Luiz Gonzaga 1912-1989

Esclarecimento: Encerramos o “Painel dos Ilustres Pernambucanos”, iniciado em janeiro e apresentado semanalmente até agora. O Bicentenário da Revolução de 1817 mereceu uma comemoração à sua altura. Relacionamos, elegemos e relatamos os pernambucanos mais relevantes, os maiorais na História do Brasil e do Mundo, bem ao gosto da mania de grandeza de alguns nativos. Tal empreitada só foi possível graças a acolhida do Editor Luiz Berto neste Jornal da Besta Fubana, com quem dividimos os méritos deste trabalho.

O levantamento de 52 nomes, dividido em 3 quadrimestres, partiu dos nomes mais destacados em âmbito nacional, e pouco conhecidos como nativos. Em seguida parte para os nomes destacados, porém mais ou menos esquecidos e que precisavam ser convidados a participar dessa festa. Para concluir, passamos a apresentar os nomes “realmente”, como diria Chacrinha, relevantes e reconhecidos como pernambucanos e finalizamos com uma de suas maiores expressões: Luiz Gonzaga. Como estamos ainda em festas de ano novo, brindamos os leitores com um final apoteótico, onde Gonzaga canta seu maior sucesso junto com os melhores acordeonistas do Brasil: Sivuca, Dominguinhos e Osvaldinho.

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Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu em Exu, em 13/12/1912. Compositor e cantor, foi um dos mais importantes músicos do Brasil. Filho de Ana Batista de Jesus Gonzaga do Nascimento, conhecida na região por “Mãe Santana” e Januário José dos Santos do Nascimento, sanfoneiro amador. Não era adolescente ainda quando passou a se apresentar em bailes, forrós e feiras, de início acompanhando seu pai. Autêntico representante da cultura nordestina e manteve-se fiel às suas origens mesmo seguindo carreira musical no sudeste do Brasil. O gênero musical que o consagrou foi o baião. A canção emblemática de sua carreira foi Asa Branca, composta em 1947 em parceria com o advogado cearense Humberto Teixeira.

Antes dos 18 anos apaixonou-se por Nazarena, filha de um coronel que não consentia aquele namoro. Passaram a namorar escondidos e quando foram descobertos o casal levou uma surra de seus pais. Gonzaga porque desonrou a moça e a moça porque deixou-se ser desonrada. Arrumaram um outro noivo para ela e ele foi ameaçado de morte caso se aproximasse dela. Revoltado por não poder ficar com Nazarena, saiu de casa, ingressou no exército no Crato (CE) e passou nove anos viajando pelo Brasil, na condição de soldado. Conheceu Domingos Ambrósio, também soldado já conhecido como acordeonista, e passou a se interessar pela vida de sanfoneiro. Com a eclosão da Revolução de 30 viajou por todo o país com sua tropa. No Exército, ficou conhecido como o Corneteiro 122.

Em 1939, deu baixa do exército, foi para o Rio de Janeiro e começou a tocar na área do mangue. No início, apenas solava acordeão em choros, sambas, foxtrotes e outros gêneros da época. Seu repertório era composto basicamente de músicas estrangeiras que apresentava, sem sucesso, em programas de calouros. Trajava o típico figurino do músico profissional: paletó e gravata. Até que, em 1941, no programa de Ary Barroso, foi aplaudido executando Vira e Mexe, com sabor regional, de sua autoria. O sucesso lhe valeu um contrato com a gravadora RCA Victor, pela qual lançou mais de 50 músicas instrumentais. Vira e mexe foi a primeira música que gravou em disco. Em seguida, foi contratado pela Rádio Nacional. Lá conheceu o acordeonista gaúcho Pedro Raimundo, que se apresentava em trajes típicos da sua região. Daí surgiu a ideia de apresentar-se vestido de vaqueiro, figurino que o consagrou como artista.

Em 1944 conheceu a cantora de coro e samba Odaléia Guedes dos Santos, a Léia, e passaram a sair juntos. Começou a gostar da moça e quiz oficializar o namoro. Ela aceitou, mas antes tinha que lhe confessar uma coisa grave: estava grávida de poucos meses e o filho não era dele. Engravidou antes de conhecê-lo. Como já estava apaixonado, aceitou assim mesmo, tirou-a da pensão onde morava, alugou uma casa, assumiu a paternidade da crianca e deu-lhe seu nome: Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, que mais tarde viria a ser o “Gonzaguinha”. No entanto a união durou menos de dois anos. O ciúme dela desandou a relação, deu-se a separação, mas ele passou a ajudá-la financeiramente a manter o filho e de vez em quando visitava o garoto. A primeira gravação como cantor se deu em 1945, pela RCA Victor, com a mazurca Dança Mariquinha, em parceria com Saulo Augusto Silveira Oliveira.

Em 1946, já estabelecido como “artista”, decidiu visitar os pais em Exu, depois de alguns anos sem dar notícia. O reencontro foi uma festa e o mote para música Respeita Januário, um de seus sucessos composto em parceria com Humbeto Teixeira. Ficou em Exu alguns meses no convívio com a família e logo voltou ao Rio de Janeiro. Ao chegar, no mesmo ano, conheceu a professora Helena Cavalcanti em um show e passou a admirá-la. Era uma moça séria, professora, independente e que nunca teve namorado. Antes de pedi-la em namoro, armou uma estratégia: como estava precisando de uma pessoa para cuidar da agenda de shows, convidou-a para ser sua secretária. O namoro veio em seguida e o noivado se deu em 1947. O casamento civil e religioso se deu logo no ano seguinte. O casal permaneceu junto toda a vida, mas não tiveram filhos biológicos. Helena tentou engravidar de todas as formas e não conseguiu, devido a transtornos do aparelho reprodutivo. Ela achava que Gonzaga não merecia uma mulher infértil, e queria se separar para ele poder ter os filhos que quisesse com outra. Ele, por seu lado, estava triste por nunca ter tido filho biológico, mas não queria perder a esposa. Daí surgiu a ideia de adotar uma criança, e conseguiram uma menina recém nascida, a quem batizaram de Rosa Cavalcanti Gonzaga do Nascimento.

No entando, a mãe de Gonzaguinha faleceu em 1947 e Gonzaga ficou preocupado com a orfandade do filho adotivo aos dois anos e meio. Tentou convecer a mulher (Helena) a ficar com o filho (que ainda não tinha adotado a menina Rosa). Não houve acordo e ele teve que entregar o filho para seus compadres, os padrinhos de batismo da criança: Leopoldina e Henrique Xavier Pinheiro. Assim, Gonzaguinha foi criado no Morro do São Carlos com alguma dificuldade e o sustento financeiro proporcionado por Gonzaga. Foi tratado como filho natural pelo casal de compadres; chegou a aprender a tocar violão com o “pai”; e recebia visitas do outro “pai” Gonzaga. Mesmo assim, o menino ficou rebelde, não aceitava que Gonzaga tivesse ficado com a esposa e aberto mão de criá-lo, e as visitas foram ficando mais raras, devido as pressões da esposa, que não queria ver o menino. Gonzaga, por seu lado, temia que o rapaz caisse na malandragem do morro e não abria mão de sua criação, mesmo com as brigas que tinha com a esposa Helena por conta disso. Até aí Gonzaguinha não sabia que tinha um pai apenas no registro civil, e quando soube pelo próprio Gonzaga ficou mais revoltado ainda. Foi-lhe proposto que fosse morar com ele, mesmo que para isso Gonzaga tivesse que se separar da esposa, mas não houve jeito. Pouco depois Gonzaga levou-o a força para morar com ele e Helena na Ilha do Governador. O convivio não foi dos melhores e gerava muitas brigas no casal e Gonzaga mandou-o para um internato, do qual só saiu aos 18 anos. Ao crescer, a relação ficou mais tumultuada, pois o filho se tornou um malandro, viciado no alcóol. Por fim, resolveu se tratar e concluiu a universidade, tornando-se músico como o pai. A união entre pai e filho se estabeleceu e foi revigorada quando, em 1979, viajaram pelo Brasil e compondo juntos. Tornaram-se amigos, enfim.

Os parceiros compositores de Gonzaga foram fundamentais na sua carreira. Seu encontro com Humberto Teixeira em 1945 foi fundamental para alavancar a carreira. Numa conversa animada surgiu a intenção de valorizar o ritmo nordestino, que já vinha sendo introduzido no ambiente do Rio com o “balancê”. Assim, o xote e o baião ganharam popularidade com o primeiro sucesso da dupla: No Meu Pé de Serra. Em 1947, a dupla compôs Asa Branca, que foi um sucesso nacional e internacional, tornando-se a música símbolo do Nordeste. O sucesso foi tamanho que mais de 20 anos depois Carlos Imperial, produtor musical e marketeiro, plantou a notícia nos jornais que os Beatles adquiriram os direitos autorais para gravar Asa Branca e muita gente acreditou. A parceria com Humberto Teixeira foi até 1954, quando este se candidatou e foi eleito deputado federal.

Dois anos após encontrar-se com Humberto Teixeira, estava hospedado no Grande Hotel do Recife para uma temporada de apresentações, quando o médico José de Souza Dantas, o “Zé Dantas” procurou-o com algumas de suas composições: Acauã, Vem morena, A volta de Asa Branca, Forró de Mané Vito entre outras. Diz-se que ele pediu a Gonzaga que gravasse as músicas sem incluir seu nome, pois na condição de médico achou que sua família ficaria constrangida ao vê-lo envolvido com o meio artístico e boêmio da época. Gonzaga não atendeu o pedido e emplacou diversos sucessos da dupla. No inicio da década de 1950 chegou a apresentar um programa de na Radio Jornal do Recife e trabalhou durante algum tempo com Gonzaga. Mas logo depois mudou-se para o Rio, onde se especializou em obstetricia e chegou ao cargo de diretor do Hospital dos Servidores do Rio de Janeiro. Sem estes dois parceiros haveria Luiz Gonzaga? Sim, pois seu talento é único e independe do talento dos outros. Mas, com estes parceiros e suas composições alcançou um patamar inigualável na música brasileira. Quando se observa a simplicidade do repertório de Gonzaga, deve-se lembrar que na raiz desta “simplicidade” encontram-se dois poetas do mais alto calibre: um advogado e um médico.

Sobre este apecto, vale ressaltar que o próprio Gonzaga não era uma personalidade “simplória” como pode aparentar e é visto por muitos que conhecem apenas a fama do sanfoneiro. Em 1971 compôs musicas mais sofisticadas como Acácia amarela, em parceria com Orlando Silveira, quando entrou para a Maçonaria, iniciado na loja Paranapuan, na Ilha do Governador. Em 1997, o poeta Gerardo Melo Mourão dedicou-lhe seu poema épico Invenção do Mar: “À memória de Luiz Gonzaga Homero cantador dos mares do sertão e seus viventes”. Como o poeta anda um pouco esquecido atualmente, é bom lembrar de um comentário a seu respeito, feito por Ezra Pound: “Em toda minha obra, o que tentei fazer foi escrever a epopeia da América. Creio que não consegui. Quem conseguiu foi o poeta de O país dos Mourões.

No inicio de 1951, integrante do “cast” dos artistas que iniciavam a “Era do Rádio”, fez um contrato com o Colírio Moura Brasil, que durou até o ano seguinte. Com este patrocínio realizou excursões por todo o país cantando e divulgando o produto. Ana Krepp, da Revista da Cultura escreveu: “O rei do baião pode ser também considerado o primeiro rei do pop no Brasil. Pop, aqui, empregado em seu sentido original, de popular. Basta ver os números: de 1946 a 1955 foi o artista que mais vendeu discos no Brasil, somando quase 200 gravados e mais de 80 milhões de cópias vendidas. “Comparo Gonzagão a Michael Jackson. Ele desenhava as próprias roupas e inventava os passos que fazia no palco com os músicos”, ilustra o cineasta Breno Silveira, diretor do filme Gonzaga – De pai para filho (2012). Foi o cantor e músico e também o primeiro a fazer uma turnê pelo Brasil. Antes dele, os artistas não saíam do eixo Rio-SP. Gonzagão gostava mesmo era do showbiz: viajar, fazer shows e tocar para plateias do interior. Conta-se que em 1948, ele foi em Garanhuns para uma apresentação no palco da Rádio Difusora. O espaço, com capacidade para umas 500 pessoas, ficou lotado e deixou milhares de pessoas na rua querendo entrar. Ele, então, desceu do palco, foi até a rua, subiu num caminhão e o forró correu solto na multidão. Nesta ocasião ele ficou hospedado no Hotel Tavares Correia. Certa vez encontrou 3 garotos tocando sanfona, pandeiro e triangulo na porta do hotel para ganhar uns trocados. Ele botou o trio para dentro, viu a apresentação, deu um monte de dinheiro aos meninos e disse a um deles para procurá-lo quando crescesse e fosse ao Rio. O menino tinha 7 anos e chamava-se Dominguinhos.

Na década de 1970, decidiu voltar à sua terra natal e colocou Exu no mapa do Brasil. Lá iniciou a construção do Museu do Gonzagão, localizado no Parque Aza Branca (escrito assim mesmo, conforme sugerido por ele mesmo, devido a superstição), ás margens da BR-122, onde se encontra um grande acervo de seus pertences: sanfonas, discos de ouro, roupas fotografias etc. Em 1980, em Fortaleza, foi convidado a cantar para o Papa João Paulo II, quando da sua visita ao Brasil. Na ocasião, retirou da cabeça o seu chapéu de cangaceiro, pediu permissão e colocou-o na cabeça do Papa que o abençoou e disse “Obrigado, cantador”. Gonzaga sofreu durante anos de uma osteoporose, certamente devido ao peso da sanfona que carregou durante toda a vida. Em meados de junho de 1989, passou mal e foi internado no Hospital Santa Joana, no Recife, onde veio a falecer em 2 de agosto de 1989, vitimado por uma parada cardiorrespiratória. Foi velado na Assembleia Legislativa de Pernambuco e em Juazeiro do Norte, a revelia de Gonzaguinha, exigindo que seu corpo fosse levado o mais rápido possível para Exu, onde foi sepultado na capela do Parque Aza Branca.

As homenagens póstumas têm sido frequentes até hoje. Em 2012 foi tema do carnaval da Escola de Samba Unidos da Tijuca, com o enredo “O Dia em Que Toda a Realeza Desembarcou na Avenida para Coroar o Rei Luiz do Sertão”, fazendo com que a escola ganhasse o carnaval carioca daquele ano. Em 13/12/2012 o Correio Brasileiro, seguindo uma tradição filatélica, emitiu um selo postal em homenagem ao seu centenário de nascimento.

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