deputado federal pelo PSB, integra a base aliada do Governo Lula e indica seu neto e herdeiro político Eduardo Campos para o Ministério da Ciência e Tecnologia. Fumante contumaz, começa a ter a saúde comprometida. Em 16/06/2005 foi internado com uma suspeita de dengue. Pouco depois foi detectada uma infecção pulmonar. Em seguida uma artéria do pulmão se rompeu; é submetido a uma cirurgia de emergência; tem uma breve melhora e esteve para deixar a UTI em 12 de agosto. Mas no dia seguinte o quadro volta a piorar e se dá o falecimento, aos 88 anos.

Logo após o falecimento, o nome de Miguel Arraes passa a denominar diversos logradouros, escolas e instituições. No ano seguinte, a jornalista Teresa Rozowykwiat lançou o livro Arraes, a primeira biografia autorizada sobre a vida do ex-governador. Trata-se de um relato com informações exclusivas repassadas pela viúva Magdalena Arraes, com detalhes de sua personalidade que só os mais íntimos conheciam. Isto animou seus amigos a criar, em 2008, o Instituto Miguel Arraes, com o objetivo de preservar e divulgar seu legado e memória. Na ocasião o jornalista Lailson de Holanda realizou uma exposição com mais de 500 charges desde sua chegada do exílio. Posteriormente lançou um livro com a coleção das melhores charges, intitulado Arraestaqui. Para concluir e demostrar a importância e abrangência nacional de seu nome, Miguel Arraes foi homenageado, no Carnaval de 2016 no Rio de Janeiro, pela Escola de Samba Unidos de Vila Isabel.

* * *

3 Comentários

  1. Adônis Oliveira disse:

    Arraes foi o melhor governador que o Ceará já teve.
    Isso porque conseguiu fuder Pernambuco por três vezes, abrindo brecha para o Ceará se destacar no Nordeste.
    Desconfio que tenha sido um quinta coluna enviados pelos cearenses insidiosos.

    • jose Domingos de Brito disse:

      CAro Adônis

      Não seja injusto com o Miguel Arrases, nem culpe os cearenses por algum fracasso dos pernambucanos.

  2. Alvaro disse:

    Durante 60 anos de vida pública teve admiradores e críticos, seguidores e perseguidores. Foi chamado de esquerdista, comunista e subversivo. Mas nunca ninguém teve motivo e menos ainda, coragem, para chamá-lo de ladrão. Bem diferente da escória política surgida de 15 ou 20 anos para cá, cuja maioria de quase 90% merece o título.

Deixe o seu comentário!


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa