Cícero Dias (1907-2003)

Cícero dos Santos Dias nasceu em 05/03/1907, em Escada. Pintor, gravador, desenhista, ilustrador, cenógrafo e professor, foi um dos primeiros pintores modernista do Brasil. Passou toda a infância no Engenho Jundiá, estudando e aprendendo a desenhar em Escada até os 13 anos, quando mudou-se para o Rio de Janeiro, com a finalidade de se tornar pintor. O interesse pelo desenho e pintura surgiu logo cedo e sua obstinação em se aperfeiçoar nesta arte surpreendeu seus pais. No período 1925-1927 estudou arquitetura e pintura na Escola Nacional de Belas Artes (Enba), mas não concluiu o curso, pois discordava da orientação. Decidiu se juntar ao grupo modernista de São Paulo, colaborando com a Revista de Antropofagia.

Sua primeira exposição se deu em 1929, com o mural Eu vi o mundo… ele começava no Recife. Um enorme mural de 15 metros expondo mulheres nuas, sonhos, crianças brincando etc. Uma obra ousada para aqueles tempos, que não encontrou lugar para ser exposto. Em contato com o Dr. Juliano Moreira, que gostou muito do mural, foi-lhe oferecido um saguão de um hospício, onde se realizava um congresso internacional. Assim, foi ali mesmo que o mural foi apresentado ao público, num hospício. Foi uma “coisa de louco”, pode-se dizer. Este mural é considerado sua obra prima e é considerado uma das mais importantes da história da arte no país. Em 1930 ganhou uma bolsa de estudos e passa uma breve temporada em Paris em contato com os modernistas. No ano seguinte dá-se uma exposição na Enba, e Di Cavalcanti convida-o a expor seu mural. Tal como na exposição do hospício, o mural causou escândalo e debates no métier refratário à arte moderna.

A partir de 1932, passa a lecionar desenho no seu ateliê no Recife; a ilustrar livros, como Casa grande & senzala, de seu amigo Gilberto Freyre (1933); e a pintar e agitar o incipiente meio cultural. Com a instauração do Estado Novo, teve seu ateliê invadido várias vezes por tropas policiais, até que foi preso, em 1937, acusado de ser simpatizante do Partido Comunista, o que de fato era verdade. Desgostoso com a realidade e incentivado por Di Cavalcanti, decidiu se mudar definitivamente para Paris, em 1937. Começa, então, uma longa amizade com os artistas surrealistas, como André Breton, Paul Éluard, Fernand Léger, Henri Matisse e Pablo Picasso, que lá se encontrava asilado. Em 1943 casou-se com a francesa Raymonde e teve a filha Sylvia, da qual Picasso foi o padrinho. Com esse pedigree, não poderia deixar de ser também pintora. Sobre esta amizade, vale dizer que os dois dividiam o mesmo telefone e que ele acompanhou a elaboração do famoso quadro Guernica. Acredita-se que Picasso exerceu uma influência marcante em seus trabalhos posteriores.

Na II Guerra Mundial, durante a ocupação da França pelos nazistas, foi preso na cidade de Baden-Baden junto com um grupo de estrangeiros. Mas logo foi trocado por espiões nazistas que estavam presos no Brasil. A partir de 1943 passa a viver em Lisboa como Adido Cultural da Embaixada do Brasil até 1945, e participa do Salão de Arte Moderna, onde foi premiado. Ao final da guerra, retorna à Paris a pedido de Picasso, que lhe envia um exemplar de sua peça de teatro O prazer agarrado pela cauda, com a dedicatória: “Para Dias, cuja presença em Paris é obrigatória”. Nesse instante dá-se uma transição fundamental em sua obra, conhecida como fase vegetal, na qual ele sai da figuração, vai para a abstração e integra-se ao grupo abstrato Espace. No mesmo ano de 1945 expõe em Londres, Paris e Amsterdam. Em 1948 decide visitar a terra natal e, envolvido mais intensamente com murais, inaugura o primeiro mural abstrato da América Latina, no prédio da Secretaria da Fazenda, em Recife. No ano seguinte participa da Exposição de Arte Mural de Avignon (1949); na XXVI Bienal de Veneza (1952); exposição do grupo “Klar Form”, na Dinamarca, Suécia e Finlândia (1952); II Bienal de São Paulo (1953). Exposição Universal de Bruxelas (1958) Assim vai construindo sua carreira de renomado pintor em nível internacional.

A partir de 1960 voltou com mais firmeza à arte figurativa, e as exposições e as exposições continuam nos museus de Paris, Nova Iorque, San Francisco. Em 1965, a VIII Bienal de São Paulo dedicou-lhe uma sala especial. No mesmo ano, a Bienal de Veneza realizou uma exposição retrospectiva de 40 anos de pintura. Suas viagens ao Recife eram frequentes, e os amigos diziam que ele vivia em Paris, mas a cabeça estava em Pernambuco. Em 1970 realizou diversas exposições individuais no Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Em 1980 instalou dois painéis no hall central da Casa de Cultura, no Recife, representando as revoluções pernambucanas de 1817 e 1824. Em 1981, o Museu da Arte Moderna-MAM realizou uma retrospectiva de sua obra. Sete anos depois, O MAM realizou outra retrospectiva intitulada Cícero Dias: síntese da obra, que percorreu diversas capitais brasileiras.

Noutra viagem ao Brasil, inaugura, em 1991, um painel de 20 metros na Estação Brigadeiro do Metrô de São Paulo, e no mesmo ano é inaugurada a Sala Cícero Dias no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Em 1998 foi reconhecido tardiamente não como pintor e sim como herói nacional: recebeu a medalha da Ordem Nacional do Mérito da França, uma insígnia só conferida a heróis nacionais franceses, por ter conseguido furar o cerco dos alemães, durante a Segunda Guerra Mundial, e ter chegado a Londres com um exemplar do poema Libertè, de Paul Èluard. O poema, na forma de panfleto, foi despejado por toda a Europa pelos aviões aliados.

Eu vi o mundo… ele começava no Recife

Em 1999, o Marco Zero do Recife passou por uma grande reforma e o governo de Pernambuco convidou-o para participar da construção da “nova” praça Rio Branco. No ano seguinte voltou ao Recife para inaugurar uma rosa-dos-ventos, estilizada, no chão da praça, cartão postal da cidade. Nesta ocasião a Prefeitura do Recife presta-lhe uma justa homenagem: a inauguração de uma praça com o seu nome. Dois anos depois, esteve novamente no Recife para o lançamento do livro Cícero Dias: uma vida pela pintura, do jornalista Mário Hélio. Aproveitou a viagem para fazer mais uma exposição individual em São Paulo, na Galeria Portal. Ao longo de sua vida, realizou mais de 50 exposições individuais, 240 exposições coletivas e mais de 10 exposições póstumas em todo o mundo.

Neste exato momento, o Centro Cultural do Banco do Brasil, em Brasília, está apresentando a exposição Cicero Dias: um percurso poético, com 120 obras do artista, além de textos, fotos e documentos apresentando sua trajetória. Integra a exposição um grande número de trabalhos vindos de coleções particulares da França, possibilitando a apreciação de boa parte de sua obra. A exposição, com curadoria honorária de sua filha Sylvia Dias, encontra-se dividida em três grandes núcleos que delineiam seu percurso artístico: 1- Brasil, 2- Europa, 3- Monsieur Dias: uma vida em Paris. Cada um deles, por sua vez, é dividido em novos segmentos. A ideia é que a visitação seja feita de forma linear. A exposição ficará no CCBB de Brasília até o dia 3 de abril e depois seguirá para as filiais do CCBB de São Paulo (21/04 a 10/07) e Rio de Janeiro (01/08 a 25/09). Cícero Dias faleceu em 28/01/2003, e seu corpo foi sepultado no cemitério de Montparnasse, em Paris.

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Entrevista concedida a Napoleão Sabóia, publicada n’O Estado de São Paulo, de 24/09/1999, sob o título “Pintura da Cícero Dias alimenta-se de música e poesia.”

Estado – Desde quando estreou com a exposição de 1928, os críticos sugerem comparações suas com o russo Chagall, por exemplo, e o situam em diferentes escolas – figurativa, abstracionista, surrealista. Poderia identificar-se de uma vez por todas?

Cícero Dias – Não gosto das etiquetas. O que me identifica com Chagall são as origens comuns de nossa arte na pintura popular, nas manifestações folclóricas, culturais de nossas terras respectivas. É por isso que falam que meus quadros lembram os de Chagall e vice-versa. Acontece, porém, que, quando comecei a pintar de verdade, a partir dos anos 20, não havia no Brasil reproduções de Chagall e de outros pintores de vanguarda. O que houve, pois, foi uma coincidência entre mim e Chagall.

Estado – Para a sua estética, a Escola de Belas Artes foi importante?

Dias – A Escola valeu do ponto de vista da técnica, se bem que os professores fossem muito conservadores. Nunca liguei para as discussões deles sobre o tema da ruptura entre arte moderna e arte antiga. Não creio em ruptura e sim em continuidade. Agora, em matéria de pesquisas de tintas e de cores, eu estava mais avançado do que a Escola, já as estudava e as misturava desde o engenho.

Estado – Sua criatividade em pintura se nutriu de quê?

Dias – No início, na escola do engenho com minha tia, eu desenhava e pintava motivos inocentes – árvores, bichos, casas, não penetrava na essência da coisa. Mas, um dia, da porta da escola, percebi a força do canavial, a riqueza e a variedade de seu verde. Depois, descobri as outras cores do velho bangüê, alcancei a musicalidade contida no balanço da rede e na madeira andante do carro de boi.
(…)

Estado – O que o levou, em Paris, a mudar de estilo?

Dias – Ao chegar em Paris nos anos 30, o surrealismo dominava na poesia, influenciava as demais expressões artísticas. Tomei um choque com aquilo. Depois, na evolução das “escolas”, a arte abstrata despontou, cresceu no pós-guerra e eu acompanhei o fenômeno de perto. Por várias vezes, vi Picasso e Fernand Léger falando da arte abstrata. Ora, vendo a empolgação de tantos artistas com uma bagagem de pintura acumulada desde o início do século, entrei na coisa quando o instinto me fez o convite.
(…)

Estado – Em Lisboa, você começou, de fato, a pintar os abstratos, casou-se com Raymonde e voltou para Paris em 1945 quando a França reencontrou a liberdade…

Dias – Foi “a passagem da linha”, segundo a expressão do crítico Pierre Descargues em todos os sentidos… Fiquei, na verdade, tocado com o apelo para a volta que Picasso me fez na dedicatória do exemplar que me enviou de sua peça de teatro O Prazer Agarrado pela Cauda. Foi nesses termos: “Para Dias, cuja presença em Paris é necessária. “

Estado – Não se arrepende da “passagem da linha” na pintura?

Dias – Não há arrependimento e, por isso, não sinto o menor desejo da repetição figurativa. A abstração geométrica atende a meu lado espiritual, é preciso lembrar a relação que Santo Agostinho já fazia entre a arte e o número. Tenho orgulho de dizer que meus primeiros murais abstratos, eu os realizei em Recife em 1948, sentindo-me perfeitamente sintonizado com as origens de minha pintura. É um mistério essa coisa da criação.

Estado – O que gostaria que a memória coletiva guardasse de sua obra?

Dias – O aroma do melaço de cana do engenho foi a recordação de criança que Joaquim Nabuco deixou gravada na sua portentosa literatura. Eu ficaria feliz se as pessoas, diante de meus quadros com cenas ou fragmentos de pomares, tivessem a memória do olfato ativada com a vista, para sentir o perfume das frutas que pintei”.

2 Comentários

  1. jose renato disse:

    Me esclareça esta dúvida: Este tal Picasso tinha pica grande mesmo ou é lenda???

  2. J.D. Brito disse:

    Caro Renato

    Não sei lhe responder, mas caso esteja muito interessado na jurupoca do cabra, posso lhe enviar uma mandioca

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